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Negra Li encontra Lauryn Hill em Florianópolis

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread no show de Floripa

Quem acompanha minimamente o rap no Brasil, já ouviu falar do grupo RZO. Formado pelos MC’s Helião e Sandrão mais o DJ Cia nas pick-ups, o grupo já contou com a cantora Liliane de Carvalho nos vocais e na rima. Para quem não sabe, Liliane é Negra Li, que viu sua carreira atingir novos patamares após deixar o grupo de rap de Pirituba (São Paulo).

Por sua qualidade vocal, Negra Li recebeu diversas comparações com Lauryn Hill – de quem é fã declarada -, que também possui notável capacidade de cantar e rimar. No entanto, as semelhanças não param por ai: ambas são mulheres lutadoras, que venceram o machismo do rap por seu talento e trabalho, possuem carreira no cinema, são mães e, querendo ou não, as duas se viram longe dos estúdios por um bom tempo.

Ms. Hill não grava nada novo desde seu acústico MTV (2002) e Negra Li teve seu último álbum de estúdio gravado em 2007, junto de Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Desde lá fez inúmeras participações com artistas como Caetano Veloso, Skank e Akon.

Nessa segunda passagem de Ms. Hill pelo país, Negra Li foi convidada para abrir os shows de Florianópolis e Brasília. Depois de abrir o show de sua grande inspiração em Florianópolis, Negra Li falou com o Per Raps por e-mail e contou como foi a experiência que deixará marcas por toda a sua vida.

Per Raps: Como surgiu o convite para você abrir um show da Lauryn Hill? E por quê apenas em Florianópolis e Brasília e não em SP?
Negra Li: Olha, em Florianópolis surgiu através do Leo Comin, do Oculto. O Leo é DJ e promoter em Floripa, me levou tantas vezes pra tocar lá, que acabamos nos tornando amigos. O show da Lauryn foi na Pacha, e o Leo tem uma parceria com a casa… E foi assim que tudo aconteceu. Através de uma sugestão dele, da aceitação do Anjinho e do pessoal da Pacha. E claro, da aceitação que eu tenho junto ao público de Floripa, que é muito forte … Adoro aquele lugar! E toda vez que me apresento lá, sou super bem recebida.

Também vou abrir em Brasília. Esse show foi através do escritório que também fecha show pra mim, a Agência Produtora. Não sei bem como se deu a negociação, mas estou amarradona de abrir e encerrar a tour da Lauryn no Brasil. Porém esse show de Brasília será no formato com DJ e o de Floripa foi com banda, show completo, só faltou minhas dançarinas – Luciana Bauer e Amanda Angel -, pra ser 100% perfeito! Mas, nossa, foi bom demais.

Per Raps: O que você sentiu na hora?
Negra Li: Quando o Leo ligou pra Paulinha (minha produtora), ela me ligou no mesmo minuto. Já sabíamos que estava tudo certo e que um sonho seria realizado! Da outra vez que ela veio, até chorei por não ter sido lembrada.

Per Raps: Você encontrou Ms. Hill pessoalmente? Qual foi a sensação?
Negra Li: Encontrei sim. Ficamos hospedadas no mesmo hotel, fizemos a passagem de som juntas e nos encontramos novamente depois do show dela. Virei tiete mesmo, quase não consegui falar (já quase não falo nada de inglês, nervosa então?! Travei). Meu marido desenrolou o diálogo, pude falar sobre nossa trajetória parecida… Foi intenso! Maravilhoso!

Per Raps: Qual a influência de Lauryn Hill no seu trabalho?
Negra Li: Total! Quando comecei no RZO, ela cantava no Fugees, uma banda de rap. Eu olhava pra ela e me inspirava demais, acabou que peguei muito do que ela fazia e ouvia pra mim. É isso que a gente faz com os ídolos, né… Absorve!

