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Duelo de MCs celebra aniversário em Belo Horizonte

“Celebrar é preciso!”por Eduardo Ribas

Quem acompanha o rap, ou qualquer outra cena (com viés) independente, sabe das dificuldades que se encontra pelo caminho. Casas que não abrem espaço para festas e shows, produtores que oferecem uma coxinha e três refrigerantes como pagamento, jornalistas que estigmatizam o gênero em seus textos, os materiais para DJs (pick-ups, mixers, serato etc) e MCs/Beatmakers (microfones, mpcs etc) são muito caros e por ai vai.

Resistir a esses obstáculos é tarefa para poucos, tanto que a cada dia assistimos festas chegando ao fim, grupos terminando e a cena enfraquecendo. Um desses exemplos de resistência está a 586 quilômetros de São Paulo, especificamente em Belo Horizonte, Minas Gerais. Há cerca de três anos, surgia o Duelo dos MC’s. Seguindo o exemplo e molde de eventos como a Batalha do Conhecimento (RJ) e o Microfone Aberto (SP), apenas para citar alguns, o Duelo traz semanalmente um encontro que junta representantes do elementos da cultura hip hop no mesmo palco.

Inspirado na Liga dos MCs, evento tradicional que acontece no Rio de Janeiro, que teve uma edição especial em BH, Osleo (lê-se osléo), da Família de Rua, e o Vuks (ex-Rima Sambada) compraram a ideia e iniciaram um evento similar, sem saber exatamente a proporção do que estavam fazendo. “Na primeira edição tinha umas 50 pessoas, na segunda, umas 150. Quando a gente foi ver, o evento tava dando média de 400 pessoas por noite, pessoal de imprensa procurando, geral querendo saber o que era aquilo”, relembra Luiz Gustavo aka Gurila Mangani, MC e beatmaker que observou de perto o início do projeto.

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A ideia central do evento é abrir espaço para todos os elementos do hip hop, e não apenas para as batalhas de MC. “O carro-chefe é a batalha (de freestyle), mas a preocupação é que seja um evento de hip hop, sempre tem roda de b-boy, de 15 em 15 dias tem grafiteiro pintando o viaduto”, conta PDR, o Pedro Valentim. Pedro é hoje um dos organizadores do evento, junto de Osleo, DJ Roger Dee e Monge (todos fazem parte da Família de Rua). Além de todos esses elementos, vez ou outra ainda há espaço para pocket-shows com artistas diversos. Já passaram por lá nomes como Shaw (RJ), Slim Rimografia (SP) e Simpson (MG) entre outros.

Sobre a batalha de freestyle, começou no formato simples: MC contra MC, sem muita imposição. Depois, se assemelhou aos moldes da Batalha do Conhecimento (RJ), com temas sugeridos. Hoje, o duelo é no esquema de “bate-volta”, um MC rima oito barras (tamanho de um verso regular de rap), o outro responde com outras oito e por ai vai. A cada sexta-feira, o estilo muda: duelo tradicional de freestyle, temático e batalha no “bate-volta”.

O palco para o Duelo dos MCs é o Viaduto Santa Tereza, localizado na região central de Belo Horizonte. O local é histórico, mas antes do evento era habitado por moradores de rua, a sujeira tomava conta e sinalizava o abandono da área. “Não tinha luz, era escurão, tipo um ‘guetão’, submundo da cidade”, conta Mangani. Três anos depois, a revigoração feita pelo Duelo trouxe de volta ao espaço a cultura. “Nós começamos a ocupar, o Duelo trouxe vida nova ao espaço”, completa PRD.

Local de fácil acesso, ao lado de uma estação de metro e de ônibus, o Duelo dos MC’s atrai público mais diverso possível, “desde cara do rap até patricinha”, segundo Gurila Mangani. As edições rolam todas as sextas, a partir das nove da noite, acabando por volta da meia-noite.

E falando nisso, nesta sexta-feira (27) rola a edição de aniversário do evento. Na programação, show com o MC B.Réu, presença de MCs convidados, roda de dança, intervenção de grafite e mais. Serão vendidos bottons comemorativos do Duelo dos MC’s, a três reais cada.

Alguns dirão que três anos não é o suficiente para ressaltar a importância de um evento, festa ou seja o que for. Outros vão enaltecer a iniciativa e imaginar: “queria poder colar nesse rolê hoje”. Mas nada disso importa. Como já disseram, “só quem é de lá sabe o que acontece”. Nada melhor do que ler as palavras de um dos frequentadores do Duelo dos MCs para entender o que você pode estar perdendo. “Você tem que vir aqui pra ver como é… é muito loca a vibe, você vai achar que tá no Bronx!”, finaliza Gurila Mangani.

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Manos e Minas volta à grade da TV Cultura

“Unidos venceremos?”por Carol Patrocinio

Quando li que o programa Manos e Minas, o único na televisão a ter espaço totalmente aberto à cultura hip hop, seria tirado da grade da TV Cultura senti o sangue esquentar. Sabe aquele sentimento de quando você é adolescente e tem a plena certeza de que pode mudar o mundo com as próprias mãos? Foi essa a sensação.

