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Per Raps prestes a completar dois anos

“Mais um ano se passou…” – por Eduardo Ribas

Há mais ou menos um ano, eu escrevia o post sobre o primeiro aniversário do Per Raps. Como num piscar de olhos, cá estamos nós, no segundo ano. Per Raps II, a missão! Foi exatamente no dia 11 de setembro de 2008 que se iniciavam as atividades aqui.

Tudo começou de forma meio amadora na arte de blogar, mas sempre visando o profissionalismo no ato de reportar a cena rap paulistana. Não entramos nessa para fazer amigos, e sim mostrar o que acontecia na cena do jeito mais profissional possível. Alguns gostaram, outros não. Mas ainda assim, muitos apoiaram, fato que colaborou muito para a relevância atingida pelo trabalho do Per Raps.

Esse ano II serviu para conhecermos melhor a ferramenta “blog” – já que blogueira de verdade na equipe, só a Carol Patrocinio -, conhecemos mais o trabalho de pessoas que estavam próximas (em São Paulo e Rio de Janeiro), assim como conhecemos mais trabalhos de pessoas que estavam um pouco mais distantes.

Além disso, o leque de assuntos que tratamos aqui também expandiu; se antes o espaço era focado apenas em iniciativas que nos saltavam aos olhos, abrimos espaço para perfis que também mereciam sua divulgação e seu espaço. Outro ponto que gerou críticas, “pô, preferia o Per Raps como era antes”. Mas se o flow de um MC ou o estilo de fazer uma batida por um beatmaker podem mudar, por que nós não podemos?

De trabalhos interessantes, elaboramos a polêmica “Linha do Tempo do Rap Nacional”, que gerou muitos comentários de amor e ódio, a cobertura do último Indie Hip Hop, que trouxe o rapper e ator, Mos Def, além de textos reflexivos, dicas de documentários, posts especiais sobre as novidades sonoras de 2009 e nosso primeiro especial, que foi dedicado totalmente às mulheres.

Outros dois momentos importantes foram o final decretado do Indie Hip Hop, após 10 anos de uma bem sucedida caminhada, assim como a luta pela volta à grade da TV Cultura do programa Manos e Minas. Essa ação foi particularmente emocionante, já que partiu de uma situação complicada, que muitos descreditaram a possibilidade de mudança, e que se reverteu.

E essa virada só pode acontecer pela luta e engajamento online de cada pessoa, cada site, blog, twitteiro, pessoas soltando o verbo no facebook e, consequentemente, a materialização do protesto, que saiu da web e chegou às ruas. Isso apenas provou o quão importante é a internet hoje e como podemos fazer a diferença, se soubermos o que estamos fazendo e tendo conhecimento dessa potente ferramenta.

Tivemos a chance de realizar algumas entrevistas internacionais, entre elas com o duo Prefuse 73, com quem conversamos pessoalmente na CCJ, em um papo descontraído, que só terminou porque o show tinha que começar. E também Amanda Diva, rapper, atriz, radialista e pintora, que demorou de acontecer, exigiu uma troca intensa de e-mails, mas acabou acontecendo. Reportamos duas perdas, a da guerreira Dina Di, curiosamente no mês da mulher, e o saudoso “arquiteto” Guru, do Gangstarr.

No entanto, não só de passado vivemos. Ao contrário do que aconteceu em nosso primeiro ano de vida, quando as celebrações iniciaram dia 11 de setembro, data oficial de aniversário do Per Raps, dessa vez iniciamos no começo do mês! Traremos posts especiais com conteúdo de primeira, exclusivamente para você! Também vão rolar outras novidades, que serão informadas com o passar do tempo. Por enquanto, se liga no que está por vir… Novo Per Raps (clique e acompanhe!).


Stevie Wonder comemora 60 anos

Dê o play em “Jungle Fever”, de Stevie Wonder
http://louise91.wrzuta.pl/aud/file/qIkX7WYGcR/stevie_wonder_-_jungle_fever.mp3″

“Ao mestre com carinho” – por Eduardo Ribas

O dia 13 de maio é especial para os apreciadores da boa música. Há 60 anos nascia o gênio Stevland Hardaway Morris a.k.a Stevie Wonder. O Per Raps não poderia deixar essa data especial passar batida sem uma homenagem.

Como falar de uma lenda viva? Com certeza o fato de celebrar seu aniversário sendo que o multi-instrumentista ainda faz performances é incrível, já que a maioria dos gênios e das lendas não chegam a uma idade mais avançada, o que é uma pena.