Per Raps: Como andam seus projetos para 2010/11?
Negra Li: Estou numa correira louca de trabalho, muitos shows pelo Brasil. Dia 13 de outubro vou abrir pro Timbaland, em São Paulo. Uma tour, no mês de novembro, pela Nova Zelândia se confirmando…

Estou mergulhada na pré-produção do meu próximo CD, escolhendo repertório, escrevendo letras. Estou podendo contar com a ajuda muito grande do Sérgio Brito, do Titãs, e de parceiros antigos como Nando Reis e Samuel Rosa. Nessa busca pelo repertório também estão minha gravadora Universal Music e os produtores Rick Bonadio e Paul Ralphs.

Vou começar a filmar um novo longa chamado Poderoso Arco-Iris, que vai contar a história de um serial killer homofóbico e eu farei uma jornalista que vai investigar os assassinatos e acabará na mira do serial. Um filme com muito suspense e ação.

Veja um trecho da apresentação que abriu a turnê brasileira de Ms. Hill, em Floripa.

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Enquanto a Beyoncé não chega no país, versões!

Ilustração feita por Ryan Casey [goryango.com]

Ilustração feita por Ryan Casey

Em tempos da rainha do requebrado, Beyoncé, no Brasil – com shows esgotados e fãs enlouquecidos -, quem não pensa em entrar na onda de “Single Ladies” para chamar um pouquinho de atenção?

O clipe da bonitona do R&B (ou seria melhor chamar de pop?) fez sucesso pelo mundo inteiro com sua coreografia repetida até exaustão por gays, héteros, crianças e é claro que a galera do rap não poderia ficar fora dessa.

Inspirando-se em Beyoncé, UCB e Wale se juntaram pra fazer o “Pat your Wave” – algo como “afofe seus cachos”, no bom português. A música é boa, o clipe também e as meninas que dançam são humanas e você nota isso lá pro 1:15, quando as garotas começam a dançar e tudo mexe com elas, diferente da Beyoncé.

E falando em tudo mexer, lembrei da nossa querida Preta Gil. Brasileira, que não desiste nunca, e com coragem. A filha do talentosíssimo Gil resolveu não perder o momento e arriscar um versão de “Single Ladies”. Enquanto Beyoncé diz que “se você gosta devia colocar um anel ali”, incentivando os caras a se comprometerem, e UCB e Wale dizem pra você deixar as ondas do seu cabelo mais bonitas, Preta resolveu que a versão dela falaria sobre estar solteira naquele noite. Ok, é sempre carnaval, né?

Você gostou mais do qual? Preta Gil? Beyoncé? UCB e Wale? Ou as Esquiletes do novo Alvim e os Esquilos?


Mos Def, a atração do Indie Hip Hop ’09, por Dj Tamenpi

Mos Def será a tração do Indie Hip Hop 2009 (Divulgação Myspace)

Mos Def será a atração do Indie hip Hop 2009 (Divulgação/Myspace)

O Indie Hip Hop está chegando, na verdade faltam apenas três dias para o grande evento. Além da celebração de 10 anos desde o primeiro Dulôco, realizado em 1999, haverá uma exposição de fotos sobre momentos especiais do festival, no palco terão encontros memoráveis entre MCs brasucas, além das tradicionais “novidades” na cena.

No entanto, temos que destacar aqui também a atração internacional, que nada mais é que “Mister” Mos Def! Quem curte rap, no mínimo conhece o nome do cara, que de tanto talento, expandiu sua atuação para o cinema também.

No entanto, há quem diga que isso atrapalhou sua dedicação ao rap. Enquanto você lê o papo que tivemos sobre esse assunto, nosso entrevistado fez um medley especial para o post. Curta a trilha sonora enquanto lê a conversa com o Dj Tamenpi, um dos caras que mais manja de música que a gente conhece!

Continue acompanhando o Per Raps para saber também sobre as novidades do “Só Pedrada Musical”. Curte ae!

