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Negra Li encontra Lauryn Hill em Florianópolis

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread no show de Floripa

Quem acompanha minimamente o rap no Brasil, já ouviu falar do grupo RZO. Formado pelos MC’s Helião e Sandrão mais o DJ Cia nas pick-ups, o grupo já contou com a cantora Liliane de Carvalho nos vocais e na rima. Para quem não sabe, Liliane é Negra Li, que viu sua carreira atingir novos patamares após deixar o grupo de rap de Pirituba (São Paulo).

Por sua qualidade vocal, Negra Li recebeu diversas comparações com Lauryn Hill – de quem é fã declarada -, que também possui notável capacidade de cantar e rimar. No entanto, as semelhanças não param por ai: ambas são mulheres lutadoras, que venceram o machismo do rap por seu talento e trabalho, possuem carreira no cinema, são mães e, querendo ou não, as duas se viram longe dos estúdios por um bom tempo.

Ms. Hill não grava nada novo desde seu acústico MTV (2002) e Negra Li teve seu último álbum de estúdio gravado em 2007, junto de Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Desde lá fez inúmeras participações com artistas como Caetano Veloso, Skank e Akon.

Nessa segunda passagem de Ms. Hill pelo país, Negra Li foi convidada para abrir os shows de Florianópolis e Brasília. Depois de abrir o show de sua grande inspiração em Florianópolis, Negra Li falou com o Per Raps por e-mail e contou como foi a experiência que deixará marcas por toda a sua vida.

Per Raps: Como surgiu o convite para você abrir um show da Lauryn Hill? E por quê apenas em Florianópolis e Brasília e não em SP?
Negra Li: Olha, em Florianópolis surgiu através do Leo Comin, do Oculto. O Leo é DJ e promoter em Floripa, me levou tantas vezes pra tocar lá, que acabamos nos tornando amigos. O show da Lauryn foi na Pacha, e o Leo tem uma parceria com a casa… E foi assim que tudo aconteceu. Através de uma sugestão dele, da aceitação do Anjinho e do pessoal da Pacha. E claro, da aceitação que eu tenho junto ao público de Floripa, que é muito forte … Adoro aquele lugar! E toda vez que me apresento lá, sou super bem recebida.

Também vou abrir em Brasília. Esse show foi através do escritório que também fecha show pra mim, a Agência Produtora. Não sei bem como se deu a negociação, mas estou amarradona de abrir e encerrar a tour da Lauryn no Brasil. Porém esse show de Brasília será no formato com DJ e o de Floripa foi com banda, show completo, só faltou minhas dançarinas – Luciana Bauer e Amanda Angel -, pra ser 100% perfeito! Mas, nossa, foi bom demais.

Per Raps: O que você sentiu na hora?
Negra Li: Quando o Leo ligou pra Paulinha (minha produtora), ela me ligou no mesmo minuto. Já sabíamos que estava tudo certo e que um sonho seria realizado! Da outra vez que ela veio, até chorei por não ter sido lembrada.

Per Raps: Você encontrou Ms. Hill pessoalmente? Qual foi a sensação?
Negra Li: Encontrei sim. Ficamos hospedadas no mesmo hotel, fizemos a passagem de som juntas e nos encontramos novamente depois do show dela. Virei tiete mesmo, quase não consegui falar (já quase não falo nada de inglês, nervosa então?! Travei). Meu marido desenrolou o diálogo, pude falar sobre nossa trajetória parecida… Foi intenso! Maravilhoso!

Per Raps: Qual a influência de Lauryn Hill no seu trabalho?
Negra Li: Total! Quando comecei no RZO, ela cantava no Fugees, uma banda de rap. Eu olhava pra ela e me inspirava demais, acabou que peguei muito do que ela fazia e ouvia pra mim. É isso que a gente faz com os ídolos, né… Absorve!

Per Raps: Como andam seus projetos para 2010/11?
Negra Li: Estou numa correira louca de trabalho, muitos shows pelo Brasil. Dia 13 de outubro vou abrir pro Timbaland, em São Paulo. Uma tour, no mês de novembro, pela Nova Zelândia se confirmando…

Estou mergulhada na pré-produção do meu próximo CD, escolhendo repertório, escrevendo letras. Estou podendo contar com a ajuda muito grande do Sérgio Brito, do Titãs, e de parceiros antigos como Nando Reis e Samuel Rosa. Nessa busca pelo repertório também estão minha gravadora Universal Music e os produtores Rick Bonadio e Paul Ralphs.

Vou começar a filmar um novo longa chamado Poderoso Arco-Iris, que vai contar a história de um serial killer homofóbico e eu farei uma jornalista que vai investigar os assassinatos e acabará na mira do serial. Um filme com muito suspense e ação.

Veja um trecho da apresentação que abriu a turnê brasileira de Ms. Hill, em Floripa.


Erykah Badu emociona público em SP


“Pornografia musical”por Carol Patrocinio

Erykah Badu é Jackie O. É Rainha de Copas. Badu é mulher. Sexo, graça, ironia. Erykah Badu sabe o que quer e não te deixa na mão. Ou deixa, só porque quer. Erykah Badu é aquela mulher que provoca, te deixa louco e vai embora, mas você não reclama – ela foi a melhor que você teve na vida, ainda assim.

Logo que a vi no palco meu coração parou. Era ela, estava ali, a pouquíssimos metros. Se eu desse alguns passos e esticasse a mão poderia tocá-la – deixa pra lá, emoção demais. E assim como meu coração, ela ficou ali, parada num canto do palco, esperando o momento certo para começar sua mágica.

E quando a mágica de Badu começa a ser feita não há como parar. Um clima intimista tomou conta do lugar. Éramos só eu e ela. Uma caixinha de música em que ela era a bailarina e eu dava corda. Toda a delicadeza de Badu anda de mãos dadas com sua força, suas certezas. O salto 15 está no pé, mas ela não precisa disso pra ser muito maior do que se poderia crer.

