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Manos e Minas deixa grade da TV Cultura

Anúncio Manos e Minas

“Pra onde foi o respeito que o hip hop merece?” – por Carol Patrocinio com entrevistas de E. Ribas

Com um sonoro “Acabou” recebemos a notícia, do produtor Zeca MCA, que o programa Manos e Minas, da TV Cultura, havia oficialmente sido extinto. A alegação da emissora estatal é que isso ocorreu por “política da empresa” e que não tinha nada contra as pessoas envolvidas. “Tá todo mundo triste, mas sabemos que é um jogo de favores e favorecimento. O Manos e Minas não é um porgrama caro, então parece ser mais uma política da empresa de não querer falar com esse tipo de público. Cortaram as vias de acesso com a juventude”, explica o apresentador do programa, Max B.O..

Pra quem ainda não entendeu do que estamos falando, aqui vai a explicação. Nesta quinta-feira (5) pela manhã, todos que buscaram ler o jornal O Estado de S. Paulo*, se depararam com a seguinte afirmação do presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad: “O Vitrine deverá ser suspenso para reformulação. O Manos e Minas sai da grade, assim como o Login. Em compensação, haverá um jornal com debates todo dia. Teremos sessões de cinema em acordo com a Mostra de Cinema de São Paulo”.

Para Max B.O. a conclusão é simples: “Eles dizem que estão sem orçamento, mas contrataram a Marília Gabriela. Eles preferem pagar duzentos pra um ou dois, que pegar duzentos e dar um pra duzentas pessoas”. Curiosamente terminam os dois programas direcionados aos jovens na emissora.

Manos e Minas/Foto: DJ Erick Jay

Depois de saber de sua demissão por uma mensagem de celular recebida de uma produtora que trabalha na emissora – “Força”, dizia o texto – Max chegou a conclusão de que “se os caras mandaram embora até o Heródoto Barbeiro“, não era o Manos e Minas que seria poupado. Saído do MC RAPorter da RedeTV!, o apresentador comenta que sabia que o trabalho ali não seria eterno: “Um dia eu sabia qeu deixaria de ser apresentador (do Manos e Minas), mas gostaria ir lá me apresentar como MC no programa”.

As especulações sobre o programa, que já teve nas pick-ups o saudoso DJ Primo, já aconteciam há alguns dias e rumores rondavam a internet. Alguns, como Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, acreditam ser uma ação partidária: “Maluf, Quércia e Fleury governaram São Paulo e respeitaram os princípios públicos da TV Cultura de São Paulo. Quem destruiu a TV Cultura foram os governadores que há 16 anos coronelizam São Paulo. Agora, José Serra joga a pá de cal”.

De acordo com a definição do site da própria emissora, a TV Cultura é uma “emissora de televisão brasileira de sinal aberto que oferece à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promove o aprimoramento educativo e cultural de seus telespectadores”. Se é esse o objetivo, o que está acontecendo? Será que estão errando a mão na hora de ‘colocar ordem na casa’?

Por inspiração de seus fundadores, as emissoras de sinal aberto da Fundação Padre Anchieta não são nem entidades governamentais, nem comerciais. São emissoras públicas cujo principal objetivo é oferecer à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promover o aprimoramento educativo e cultural de telespectadores e ouvintes, visando a transformação qualitativa da sociedade” Do site da Fundação Padre Anchieta

“Nossa plateia era de estudantes, o Manos e Minas valia como nota para quem relatava o que rolava no programa. Tinham salas que ganhavam o direito de ir ao programa como prêmio, sabe? Também iam pessoas de casas de assistência, pessoas com liberdade assistida…”, conta o apresentador. A pergunta que fica é: seria esse o problema?

Manos e Minas - equipe/Foto: Dj Erick Jay

Conversamos com algumas pessoas para saber o que acham das mudanças de rumo da emissora que teria, por princípio, a iniciativa de levar conteúdo de interesse público aos telespectadores. E pela movimentação acontecida no Twitter, que levou a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, o público quer que o programa, e alguns outros da emissora, continuem na grade.