E, de volta aos 16 anos, me uni com pessoas que acreditavam no mesmo que eu – o programa não podia acabar, não assim, sem briga. Muita gente entrou no protesto, primeiro via internet, e não foi um, não foram dois, foram vários, cada um por um motivo.

A luta saiu do espaço virtual e foi pras ruas, tornou-se política. Senador Suplicy nos representou (graças a Gisele Coutinho e seus contatos). Músicos, artistas e formadores de opinião deram sua palavra nos vídeos feitos por Zeca MCA e Rodney Suguita (aka Maniaco da Camera). Pelo Brasil todo as pessoas encontraram maneiras de mostrar sua insatisfação (graças ao bendito Twitter).

O descontentamento geral criado pelo fim de um programa que poderia dar espaço ao que cada um de nós pensa, gerou barulho a ponto das coisas mudarem. A partir daí, foi provado por A mais B que o mundo pode dar ouvidos a nós, desde que se saiba como gritar.

Mas o que queremos, dar um pequeno passo ou correr transformando cada coisa que não nos parece certa? A cultura hip hop sempre foi contestadora, lutou por aquilo que acreditava ser certo e provou que organização é o primeiro passo pro sucesso de uma empreitada. Mas como disseram, foi o primeiro round.

A mobilização virtual, que foi levada adiante e seguiu às ruas, recebeu a notícia da vitória. E agora? Chega, ou o gostinho de vencer vai te levar à próxima batalha? Mais uma vez me sinto obrigada a usar palavras do poeta Sérgio Vaz:

“Não confunda briga com luta. Briga tem hora pra acabar e luta é para uma vida inteira”.

A briga pela volta do programa Manos e Minas terminou, mas e a luta contra as injustiças que estão sendo feitas na televisão estatal de que diversos manos e minas estão sendo demitidos por uma posição de João Sayad, que visa apenas lucro e corte de gastos? Pessoas não são gastos, cultura não pode ser medida por valores.

Quem vai salvar os manos e minas da TV Cultura e do resto do país?

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Manos e Minas: Protesto ganha as ruas


Manos e Minas: protesto ganha as ruas

Pelas palavras do presidente da TV Cultura, João Sayad, o Manos e Minas acabou, no entanto, a repercussão do ocorrido e as ações em prol do programa, seguem a pleno vapor. Em São Paulo, duas grandes mobilizações: uma audiência pública e um show no Studio SP.

A audiência partiu de uma conversa realizada em um protesto ocorrido no Sarau da Cooperifa, no último dia 11, e foi marcada no auditório Franco Montoro, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, nesta terça-feira (24), às 19h. Estarão presentes diversos nomes ligados à cultura hip hop, que deverão questionar as mudanças que estão programadas para o canal Cultura. Serão recolhidas também assinaturas para o abaixo-assinado em favor do Manos e Minas.

Já na quinta-feira (26), Kamau, Emicida, Max BO e Funk Buia sobem ao palco do Studio SP junto do Instituto, na festa Seleta Coletiva, contra o fim do único programa dedicado exclusivamente à cultura de rua no Estado mais rico do Brasil. Além do protesto, a boa música marca presença, assim como um dia esteve presente no palco do teatro Franco Zampari, onde o programa era gravado. Para o organizador da festa, Daniel Ganjaman, o fato é uma “perda irreparável”.


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Outro grande nome da cultura hip hop que manifestou seu apoio à causa foi Mano Brown, que apontou o lado político da escolha pela retirada de Manos e Minas da programação da TV Cultura. Para o Brown, há condições de se conseguir um espaço ainda melhor, e que esse pode ser um ciclo que recomeça, agora mais articulado e experiente. “Tudo que é bom, recomeça”, aponta no video.

Ainda na semana passada (14), a Sintonia Crew, formada majoritariamente por jovens, realizou uma batalha de freestyle com o tema #salveomanoseminas, em Ipatinga (MG). O resultado da connversa sobre o tema e os improvisos foram registrados em vídeo.

Na grande mídia o destaque fica para a coluna de Maria Rita Kehl no jornal O Estado de S. Paulo deste sábado (21). A crítica, muito bem fundamentada, questiona o motivo de João Sayad ter aceitado o cargo de presidente da TV Cultura, “um empreendimento que ele não conhece, não parece interessado em conhecer e, acima de tudo, evidentemente não gosta”. Dentre outros questionamentos, o programa Manos e Minas é tido como exemplo.

Escolho, para terminar, o triste exemplo de um programa que já foi extinto pela atual direção: Manos e Minas. Um corajoso programa de auditório dedicado ao hip hop (…). Manos e Minas não precisa de argumentos de segurança pública para se justificar. Dar espaço ao rap na televisão é importante por si só. Mas a decisão de acabar com o programa nos faz refletir sobre o modo como a elite paulista concebe a inclusão simbólica da periferia na produção cultural da cidade: não concebe. Daí que a pobreza, aqui, seja um problema exclusivo de segurança pública. A extinção de Manos e Minas lembra, não pelo conteúdo, mas pelo princípio operante, as desastradas políticas de “limpeza” da cracolândia. Quem mais, senão uma TV pública, poderia investir na visibilidade dos artistas da periferia?