Dj Tamenpi (Foto: Joca Vidal)

Per Raps: Qual o primeiro álbum que você ouviu do Mos Def?
Dj Tamenpi: Eu já ouvia falar em Mos Def, por coisas da Rawkus, Soundbombing. Mas na época, a gente não tinha a facilidade de hoje; que sai um disco e a gente escuta na primeira semana, ou até antes do lançamento. Eu tive o prazer de ouvir o disco do Black Star e o primeiro do Mos Def, meio que juntos, e a partir daquele momento o cara entrou no hall dos meus mc’s favoritos. Isso foi, se não me engano, em 98.

Per Raps: E a pedrada “Mos Def and talib Kweli are Black Stars”? E você achou que 10 anos depois esse álbum seria tão importante para o rap?
Dj Tamenpi: Esse disco é sinistro demais! Um dos melhores de todos os tempos mesmo. A presença do Hi Tek produzindo engrandeceu muito. Tanto ele como J.Rawls, Ge-ology, Beatminerz e os outros. Mas o Hi Tek realmente roubou a cena nos beats. E essa parceria entre Mos Def e Talib Kweli é uma das mais impactantes no rap atual. Combinação perfeita! Mas sinceramente, na época eu não imaginava que 10 anos depois ouviria esse disco com a mesma emoção das primeiras vezes.

Per Raps: Quais seus sons favoritos desse álbum?
Dj Tamenpi: Essa pergunta é bem dificil. Mas vamos lá. Sem duvida nenhuma “Definition” é tão marcante que ja tá no sangue. Mas também tem “Brown Skin Ladies”, que já é uma vibe mais relaxante. É aquele som perfeito pra escutar bem acompanhado. E pra entrar na viagem, nada melhor que “Determination”. Além da sequencia final do disco que é uma das mais cabulosas com “Respiration”, “Thieves In The Night” e “Twice Inna Lifetime” seguidas. Essa foi f*da de responder, hein!

Per Raps: E o hiato entre “Black On Both Sides” para “The New Danger”? Acha que a carreira de ator atrapalhou a qualidade de Mos Def como MC?
Dj Tamenpi: Realmente não sei o que aconteceu. Mas o impacto do “The New Danger” foi bem estranho. As primeiras vezes que ouvi me decepcionei. Mas com o tempo me acostumei com o disco e acho muito bom. Bem a frente de tudo que estava acontecendo na época. O Mos Def tem um diferencial de não ter limites dentro de sua música. Experimenta tudo. É só lembrar da música “Umi Says”, né? É espetacular. E mudou a visão de muita gente dentro do rap. Não acho que a carreira de ator tenha atrapalhado sua qualidade, só tomou mais o tempo dele.

Per Raps: Em 2006 chega “True Magic”. Alguns apontaram esse como a álbum mais “apático” de Def, qual a sua opinião sobre ele?
Dj Tamenpi: Eu não gosto. E acho que nem ele (risos). Eu ouvi diversas histórias em relação a esse album. Acho que foi um disco por obrigação de contrato. Nem capa tinha. Não acredito que ele tenha se dedicado da forma que fez nos outros trabalhos.

Per Raps: E a pedrada com o Dj Honda, o “Travellin Man”. O que achou?
Dj Tamenpi: Eu conheci “Travellin Man” vendo o clip no YO! Nossa! Chapei demais com aquele som. E até hoje toco sempre e chapo muito quando escuto nas pistas da vida. Verdadeira pedrada!

Per Raps: Vamos falar do último álbum, “The Ecstatic”. Muita gente já considera o melhor álbum do MC, com direito a sample da Banda Black Rio e tudo. Você celebrou essa qualidade do álbum?
Dj Tamenpi: Com certeza. Estava há anos esperando. A musica “Auditorium” apareceu em videos no Youtube de shows dele e, a partir dali, eu vi que o disco viria do jeito que a gente gosta. Não acho o melhor disco dele. Ainda fico com o “Black On Both Sides”, mas já fazem 10 anos. O rap mudou bastante. Eu acho que é o disco perfeito pro momento atual do rap. Sem firulas. Rap verdadeiro na lata! Ouvi pessoas reclamando da qualidade da mixagem e da masterização, que a voz dele estava muito crua. Eu acho que ele fez isso de propósito. Enquanto todo mundo entope a voz com efeitos, autotunes e vocoders, o cara fez da forma mais roots possível, estilo sound system. Sem falar nos beats. São muito originais. Diversidade e qualidade em todos. Eu curto todos os sons.