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André Maleronka – jornalista, editor da Revista Vice e colaborador da Revista +Soma

André Maleronka

Acho que isso significa uma ideia de cultura e de papel do Estado das quais discordo. As declarações do presidente da TV Cultura – ele menciona ineficiencia e inchaço do quadro de funcionários – são uma faca de dois gumes. Essa suposta eficiência: é de audiencia que ele fala? Uma Tv do estado não deveria ter isso como objetivo, na minha opinião. Inchaço: normalmente isso é causado por má administração. É o mesmo grupo que está no poder do Estado de SP há 24 anos.

Então é tudo muito esquisito. Mas acho que, resumindo bem, é isso: me parece uma ideia (ideologia neoliberal, na verdade) de cultura enquanto entretenimento e realização enquanto sucesso financeiro. Lamento, e acho uma visão de mundo bem rasa.”

Daniel Ganjaman – produtor musical, engenheiro, músico e DJ nas horas vagas

Daniel Ganjaman

Atualmente, o Manos e Minas é a única voz da cultura de rua na televisão brasileira. Vivemos um momento onde manifestações artísticas e culturais tem pouquíssimo espaço nos meios de comunicação de massa no Brasil. O Manos e Minas sempre foi um programa muito democrático, com espaço pra música, dança, arte, temas sociais e muitos outros assuntos que não são comuns na grade de outras emissoras. Além disso, havia o foco em temas ligados a periferia de forma criativa e produtiva, com ênfase nas manifestações culturais da comunidade – assuntos só abordados em outros programas com um certo ranso de ‘coitadinho’ ou de ‘caridade’.

Vejo que a situação é muito mais séria, já que está prevista uma demissão em massa e uma completa reformulação na grade da emissora. A existência da TV Cultura sempre foi um diferencial enorme dentro da programação da TV brasileira exatamente por se tratar de uma emissora estatal, sem um compromisso direto com os números de audiência. Isso possibilitava uma programação muito mais interessante e despretenciosa, o que é praticamente impossível numa emissora com interesses comerciais. Ao mesmo tempo, acredito que de certa forma esse é o caminho natural das coisas, já que hoje em dia é possível ter acesso a esse tipo de programação mais específica pela internet, onde o acesso vem ficando cada dia mais democrático. Sinceramente, acredito que a criação de portais de internet dedicados a essa cultura ou um upgrade nos portais existentes pode ser uma forma de cobrir parte desse buraco que ficará na ausência do programa Manos e Minas. Com certeza, uma perda irreparável”

Pedro Alexandre Sanches – jornalista cultural e autor dos livros “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” e “Como Dois e Dois São Cinco”

Pedro Alex Sanches

São Paulo tem uma triste tradição no que diz respeito aos espaços reservados para manifestações culturais das populações menos favorecidas em geral. O hip-hop ocupa um lugar importante nisso que considero uma forma de discriminação, que a gente nota em episódios como a resistência da Virada Cultural em escalar rappers, ou esse agora com o programa “Manos e Minas”. Não é um problema só da TV Cultura, é muito mais generalizado, mas o triste, agora, é justamente a TV Cultura, talvez o único veículo de São Paulo que andava se preocupando, fechar o espaço que havia aberto. É um retrocesso, e, repito, esconde, sim, por trás uma carga forte de discriminação. Programas elitistas como o ‘Manhattan Connection’, do GNT, também dão audiências pequenas (e pouco lucro, imagino), mas não consta que pensem em tirá-los do ar por causa disso”

Leandro Roque de Oliveira aka Emicida – rapper e ex-apresentador de um dos quadros do Manos e Minas

Emicida

Desrespeitar o hip hop, infelizmente, já é uma característica de orgãos culturais, excluir o rap idem, mas o que me chocou nesse ‘cancelamento’ – coloco entre aspas pois até agora não fui notificado formalmente de minha demissão pela empresa que me ‘contratou’ e coloco entre aspas para ressaltar a importância deste contrato – foi o desrespeito a mim e a mais, aproximadamente, 20 pessoas que integram a equipe do Manos e Minas.

