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Emicida começa produção da nova mixtape

Emicida por Luciana Faria

Os novos caminhos de Emicida – por Stefanie Gaspar*

Achar o estúdio de Emicida não é tarefa tão fácil quanto parece. Localizado em um pequeno e estreito edifício na Zona Norte de São Paulo, é moleza passar despercebido pelo interfone que anunciou a nossa chegada. Emicida e o irmão, Evandro “Fióti”, abriram as portas com simpatia e nos mostraram o local que, nas próximas semanas, será o QG de uma intensa produção musical: em seu recém-montado estúdio, Emicida e seus manos vão começar a produção de sua segunda mixtape, um ano após o lançamento de Pra Quem Já Mordeu Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, que vendeu ao todo cerca de 10 mil cópias.

No dia de nossa visita, ninguém parava quieto no estúdio, arranjando as recém-compradas caixas, indo buscar novos cabos, baterias e extensões. Tudo sendo montado cuidadosamente – e, enquanto não está ajudando e coordenando, Emicida se tranca em um canto do estúdio para compor, sem parar, horas a fio. “Tem que ficar mexendo nas músicas, já que a maioria delas sobrou da mixtape anterior. E muita coisa eu fui compondo nos períodos entre os shows mesmo. Agora é hora de escrever sem parar, de rever tudo isso”, contou ele.

Entre uma explicação e outra, um telefonema e uma corrida para o quarto ao lado para checar os novos cabos, o estúdio do rapper explica por si só o esquema que ele comenta ser “incompreensível” para a mentalidade atual das gravadoras. Essa nova cena brasileira, composta por artistas independentes que cativam o público e alcançam sucesso de vendas sem o auxílio de uma major, seria uma mistura equilibrada de profissionalismo e esquema caseiro.

“O problema das grandes gravadoras é não compreender o processo de produção do rap brasileiro, dessa coisa espontânea, colaborativa, dos manos chegando e fazendo as coisas. E essa relação de brodagem também, que você não consegue da noite pro dia, precisa de convivência. Eles não querem chegar e me conhecer, saber como é a parada, meu esquema de trabalho. Eles querem assinar contratos e garantias, mas não respeitar esse ritmo”, comentou o rapper, que faz parte do front desse boom de artistas do rap que estão conquistando novos espaços e encontrando novas formas de viabilizar seus trabalhos, explorando o conceito das mixtapes e utilizando a web e a versatilidade da rua como veículo de disseminação da boa música.

Dj Nyack por Luciana Faria

“O filão das gravadoras está terminando. É muito bom fazer mixtape, é um formato que quase não existe no Brasil e é incrível, vende pra caralho e a gente não fica preso. Tenho um sério problema com esses bagulhos fabricadão, esses artistas que surgem DO NADA, uma parada matemática definida por um grupo de empresários. Daí eles decidem que os artistas deles precisam ser bem bonitinhos e se vestindo assim ou assado, cantando música de amor…”, ironizou Emicida.

Quando soubemos da movimentação por um novo trabalho do rapper – além de sua primeira mixtape, ele lançou o single Avua Besouro e o EP Sua Mina Ouve Meu Rap Também -, já pensamos em um primeiro álbum de estúdio, considerando que as sobras da primeira mixtape já teriam sido utilizadas no EP ou ficariam guardadas para outros trabalhos. Entretanto, Emicida afirmou que já começa a trabalhar em uma nova mixtape, a ser lançada em agosto deste ano. E que o material utilizado será formado por músicas que sobraram da primeira mixtape.

“Agora vou terminar as sobras com essa mixtape e me preparar para um lançamento grandão depois, um álbum mesmo. Não quero lançar um álbum por obrigação, só porque preciso, quero fazer um negócio bem acabado, com um propósito. Sinceramente, eu acho que hoje só Racionais, MV Bill, caras grandes lançam álbuns de verdade”, afirmou ele.

Emicida por Luciana Faria

Questionado sobre o motivo de usar as sobras para uma nova mixtape em vez de ter liberado o material anteriormente em um EP, por exemplo, o rapper respondeu que a mixtape deve ser assim mesmo – uma salada. “O que eu gosto é de fazer EPs temáticos. Que nem o que eu lancei agora, Sua Mina Ouve o Meu Rap Também. Todas as músicas falam da mesma coisa. Isso que é bacana nesse formato. Mixtape é saladona mesmo, outro lance”, respondeu, sem se alongar no assunto.

Curiosamente, embora Emicida seja um claro exemplo de um artista desta “nova escola” do rap, exposto a novas influências e vivendo em um cenário repleto de transformações não só na sonoridade e nas temáticas discutidas pelo gênero como nos espaços ocupados pela música, o rapper afirma ouvir muito pouco rap, a não ser alguns artistas nacionais. “Eu sou de outro rolê, sempre escutei outras músicas. Eu gosto de rap, mas eu só escuto os manos daqui. Vocês ficam aí falando do novo do Hezekiah, um cara foda, mas que faria muito mais sentido se tivesse vindo 10 anos atrás. Não fico fuçando atrás de coisa nova, não”, afirmou o rapper que, mesmo assim, ouve os figurões do rap mainstream gringo, como Eminem (“o Recovery é foda!”), Nas, Jay-Z e até mesmo Will.i.am (“o cara é mestre!”).