E assim como Maria Rita Kehl, perguntamos: Quem mais, senão uma TV pública, poderia investir na visibilidade dos artistas da periferia?

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Audiência Pública em prol do Manos e Minas
Quando? Terça-feira, 24
Onde? Avenida Pedro Álvares Cabral, 51 – São Paulo/SP
Auditório Franco Montoro, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo [Clique para ver mapa] A sessão é aberta ao público
A partir das 19h.

Seleta Coletiva contra o fim do Manos e Minas
Quando? Quinta-feira, 26
Onde? Studio SP – Rua Augusta, 591 – São Paulo/SP
Quanto? $25 na porta/$15 na lista [www.studiosp.org]
A partir das 01h.


Manos e Minas: a luta continua

Na semana passada, especificamente na quinta-feira (5), foi anunciada a saída do programa Manos e Minas da programação da TV Cultura. No entanto, uma grande movimentação partiu da internet às ruas pedindo a volta de um dos únicos programas dedicados ao hip-hop no quinto maior país do mundo em extensão territorial, com mais de 190 milhões de habitantes e composto por 26 estados e um distrito federal. Mas isso tudo você já sabe.

Além do protesto no microblog Twitter, que fez o termo #salveomanoseminas permanecer entre os tópicos mais citados na tarde da quinta, foram colhidas assinaturas de pessoas contrárias a ordem de João Sayad, atual presidente da TV Cultura, na festa de aniversário da Rinha dos MC’s.

Voltando à internet, vídeos começaram a “pipocar” com falas de pessoas representativas no rap e na cultura de forma geral, como KL Jay, Edy Rock, Gilberto Dimenstein, Pedro Alex Sanches, Ganjaman, Criolo Doido e Ale Youssef, que apresentaram sua insatisfação e argumentaram sobre a importância da manutenção do Manos e Minas na TV aberta.

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Outra figura importante que “comprou” a briga foi o senador Eduardo Suplicy, que recebeu uma carta enviada por representantes do hip-hop a ser encaminhada para João Sayad. Suplicy inclusive chegou a realizar a leitura da carta no Senado, alertando a movimentação preocupante de um canal que leva a cultura em seu nome.

Em texto publicado pela agência AdNews nesta quarta (11), João Sayad mostrou sinais de contradição: “A grande questão aqui é que eu não represento o meu gosto, eu represento o que o público quer”. No entanto, suas ações mostram o contrário. Sua resposta padrão para o fim do Manos e Minas é que o novo programa de música da TV Cultura também trará o rap como um do gêneros representados.

Ainda assim, as movimentações em prol do programa continuam acontecendo. Mande seu vídeo, sua manifestação de apoio ou o serviço da sua festa em prol da volta do programa Manos e Minas à TV Cultura nos comentários do post e a gente ajuda a divulgar.

* Na noite desta quarta-feira (11), o Sarau da Cooperifa teve uma edição especial de protesto ao fim do programa Manos e Minas, nas palavras do idealizador do evento, Sérgio Vaz, “o único [programa] que não mostra as pessoas da quebrada de cabeça baixa, algemadas ou pedindo alguma coisa para apresentador de TV”.

* Em Minas Gerais, mais especificamente na cidade de Ipatinga, a Sintonia Crew realizará uma batalha de freestyle com o tema #salveomanoseminas, no Shopping do Vale, neste sábado (14), às 20h.

*Assine o abaixo assinado do site Rap Nacional em prol do Manos e Minas.

Sobre o Manos e Minas

Manos e Minas surgiu de um desdobramento do quadro “Mano a Mano”, parte do programa Metrópolis da mesma TV Cultura, e era apresentado por Rappin Hood. O formato inicial do programa contava com auditório, DJ Primo nas pick-ups, b-boys e b-girls dançando e grafiteiros convidados para pintar painéis durante a gravação.

O programa teve início em 7 de fevereiro de 2007 e contou com o sambista Jorge Aragão como primeiro convidado. Após a saída de Rappin Hood, assumiram a apresentação Thaíde, e logo depois, o MC Max BO. Manos e Minas trazia a cada edição uma banda/grupo apresentando seu trabalho, além de reportagens e quadros com nomes como Alessandro Buzo, o escritor Ferréz e mais tarde, o rapper Emicida.

Gravado no teatro Franco Zampari, ao lado do metrô Tiradentes, todas as segundas-feiras a partir das 16h, Manos e Minas era televisionado todo sábado às 19h30 na TV Cultura, com reapresentação aos sábados à 1h.

Leia também o post Manos e Minas deixa a grade da TV Cultura
Quer saber o que as pessoas acham sobre o fim do programa? Dê uma olhadinha no mural do Manos e Minas no site da TV Cultura!


Manos e Minas deixa grade da TV Cultura

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“Pra onde foi o respeito que o hip hop merece?” – por Carol Patrocinio com entrevistas de E. Ribas

Com um sonoro “Acabou” recebemos a notícia, do produtor Zeca MCA, que o programa Manos e Minas, da TV Cultura, havia oficialmente sido extinto. A alegação da emissora estatal é que isso ocorreu por “política da empresa” e que não tinha nada contra as pessoas envolvidas. “Tá todo mundo triste, mas sabemos que é um jogo de favores e favorecimento. O Manos e Minas não é um porgrama caro, então parece ser mais uma política da empresa de não querer falar com esse tipo de público. Cortaram as vias de acesso com a juventude”, explica o apresentador do programa, Max B.O..