Fomos comunicados de nossa demissão (fora o resto das equipes dos outros programas também excluídos da grade), através de uma entrevista em um dos maiores jornais do país, cedida pelo novo presidente, João Sayad. Dizem que quando nos dirigimos a presidentes devemos expressar respeito utilizando termos como ‘excelentíssimo senhor’ e outras formalidades, mas de onde eu venho, não se deve mostrar respeito por quem não te respeita, e nesta atitude, no minimo bagunçada, da TV Cultura junto com essa nova diretoria, sobraram dúvidas, demissões, cortes e desrespeito pelas pessoas que dedicaram seus talentos à instituição.

Fala-se em construir uma nova TV cultura (excluindo programas culturais?), fala-se em reformular a grade, atrair o interesse da população (a mesma que era representada por um programa como o Manos e Minas), falou-se até em venda do terreno nestes últimos dias (que isso?). Eu não tenho palavras rebuscadas para enriquecer os textos como muitos, nem me considero tão inteligente assim, mas ontem fui a uma reunião em que ouvi ‘o programa é maravilhoso, o custo não é alto, dá uma resposta legal de audiência, mas está fora’.

Nunca vi aquilo como um emprego, assim como muitos da equipe como Truty, Zeca MCA, Max B.O., Erick Jay e outros que vivenciam o hip hop fora da sala de produção, víamos aquilo como uma oportunidade de levar a cultura, com a nossa cara, para nossos irmãos, aqueles que não se veêm representados nos artistas que vão no Faustão (com todo respeito a estes artistas), aqueles que já não têm acesso a saneamento básico, moradia, alimentação, educação decente e agora perdem seu programa companheiro dos sábados, onde podiam ter uma opção para fugir da programação nojenta da grade da tv aberta brasileira (salvo raras exceções).

Nos resta aguardar esta ‘nova TV Cultura’, que terá para sempre em sua história, este primeiro passo torto, como se tivesse sido empurrada por uma direção que se pautou pelo próprio umbigo. É ano de eleição, não faço campanha pra ninguem, acho que estamos ruim de opções, não acredito em coincidências nem gosto de ver caracteristicas comuns nos adversários (pois é assim que enxergo quem fecha portas para nós). Após ver estas características comuns o segundo passo é generalizar, coisa que também odeio fazer, e o terceiro passo é dizer: PSDB é foda”

Jair dos Santos aka Cortecertu – DJ, pesquisador e editor adjunto do site Central Hip-Hop

DJ Cortecertu

O Manos e Minas representa um dos braços do Hip-Hop na mídia, pois não é apenas um programa, o Manos e Minas é parte da retomada dos trabalhos que dão visibilidade ao Rap e à cultura de rua, numa articulação com outros estilos musicais como o samba-rock. Em dois anos de vida, o programa tratou com respeito nossa cultura.

Ao meu ver, o Manos e Minas poderia dar espaço para outros tipos de rap feitos por aqui, isso aumentaria a audiência e o poder de influência do programa. As manifestações em favor do programa pela internet mostram a diversidade em nosso cenário, artistas e curtidores de vários estilos divulgaram seu apoio, isso é um sinal, algo que precisa ser levado em conta para a resistência do Manos e Minas e para a criação de qualquer iniciativa semelhante”

Do outro lado do muro
Em comunicado oficial, a Fundação Padre Anchieta, responsável pela TV Cultura, explica os cortes:

tv-cultura

Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Mobilizações
Além da mobilização virtual para achar atenção ao caso levando a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, acontecerão as demonstrações presenciais de insatisfação com a emissora. Veja qual o melhor dia e horário pra você fazer a sua parte e escolha sua manifestação.