Questionado a respeito dos gostos do público de hip hop hoje e a preferência pelos clássicos do gênero, o rapper dispara: “Isso é uma coisa que os DJs de hip hop fizeram também e agora precisam assumir: você vai na festa e o cara não toca música nova. Daí o pessoal fica sem conhecer uma pá de artista e não quer show de gente nova. Daí toca o quê? Wu-Tang Clan, Mos Def, essas coisas, daí judeu não toca rap nacional e não toca música nova. Outro dia tocou Drake na balada e eu quase chorei”, comentou ele.

Evandro Fióti por Luciana Faria

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Emicida hoje passou dos pequenos shows em bares sem esquipamento acústico até chegar ao VMB e ao circuito mainstream, que tão poucos artistas conseguem penetrar, e agora segue lutando para sobreviver em meio a uma cena em constante mutação e que é seguida de perto por um público exigente e que não se contenta com pouco.

O discurso vago a respeito do trabalho já feito e do trabalho que vem por aí, proposital ou não, chega a dois resultados: aumenta o mistério a respeito do processo de produção de suas composições mas, ao mesmo tempo, coloca o rapper em uma posição delicada em relação a um mercado instável, difícil e definido por um misto de oportunidade, sorte e trabalho duro (e tudo isso sem o apoio de uma gravadora). Leandro Roque é tão fascinante porque é um retrato das contradições do cenário do rap nacional – com todos os seus defeitos e qualidades.

Selo independente

A gravação da segunda mixtape de Emicida coincide com a criação de um selo, no qual o rapper pretende reunir seus amigos e colegas DJs, beatmakers e MCs para criar um projeto sólido em um mercado em crise. A intenção é trazer todas as ideias de artistas como Casp, Renan Saman, Skeeter, Kamau, DJ Nyack, Base, DJ Will e Luiz Café não só para a mixtape como para outros projetos, além de posteriormente começar a trabalhar na busca de novos rappers que precisem de apoio no início de suas carreiras.

O selo ainda não tem nome nem foi oficialmente lançado.

Leia mais sobre as ideias do rapper na matéria Emicida: o lobo solitário.

* Stefanie Gaspar tem 22 anos, é jornalista, viciada em música e acha que o pancadão ainda vai mudar o mundo. Apaixonada por livros e colecionadora de vinil, aproveita todo o tempo possível para ouvir música e tentar conhecer tudo ao mesmo tempo.

**Fotos por Luciana “Playmo” Faria.

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12 Respostas

  1. Nossa, muito foda essa materia!
    Parabens à equipe do Per Raps e parabens aos manos do Lab_Fantasma!
    Podemos ter certeza que vem coisa boa por ai.. Noiz!

    julho 26, 2010 às 14:23

  2. Emicida e Kamau realmente trouxe uma nova cara músical para o Rap agradando a todos os gostos..

    julho 26, 2010 às 18:51

  3. é isso ae emicida e monstrao!
    no aguardo da nova mixtape…

    A Rua e Noiz

    julho 26, 2010 às 19:46

  4. Mano, o pessoal viu que é possivel, e agora já era mesmo !

    RAP Nacional Cupadi, ta até na MTV !

    NOIZ

    julho 26, 2010 às 22:15

  5. Parabéns à todos do Per Raps pelo compromisso e empenho com o Rap.
    Emicida é zica na rima, assuntos variados,o cotidiano é tema,você ouve e pensa:”Caramba,pode crer! É bem assim mesmo!”
    Não gosto de rotular o que é Velha Escola e Nova Esccola no Rap nacional,porque em ambas tem MC’s que ramelam na missão e que são bem íntegros e originais. Os que tem integridade,verdade e consciência nas rimas,eu chamo de Escola Verdadeira e o Emicida, eu considero estar nesta última.
    Um abraço à todos.
    Ed MC O Gladiador

    julho 27, 2010 às 00:06

  6. Pingback: Rapevolusom.com » Blog Archive » Pela Web:Emicida começa produção da nova mixtape.

  7. Erica

    Também acho foda Will.i.am

    julho 27, 2010 às 20:31

  8. Paulo Sousa

    Ow muito massa a matéria, sou muito fã do Emicida, Kamal
    e outros nessa nova base de rap nacional que vem crescendo no gosto da galera. então deixo aqui meus parabéns pela matéria.

    E a rua é nóiz.

    julho 27, 2010 às 21:03

  9. Jaime Lins

    eu queria saber uma coisa… o rap nacional mudou,,,, mas queria saber se a galera q curtia facção, realidade cruel, expressão ativa, ou seja, essa linhagem tradicional do rap… se hj esse povo curte emicida, kamau, rincon,,,,
    e a propósito… ficou mto boa essa matéria!

    julho 28, 2010 às 20:20

  10. We Gachet

    Parabéns aos Per Raps, a matéria ficou extremamente foda. Emicida tem a idéia formada praticamente de todos os assuntos, e por isso agrada todos os gostos.

    julho 29, 2010 às 01:52

  11. Mendes

    Emicida o 2 melhor rapper nacional atrás de Mano brown e ele não se prendeu e quer ganhar mídia e isso que tem que acontecer vamos eleger como artistas, quem merece e não quem eles querem que faça sucesso essas modinhas escrotas, liguem pra radios grandes e peçam Emicida, votem em clipes do Emicida, Kamau pentagono na TV e Internet espalhem divulguem o som por q é isso que falta para esse rap estourar e dominar tudo divulguem!!
    Com persistencia isso vai surtir efeito rapidamente

    agosto 5, 2010 às 19:47

  12. Breno Bone

    Emicida é uma das cabeça do Rap! (Que sobraram)
    […] Ele e o Kamau…
    Espero ser ajudado por eles, por esse novo projeto ai…

    /\/

    setembro 14, 2010 às 23:54

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