Falar da qualidade e da importância de Stevie Wonder fica simples, seja por números ou pela sua obra. Ele já vendeu mais de 100 milhões de álbuns e ganhou 22 Grammy Awards – o que corresponde ao maior vencedor na categoria artista masculino solo. Ganhou até um Oscar, pela trilha de “A Dama de Vermelho” (1984) e entrou no Rock and Roll Hall of Fame, em 1989.

Quem não consegue resgatar ali nas primeiras lembranças musicais sons como “I Just call to say I Love You” ou “You Are the Sunshine of My Life”? A essa altura você pode estar se perguntando: como um músico de 60 anos possui uma carreira tão abrangente e com um repertório tão vasto? Além do talento, Stevie Wonder começou cedo, atingindo as paradas de sucesso já aos 13 anos de idade.

Natural de Michigan, Stevie primeiro se destacou tocando sua harmonica (gaita), depois pelo modo que utilizava o teclado e também por sua voz. Fez parte da lendária golden era da Motown, em uma época em que eram lançados artistas como Jackson Five, Diana Ross e Marvin Gaye. Apesar do boom da soul music nos anos 70, década em que o músico teve seu período mais criativo, Stevie Wonder sempre esteve um degrau acima.

Mais tarde, compôs a conceituada trilha do famoso e polêmico filme de Spike Lee, “Jungle Fever” (1990). Trabalhou com inúmeros artistas, de Sting a Lenny Kravitz, passando por Júlio Iglesias e Babyface. Engajado, participou do projeto humanitário USA for Africa, marcando presença no famoso “We Are the World“, de 1985. Em 2010, participou de um concerto para as vítimas do terremoto em Porto Príncipe, no Haiti.

As músicas de Stevie Wonder, além de serem consideradas verdadeiras trilhas sonoras da vida de milhares de pessoas, foram muito sampleadas por diversos grupos de rap, como Slick Rick, Public Enemy, Beastie Boys, De La Soul, A Tribe Called Quest, Tupac Shakur, Coolio, 50 Cent e Jedi Mind Tricks. Recentemente, sua música serviu de inspiração para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que inclusive usou o som “Signed, Sealed, Delivered I’m Yours” em sua campanha presidencial.

A música de Stevie Wonder inspira e emociona o mundo todo. Esse pequeno resumo mostra uma pequena parte da carreira do mestre da música, que precisaria de um livro inteiro para ter sua história contada. Aliás, foi lançado hoje (13) a bibliografia “Signed, Sealed and Delivered: The Soulful Journey of Stevie Wonder”, mas por enquanto apenas no exterior.

Por aqui aproveitamos a homenagem feita por Ed Motta e KL Jay no Canja, do portal iG. O vídeo mostra dois craques da música brasileira mostrando sua admiração e o lado fã, além de uma performance bem legal.

Parabéns, Stevie Wonder! Vida longa e próspera!


Presente: mix by Dago Donato

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Um indie no meio do rap

Como a gente tinha falado, esse mês vão rolar várias coisas novas e legais aqui no Per Raps. Uma delas é que alguns amigos do blog foram convidados para fazer uma mixtape especial. O primeiro trampo que você escutou foi feito pelo Sono. E agora chegou a vez do segundo amigo que nos deu – ao blog e a você – um presente de aniversário.

Nós já falamos sobre o Dago Donato, achamos que o cara é bem importante pra cena porque leva o rap aos ouvidos de pessoas que escutam outros tipos de som e ajuda a aumentar o público que apoia a cena. Como o cara é Dj e manja muito de diversos tipos de música, ganhamos uma mixtape feita por ele especialmente para o aniversário do Per Raps. Curte o som aí!