Quando a intimidade começou a aumentar, Erykah foi até o chão. Fez do pedestal do microfone um mastro, quase pole dance. Unhas, bocas, olhares. Aquela voz. A voz de Erykah Badu faz um registro na sua cabeça, não importa aonde vá, você sempre sabe que é ela.

O show que Erykah Badu fez em São Paulo foi sobre ela, para ela. Mas a maneira que cada um de nós nos identificamos com cada palavra, som gesto que ela faz, nos torna partes de uma gigante. Erykah Badu pode ser egocêntrica, mas ela está pensando em todos nós para fazer isso.

Ao chegar ao fim do espetáculo, Badu deixou lembranças físicas para seus fãs – um acessório, um lenço, um batom. Recebeu presentes. Voltou para o bis, deixou uma mensagem contra preconceito e ficou tão próxima aos fãs que era fácil notar a não aprovação de seu segurança, que andava o palco de lado a outro atrás dela. Erykah Badu deu tanto de si neste show que, por pouco, não saiu de cena como em Window Seat, nua por dentro e por fora.

Foi no show? Conte o que achou ou se está ainda sem palavras para isso!

Mais
Erykah Badu consegue sample via Twitter
Erykah Badu estreia polêmico clipe de “Window Seat”
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Fotos da golden era do rap por Janette Beckman

Janette Beckman

Sparky D / Slick Rick / Jam Master Jay e seu filho

“Uma insider da Golden Era” – por Carol Patrocinio

Você já ouviu falar de Janette Beckman? Ela é a fotógrafa que acompanhou os maiores nomes do hip hop entre 1982 e 1990, bem a era de ouro da cena. Pode começar a pagar um pau pra essa mulher, ela esteve em contato com todos os monstros que você chama de ídolos!

Nascida em Londres, Janette cresceu curtindo dos artistas da Tamla Motown aos Rolling Stones e mergulhou de cabeça nas cenas alternativas inglesa e americana quando passou a fotografar. Além dos mestres do rap, a fotógrafa esteve com as bandas The Clash, The Specials, Police e Paul Weller. Quando mudou para Nova York se tornou a pessoa responsável por registrar a cena hip hop – Afrika Bambaata, Run DMC, Salt’ n ‘Pepa e Grandmaster Flash foram alguns de seus personagens.

Daí pra frente, a carreira da fotógrafa só cresceu e ela passou a fotografar para as revistas Esquire, Rolling Stone, People, Interview, London Sunday, Times Magazine, Observer Magazine e para empresas como a lendária marca de botas Doc Marten, os tênis Converse, Warner Brothers, Universal

Para registrar todos esses momentos de sua vida, Janette lançou alguns livros, dois deles são dedicados ao rap. Em “The Breaks: Stylin’ and Profilin'”, ela retrata, em imagens, a cena hip hop de 82 a 90 e em “Rap! Portraits and Lyrics of a Generation of Black Rockers”, textos e imagens se complementam para contar a história de uma geração que revolucionou a música.

Janette Beckman

Eric B. e Rakim / Run DMC e sua banca

Janette Beckman

Um dos Jungle Brothers / Big Daddy Kane

Janette Beckman

Flava Flav / LL Cool J

Janette Beckman

EPMD Babylon Long Island / Stetsasonic

The Breaks Stylin' and Profilin' 1982-1990The Breaks: Stylin’ and Profilin’
Fotos de Janette Beckman e texto de Bill Adler & Tom Terrell
Editora: The Power House Arena
Capa dura | 24.13 x 25.40 cm | 144 páginas | 150 fotos
US$ 35

Rap! Portraits and Lyrics of a Generation of Black Rockers“Rap! Portraits and Lyrics of a Generation of Black Rockers”
Fotos de Janette Beckman e texto de Bill Adler
Editora: St. Martin’s Griffin
21.59 x 27.30 cm, 106 páginas
US$ 13,95


Mais?
Site de Janette Beckman


Segundo semestre recheado de shows internacionais

“Declarando falência por motivos culturais” – por E. Ribas

O segundo semestre de 2010 está repleto de apresentações internacionais no Brasil. Nomes como Erykah Badu, Lauryn Hill, Rage Against the Machine, Cypress Hill, Jamiroquai Anti-Pop Consortium estão entre aqueles que farão show por aqui. Variando do rap até o funk e o soul, esses nomes prometem causar boa impressão.

O grande problema dessa leva de shows é o valor, que na maioria dos casos é bem salgado. No entanto, vale a pena economizar um pouco na balada (ou seja no que for) para curtir ao menos um desses. O Per Raps aproveitou para destacar alguns desses shows e mostrar quais nós indicamos, mostrando o que de melhor você poderá encontrar em cada um deles.

Há boatos que Jay-Z também virá para o Festival SWU, mas ainda não houve confirmação oficial.

Anti-Pop Consortium

Anti-pop Consortium

Pela primeira vez no Brasil, o quarteto nova-iorquino Anti-Pop Consortium traz as novidades de seu último álbum, o elogiado “Fluorescent Black” (2009). Conhecidos por seu quê visionário, o grupo é considerado à frente de seu tempo e de tudo que o mundo conhece como hip hop. Formado em 1997 por Beans, High Priest, M. Sayyid e o produtor Earl Blaize, o Anti-Pop ficou parado por quase sete anos, mas mostra que ainda tem muito o que mostrar ao público.

Se sua ideia é fugir do convencional, então vale a pena ir ao show para conhecer uma forma diferente de se pensar o hip hop hoje em dia. Mas não se espante com as bases eletrônicas, os broken beats, o barulho e a interferência que você ouvirá, afinal esse é para muitos o grande trunfo do Anti-Pop Consortium. Completando a programação do SubRapCombo, M.Takara junto de R. Brandão (Mamelo Sound System) e Afasia (Carlos Issa e Akin).