Rinha de MC’s

Show do Emicida em Santos
Quando? Sexta-feira (6) às 23h
Onde? Club 49 (Rua Visconde do Rrio Branco n° 49 – Santos/SP)

Quer ler mais?
* No jornal O Estado de S. Paulo: “Sayad admite inchaço da TV Cultura, mas avaliará demissões caso a caso”

* No Conversa Afiada: “Tucanos fecham TV Cultura. Eles já têm a Globo”

* No Coletivo Action: “O fim do Manos e Minas?”

* No blog de Jéssica Balbino: “Salve Manos e Minas”

* No R7: “Fim do Manos e Minas causa protestos no Twitter”

* No blog Jornalismo B: “Comentários sobre uma emissora pública de televisão”

* Mídia Kit da TV Cultura: Saiba quem assistia a programação

* No Central Hip-Hop/Bocada Forte: “MobilizAção: militante quer acionar ministro pelo Manos e Minas”

Não confunda briga com luta. Briga tem hora pra acabar e luta é para uma vida inteira” Sérgio Vaz

O Per Raps agradece a ajuda de todo mundo que colocou no Twitter a tag #salveomanoseminas e ainda está colocando, além dos blogs e pessoas que ajudaram a fortalecer essa luta. Sem nomes porque quem fez sua parte, sabe. E quem não fez não merece nosso respeito.


Cultura também é resistência

“Não há paz sem justiça” – por Carol Patrocinio

Police extermination policy por Carlos Latuff (latuff2.deviantart.com/)

Imagem de Carlos Latuff (latuff2.deviantart.com/)

O rap está dentro da cultura hip hop e essa cultura, nada mais é, do que uma forma de resistência, uma maneira de encarar o mundo diferentemente do que querem que ele seja encarado.

Fazer parte de uma cultura como essa é ir contra as desigualdades, contra o vigente, contra o comodismo. E o rap até pode ser feito por diversão apenas, mas como algo inserido no movimento hip hop, não pode ser totalmente descompromissado ou apenas ser música pela música.

E pensando na resistência, o que você tem feito para mudar o mundo? Como você tem se organizado para tornar diferente a realidade? Não é preciso grandes atos, momentos heroicos. Você recicla seu lixo? Prefere produtos que não agridam a natureza? Olha nos olhos das pessoas quando fala com ela? Baixa o vidro do carro quando um moleque chega perto com olhos baixos? Quanto você faz e quanto gostaria de fazer?

Resistência não é apenas entrar num movimento social e sair às ruas. Você pode fazer a sua parte na internet, sem sair de casa, seguro. Você pode fazer isso diariamente no seu trabalho, mudando pequenas ações. A sua parte precisa ser feita, independentemente da forma escolhida. E é disso que se trata o documentário “Cultures of Resistance”.

O filme vem sendo exibido em festivais pelo mundo e disponibiliza alguns materiais na internet. É impossível não pensar no que temos feito logo após assistir ao trailler – o que motivou este post. É normal pensar em conflito por causa de guerras, Irã, Iraque. Problemas raciais na África – pra onde todo mundo resolveu olhar por causa da Copa.

Só que muito se esquece que tudo aquilo que passa na TV sobre os problemas enfrentados nos ‘piores’ lugares do mundo também acontece aqui, pertinho, no dia-a-dia. O Brasil vive uma guerra não declarada diariamente, o que é muito pior, porque o país continua sendo visto como “tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.

O documentário mostra também ações aqui no país. Gente que luta contra essa guerra silenciosa, que não esquece que o mundo está um caos apenas porque a seleção vai jogar. O que poderia ser feito com a grana que cada um dos jogadores vai ganhar quando voltar? O que poderia ser feito com o investimento no pão e circo se essa verba fosse levada para a educação, por exemplo?