Pra quem ainda não entendeu do que estamos falando, aqui vai a explicação. Nesta quinta-feira (5) pela manhã, todos que buscaram ler o jornal O Estado de S. Paulo*, se depararam com a seguinte afirmação do presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad: “O Vitrine deverá ser suspenso para reformulação. O Manos e Minas sai da grade, assim como o Login. Em compensação, haverá um jornal com debates todo dia. Teremos sessões de cinema em acordo com a Mostra de Cinema de São Paulo”.

Para Max B.O. a conclusão é simples: “Eles dizem que estão sem orçamento, mas contrataram a Marília Gabriela. Eles preferem pagar duzentos pra um ou dois, que pegar duzentos e dar um pra duzentas pessoas”. Curiosamente terminam os dois programas direcionados aos jovens na emissora.

Manos e Minas/Foto: DJ Erick Jay

Depois de saber de sua demissão por uma mensagem de celular recebida de uma produtora que trabalha na emissora – “Força”, dizia o texto – Max chegou a conclusão de que “se os caras mandaram embora até o Heródoto Barbeiro“, não era o Manos e Minas que seria poupado. Saído do MC RAPorter da RedeTV!, o apresentador comenta que sabia que o trabalho ali não seria eterno: “Um dia eu sabia qeu deixaria de ser apresentador (do Manos e Minas), mas gostaria ir lá me apresentar como MC no programa”.

As especulações sobre o programa, que já teve nas pick-ups o saudoso DJ Primo, já aconteciam há alguns dias e rumores rondavam a internet. Alguns, como Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, acreditam ser uma ação partidária: “Maluf, Quércia e Fleury governaram São Paulo e respeitaram os princípios públicos da TV Cultura de São Paulo. Quem destruiu a TV Cultura foram os governadores que há 16 anos coronelizam São Paulo. Agora, José Serra joga a pá de cal”.

De acordo com a definição do site da própria emissora, a TV Cultura é uma “emissora de televisão brasileira de sinal aberto que oferece à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promove o aprimoramento educativo e cultural de seus telespectadores”. Se é esse o objetivo, o que está acontecendo? Será que estão errando a mão na hora de ‘colocar ordem na casa’?

Por inspiração de seus fundadores, as emissoras de sinal aberto da Fundação Padre Anchieta não são nem entidades governamentais, nem comerciais. São emissoras públicas cujo principal objetivo é oferecer à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promover o aprimoramento educativo e cultural de telespectadores e ouvintes, visando a transformação qualitativa da sociedade” Do site da Fundação Padre Anchieta

“Nossa plateia era de estudantes, o Manos e Minas valia como nota para quem relatava o que rolava no programa. Tinham salas que ganhavam o direito de ir ao programa como prêmio, sabe? Também iam pessoas de casas de assistência, pessoas com liberdade assistida…”, conta o apresentador. A pergunta que fica é: seria esse o problema?

Manos e Minas - equipe/Foto: Dj Erick Jay

Conversamos com algumas pessoas para saber o que acham das mudanças de rumo da emissora que teria, por princípio, a iniciativa de levar conteúdo de interesse público aos telespectadores. E pela movimentação acontecida no Twitter, que levou a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, o público quer que o programa, e alguns outros da emissora, continuem na grade.

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André Maleronka – jornalista, editor da Revista Vice e colaborador da Revista +Soma

André Maleronka

Acho que isso significa uma ideia de cultura e de papel do Estado das quais discordo. As declarações do presidente da TV Cultura – ele menciona ineficiencia e inchaço do quadro de funcionários – são uma faca de dois gumes. Essa suposta eficiência: é de audiencia que ele fala? Uma Tv do estado não deveria ter isso como objetivo, na minha opinião. Inchaço: normalmente isso é causado por má administração. É o mesmo grupo que está no poder do Estado de SP há 24 anos.

Então é tudo muito esquisito. Mas acho que, resumindo bem, é isso: me parece uma ideia (ideologia neoliberal, na verdade) de cultura enquanto entretenimento e realização enquanto sucesso financeiro. Lamento, e acho uma visão de mundo bem rasa.”

Daniel Ganjaman – produtor musical, engenheiro, músico e DJ nas horas vagas

Daniel Ganjaman

Atualmente, o Manos e Minas é a única voz da cultura de rua na televisão brasileira. Vivemos um momento onde manifestações artísticas e culturais tem pouquíssimo espaço nos meios de comunicação de massa no Brasil. O Manos e Minas sempre foi um programa muito democrático, com espaço pra música, dança, arte, temas sociais e muitos outros assuntos que não são comuns na grade de outras emissoras. Além disso, havia o foco em temas ligados a periferia de forma criativa e produtiva, com ênfase nas manifestações culturais da comunidade – assuntos só abordados em outros programas com um certo ranso de ‘coitadinho’ ou de ‘caridade’.