Per Raps: E você curtiu o sample da Black Rio, além da possibilidade de uma apresentação do som junto da banda lendária aqui no Brasil?
Dj Tamenpi: Eu achei classe demais! Não foi bem um sample, né? O cara fez um loop no original e cantou em cima. Mesmo assim. É melhor do que alguns gringos que vem aqui, compram os nossos discos e fazem um bando de besteira estragando a nossa cultura. Acho legal a idéia da apresentação, to na expectativa, apesar da Banda Black Rio atual não ser aquela banda lendária dos anos 70. Vamos ver o que vai sair.

Per Raps: Pra terminar a conversa, por que as pessoas tem que ouvir Mos Def e colar no show no Indie Hip Hop?
Dj Tamenpi: Acho que o Indie Hip Hop tem uma série de shows da safra nacional do rap. Só por isso já vale colar no Sesc Santo André pra conferir. A apresentação do Mos Def engrandece ainda mais esse evento que é um exemplo bem sucedido no hip hop brasileiro. O Mos Def é um dos mc’s mais verdadeiros do rap atual. O som dele é real. É envolvido total com o mainstream de Hollywood, cada vez com mais destaque nos filmes em que atua. Mas não perdeu sua essência, como aconteceu com muitos que foram pelo mesmo caminho. Quando o assunto é rap, o cara é rua total. Representa o real hip hop.

Mais notícias sobre o Indie Hip Hop no Twitter. Siga-nos os bons!


P.U.T.S.

Imagem retirada do MySpace e editada por Shumiski

Imagem retirada do MySpace e editada por Shumiski

O P.U.T.S. pede passagem*

O grupo californiano People Under the Stairs (PUTS) fez uma passagem pelo Brasil no último mês que rendeu várias boas lembranças. Dos principais, participaram da primeira transmissão ao vivo da Rádio Boomshot, forma ao programa Manos & Minas (26/10), discotecaram no Milo Garage, tocaram na festa Chocolate (na Clash) e no espaço +Soma.

Acompanhamos de perto os corres que o Zeca MCA fez para garantir que rolasse a transmissão ao vivo na Boomshot (20/10), e felizmente tudo deu certo! Quem acompanhou o Twitter também teve a chance de ver todas as dificuldades dessa proposta ousada da Boomshot. Seguindo a agenda doPUTS, o grupo tocou na Chocolate, com direito a um freestyle empolgado do Thes One, além de um clima de festa que marcou o show desde o começo.

Já na +Soma, foi um fim de semana (dos dias 24 e 25 de outubro) de muito som. Quem recebeu o povo foi o Dj Tamenpi, pra variar só com pedradas! O som não colaborou muito no sábado e Thes One teve que segurar todo mundo no gogó de início. O som melhorou, voltou a ficar ruim e eis que o Edú Lopes (d’A Filial) interferiu pedindo pra que a galera mandasse energias positivas, já que a situação começava a ficar tensa. Alguns minutos depois, tudo voltou ao normal e o show seguiu bem até às 23h e tantas.

Para não deixar a passagem desse importante grupo de rap, o Per Raps resolveufazer a sua homenagem com imagens de duas parceira: A Luciana Faria (aka Lu Playmobile) e a Mayla Yumegari (do SneakersBR e Maze Skateshop). Curta ae a galeria e, se tiver imagens de qualquer uma das apresentações dos caras, mande pra gente!

* Com informações de Nathália Leme.