Erykah Badu

Erykah BaduPara mais informações e novidades exclusivas, siga o Per Raps no Twitter!

Sua primeira apresentação por aqui já faz tempo, rolou no finado Free Jazz Festival há 13 anos. Quem foi diz ter sido um dos melhores shows vistos em terra brasilis. E não tenha duvidas disso! Erykah não é do tipo que produz hits fonográficos, apesar de vez ou outra aparecer nas paradas e ter seus videoclipes presentes na programação de canais dedicados à música (no Brasil, nem tanto).

Por incrível que pareça, o ponto forte dessa apresentação não deverá ser seus álbuns anteriores – Baduizm (1997), Mama’s Gun (2000), Worldwide Underground (2003), New Amerykah Part One (4th World War) (2008) -, e sim seu mais novo lançamento, New Amerykah Part Two (Return of the Ankh) (2010), um dos álbuns mais românticos e bem dosados (com beats mais orgânicos) da cantora, sendo também muito bem recebidos pela crítica.

Apenas o time da produção do disco já garantiria o sucesso, contando com pedradas do novato James Poyser, além do saudoso J-Dilla, Questlove (The Roots), Madlib e 9th Wonder. Sobre o que esperar do show? Tom intimista e soul hipnótico da melhor qualidade.

Lauryn Hill

Lauryn Hill

Conhecida por ser MC e cantora de um dos grupos mais celebrados do rap, o Fugees, Miss Hill sobe aos palcos brasileiros pela segunda vez. No entanto, desde a última vez não houve muita novidade da norte-americana, musicalmente falando. Depois de começar sua carreira solo com o bombástico The Miseducation Of Lauryn Hill (1998), a MC teve problemas com sua gravadora e viu sua produção musical decair.

Na primeira passagem de Lauryn por São Paulo (2007), o som, que parecia ter uma potência muito maior do que a casa comportava (Credicard Hall), deixou muitos fãs com um zumbido nos ouvidos por alguns dias (!). Isso comprometeu todo o show. Para piorar, Miss Hill não parecia estar no auge de sua empolgação.

Para esse novo show, Lauryn traz um único lançamento desde sua coletânea “Ms. Hill” (2002), a música “Repercussion”. Já é um sinal de retomada, mesmo o som sendo uma peça única. No mais, sempre vale a pena relembrar ótimas músicas como “Doo Wop“,“Everything Is Everything” e “Ex Factor“.

Rage Against The Machine

Rage Against The Machine por Tobin Voggesser

Se você tem ao menos 20 e poucos anos pode curtir um pouco da fúria das letras de Zach de La Rocha, juntas dos riffs distorcidamente impressionantes de Tom Morello em sua adolescência. Há quem curta rap e torça o nariz para Rage Against the Machine, no entanto o conteúdo das rimas de Zach desintegra muito discurso de rappers wannabe por ai. Sem contar com a musicalidade do grupo, que não se contenta com o destaque vocal e “guitarrístico”, mas traz o ótimo baixista Tim Commerford e baterista que maltrata as baquetas (positivamente falando, claro), Brad Wilk.

O RATM terminou no início dos anos 2000, após a saída de Zach de La Rocha, no entanto os integrantes remanescentes embarcaram junto do vocalista Chris Cornell (ex-Soundgarden) no projeto “Audioslave“. O grupo foi bem e rendeu boas músicas, mas para a felicidade dos fãs, Zach retornou em 2007 e vários shows foram marcados pelo mundo inteiro para celebrar a nostalgia.

Nada novo deverá ser apresentado, mas levando em conta que é a PRIMEIRA apresentação do grupo por essas bandas, vale a pena apertar o cinto e pagar R$ 190 (uooow!) para vê-los.

Anti-pop Consortium no SubRapCombo 2010
Quando?
28 de agosto (sábado), às 21h
Onde? Choperia do SESC Pompéia
Quanto? R$ 20,00 [inteira], R$ 10,00 [carteirinha, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] e R$ 5,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]
Classificação: Não recomendado para menores de 18 anos
O Anti-pop Consortium também se apresenta no SESC São Carlos (27/08) e no SESC Ribeirão Preto (25/08).

Erykah Badu em São Paulo
Quando? 29 de agosto, a partir das 20h
Onde? Credicard Hall – Av. das Nações Unidas, 17.955
Quanto? entre R$ 100 e R$ 400, com direito à meia-entrada
Informações: http://www.credicardhall.com.br / (11) 4003-6464

Lauryn Hill em São Paulo
Quando? 7 setembro de 2010, às 21h30
Onde? Credicard Hall (Av. das Nações Unidas, 17.955 – Santo Amaro)
Quanto? de R$ 100 a R$ 250. Podem ser adquiridos pela internet (www.ticketsforfun.com.br)
Informações: http://www.credicardhall.com.br e (11) 4003-6464
A cantora se apresenta em Florianópolis no dia 3 de setembro no Stage Music Park, no dia 6 no Citibank Hall no Rio de Janeiro e termina sua passagem pelo Brasil com um show em Brasília, na Prainha da ASBAC, dia 12.

Rage Against the Machine no SWU Music and Arts
Quando? 9 de outubro de 2010
Onde? Fazenda Maeda (Rodovia SP 75 Santos Dumont, Km 18 Sul, em frente a balança, sentido Itu/Sorocaba.)
Quanto? de R$95 a R$560 [Ponto de venda: Ginásio do Ibirapuera (Rua Manoel da Nóbrega, 1361, Paraíso, São Paulo) ou http://www.ingressorapido.com.br]
Informações: http://www.swu.com.br

O que achou dos shows? E dos preços? Vai em alguma apresentação? Comente!