Vejo que a situação é muito mais séria, já que está prevista uma demissão em massa e uma completa reformulação na grade da emissora. A existência da TV Cultura sempre foi um diferencial enorme dentro da programação da TV brasileira exatamente por se tratar de uma emissora estatal, sem um compromisso direto com os números de audiência. Isso possibilitava uma programação muito mais interessante e despretenciosa, o que é praticamente impossível numa emissora com interesses comerciais. Ao mesmo tempo, acredito que de certa forma esse é o caminho natural das coisas, já que hoje em dia é possível ter acesso a esse tipo de programação mais específica pela internet, onde o acesso vem ficando cada dia mais democrático. Sinceramente, acredito que a criação de portais de internet dedicados a essa cultura ou um upgrade nos portais existentes pode ser uma forma de cobrir parte desse buraco que ficará na ausência do programa Manos e Minas. Com certeza, uma perda irreparável”

Pedro Alexandre Sanches – jornalista cultural e autor dos livros “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” e “Como Dois e Dois São Cinco”

Pedro Alex Sanches

São Paulo tem uma triste tradição no que diz respeito aos espaços reservados para manifestações culturais das populações menos favorecidas em geral. O hip-hop ocupa um lugar importante nisso que considero uma forma de discriminação, que a gente nota em episódios como a resistência da Virada Cultural em escalar rappers, ou esse agora com o programa “Manos e Minas”. Não é um problema só da TV Cultura, é muito mais generalizado, mas o triste, agora, é justamente a TV Cultura, talvez o único veículo de São Paulo que andava se preocupando, fechar o espaço que havia aberto. É um retrocesso, e, repito, esconde, sim, por trás uma carga forte de discriminação. Programas elitistas como o ‘Manhattan Connection’, do GNT, também dão audiências pequenas (e pouco lucro, imagino), mas não consta que pensem em tirá-los do ar por causa disso”

Leandro Roque de Oliveira aka Emicida – rapper e ex-apresentador de um dos quadros do Manos e Minas

Emicida

Desrespeitar o hip hop, infelizmente, já é uma característica de orgãos culturais, excluir o rap idem, mas o que me chocou nesse ‘cancelamento’ – coloco entre aspas pois até agora não fui notificado formalmente de minha demissão pela empresa que me ‘contratou’ e coloco entre aspas para ressaltar a importância deste contrato – foi o desrespeito a mim e a mais, aproximadamente, 20 pessoas que integram a equipe do Manos e Minas.

Fomos comunicados de nossa demissão (fora o resto das equipes dos outros programas também excluídos da grade), através de uma entrevista em um dos maiores jornais do país, cedida pelo novo presidente, João Sayad. Dizem que quando nos dirigimos a presidentes devemos expressar respeito utilizando termos como ‘excelentíssimo senhor’ e outras formalidades, mas de onde eu venho, não se deve mostrar respeito por quem não te respeita, e nesta atitude, no minimo bagunçada, da TV Cultura junto com essa nova diretoria, sobraram dúvidas, demissões, cortes e desrespeito pelas pessoas que dedicaram seus talentos à instituição.

Fala-se em construir uma nova TV cultura (excluindo programas culturais?), fala-se em reformular a grade, atrair o interesse da população (a mesma que era representada por um programa como o Manos e Minas), falou-se até em venda do terreno nestes últimos dias (que isso?). Eu não tenho palavras rebuscadas para enriquecer os textos como muitos, nem me considero tão inteligente assim, mas ontem fui a uma reunião em que ouvi ‘o programa é maravilhoso, o custo não é alto, dá uma resposta legal de audiência, mas está fora’.

Nunca vi aquilo como um emprego, assim como muitos da equipe como Truty, Zeca MCA, Max B.O., Erick Jay e outros que vivenciam o hip hop fora da sala de produção, víamos aquilo como uma oportunidade de levar a cultura, com a nossa cara, para nossos irmãos, aqueles que não se veêm representados nos artistas que vão no Faustão (com todo respeito a estes artistas), aqueles que já não têm acesso a saneamento básico, moradia, alimentação, educação decente e agora perdem seu programa companheiro dos sábados, onde podiam ter uma opção para fugir da programação nojenta da grade da tv aberta brasileira (salvo raras exceções).

Nos resta aguardar esta ‘nova TV Cultura’, que terá para sempre em sua história, este primeiro passo torto, como se tivesse sido empurrada por uma direção que se pautou pelo próprio umbigo. É ano de eleição, não faço campanha pra ninguem, acho que estamos ruim de opções, não acredito em coincidências nem gosto de ver caracteristicas comuns nos adversários (pois é assim que enxergo quem fecha portas para nós). Após ver estas características comuns o segundo passo é generalizar, coisa que também odeio fazer, e o terceiro passo é dizer: PSDB é foda”

Jair dos Santos aka Cortecertu – DJ, pesquisador e editor adjunto do site Central Hip-Hop

DJ Cortecertu

O Manos e Minas representa um dos braços do Hip-Hop na mídia, pois não é apenas um programa, o Manos e Minas é parte da retomada dos trabalhos que dão visibilidade ao Rap e à cultura de rua, numa articulação com outros estilos musicais como o samba-rock. Em dois anos de vida, o programa tratou com respeito nossa cultura.