– Alice Coltrane – Blue Nile
– Cadence Weapon – Do I Miss My Friends?
– Get ‘Em Mamis – Work
– Brother D & The Collective Effort – How We Gonna Make The Black Nation Rise
– Gang Gang Dance – House Jam
– Konk – Konk Party
– Incredible Bongo Band – Wipeout
– Exile – Your Summer Song
– cLOUDDEAD – Dead Dogs Two (Boards Of Canada Remix)
– 12th Planet Feat. EMU – Control (Skreamix)
– The Bug – Poison Dart Feat. Warrior Queen
– The Professionals – Theme From Godfather
– Mexican Institute of Sound – Alocatel (Ad Rock Remix)
– The Very Best – Warm Heart of Africa
– Althea and Donna – Uptown Top Ranking
– Anti-pop Consortium – Capricorn One
– Ebony Bones – We Know All About You
– Lil Wayne – A Milli (Toy Selectah Refix)
– Ghislain Poirier – Get Crazy ft. Mr. Slaughter
– Dirty Projectors – Stillness is the Move

Mais em:
http://www.myspace.com/dagodonato
http://bimahead.blogspot.com
http://www.flickr.com/photos/bima


Dois anos de Progama Freestyle!

Dá-lhe, Freestyle!

Não temos muito o que dizer: os caras fazem um trabalho sério, de qualidade e com responsabilidade. Com pessoas como o povo do Freestyle o rap vai loooonge! Tâmo junto!

E a festa pra comemorar essa caminhada rola hoje. A gente vai e espera ver geral por lá!

Programa Freestyle - 2 anos

Dois anos do Programa Freestyle @ Hole Club
Quando? Sábado, 12 de Setembro de 2009
Onde? Hole Club (R Augusta, 2203, Jardins – SP)
Quanto? De R$ 10 a R$ 15 (Mulher não paga até meia-noite)


Parabéns, Per Raps!

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“Perhaps? Per Raps!” – por E. Ribas

Hoje, dia 11 de setembro de 2009, faz exatamente um ano que o blog Per Raps passou a existir. Por isso, estamos em festa! Para celebrar essa data, instituiremos comemorações a partir de hoje até o dia 11 do mês de outubro. Por enquanto, não aguarde festas ou coisa do tipo, mas fique atento a materiais exclusivos por aqui. Tudo começa com a nova cara, já que aquela antiga estava meio “passada”. Essa nova é mais “funcional”, mas sabemos que talvez precisemos de um tempo para adaptação.

Nesse um ano, muita coisa aconteceu, assim como permitiu a equipe e aos parceiros do blog muitas experiências bacanas. De feedback dos leitores, fica a idéia de que conseguimos levar um conteúdo interessante feito especialmente para VOCÊ ler. E isso é muito importante para nós. Voltando ao papo do niver: quando as pessoas fazem aniversário, geralmente querem festa, param um minuto para refletir, ficam felizes por terem vivido mais um ano ou tristes por estarem um ano mais velhas. Nós do Per Raps sentimos a necessidade de alguns esclarecimentos, digamos assim.

O assunto: linha editorial. Mas primeiro, o que é uma linha editorial? Basicamente, é a linha de conteúdo que um veículo de comunicação segue. É a escolha entre: isso entra e aquilo não. Os grandes veículos como o jornal Estado de S. Paulo ou a revista Carta Capital, possuem sua linha. E é no editorial que você saca qual o conjunto de ideias que regem aquele veículo. Se você lê o Estadão, vai reparar uma linha mais conservadora, defendendo os direitos da chamada “direita”. Já na Carta Capital, vai reparar uma análise mais crítica com tendências mais a “esquerda” (não totalmente, claro).

No Per Raps não é diferente! Muita gente cobra nos comentários ou nos e-mails: por que vocês não falaram do meu single ou da minha mixtape? Por que não falam da cena rap no Pará ou vão lá falar com o Dj que costumava fazer festa lá na quebrada? Respondo: temos uma tal linha editorial que se baseia no gosto pessoal da equipe e no que está ao alcance dela. Trabalhamos no blog apenas no nosso horário livre que, pelo fato de fazermos a parada por amor mesmo, se resume a todo e qualquer momento livre que possa ser usado na internet. Mas ainda assim, não é o suficiente!

Intervalo para o café no trabalho? “Ok, tomo o café na mesa e penso num post pro blog. Ah, quem sabe tuitar algo? Boa!” E é mais ou menos por aí. Por que falamos tanto da cena de Sampa? Porque somos de Sampa! Consequentemente, acabamos respirando mais a cena daqui. Porque não falam dos gansgtas? Pelo fato desse tipo de som não ser o que a equipe que faz o blog ouve mais. É nessa parte que entram os colaboradores. Muita gente pede tal texto ou tal entrevista, mas poucos dizem: posso entrevistar o Facção Central? E nisso o blog acabou ficando com a cara do gosto da equipe. Quem sabe um dia, se o blog virar um site e tiver uma equipe grande, não exista espaço para contemplar a cena como um todo?