Entrevista: Lurdez da Luz, Pathy Dejesus e Lívia Cruz

Lívia Cruz por Stephanie Sidon, Pathy Dejesus (divulgação) e Lurdez da Luz (divulgação)

“Muito além do ser mulher” – por Carol Patrocinio

Quando as pessoas pensam em rap já imaginam um homem, de preferência negro, com roupas largas, cara de mau, muita marra e um microfone na mão. Ei, mundo real, chamando! Rap é música, expressa sentimentos, vivências, histórias. E isso todo mundo tem: branco, preto, amarelo, homem, mulher, religioso ou ateu. E é aí que entram as personagens do texto de hoje, três mulheres que ganharam espaço e notoriedade num mundo que – queriam que elas acreditassem – não tinha espaço pra elas. O mundo estava enganado!

Lurdez da Luz, Pathy Dejesus e Lívia Cruz. Mulheres. Bonitas. Femininas. Elas são feitas de sorrisos, olhos, unhas. E como as mulheres de outras cenas, querem estar bonitas, gostam de como são, não querem mudar para agradar e acreditam que o talento fala mais alto do que qualquer coisa.

Preconceito? Existe. Por ser mulher, por ser bonita, por ser branca ou por ser negra. Desafios? Estão aí para serem deixados pra trás e lembrados como vitórias. Qualidade? Tem de sobra. Essas mulheres provam que o que importa é fazer com o coração e aí o respeito vem, quando menos se espera.

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Per Raps: Pra você, como o preconceito é demonstrado no rap?

pathy dejesusMeu pai me falou uma parada que ainda ecoa na mente e infelizmente faz o maior sentido até os dias de hoje: se você quiser ser alguém, ser bem sucedida no caminho que escolher, vai ter que trabalhar duas vezes mais pra ter o mesmo reconhecimento porque é mulher”

Lurdez da Luz: Acho que o rap brasileiro está mais consciente nesse sentido do que o norte-americano de um modo geral, no que diz respeito as músicas misógenas é mais tranquilo. Acho que o machismo está tão arraigado que nem sei onde começa e onde termina e num é privilegio do rap não, em toda sociedade e nichos musicais rola só que de diferentes formas. Vide o número de instrumentistas mulheres em qualquer show de música, seja lá de que estilo for, sempre muito menor que o de homens.

Infelizmente ainda rola esse lance de muitas mulheres não se sentirem representadas por outras que estão no palco, que é reflexo de uma cultura machista, de de repente achar que você tá ali pra “aparecer” ou por causa dos caras, ignorando toda a dificuldade que é fazer arte, ainda mais rap. Mas comigo, pessoalmente, não é só o fato de ser mulher, tem o lance da pele clara, me vestir de um jeito estranho, ter um discurso talvez não muito simples de interpretar e desde do começo num ficar me explicando, deixar as pessoas livres pra pensarem o que quiser ao meu respeito.

Pathy Dejesus: Gosto de ver as coisas sempre por um ângulo mais positivo. Falta muito ainda, mas já foi bem pior… Ainda somos uma minoria dentro desse processo. Ainda existem as letras que inferiorizam, ridicularizam, menosprezam e ofendem mulheres (o que aliás já é bem batido, né?). Ainda tem homem que torce o nariz quando vê uma mulher no mic, nos toca-discos, dançando, grafitando. Mas o mundo é isso! Preconceito não é exclusivo do rap. Ele só é reflexo (talvez em maior intensidade) de uma sociedade preconceituosa (lê-se machista também). Ele está aí e não pode servir de empecilho pra quem realmente quer fazer parte.

Existem várias mulheres que quebraram e estão quebrando esse paradigma. Desde seu início, lá nos EUA entre os anos 70 e 80, a cultura é uma coisa “pra homens” e raríssimas mulheres conseguiram invadir esse espaço. As que conseguiram eram todas excepcionais (Roxanne, Salt n’ Pepa, Queen Latifah, MC Lyte, dentre várias) e fizeram a diferença! Se hoje parece difícil, imagina há três décadas. Se essas pioneiras não tivessem insistido, batido de frente pra demonstrar seu talento e sua paixão pelo hip hop, dificilmente estaríamos conversando agora.

Aqui no Brasil não é diferente… o hip hop entrou na minha vida em 94. Lembro da Rúbia, da Dina Di, da Rose MC, depois Negra Li. Tente pesar a determinação dessas mulheres naquela época… Quando fiz 13 anos, meu pai me falou uma parada que ainda ecoa na mente e infelizmente faz o maior sentido até os dias de hoje: se você quiser ser alguém, ser bem sucedida no caminho que escolher, vai ter que trabalhar duas vezes mais pra ter o mesmo reconhecimento porque é mulher. E mais duas vezes porque é negra. De onde venho as coisas nunca foram fáceis. Graças a Deus, cresci num ambiente onde ao invés de só lamentar e apontar culpados pela situação desvantajosa, batemos de frente e não desistimos tão facilmente dos nossos sonhos.

Lívia Cruz: O preconceito contra as mulheres? Eu já disse isso várias vezes, o preconceito e discriminação contra as mulheres no rap não é diferente do que a gente vê na sociedade em geral, as manifestações tão aí a toda hora, vão das cantadas e dos barulhos obscenos que a gente é obrigada a escutar quando está simplesmente passando na rua, até uma atitude mais extrema de violência física e psicológica. Esse assunto é sério e delicado, acho que a educação, como em quase, tudo é a chave, e a música, sem dúvida, tem grande papel de formação.

Per Raps: O que significa fazer um rap feminino atualmente?