O lado B de Prefuse 73

Guillermo e Rasheed_CCJ (Juliana Ferracini)

O CCJ ficou cheio na apresentação de Prefuse 73 (Juliana Ferracini)

“Um outro lado do Prefuse 73” – por Eduardo Ribas

Prefuse 73 é um dos diversos projetos musicais de Guillermo Scott Herren, que também faz questão de dividir os créditos com seu parceiro de longa data, Ryan Raja Rasheed. Parceiro que, por sua vez, também possui um projeto bem interessante, o Leb Laze.

A dupla é de Miami, onde a maioria da população é de latinos, assim como Guillermo, de pai espanhol e mãe cubana/irlandesa. Rasheed foge da regra e é descendente de libaneses. Os dois se conheceram logo após os tempos de escola, possuem um humor parecido e curtem o mesmo estilo de rap. Apesar disso, tudo começou a ficar mais sério apenas quando Guillermo pediu que Rasheed remixasse uma fita e, logo depois, eles começaram a fazer turnês juntos.

Bem humorados e sem se preocupar com a marra tradicional no hip hop, os dois possuem uma aparência quase que similar: magrelos, com bronzeado de escritório à moda européia e com um estilo de se vestir básico e discreto. Pode ser que essa não tenha sido a imagem que você tinha construído em sua mente ao ouví-los, certo? Mas não se preocupe, você não é o único. Em uma passagem engraçada da carreira de 10 anos dos dois, alguns promoters já disseram na caruda que esperavam os “black dudes” (os caras negros) para tocar em suas festas. Tiveram que ouvir o latino e o libanês.

A conversa, com quase o mesmo tanto que risadas e idéias, rolou antes do show feito neste domingo (18/10), no CCJ. Quem respondeu a maioria das perguntas foi Guillermo, o “porta-voz” do Prefuse 73. Mais reservado, Rasheed só pontuava alguma coisa quando realmente se fazia necessário. Os assuntos variaram da marra no hip hop à falta de referência da molecada de hoje e aprendizados com a carreira e as turnês. Agora é só curtir!

Faço isso há muito tempo e não vou parar até estar morto!Guillermo Scott Herren

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E. Ribas (Per Raps), Rasheed e Guillermo no CCJ - Foto de Carol Patrocinio

A ideia inicial rolou sobre a evolução musical do Prefuse 73 desde sua última passagem pelo Brasil. Guillermo diz que era difícil ter uma resposta. “Nós apenas tocamos, não esperamos muito. As pessoas têm o que oferecemos, e oferecemos 100% de respeito. Se vocês não gostam disso, então me desculpe. Não tem muito o que fazer a respeito”. Quando fala do som de Prefuse 73, Guillermo afirma categoricamente: “gosto de fazer música barulhenta”. Ambos concordam que fazem um som progressivo e não necessariamente algo diretamente ligado ao hip hop.

A dupla se apresenta com vários fios, vocais feitos por Guillermo, um notebook, MPC, uma mesa de som e sintetizadores. Claramente tímidos, nenhum dos dois procura encarar a plateia e até na hora de reagir a assobios, apenas acenam. “Se recebemos resposta da plateia achamos legal, mas não somos o tipo de banda que diz: obrigado, como está sendo essa noite pra vocês?”, responde Guillermo. “Estamos nessa há 10 anos, não precisamos de abraços de cada um que está na plateia. Nós somos só uns caras que querem fazer um som e trocar uma ideia. Não somos o Led Zeppelin, sabe?”, ironiza.

A partir daí, surge a dúvida sobre a diferença de comportamento da dupla em uma apresentação ao vivo e dentro de um estúdio. “No estúdio você precisa fazer algo que as pessoas vão ouvir e comprar. É totalmente diferente! Num estúdio você está confinado com máquinas por todos os lados e ao vivo você tem que ir lá e mandar ver. Como se fosse no jazz, você improvisa em cima de um tema, mas no jazz os solos podem durar uma hora, nós não podemos fazer isso!”.