Você deve ter reparado também que falamos muito mais da cena nacional do que da gringa. Isso porque queremos dar voz aos nossos representantes e continuaremos fazendo isso. Mas é claro que você vai ler algo do Jay Z, do Blu, do Black Milk, da Invincible, da Erykah Badu, do Common, do De La Soul, J Dilla e tantos outros que fizeram ou fazem o rap ser o que é no mundo todo até hoje! Enquanto o blog for independente e não depender do setor de marketing – que dita certas matérias em revistas, jornais, rádios e tvs -, podemos manter a postura de falar daquilo que achamos que temos que falar.

Continuaremos dando peso ao rap nacional, mas abriremos espaço para o máximo de derivações da cultura de rua possível. Cabe aqui um mea culpa de termos falado pouco com b-boys, b-girls e grafiteiros(as), mas sempre que possível, falamos deles. Mea culpa também nos textos que nos empolgamos e fazemos longos demais, assim como a primeira entrevista que fizemos com o Emicida, por exemplo. Tem como não falar daquele monte de história boa que o mano conta? Faltam mais videos das entrevistas que fazemos e mais música para ouvir, já que não subimos muita coisa pra download. Mas tenha certeza de que esses são alguns dos desafios que motivarão o Per Raps para seu ano II.

Agradecemos os vários comentários, os milhares de acessos, os e-mails, as prosas pelas ruas, as parcerias, as retuitadas, o pensamento positivo, a consideração e a moral. Um salve para a velha guarda da comunicação do hip hop (com todo o respeito) e a nova, assim como o povo da old e da new school do rap, pois sem eles não haveria sentido na existência do Per Raps. A todos os apoiadores que ficam nos bastidores, que indicam pautas, corrigem besteiras que às vezes escrevemos, apontam caminhos, botam fé e fazem a preza. Não queria cair no clichê, mas “vâmo que vâmo, que o som não pode parar”!

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Para comemorar esse nosso primeiro aniversário, o Daniel Cunha, pautado pelo seu gosto pessoal, preparou uma mixtape (ou seria mais honesto chamar de playlist?) com 12 músicas de artistas que passaram pelas páginas do Per Raps durante esse ano. Essa não é e nunca foi nossa especialidade, mas dessa vez não resistimos. Aliás, essa é uma das novidades que você vai poder encontrar por aqui nessa nossa nova fase: mixtapes e playlists de diversos estilos e autores variados. Fique ligado!

Agora aperte o play e aproveite para ler as matérias do Per Raps que você não vai se arrepender. Boa diversão!

Mixtape Per Raps 1 ano by danielcunha7

1 . Elo da Corrente – “Sementes de luz”
2. Pentágono – “Do Senhor”
3. Savave – “Deixa que é nóiz”
4. Projeto Manada – “Zueira”
5. Doncesão – “Deixo a vida suspirar”
6. Kamau – “Parte de mim”
7. Parteum – “Enigma”
8. Subsolo – “Destruir”
9. Contra Fluxo – “Ruas”
10. Emicida – “Hey Rap”
11. Sombra – “Nóiz capota + não breka”
12. Gutierrez – “Porradão de baile”


Bocada Forte: 10 anos de resistência

Dez anos. Às vezes o tempo passa rápido e faz com que a tecnologia avance com a cura para doenças, conexões ainda mais velozes para a internet e encurte distâncias, por outro lado, 10 anos pode ser um longo período, se o assunto for uma guerra que leve a uma revolução, por exemplo. Se estivermos falando sobre cultura, há obras que demoram esse tanto para ficarem prontas.

Mas se estivermos falando de resistência, e ainda incluir tecnologia e cultura, poderemos entender um pouco da importância dos 10 anos do Bocada Forte. Surgido em 1999, o site se tornou referência em hip hop no Brasil e mais tarde, em outras partes do mundo. Com o propósito de divulgar a cultura de rua, o BF, como também é conhecido, resiste divulgando artistas, iniciativas, realizando grandes entrevistas e dando visibilidade à cena.

Nada melhor que a própria equipe do Bocada Forte, que hoje se tornou o Central Hip Hop, para explicar direito como tudo surgiu, além do significado desse trabalho. Confira um pouco da história do “quilombo cultural” chamado Bocada Forte, em 10 perguntas feitas à equipe do site.