Parece fácil ser MC, mas num é não. Seja homem ou mulher”

Lurdez da Luz: Atualmente já está tudo um pouco mais fácil pra todo mundo, existe uma evolução em relação a acesso a tecnologia, a informação e o fluxo de dinheiro dentro da cultura aumentou (ainda é pouco), o respeito fora do rap aumentou também. Eu comecei a fazer isso em 1999, só existia a Dina Di, que era uma rapper cabulosa mas que eu num me identificava e a Rose MC e Lady Rap, que num tinham muitas faixas gravadas pra gente ter algum ponto de partida. Eu curtia muito o estilo da SharyLaine, mas que já num lançava nada há anos… Enfim tive que inventar um jeito de fazer minhas rimas e levadas.

Lembro que mostrei meu primeiro rap pra Cris do SNJ, que também é minha contemporânea, e ela falou: “legal esse tipo de som, parece um pouco rap até”, eu ri e percebi que tava com uma parada que ia demorar pra ser compreendida. Pra mim o importante é ter em mente a expressão artística e as posições politicas, sempre em prol da evolução pessoal assim como da cultura e não “ser alguém dentro do rap”, parece fácil ser MC, mas num é não. Seja homem ou mulher.

Pathy Dejesus: Existe fazer um rap feminino? Dá separar a arte e subclassificar? Não acredito nisso. Odeio rótulos. Existe talento ou não. Existe paixão ou não. Existe rap bom e rap ruim. E isso independe do sexo de quem está fazendo.

Lívia Cruz: Pra mim, no meu rap, significa mostrar o ponto de vista genuíno da mulher, eu gosto de contar historias e ainda acho que a gente se pauta muito no que os homens do rap vão pensar das nossas letras, das nossas atitudes, e isso torna os nossos relatos muito tímidos… Quero ver isso mudar, e tô fazendo minha parte pra essa mudança.

Per Raps: Beleza ajuda ou atrapalha? Como?

Muitas vezes me sinto subestimada, vejo isso nítido nos olhares das pessoas quando subo no palco, mas depois que começo a cantar isso muda”

Lurdez da Luz: Acho que ajuda a abrir portas mas talvez até atrapalhe em ter credibilidade. Como disse sobre posições políticas na resposta acima, num é só saber em quem vai votar, o porquê é bem mais amplo, como por exemplo não acreditar em padrões de beleza impostos, tipo a magra, alta, de olho azul ou até mesmo a “rainha de ébano”, claro que deve ser uma benção de deus ser lindo, mas ficar impondo isso que nem a Rede Globo num deveria ser papel do rap.

Pathy Dejesus: Acho que a pergunta correta seria: ser feminina ajuda ou atrapalha? Li uma entrevista da Negra Li (de quem sou fã) uma vez falando sobre isso. Da postura supostamente correta para ser respeitada num ambiente onde ela era minoria… Usar roupa larga, nada de maquiagem, ficar séria o tempo todo pra não chamar a atenção. Pra não lembrarem que se tratava de uma mulher… Imagina a barra!

Por isso digo que as coisas estão evoluindo! E vai de nós, mulheres, nos impor, nos preservar, e sermos levadas a sério. Sou vaidosa e não vou mudar minha personalidade pra fazer o que amo. Aliás, isso não faz o menor sentido, né?! Acho lindo quando vejo Lívia [Cruz], Lurdes [da Luz], Nathy [MC], Flora [Matos], as DJs do Applebum… Todas maravilhosas, nenhuma abre mão do seu estilo pra rimar, pra discotecar. O respeito não é imposto. É conquistado!

Lívia Cruz: Por incrível que pareça, acho que atrapalha mais do ajuda. Existe um preconceito de que mulher bonita não é inteligente, muitas vezes me sinto subestimada, vejo isso nítido nos olhares das pessoas quando subo no palco, mas depois que começo a cantar isso muda, e é divertido também, surpreender pro bem. A beleza vai muito além da estética, eu gosto de quem sou, não quero mudar pra agradar ninguém, e isso transparece nas minhas músicas e na minha conduta, algumas pessoas se incomodam, mas paciência… Bonito mesmo é ser feliz!

Per Raps: Hoje você é respeitada na cena por seu trabalho, independentemente do seu sexo, o que você acha que fez com que isso acontecesse?

pathy dejesus Sou movida a grandes desafios, não nasci pra concordar, pra aceitar. Minha maior concorrente sou eu mesma, e não alivio, não facilito, não tenho pena de mim mesma”

Lurdez da Luz: Em primeiro lugar fico honradíssima, dinheiro é bom e todo mundo precisa, mas respeito pra mim vale ouro. Acho que foi resistir em primeiro lugar, se mantar fiel ao que se é e não balançar em relação ao que ” tá pegando no momento”. Foco no som e amor por esse tipo de música em especial mais do que por qualquer outra.

Pathy Dejesus: Repito que venho de uma criação (obrigado Pai e Mãe) onde sempre me lembraram quem eu sou, de onde vim e de como as coisas seriam mais difíceis por isso. Mas essa situação de “desvantagem” sempre me foi mostrada de uma forma que eu tivesse vontade de bater de frente pra conquistar meus objetivos.

Sempre fui “minoria”. Mulher negra é minoria duas vezes. Sempre tive que batalhar dobrado pra ter reconhecimento. E sinceramente, gosto disso! Sou movida a grandes desafios, não nasci pra concordar, pra aceitar. Receber um inicial “não” como resposta sempre me motivou a melhorar, buscar mais conhecimento, me preparar cada vez mais. Tem horas que realmente dá vontade de desistir… Mas minha maior rival não me pouparia, não me perdoaria. Minha maior concorrente sou eu mesma, e não alivio, não facilito, não tenho pena de mim mesma. Acho que vem daí o respeito no meu trabalho. E na vida!

Lívia Cruz: Esse respeito veio naturalmente por um conjunto de coisas, meu trabalho vem em primeiro e com ele o desejo de fazer virar, acreditar, ousar, perseverar, e por consequência algumas pessoas no meu caminho me ajudaram muito, sem essas pessoas, provavelmente, eu estaria bem mais longe do ponto que me encontro agora.