Guillermo diz que às vezes uma parcela do público parece esperar algo diferente do que ele realmente é, mas quando o conhecem, conseguem perceber que ele não é o que esperavam. “Tem gente que chega tipo: e ae, mano, firmeza? E eu, tipo: E ae, tudo bem? Não seguimos a regra, simplesmente fazemos nossa parada”. Aliás, essa parece ser uma preocupação recorrente de Guillermo, já que muita gente parece não entender a proposta de seu som, sem contar com os estigmas do hip hop, que teimam em continuar existindo. Mas pra ele, isso só serve para mostrar o quanto as pessoas podem ser engraçadas. “Uma vez, um promoter do nosso show recebeu uma ligação perguntando que horas o cara negro chegaria. E ele respondeu: então, na real o cara é tipo cubano, sabe? E o cara: aaah, tá”.

[Youtube=http://www.youtube.com/watch?v=1Lm6fS_dGkY]

Amadurecimento profissional

Quando comecei, eu era bem tímido, sabe? Na hora de tirar fotos, eu sempre tinha que me esconder. Mas o sentido disso tudo era: não me entenda como um mano, nem como uma personalidade, deixe que seja a música. Quando saiu o segundo álbum, eu estava mais sob controle da parada e chega um ponto da carreira que tudo está mais firme, então você tem que ir lá e fazer a foto, a entrevista e lidar com isso. Aprender isso é parte do processo.

E nesse mundo de turnês, se você quer ser levado a sério isso faz sentido. E se você pensar pelo lado de que as coisas só irão acontecer se você tiver um manager ou um selo, esquece. Você vai desmoronar em um ano! A maioria do tempo sou eu e ele (Rasheed), correndo pelos aeroportos com nossas coisas, tirando fotos.

Influências e sonoridade

Nós dois obviamente temos um background do rap do final dos anos 80 e os anos 90. Até nos outros projetos isso é perceptível, obviamente nós temos esse laço. Mas curtimos alguns “barulhos” do Japão, que são melhores que qualquer hip hop desses que estão sendo feitos hoje. As pessoas perguntam o que eu ando ouvindo e esperam que eu responda uma parada underground, então respondo: eu gosto do novo do Jay Z. É um som poderoso, sabe? Ao mesmo tempo estamos ouvindo músicas da Itália, depende muito. É legal ter um certo humor por trás dos sons. E o importante é se divertir.

Poderíamos ser uns caras que falam “foda-se”, mas não, não nos importamos com pose e coisa do tipo. Crescemos juntos (Guillermo e Rasheed), pegamos nossas influências e tentamos crescer, evoluir. Muitas bandas hoje têm fórmulas pra fazer sucesso. Tem umas fórmulas da TV pra se chegar ao sucesso. Não sei como, mas ainda estamos tocando nosso som e nos divertimos.

Queremos ser mais engraçados que sérios, não queremos dizer que gostamos do hip hop do passado. Porque o que aconteceu nos últimos 10 anos, tem coisa boa, coisa não tão boa, mas não quero ser representado por nada disso. No Brasil a cena é foda e eu sempre permaneço atento a ela, mas tem uns lugares do mundo que não dá, não queremos isso pra gente.

O rap hoje em dia

Guillermo acredita que os raps ficaram mais inteligentes nos anos 90, já que os MC’s falavam baixarias com analogias complexas ou de um jeito mais refinado e isso soava bem legal para ele. Mas hoje, as pessoas parecem não se importar mais, pois segundo ele, a molecada não tem muita referência. “Algumas coisas são inteligentes demais pra eles! Ninguém entende o que o Mos Def tá falando, sabe? A molecada quer o instantâneo, quer pegar o som e jogar no iPod. É tudo: Bam! Twitter e tal. ‘Aqui está o som, baixe aqui.’ Nós estávamos aqui antes disso e permanecemos mesmo depois, essa é a parte mais importante”.