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Participam da entrevista: André Cesário e Fábio Pereira, idealizadores do site e responsáveis pelo suporte ao pessoal que coloca o material no ar; Dj Cortecertu, gerente de conteúdo do Bocada Forte desde 2001; Gil, ex-gerente de conteúdo do Bocada Forte e atual responsável pela Revista Elementos; e Noise D, colunista do Bocada Forte desde 2001.

 

Observação: Você deve ter reparado que o Bocada Forte se tornou agora o Central Hip Hop. A mudança ocorreu para dar mais abrangência aos temas tratados. No entanto, os criadores do site sabem da força desse nome, que ainda  será utilizado como um selo de identificação, assim como a Coca Cola Company, por exemplo.

Per Raps: De onde surgiu a idéia de criar o BF?

André Cesário: No início, a idéia era apenas divulgar um grupo de rap de uns amigos do meu bairro chamado Urbanos MC’s, que naquela época já tranformavam os poemas de Mário de Andrade em rap. O resultado dessa tranformação levou o grupo a fazer shows em dezenas de cidades do interior de São Paulo, com o espetáculo “Pru Mano Mário” que fazia parte do projeto “Coração dos Outros: Saravá – Mário de Andrade”, do SESC São Paulo.

Nessa época, estava na faculdade de Publicidade e Propaganda e percebi que era uma boa oportunidade de divulgar o grupo, já que o rap tinha se popularizado, principalmente fora das periferias, por conta do disco dos Racionais, “Sobrevivendo no Inferno”.

Mas não tínhamos dinheiro para pagar as mídias tradicionais. Foi aí que surgiu a ideia de utilizar a internet para a divulgação do grupo. Eu não sabia nada dessa novidade, então comecei a pesquisar como poderia fazer uma homepage. Fiz um cursinho de HTML e assim comecei um esboço no papel de como seria a página. Rabisca daqui, rabisca dali, surge o Fábio e o Rodrigo, que estudavam comigo.

Per Raps: Como estavam as coisas em termos de conteúdo na página e de cena hip hop, no geral?

Dj Cortecertu: Em 2001, passei a ser colaborador e colunista do Bocada Forte. Eu sempre mandava alguns textos para o Gil que, na época, era o responsável pelo conteúdo do site. O início do BF se localiza no período em que o Rap brasileiro passou por uma transição – novos artistas começaram a desenvolver outras abordagens em suas músicas.

O Rap tinha consolidado sua mensagem política, livros, teses e documentários foram lançandos sobre esse tema, o Rap também se afastou dos outros elementos, mas os intelectuais e jornalistas não percebiam o que estava se desenvolvendo entre os jovens que gostavam de Rap e também curtiam skate, internet e outras tecnologias. As cenas política e econômica também contribuiram para um novo comportamento, com uma sensação de estabilidade e crédito fácil, creio que as pessoas passaram a se identificar com outros temas, muitos artistas surgiram nessa vibe, houve desconfiança e conflitos de ideias. Esses fatos estão na formação do Bocada Forte.

Per Raps: Fale um pouco mais da origem do Bocada Forte.

André Cesário: Rodrigo gosta muito de rap, breakbeat e funk, além disso desenha muito, fizemos um pequeno brainstorm e surgiu o nome Bocada Forte. Foi ele quem desenvolveu os dois logotipos que usamos até hoje.

O Fábio viu os esboços e perguntou qual era a ideia, apresentei o pequeno projeto pra ele que prontamente se mostrou disposto a ajudar, pois já manjava um pouco de HTML.

Passamos algumas semanas pesquisando na própria internet se tinha algum site que falava de Hip Hop e descobrimos que 90% das páginas pessoais (não existiam blogs nessa época) falavam de Racionais e Thaíde e Dj Hum.

No dia 13 de maio de 1999 colocamos o Bocada Forte no ar, apenas com o material dos Urbanos MC’s. Logo no início percebemos que o site era muito grande para divulgar apenas um grupo de rap. Fizemos uns flyers em sulfite e começamos a divulgar em todos os eventos possíveis. O pessoal abraçou a ideia e começou a enviar materiais.

Per Raps: Quais foram os três grandes momentos do Bocada?

Gil, da Revista Elementos: Escolher só três fica difícil, pois foram vários grandes momentos, entre eventos, matérias e pessoas que conheci.