Time do Loko apresenta Lurdez da Luz, Lívia Cruz e Pathy de Jesus
Quando? Sábado, (14), às 00h
Onde? Hole Club (R Augusta, 2203 – Jardins/SP)
Quanto? R$15 (H) e R$10 (M)

Mais?
Novidades de 09′: Lívia Cruz
Lurdez da Luz fala de seu novo trabalho


Manos e Minas: a luta continua

Na semana passada, especificamente na quinta-feira (5), foi anunciada a saída do programa Manos e Minas da programação da TV Cultura. No entanto, uma grande movimentação partiu da internet às ruas pedindo a volta de um dos únicos programas dedicados ao hip-hop no quinto maior país do mundo em extensão territorial, com mais de 190 milhões de habitantes e composto por 26 estados e um distrito federal. Mas isso tudo você já sabe.

Além do protesto no microblog Twitter, que fez o termo #salveomanoseminas permanecer entre os tópicos mais citados na tarde da quinta, foram colhidas assinaturas de pessoas contrárias a ordem de João Sayad, atual presidente da TV Cultura, na festa de aniversário da Rinha dos MC’s.

Voltando à internet, vídeos começaram a “pipocar” com falas de pessoas representativas no rap e na cultura de forma geral, como KL Jay, Edy Rock, Gilberto Dimenstein, Pedro Alex Sanches, Ganjaman, Criolo Doido e Ale Youssef, que apresentaram sua insatisfação e argumentaram sobre a importância da manutenção do Manos e Minas na TV aberta.

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Outra figura importante que “comprou” a briga foi o senador Eduardo Suplicy, que recebeu uma carta enviada por representantes do hip-hop a ser encaminhada para João Sayad. Suplicy inclusive chegou a realizar a leitura da carta no Senado, alertando a movimentação preocupante de um canal que leva a cultura em seu nome.

Em texto publicado pela agência AdNews nesta quarta (11), João Sayad mostrou sinais de contradição: “A grande questão aqui é que eu não represento o meu gosto, eu represento o que o público quer”. No entanto, suas ações mostram o contrário. Sua resposta padrão para o fim do Manos e Minas é que o novo programa de música da TV Cultura também trará o rap como um do gêneros representados.

Ainda assim, as movimentações em prol do programa continuam acontecendo. Mande seu vídeo, sua manifestação de apoio ou o serviço da sua festa em prol da volta do programa Manos e Minas à TV Cultura nos comentários do post e a gente ajuda a divulgar.

* Na noite desta quarta-feira (11), o Sarau da Cooperifa teve uma edição especial de protesto ao fim do programa Manos e Minas, nas palavras do idealizador do evento, Sérgio Vaz, “o único [programa] que não mostra as pessoas da quebrada de cabeça baixa, algemadas ou pedindo alguma coisa para apresentador de TV”.

* Em Minas Gerais, mais especificamente na cidade de Ipatinga, a Sintonia Crew realizará uma batalha de freestyle com o tema #salveomanoseminas, no Shopping do Vale, neste sábado (14), às 20h.

*Assine o abaixo assinado do site Rap Nacional em prol do Manos e Minas.

Sobre o Manos e Minas

Manos e Minas surgiu de um desdobramento do quadro “Mano a Mano”, parte do programa Metrópolis da mesma TV Cultura, e era apresentado por Rappin Hood. O formato inicial do programa contava com auditório, DJ Primo nas pick-ups, b-boys e b-girls dançando e grafiteiros convidados para pintar painéis durante a gravação.

O programa teve início em 7 de fevereiro de 2007 e contou com o sambista Jorge Aragão como primeiro convidado. Após a saída de Rappin Hood, assumiram a apresentação Thaíde, e logo depois, o MC Max BO. Manos e Minas trazia a cada edição uma banda/grupo apresentando seu trabalho, além de reportagens e quadros com nomes como Alessandro Buzo, o escritor Ferréz e mais tarde, o rapper Emicida.

Gravado no teatro Franco Zampari, ao lado do metrô Tiradentes, todas as segundas-feiras a partir das 16h, Manos e Minas era televisionado todo sábado às 19h30 na TV Cultura, com reapresentação aos sábados à 1h.

Leia também o post Manos e Minas deixa a grade da TV Cultura
Quer saber o que as pessoas acham sobre o fim do programa? Dê uma olhadinha no mural do Manos e Minas no site da TV Cultura!


Manos e Minas deixa grade da TV Cultura

Anúncio Manos e Minas

“Pra onde foi o respeito que o hip hop merece?” – por Carol Patrocinio com entrevistas de E. Ribas

Com um sonoro “Acabou” recebemos a notícia, do produtor Zeca MCA, que o programa Manos e Minas, da TV Cultura, havia oficialmente sido extinto. A alegação da emissora estatal é que isso ocorreu por “política da empresa” e que não tinha nada contra as pessoas envolvidas. “Tá todo mundo triste, mas sabemos que é um jogo de favores e favorecimento. O Manos e Minas não é um porgrama caro, então parece ser mais uma política da empresa de não querer falar com esse tipo de público. Cortaram as vias de acesso com a juventude”, explica o apresentador do programa, Max B.O..

Pra quem ainda não entendeu do que estamos falando, aqui vai a explicação. Nesta quinta-feira (5) pela manhã, todos que buscaram ler o jornal O Estado de S. Paulo*, se depararam com a seguinte afirmação do presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad: “O Vitrine deverá ser suspenso para reformulação. O Manos e Minas sai da grade, assim como o Login. Em compensação, haverá um jornal com debates todo dia. Teremos sessões de cinema em acordo com a Mostra de Cinema de São Paulo”.