Ao meu ver, o Manos e Minas poderia dar espaço para outros tipos de rap feitos por aqui, isso aumentaria a audiência e o poder de influência do programa. As manifestações em favor do programa pela internet mostram a diversidade em nosso cenário, artistas e curtidores de vários estilos divulgaram seu apoio, isso é um sinal, algo que precisa ser levado em conta para a resistência do Manos e Minas e para a criação de qualquer iniciativa semelhante”

Do outro lado do muro
Em comunicado oficial, a Fundação Padre Anchieta, responsável pela TV Cultura, explica os cortes:

tv-cultura

Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Mobilizações
Além da mobilização virtual para achar atenção ao caso levando a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, acontecerão as demonstrações presenciais de insatisfação com a emissora. Veja qual o melhor dia e horário pra você fazer a sua parte e escolha sua manifestação.

Rinha de MC’s

Show do Emicida em Santos
Quando? Sexta-feira (6) às 23h
Onde? Club 49 (Rua Visconde do Rrio Branco n° 49 – Santos/SP)

Quer ler mais?
* No jornal O Estado de S. Paulo: “Sayad admite inchaço da TV Cultura, mas avaliará demissões caso a caso”

* No Conversa Afiada: “Tucanos fecham TV Cultura. Eles já têm a Globo”

* No Coletivo Action: “O fim do Manos e Minas?”

* No blog de Jéssica Balbino: “Salve Manos e Minas”

* No R7: “Fim do Manos e Minas causa protestos no Twitter”

* No blog Jornalismo B: “Comentários sobre uma emissora pública de televisão”

* Mídia Kit da TV Cultura: Saiba quem assistia a programação

* No Central Hip-Hop/Bocada Forte: “MobilizAção: militante quer acionar ministro pelo Manos e Minas”

Não confunda briga com luta. Briga tem hora pra acabar e luta é para uma vida inteira” Sérgio Vaz

O Per Raps agradece a ajuda de todo mundo que colocou no Twitter a tag #salveomanoseminas e ainda está colocando, além dos blogs e pessoas que ajudaram a fortalecer essa luta. Sem nomes porque quem fez sua parte, sabe. E quem não fez não merece nosso respeito.


Emicida começa produção da nova mixtape

Emicida por Luciana Faria

Os novos caminhos de Emicida – por Stefanie Gaspar*

Achar o estúdio de Emicida não é tarefa tão fácil quanto parece. Localizado em um pequeno e estreito edifício na Zona Norte de São Paulo, é moleza passar despercebido pelo interfone que anunciou a nossa chegada. Emicida e o irmão, Evandro “Fióti”, abriram as portas com simpatia e nos mostraram o local que, nas próximas semanas, será o QG de uma intensa produção musical: em seu recém-montado estúdio, Emicida e seus manos vão começar a produção de sua segunda mixtape, um ano após o lançamento de Pra Quem Já Mordeu Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, que vendeu ao todo cerca de 10 mil cópias.

No dia de nossa visita, ninguém parava quieto no estúdio, arranjando as recém-compradas caixas, indo buscar novos cabos, baterias e extensões. Tudo sendo montado cuidadosamente – e, enquanto não está ajudando e coordenando, Emicida se tranca em um canto do estúdio para compor, sem parar, horas a fio. “Tem que ficar mexendo nas músicas, já que a maioria delas sobrou da mixtape anterior. E muita coisa eu fui compondo nos períodos entre os shows mesmo. Agora é hora de escrever sem parar, de rever tudo isso”, contou ele.

Entre uma explicação e outra, um telefonema e uma corrida para o quarto ao lado para checar os novos cabos, o estúdio do rapper explica por si só o esquema que ele comenta ser “incompreensível” para a mentalidade atual das gravadoras. Essa nova cena brasileira, composta por artistas independentes que cativam o público e alcançam sucesso de vendas sem o auxílio de uma major, seria uma mistura equilibrada de profissionalismo e esquema caseiro.

“O problema das grandes gravadoras é não compreender o processo de produção do rap brasileiro, dessa coisa espontânea, colaborativa, dos manos chegando e fazendo as coisas. E essa relação de brodagem também, que você não consegue da noite pro dia, precisa de convivência. Eles não querem chegar e me conhecer, saber como é a parada, meu esquema de trabalho. Eles querem assinar contratos e garantias, mas não respeitar esse ritmo”, comentou o rapper, que faz parte do front desse boom de artistas do rap que estão conquistando novos espaços e encontrando novas formas de viabilizar seus trabalhos, explorando o conceito das mixtapes e utilizando a web e a versatilidade da rua como veículo de disseminação da boa música.

Dj Nyack por Luciana Faria

“O filão das gravadoras está terminando. É muito bom fazer mixtape, é um formato que quase não existe no Brasil e é incrível, vende pra caralho e a gente não fica preso. Tenho um sério problema com esses bagulhos fabricadão, esses artistas que surgem DO NADA, uma parada matemática definida por um grupo de empresários. Daí eles decidem que os artistas deles precisam ser bem bonitinhos e se vestindo assim ou assado, cantando música de amor…”, ironizou Emicida.