Não é só o rap, mas principalmente ele tem voz para mostrar e mudar esse outro lado. A única coisa que é necessário é escolher qual a sua arma. Não se acomode, lembre que o mundo não para e a única maneira de tornar as coisas diferentes é começando.

Foto de André Cypriano (andrecypriano.com)

Foto de André Cypriano (andrecypriano.com)

Veja o vídeo com partes do documentário sobre o Brasil no Vímeo.

Cultures of Resistance
Caipirinha Productions – 2010
Direção: Iara Lee
Produção: George Gund
Edição: Jeff Marcello
Câmera: David Ross Smith
90 minutos


Ferréz e o sucesso da 1DASUL


O brasão do nosso povopor Eduardo Ribas

Em tempos de Fashion Week, nada melhor do que ignorar o que rola nas passarelas da high-society para dar atenção a iniciativas populares de sucesso. Quem é que nunca viu alguém andando pelas ruas de Sampa – e, espero eu, que em outros cantos do país – com uma camiseta da marca 1DASUL?

Criada há 11 anos pelo escritor Ferréz, a marca simboliza a auto-estima da periferia em forma de moda, uma vez que cada um que veste a 1DASUL mostra seu orgulho por viver no Capão Redondo ou simplesmente por respeitar a comunidade. Além da marca, mensagens politizadas também estampam as camisetas com frases como “Bom dia Vietnam, Bom dia Capão”.

Hoje, a 1DASUL não é apenas reconhecida e encontrada no Capão ou na Zona Sul de São Paulo, tomou as ruas com adesivos em carros, bonés, mochilas e uma diversidade de produtos que vão de pézinhos de moto a vinho.

No seu começo, a marca produzia pouco e era conhecida principalmente por suas camisetas, mas já apresenta um número considerável de produtos, todos feitos nas próprias quebradas; no Capão Redondo, em Guarulhos, Jaú, Jardim Irene e outros lugares.

“Ao invés de procurar um grande fornecedor de mochilas que trabalha fora, no centro, que não propicia nada pra periferia, eu vou procurar um pequeno. Ai eu potencializei o cara”, conta Ferréz sobre sua estratégia, em entrevista para a jornalista Mona Dorf.

A grande novidade da 1DaSul é o lançamento de um site, o 1dasul.com.br, que traz informações da marca, pontos de venda, mostra os produtos, traz fotos, vídeos e um blog com agenda cultural. Na descrição da marca, uma frase salta aos olhos: “O logotipo da 1DASUL tem como ideia ser um brasão do nosso povo”.

Se a ideia era essa, o objetivo foi alcançado. Enquanto isso, Ferréz consegue ainda continuar se dedicando à literatura, viaja o país participando de debates e palestras, além de escrever em cerca de oito blogs. Mas sobre Ferréz, falamos uma outra hora.

Leia também
Ferréz entrevista Eduardo, do Facção Central

Mais
Site 1DASUL
Blog do Ferréz


Os 12 trabalhos de Parteum


Rap terá nova chance na Trama – por Débora Costa e Silva*

Uma mistura de sonho e decatlo: é assim que Fabio Luiz, o rapper Parteum, define a rotina de seu trabalho na Trama. De manhã, no escritório, à tarde no estúdio. Entre idas e vindas, há cerca de 10 anos ele está na gravadora gerenciando as ações da empresa na internet e em redes sociais, divulgando artistas, estudando e produzindo rimas e sonoridades.

Poucos conhecem de perto esse lado da moeda Parteum, mas ela caminha junto com o lado artista. Ele despontou no trio Mzuri Sana, ao lado de Secreto e DJ Suissac. Em 2005, lançou seu primeiro álbum solo, o “Raciocínio Quebrado”. Entre alguns de seus trabalhos, estão a coletânea “Direto do Laboratório” e a trilha sonora do filme “Antônia”.