Para Max B.O. a conclusão é simples: “Eles dizem que estão sem orçamento, mas contrataram a Marília Gabriela. Eles preferem pagar duzentos pra um ou dois, que pegar duzentos e dar um pra duzentas pessoas”. Curiosamente terminam os dois programas direcionados aos jovens na emissora.

Manos e Minas/Foto: DJ Erick Jay

Depois de saber de sua demissão por uma mensagem de celular recebida de uma produtora que trabalha na emissora – “Força”, dizia o texto – Max chegou a conclusão de que “se os caras mandaram embora até o Heródoto Barbeiro“, não era o Manos e Minas que seria poupado. Saído do MC RAPorter da RedeTV!, o apresentador comenta que sabia que o trabalho ali não seria eterno: “Um dia eu sabia qeu deixaria de ser apresentador (do Manos e Minas), mas gostaria ir lá me apresentar como MC no programa”.

As especulações sobre o programa, que já teve nas pick-ups o saudoso DJ Primo, já aconteciam há alguns dias e rumores rondavam a internet. Alguns, como Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, acreditam ser uma ação partidária: “Maluf, Quércia e Fleury governaram São Paulo e respeitaram os princípios públicos da TV Cultura de São Paulo. Quem destruiu a TV Cultura foram os governadores que há 16 anos coronelizam São Paulo. Agora, José Serra joga a pá de cal”.

De acordo com a definição do site da própria emissora, a TV Cultura é uma “emissora de televisão brasileira de sinal aberto que oferece à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promove o aprimoramento educativo e cultural de seus telespectadores”. Se é esse o objetivo, o que está acontecendo? Será que estão errando a mão na hora de ‘colocar ordem na casa’?

Por inspiração de seus fundadores, as emissoras de sinal aberto da Fundação Padre Anchieta não são nem entidades governamentais, nem comerciais. São emissoras públicas cujo principal objetivo é oferecer à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promover o aprimoramento educativo e cultural de telespectadores e ouvintes, visando a transformação qualitativa da sociedade” Do site da Fundação Padre Anchieta

“Nossa plateia era de estudantes, o Manos e Minas valia como nota para quem relatava o que rolava no programa. Tinham salas que ganhavam o direito de ir ao programa como prêmio, sabe? Também iam pessoas de casas de assistência, pessoas com liberdade assistida…”, conta o apresentador. A pergunta que fica é: seria esse o problema?

Manos e Minas - equipe/Foto: Dj Erick Jay

Conversamos com algumas pessoas para saber o que acham das mudanças de rumo da emissora que teria, por princípio, a iniciativa de levar conteúdo de interesse público aos telespectadores. E pela movimentação acontecida no Twitter, que levou a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, o público quer que o programa, e alguns outros da emissora, continuem na grade.

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André Maleronka – jornalista, editor da Revista Vice e colaborador da Revista +Soma

André Maleronka

Acho que isso significa uma ideia de cultura e de papel do Estado das quais discordo. As declarações do presidente da TV Cultura – ele menciona ineficiencia e inchaço do quadro de funcionários – são uma faca de dois gumes. Essa suposta eficiência: é de audiencia que ele fala? Uma Tv do estado não deveria ter isso como objetivo, na minha opinião. Inchaço: normalmente isso é causado por má administração. É o mesmo grupo que está no poder do Estado de SP há 24 anos.

Então é tudo muito esquisito. Mas acho que, resumindo bem, é isso: me parece uma ideia (ideologia neoliberal, na verdade) de cultura enquanto entretenimento e realização enquanto sucesso financeiro. Lamento, e acho uma visão de mundo bem rasa.”

Daniel Ganjaman – produtor musical, engenheiro, músico e DJ nas horas vagas

Daniel Ganjaman

Atualmente, o Manos e Minas é a única voz da cultura de rua na televisão brasileira. Vivemos um momento onde manifestações artísticas e culturais tem pouquíssimo espaço nos meios de comunicação de massa no Brasil. O Manos e Minas sempre foi um programa muito democrático, com espaço pra música, dança, arte, temas sociais e muitos outros assuntos que não são comuns na grade de outras emissoras. Além disso, havia o foco em temas ligados a periferia de forma criativa e produtiva, com ênfase nas manifestações culturais da comunidade – assuntos só abordados em outros programas com um certo ranso de ‘coitadinho’ ou de ‘caridade’.

Vejo que a situação é muito mais séria, já que está prevista uma demissão em massa e uma completa reformulação na grade da emissora. A existência da TV Cultura sempre foi um diferencial enorme dentro da programação da TV brasileira exatamente por se tratar de uma emissora estatal, sem um compromisso direto com os números de audiência. Isso possibilitava uma programação muito mais interessante e despretenciosa, o que é praticamente impossível numa emissora com interesses comerciais. Ao mesmo tempo, acredito que de certa forma esse é o caminho natural das coisas, já que hoje em dia é possível ter acesso a esse tipo de programação mais específica pela internet, onde o acesso vem ficando cada dia mais democrático. Sinceramente, acredito que a criação de portais de internet dedicados a essa cultura ou um upgrade nos portais existentes pode ser uma forma de cobrir parte desse buraco que ficará na ausência do programa Manos e Minas. Com certeza, uma perda irreparável”

Pedro Alexandre Sanches – jornalista cultural e autor dos livros “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” e “Como Dois e Dois São Cinco”

Pedro Alex Sanches

São Paulo tem uma triste tradição no que diz respeito aos espaços reservados para manifestações culturais das populações menos favorecidas em geral. O hip-hop ocupa um lugar importante nisso que considero uma forma de discriminação, que a gente nota em episódios como a resistência da Virada Cultural em escalar rappers, ou esse agora com o programa “Manos e Minas”. Não é um problema só da TV Cultura, é muito mais generalizado, mas o triste, agora, é justamente a TV Cultura, talvez o único veículo de São Paulo que andava se preocupando, fechar o espaço que havia aberto. É um retrocesso, e, repito, esconde, sim, por trás uma carga forte de discriminação. Programas elitistas como o ‘Manhattan Connection’, do GNT, também dão audiências pequenas (e pouco lucro, imagino), mas não consta que pensem em tirá-los do ar por causa disso”

Leandro Roque de Oliveira aka Emicida – rapper e ex-apresentador de um dos quadros do Manos e Minas

Emicida

Desrespeitar o hip hop, infelizmente, já é uma característica de orgãos culturais, excluir o rap idem, mas o que me chocou nesse ‘cancelamento’ – coloco entre aspas pois até agora não fui notificado formalmente de minha demissão pela empresa que me ‘contratou’ e coloco entre aspas para ressaltar a importância deste contrato – foi o desrespeito a mim e a mais, aproximadamente, 20 pessoas que integram a equipe do Manos e Minas.