Quando soubemos da movimentação por um novo trabalho do rapper – além de sua primeira mixtape, ele lançou o single Avua Besouro e o EP Sua Mina Ouve Meu Rap Também -, já pensamos em um primeiro álbum de estúdio, considerando que as sobras da primeira mixtape já teriam sido utilizadas no EP ou ficariam guardadas para outros trabalhos. Entretanto, Emicida afirmou que já começa a trabalhar em uma nova mixtape, a ser lançada em agosto deste ano. E que o material utilizado será formado por músicas que sobraram da primeira mixtape.

“Agora vou terminar as sobras com essa mixtape e me preparar para um lançamento grandão depois, um álbum mesmo. Não quero lançar um álbum por obrigação, só porque preciso, quero fazer um negócio bem acabado, com um propósito. Sinceramente, eu acho que hoje só Racionais, MV Bill, caras grandes lançam álbuns de verdade”, afirmou ele.

Emicida por Luciana Faria

Questionado sobre o motivo de usar as sobras para uma nova mixtape em vez de ter liberado o material anteriormente em um EP, por exemplo, o rapper respondeu que a mixtape deve ser assim mesmo – uma salada. “O que eu gosto é de fazer EPs temáticos. Que nem o que eu lancei agora, Sua Mina Ouve o Meu Rap Também. Todas as músicas falam da mesma coisa. Isso que é bacana nesse formato. Mixtape é saladona mesmo, outro lance”, respondeu, sem se alongar no assunto.

Curiosamente, embora Emicida seja um claro exemplo de um artista desta “nova escola” do rap, exposto a novas influências e vivendo em um cenário repleto de transformações não só na sonoridade e nas temáticas discutidas pelo gênero como nos espaços ocupados pela música, o rapper afirma ouvir muito pouco rap, a não ser alguns artistas nacionais. “Eu sou de outro rolê, sempre escutei outras músicas. Eu gosto de rap, mas eu só escuto os manos daqui. Vocês ficam aí falando do novo do Hezekiah, um cara foda, mas que faria muito mais sentido se tivesse vindo 10 anos atrás. Não fico fuçando atrás de coisa nova, não”, afirmou o rapper que, mesmo assim, ouve os figurões do rap mainstream gringo, como Eminem (“o Recovery é foda!”), Nas, Jay-Z e até mesmo Will.i.am (“o cara é mestre!”).

Questionado a respeito dos gostos do público de hip hop hoje e a preferência pelos clássicos do gênero, o rapper dispara: “Isso é uma coisa que os DJs de hip hop fizeram também e agora precisam assumir: você vai na festa e o cara não toca música nova. Daí o pessoal fica sem conhecer uma pá de artista e não quer show de gente nova. Daí toca o quê? Wu-Tang Clan, Mos Def, essas coisas, daí judeu não toca rap nacional e não toca música nova. Outro dia tocou Drake na balada e eu quase chorei”, comentou ele.

Evandro Fióti por Luciana Faria

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Emicida hoje passou dos pequenos shows em bares sem esquipamento acústico até chegar ao VMB e ao circuito mainstream, que tão poucos artistas conseguem penetrar, e agora segue lutando para sobreviver em meio a uma cena em constante mutação e que é seguida de perto por um público exigente e que não se contenta com pouco.

O discurso vago a respeito do trabalho já feito e do trabalho que vem por aí, proposital ou não, chega a dois resultados: aumenta o mistério a respeito do processo de produção de suas composições mas, ao mesmo tempo, coloca o rapper em uma posição delicada em relação a um mercado instável, difícil e definido por um misto de oportunidade, sorte e trabalho duro (e tudo isso sem o apoio de uma gravadora). Leandro Roque é tão fascinante porque é um retrato das contradições do cenário do rap nacional – com todos os seus defeitos e qualidades.

Selo independente

A gravação da segunda mixtape de Emicida coincide com a criação de um selo, no qual o rapper pretende reunir seus amigos e colegas DJs, beatmakers e MCs para criar um projeto sólido em um mercado em crise. A intenção é trazer todas as ideias de artistas como Casp, Renan Saman, Skeeter, Kamau, DJ Nyack, Base, DJ Will e Luiz Café não só para a mixtape como para outros projetos, além de posteriormente começar a trabalhar na busca de novos rappers que precisem de apoio no início de suas carreiras.

O selo ainda não tem nome nem foi oficialmente lançado.

Leia mais sobre as ideias do rapper na matéria Emicida: o lobo solitário.

* Stefanie Gaspar tem 22 anos, é jornalista, viciada em música e acha que o pancadão ainda vai mudar o mundo. Apaixonada por livros e colecionadora de vinil, aproveita todo o tempo possível para ouvir música e tentar conhecer tudo ao mesmo tempo.

**Fotos por Luciana “Playmo” Faria.


Q-Unique lança Between Heaven & Hell

A “biosfera” de sites e blogs que divulgam o rap felizmente possui uma grande diversidade. Alguns são mais underground, outros visam mais o mainstream, mas a maioria costuma ter espaço para ambos.

Escolhas a parte, um blog que costumava apresentar sons que nem o digger mais profissa conseguiria encontrar e que os analizava com tamanha precisão e romantismo, que dava vontade de parar e ouvir o som, é o Boombap-Rap, escrito por Felipe Schmidt.