A decepção com os jovens de hoje acaba revelando uma concordância com as ideias de Jay Z, de morte do Auto-Tune (D.O.A). “O hip hop porcaria do rádio parece aparecer assim: em dois segundos se escreve algo e aí, esse é o gancho e o verso vai rimar com isso. E então, para o auto-tune!”

“Os jovens não querem ouvir umas paradas desafiantes, mas você tem que pensar: não me importo com isso. Daqui há 20 anos quando você for ouvir os clássicos, T-Pain não estará lá! Vai ser um disco do Doom ou do Madvilain. E vão falar: se liga nessas gravações. E as paradas ainda vão ser mágicas, sabe? Hoje tudo soa meio ‘rave’, tudo tem auto-tune. É claro que tem coisas que eu ouço, claro. Mas chega no dia seguinte e eu esqueço. Não vou chegar a comprar nada disso”.

Conclusão

Mesmo com toda essa perspectiva aparentemente desfavorável, Guillermo e Rasheed ainda buscam motivos para prosseguir. “Se desistíssemos por causa do panorama, estaríamos trabalhando em trampos regulares. Faço isso há muito tempo e não vou parar até estar morto! Eu simplesmente não vou, sabe?” E estamos contando com isso!

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Quando dá vontade de escrever sobre um show

Foto: Reinaldo Canato/Entrelinhas

As irmãs Célia e Hélène Faussart no Sesc Pinheiros Foto: Reinaldo Canato/Entrelinhas

“Um duo capaz de seguir no repeat, eternamente” – por Eduardo Ribas

Mágico. Quando uma apresentação musical é definida por essa palavra, pode-se ter certeza de que não foi um simples show. Duas cantoras, ambas com vozes que não são desse mundo, capazes de manter um sorriso aberto por uma hora e meia, assim como arrepios sequenciais, tamanha a emoção passada em cada interpretação. A quem me refiro? Les Nubians, dupla franco-camaronesa que veio ao Brasil em 2009 graças às comemorações do ano da França em terras tupiniquins.

Com vestes tradicionais africanas, além de pinturas tribais no rosto, as irmãs Célia e Hélène Faussart mantém literalmente os pés na contemporaneidade com sapatos de salto alto – abandonados próximo ao fim da apresentação. Outro traço do ‘hoje’ são as inúmeras visitas a ritmos de diversas partes do globo, do samba ao reggae, lembrando das percussões tribais até no R&B. E não havia ligações só com o moderno, mas também com o público.

Conversando com a platéia em português, que por vezes virava portunhol, as irmãs conseguiram passar sua mensagem: elogiaram a eleição de Barack Obama, questionaram os ideais franceses de “liberdade, ïgualdade e fraternidade” e mostraram que a imagem que o Brasil tem no exterior é de unidade, mas que tiveram acesso as lutas de movimentos negros desde os anos 80 por aqui e assim deram ainda mais valor a história do país. Além disso, mostraram a sua visão em relação a música, fator de mudança do mundo, que primeiro precisa partir do indivíduo, para depois contagiar o próximo e assim por diante.

Empolgaram com “J’veux D’la Musique”, fizeram o público cantar em sua versão de “Tabou” e em uma das poucas composições inteiras em inglês, “Temperature Rising” – com direito a uma versão de “Mas Que Nada”, de Sérgio Mendes, no meio do som – também obedeceram um pedido do público, cantando “Demain” a capela, despertaram “bicos” que ensaiavam o francês em “Makeda” e, para finalizar, “Saravah”, já no bis. Para quem não esperava uma visita musical das irmãs Nubians tão cedo, até pelo não lançamento de um material novo recentemente, foi uma surpresa e tanto. O próximo CD da dupla foi prometido para 2010.

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Célia Faussart cantou, encantou e até arriscou um samba no pé (Reinaldo Canato/Entrelinhas)

Para muitos ali, a dupla poderia continuar cantando num repeat infinito.