A Trama tem em seu catálogo 74 artistas nacionais, mas são os quase 70 mil cadastrados na Trama Virtual que ajudam a trazer novos ares à música brasileira. O sistema é gerenciado pelos próprios artistas: eles que cadastram suas músicas, fotos, letras e informações na internet – a Trama é só o suporte. Daí que vem a grande novidade: uma empresa encabeçando e apoiando um movimento típico underground, no melhor estilo “do it yourself”.

“A Trama nunca foi tradicional, sempre pensou nas possibilidades, não deixou o ‘business’ preso a uma única mídia, a um único modelo de negócio”, diz Parteum. Ele afirma que não sabe se teria outra empresa de entretenimento que daria a ele a chance de ser dono de seus masters ou daria suporte para licenciar suas obras. “Quando o João [Marcelo Bôscoli] e o André [Szajman] (donos da Trama) me disseram que tratava-se de um movimento de música, entendi o conceito, a visão e o trabalho”, lembra.

Entre os cadastrados na Trama Virtual, 3.400 escolhem a categoria Rap/Hip Hop para definir seu estilo musical no site. Na opinião de Parteum, os destaques são Contra Fluxo, Firma Brasileira, Slim, Gurila Mangani, Cabes, Savave, Projeto Manada e DJ Nato PK.

O Per Raps entrevistou o Parteum para entender um pouco de seu trabalho, saber o que pensa do atual momento da música brasileira e do hip hop e descobrir os projetos que a Trama tem na agenda de 2010.

O que ele já adiantou é que está finalizando seu segundo disco solo e paralelamente trabalha no novo álbum de seu irmão, o rapper Rappin’ Hood, na trilha sonora de um documentário e no “novo Trama Virtual”. É porque este ano a empresa vai lançar e renovar seus sites, entre eles a TV Trama (transmite ensaios, gravações e entrevistas), o Álbum Virtual (que será abastecido com novos discos graças à parcerias com outros selos) e a Trama Virtual.

Entre os lançamentos musicais, a gravadora tem dez álbuns no forno, sendo dois deles de rap. Mais de 400 álbuns virtuais (disponibilizados gratuitamente, com encarte para download e tudo) também estão no cronograma, entre eles o do Ed Motta, Guizado e Rappin’ Hood. Ainda tem muita novidade que carece de detalhes, mas que já causam furor, entre elas um festival. “Num ano atípico como 2010, com Copa do Mundo e Eleições, temos muito trabalho pela frente”, garante Parteum. Só nos resta conferir.

Per Raps: Existem profissionais focados na observação do que está despontando no cenário (e dentro do Trama Virtual) e tentar trazer para a gravadora Trama? Ou é mais comum acontecer o contrário: o artista que busca vocês?

Parteum: Um pouco dos dois, mas o que mais importa é o senso de parceria e empreendimento dos artistas. Móveis Coloniais de Acaju é um bom exemplo, agem como uma cooperativa, investem, arregaçam as mangas e trabalham. A arte sempre vai bem, não importa o gênero, mas transformar o ato de fazer música em negócio só funciona para gente muito esforçada. Já disse isso antes, se o próprio artista não cria um negócio ao redor de suas criações, o mercado se encarrega de colocá-lo contra a parede. Sempre foi assim. Não devemos nos enganar achando que as negociações (com gravadoras ou centralizadoras de mídia) estão melhores no clima atual.

Per Raps: A Trama desde o início incentivou muito o hip hop e a gente queria saber se neste ano o “gênero” vai ganhar ainda mais espaço, algum investimento especial ou se terão projetos específicos na programação da Trama para este segmento.

Parteum: Sim, mas por termos um grande número de usuários em nosso site de “auto-publicação” (Trama Virtual), observaremos o que acontece por lá, e planejaremos ações e lançamentos a partir dos indicadores da comunidade.

Per Raps: Você acha que existe espaço hoje para fazer um volume 2 do “Direto do Laboratório”, de 2003? Você, que foi o produtor, acha que a cena atual do rap tem representantes expressivos para integrar um projeto desses?