Fomos comunicados de nossa demissão (fora o resto das equipes dos outros programas também excluídos da grade), através de uma entrevista em um dos maiores jornais do país, cedida pelo novo presidente, João Sayad. Dizem que quando nos dirigimos a presidentes devemos expressar respeito utilizando termos como ‘excelentíssimo senhor’ e outras formalidades, mas de onde eu venho, não se deve mostrar respeito por quem não te respeita, e nesta atitude, no minimo bagunçada, da TV Cultura junto com essa nova diretoria, sobraram dúvidas, demissões, cortes e desrespeito pelas pessoas que dedicaram seus talentos à instituição.

Fala-se em construir uma nova TV cultura (excluindo programas culturais?), fala-se em reformular a grade, atrair o interesse da população (a mesma que era representada por um programa como o Manos e Minas), falou-se até em venda do terreno nestes últimos dias (que isso?). Eu não tenho palavras rebuscadas para enriquecer os textos como muitos, nem me considero tão inteligente assim, mas ontem fui a uma reunião em que ouvi ‘o programa é maravilhoso, o custo não é alto, dá uma resposta legal de audiência, mas está fora’.

Nunca vi aquilo como um emprego, assim como muitos da equipe como Truty, Zeca MCA, Max B.O., Erick Jay e outros que vivenciam o hip hop fora da sala de produção, víamos aquilo como uma oportunidade de levar a cultura, com a nossa cara, para nossos irmãos, aqueles que não se veêm representados nos artistas que vão no Faustão (com todo respeito a estes artistas), aqueles que já não têm acesso a saneamento básico, moradia, alimentação, educação decente e agora perdem seu programa companheiro dos sábados, onde podiam ter uma opção para fugir da programação nojenta da grade da tv aberta brasileira (salvo raras exceções).

Nos resta aguardar esta ‘nova TV Cultura’, que terá para sempre em sua história, este primeiro passo torto, como se tivesse sido empurrada por uma direção que se pautou pelo próprio umbigo. É ano de eleição, não faço campanha pra ninguem, acho que estamos ruim de opções, não acredito em coincidências nem gosto de ver caracteristicas comuns nos adversários (pois é assim que enxergo quem fecha portas para nós). Após ver estas características comuns o segundo passo é generalizar, coisa que também odeio fazer, e o terceiro passo é dizer: PSDB é foda”

Jair dos Santos aka Cortecertu – DJ, pesquisador e editor adjunto do site Central Hip-Hop

DJ Cortecertu

O Manos e Minas representa um dos braços do Hip-Hop na mídia, pois não é apenas um programa, o Manos e Minas é parte da retomada dos trabalhos que dão visibilidade ao Rap e à cultura de rua, numa articulação com outros estilos musicais como o samba-rock. Em dois anos de vida, o programa tratou com respeito nossa cultura.

Ao meu ver, o Manos e Minas poderia dar espaço para outros tipos de rap feitos por aqui, isso aumentaria a audiência e o poder de influência do programa. As manifestações em favor do programa pela internet mostram a diversidade em nosso cenário, artistas e curtidores de vários estilos divulgaram seu apoio, isso é um sinal, algo que precisa ser levado em conta para a resistência do Manos e Minas e para a criação de qualquer iniciativa semelhante”

Do outro lado do muro
Em comunicado oficial, a Fundação Padre Anchieta, responsável pela TV Cultura, explica os cortes:

tv-cultura

Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Mobilizações
Além da mobilização virtual para achar atenção ao caso levando a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, acontecerão as demonstrações presenciais de insatisfação com a emissora. Veja qual o melhor dia e horário pra você fazer a sua parte e escolha sua manifestação.

Rinha de MC’s

Show do Emicida em Santos
Quando? Sexta-feira (6) às 23h
Onde? Club 49 (Rua Visconde do Rrio Branco n° 49 – Santos/SP)

Quer ler mais?
* No jornal O Estado de S. Paulo: “Sayad admite inchaço da TV Cultura, mas avaliará demissões caso a caso”

* No Conversa Afiada: “Tucanos fecham TV Cultura. Eles já têm a Globo”

* No Coletivo Action: “O fim do Manos e Minas?”

* No blog de Jéssica Balbino: “Salve Manos e Minas”

* No R7: “Fim do Manos e Minas causa protestos no Twitter”

* No blog Jornalismo B: “Comentários sobre uma emissora pública de televisão”

* Mídia Kit da TV Cultura: Saiba quem assistia a programação

* No Central Hip-Hop/Bocada Forte: “MobilizAção: militante quer acionar ministro pelo Manos e Minas”

Não confunda briga com luta. Briga tem hora pra acabar e luta é para uma vida inteira” Sérgio Vaz

O Per Raps agradece a ajuda de todo mundo que colocou no Twitter a tag #salveomanoseminas e ainda está colocando, além dos blogs e pessoas que ajudaram a fortalecer essa luta. Sem nomes porque quem fez sua parte, sabe. E quem não fez não merece nosso respeito.