Infelizmente, o blog anda meio parado, e o Per Raps entende isso perfeitamente, já que não é fácil manter sites e blogs atualizados, sabendo que na vida temos também o trabalho que nos garante a renda mensal, além da namorada(o) e amigos, família e etc. Essa introdução toda serve para abrir o post da colaboradora Cissa Maia que nos traz, dessa vez, uma entrevista com o rapper e ex-integrante da lendária Rock Steady Crew, Q-Unique.

Seu trabalho é interessante e não é do tipo que se acha fácil por aí. Daí a lembrança e comparação com o conteúdo do site do parceiro Felipe. Conheça Q-Unique e seu último álbum, Between Heaven & Hell (2010), no melhor estilo Boombap-Rap. Curte ae!

Q-Unique: Da carnificina a flamejantes rimaspor Cissa Maia*

Se o inferno é na terra, o rapper e produtor Q-Unique já esteve “destinado a destruição”, fugindo de casa para morar nas ruas, ao longo de um ciclo de provocação aos demônios, o qual reforçou sua paixão pela vida. Muito embora Q. seja um tipo discreto, por outro lado é sinônimo de força e atitude na hora de rimar. Sendo assim, aclamado pelos críticos e fãs ao redor do mundo, provando que ser único no rap é para poucos.

Nascido no Brooklyn, nos anos 70, ainda jovem foi integrante de um dos grupos mais importantes da cultura de rua, o Rock Steady Crew. Para além da própria carnificina às ruas do Bronx, Q-Unique fez parte de momentos como WildStyle, StyleWars e BeatStreet. “É parte da minha história. Eu amo e respeito todos os elementos do hip hop, mas há muitas outras coisas na vida que adicionam as minhas influências”, diz com ar intrépido. Mas para quem já esteve à margem da escuridão, o icônico b-boy não sucumbiu ao desespero para desafiar as palavras em flamejantes rimas.

Com apetite voraz, foi no gueto de Bushwick, na primeira metade dos anos 90 – ao lado de D-Stroy, Freestyle, Sweel B e Jise One – que Q-Unique inflamou o rap com “The Arsonists”. “Foi um momento especial, quando não rolava muito isso de discos independentes por aí. Para nós, The Arsonists, nos tornamos uma máquina, quando não estávamos no processo de gravação, nós estávamos montando nosso show. E se não estávamos fazendo isto, nós íamos às ruas promover nosso grupo”, relata sobre a cena do rap independente na época. Já os álbuns “As the World Burns”(1999) e “Date of Birth”(2001) venderam milhares de cópias em todo o mundo, dando-lhes sucesso nacional e internacional, entre turnês mundiais, votados como melhor performance ao vivo pela Hip Hop Magazine e New York Times.

Mas o fim do grupo aconteceu no auge do sucesso, quando os integrantes começaram a traçar projetos paralelos, assim seguindo destinos diferentes. Porém Q-Unique não estava desamparado; a parceria com Ill Bill do Non Phixion e CEO do selo Uncle Howie Records fez com que o rapper retornasse ao laboratório. O álbum solo de estreia “Vegeance is Mine” (2004) impressionou pelas rimas agressivas e pungentes, que representam um mundo completo de dor, alegria, amor, ódio, veneno e luta. “Em cada momento que eu gravei o álbum fui sincero comigo mesmo, é isto que faz um bom álbum. Também dividir meus pensamentos mais profundos e experiências de vida, fazendo com que muitos refletissem é o que causou tanto impacto dessa vez. Em geral, eu levo muito a sério a questão de fazer música e com Ill Bill por perto exigindo o melhor, em relação as gravações anteriores, é o que vincula tudo isto.”

Q-Unique é veterano na indústria da música, embora longe dos holofotes da mídia, carrega em cada respiração a essência do genuíno rap. “Eu realmente não ligo para o que outros artistas fazem e no que eles acreditam ser música. Eles tem a vida deles e façam dela o que quiserem. Não estou aqui para ser juíz. Eu sou um artista envolvido em variados aspectos da música, que alcançam o que vem das ruas ao jazz e até mesmo o metal”. E não para por aí: “KRS, Rakim, Nas, Jay Z, Redman, Wutang, La Coka, Busta Rhymes, Ill Bill, Necro, Pharoahe, Lord Finesse, Big Pun, Big L, Joel Ortiz, André 3000, Ice Cube são alguns dos caras que fazem rap” acrescenta.

É em cada linha de tiro, o cérebro de alto calibre do rapper explode em um denso leque de emoções. Em 2009, o álbum “A Brand You Can Trust” do La Coka Nostra trouxe Q-Unique na faixa Nuclear Medicienemen. “Ser membro da Uncle Howie, Rock Steady Crew e La Coka Nostra é uma honra e privilégio. É mais um lance de família para mim”. Se o desejo é por mais batidas brutas e intensas, que estimam a originalidade das letras, o novo álbum “Between Heaven & Hell” está pronto e vai ser lançado no verão nova iorquino pela PLR Records. “E eu sempre tenho que agradecer aos meu fãs por apoiarem minha música” conclui.

*Cissa Maia é do Rio, grafita e colabora esporadicamente com o Per Raps.

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