Parteum: Sim, claro. No momento, me preocuparia bem mais com a estratégia de lançamento virtual, CDs, distribuição e assessoria de imprensa de um projeto desses. Fiz o primeiro “Direto Do Laboratório” com parte do orçamento do primeiro EP do Mzuri, era um exercício de possibilidade. Não vendeu muito, mas ajudou a cena, creio eu. Nunca considerei a arte feita aqui, entre os Hip-Hoppers brasileiros, um problema. Acho que a grande missão é criar público, não o contrário.

Per Raps: Como você tem visto a situação do rap brasileiro em relação às mudanças na indústria fonográfica e nos meios de comunicação, em tempos em que os próprios artistas se reinventam, onde todos procuram alternativas e caminhos novos para divulgação (no caso dos artistas) e lucro (no caso das gravadoras)? Acha que o rap pode ser economicamente viável? Se não, o que poderia ser feito de diferente para que seja?

Parteum: Como artista posso dizer que, hoje em dia, dependo bem mais da Apple e de uma boa conexão Wi-Fi do que qualquer selo/gravadora para fazer minha música, divulgá-la e distribuí-la. A música está mais livre do que nunca, o número de artistas é imensamente superior ao período pré-internet, ou ao menos essa é a impressão que eu tenho. É plausível aplicar a visão ‘Long Tail’ à essa realidade, é necessário enxergar o sucesso além dos números individuais de venda e alcance de cada estilo. O Rap será economicamente viável para alguns, não muito para outros, mas a música sempre vence no final.

*Débora Costa e Silva é jornalista e escreve para o UOL Viagem, além de ser uma das grandes incentivadoras do blog Per Raps.

Mais:
Twitter
TramaVirtual
Mzuri Sana


Erykah Badu consegue sample via Twitter

O poder das redes sociais*

**Erykah Badu birthday mix (por Jay Eletronica)
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-02-26T12_49_46-08_00.mp3″

Quem acompanha o que rola pela web já percebeu que praticamente tudo pode acontecer nesse lugar. Não foi diferente com a diva do soul, Erykah Babu. Trabalhando para finalizar seu próximo álbum, o New Amerykah Part Two: Return of the Ankh, previsto para 30 de março, ela vivenciou a força da internet.

A data de fechamento do álbum estava chegando, no entanto uma das faixas ainda possuía uma pendência: a autorização de um sample (aka trecho de música) de sir Paul McCartney. A tarefa parecia ser praticamente impossível de ser cumprida, já que o prazo de Erykah Badu era de apenas 24 horas. Eis que a cantora apelou para o microblog Twitter e requisitou ajuda. “Estou tentando ter a autorização de Paul McCartney para um sample e ouvi que Lenny Kravitz conhece a filha dele, Stella, e talvez eu consiga entrar em contato com ela”.

Em pouco tempo, a cantora conseguiu resposta de pessoas dispostas a ajudá-la, como  Zoe Kravitz, filha de Lenny Kravitz, e até Stella, a filha de Paul McCartney, entre outras pessoas, como o manager da Madonna. Ainda está duvidando da potência das redes sociais e que Erykah Badu tem a força? Ali pelas 10 da manhã (nos Estados Unidos) desta quinta-feira (25), veio a confirmação: “Paul McCartney aprovou o sample. Pronto!!!”.

Esse foi apenas um exemplo da força das redes sociais. Aqui no Brasil, o rapper Gog criou uma letra para o rap “Música e Liberdade” com a ajuda de seus “seguidores” do Twitter (Leia mais no Portal Rap Nacional). É dessa forma também que jornalistas conseguem fontes, pessoas se aproximam de outras com os mesmos interesses e por aí vai. Realmente, sabendo usar, as redes sociais acabam ajudando bastante.

Mais (Erykah Badu)

Myspace

*Com informações da Rap-Up.
**Baixe a mix no site da Vibe.


Rap não é moderno, é conservador

O rap é conservador demais para o mundo de hoje – por Carol Patrocinio

Não sei você, mas eu leio a Veja toda semana. Ok, mentira. Não leio, mas folheio todas as páginas só pra ver se tem algo absurdo demais para passar batido. Não, não sou uma leitora por prazer, mas para saber o que tem sido falado e o que a maior parte das pessoas no país passará a levar como verdade absoluta da semana. De vez em quando sou surpreendida e encontro algo realmente bom, que merece ser lido e, talvez, passado para outras pessoas.

O personagem das páginas amarelas dessa semana é o escritor inglês Nick Hornby. E o que isso tem a ver com o Per Raps, certo? O cara é um dos maiores estudiosos da cultura pop que consegue transmitir esse conhecimento de forma atraente. Ele é autor de diversos livros, entre eles “Alta Fidelidade“, que virou filme e ganhou o coração de milhares de apaixonados por cinema e música. A entrevista trás, além de curiosidades sobre sua carreira e motivações, um ponto de vista bastante interessante sobre o rap – que obvia e erroneamente é chamado de hip hop na publicação.

Hornby diz que o rock perdeu seu lugar de contestação social e que quem ainda faz isso é o rap. Ok, todos nós concordamos. O rap busca mudança, transformação e tal, mas sabe o que mais ele diz? Que o que choca no estilo musical é a atitude conservadora. Pois é, o rap não é moderno, ele apenas traduz certas coisas que seu avô ou tataravô também acreditavam – guardadas as devidas proporções, é claro.

Se você for levar em consideração algumas formas de se fazer rap vai encontrar letras machistas, em que a preocupação maior é o status social e o dinheiro. O contexto é aquele mesmo de sempre, em que o homem é superior e a mulher submissa, que pode ser comprada facilmente porque não tem outra saída. Existe algo mais conservador do que isso?

Para completar, podemos ver a atitude de muitos representantes do rap que não respeitam as mulheres no mercado da música e acreditam que elas precisam ser masculinizadas para poder pertencer de verdade ao universo que, na cabeça deles, foi criado por e para homens.

Na verdade esse é um post pra fazer a gente pensar. Será que, ao invés de mudar o mundo para melhor, não estamos reproduzindo uma mentalidade que já deveria ter sido deixada para trás sem nem nos darmos conta disso?

Melhorando ainda mais o panorama, o rapper Jay-Z, um dos que mais divulga a música e mais fatura com isso, trás a tona outra característica do rap: a segregação racial. Em uma festa do músico, na última terça-feira (16), as pessoas brancas que tentaram entrar na área VIP foram barradas por seguranças que diziam que nenhum branco poderia passar dali. É claro que Jay-Z diz que não teve nada a ver com isso, mas os fatos estão aí.

Na nossa sociedade, por mais que não se queira acreditar, mulheres apanham de namorados (vide Rihanna), são obrigadas a usar burcas em nome da cultura e podem ser trocadas por camelos. Um lugar em que caras acham que quem gosta de homem é gay e mulher gosta de dinheiro, muitos encontram no tráfico e na criminalidade uma forma de fazer parte da sociedade capitalista e a honra tem seu significado esquecido diariamente.

Vivemos uma situação em que negros ainda aguentam pessoas atravessando a rua para ‘não dar chance para o azar’ e brancos precisam provar que, realmente, sabem enterrar (se é que você me entende), temos que lembrar daquele tempo em que mulheres não podiam falar com homens, tinham que usar saias, cuidar da casa, e negros e brancos sentavam-se separados no transporte público. Lembra disso?

Então, sem nem perceber podemos estar trazendo tudo isso de volta. Mas ainda há tempo. E sabe, eu tive um sonho…

E o que você acha: o rap é realmente conservador em suas ideias? Registre sua opinião nos comentários!