1) O Show do Public Enemy, em 2003, quando intermediei a negociação para eles tocarem em SP; até hoje troco e-mails com Chuck D e DJ Lord por conta dessa experiência;

2) A matéria com o Da Guedes, também em 2003, em que acompanhei o grupo de Porto Alegre até a cidade de Passo Fundo, onde eles fariam um show, as fotos e o texto com a história desse rolê foram pro ar;

3) Uma entrevista com o DJ Primo, que ainda não foi publicada.

Arquivo pessoal (Gil)

Gil Souza, Diko e Chuck D (Public Enemy) - Arquivo pessoal (Gil)

Per Raps: Quais as maiores dificuldades para quem faz um site como o BF?

Fábio Pereira: O maior desafio do site sempre foi se manter atualizado, tanto no conteúdo como nos novos formatos de web. Quando você está há muito tempo no ar, acaba se acostumando e se acomodando com sua forma de atuação.

Nosso foco fica na busca constante de ferramentas e tecnologias para que possamos manter um conteúdo diversificado e atrativo pro público.

Não é uma tarefa fácil, mas quando se faz algo com amor, as coisas acontecem. É por isso que estamos aí há 10 anos! Todos que passaram se dedicaram e deram sempre sua energia pelo site, da forma mais positiva.

Per Raps: Como era feita a divulgação de artistas e como era a aceitação dos divulgados?

André Cesário: Como hoje, muitos artistas praticamente eram independentes, pois as gravadoras não divulgavam de forma eficiente os artistas de rap, então a gente se oferecia pra dar uma ajuda com o site.

Per Raps: Houve críticas negativas em relação às pessoas que eram divulgadas e as que não eram?

André Cesário: Sim, sempre tem alguém que reclama. Mas muitas vezes isso acontecia porque o artista não enviava o material; sempre fizemos o possível para divulgar todos aqueles que nos procuravam.

Per Raps: Na sua opinião, qual a importância de ter sido criado um veículo como este há 10 anos?

Gil, da Revista Elementos: Foi muito importante. Vários artistas, que na época eram muito novos, ainda estariam no anonimato se não existisse um veículo com uma pessoa séria e compromissada com a Cultura de Rua a frente. Representantes de diversas partes do país tinham o seu destaque e uma visibilidade nacional, dessa forma foi possível que todos se conhecessem e soubessem o que acontecia em outras partes do país.

Per Raps: Você acha que o hip hop ruma para uma profissionalização, pelo menos em relação à comunicação com veículos que sempre falam da cena e também em relação a outros, que tratam do assunto esporadicamente?

Dj Cortecertu: Sim, caminha para uma profissionalização. Vejo gente séria trabalhando lado a lado com os artistas. Mas preciso pontuar duas coisas:

1 – Uma grande parcela dos artistas do Rap ainda não sabem lidar com a crítica. Os MCs, DJs, beatmakers e afins tratam os meios de comunicação como se fossem assessorias de imprensa e, quando recebem alguma crítica sobre seu trabalho, chamam os membros da mídia alternativa de bicos sujos, faladores, pés-de-breque, entre outros adjetivos bonitinhos.

2 – Ainda valorizamos demais a grande mídia (tradicional), que não tem em seu histórico entendimento ou respeito pelo Hip-Hop brasileiro. Quando um artista é tema num site ou num blog da mídia alternativa a cena dá uma importância menor. Quando o artista sai na Folha, no Estadão, na Veja ou na Época, todo o cenário Hip-Hop fala: agora sim, esse cara tem valor. Até nós, dos sites e blogs, noticiamos como se a grande mídia fosse o carimbo legitimador.

DJ Anderson (Ultramen) Noise D e DJ Primo (R.I.P.) - Arquivo Noise D

DJ Anderson (Ultramen) Noise D e DJ Primo (R.I.P.) - Arquivo Noise D

Per Raps: O que você acha que falta melhorar no BF hoje?

Diego ‘Noise D’: O portal Central Hip-Hop/Bocada Forte sempre prezou pela participação das pessoas; desde o início foi assim. E o trabalho duro é para torná-lo cada vez mais aberto à interação, de uma forma sempre justa e democrática, abrindo espaço pra todos os artistas e ativistas da cultura de rua que queiram promover suas ideias e seus trabalhos no BF. É uma luta diária, pois a gente tem, além da ocupação com o portal, nossos compromissos profissionais diários, o que muitas vezes limita nossa capacidade de ação.

Mas a gente segue firme porque acredita no veículo, no poder que ele tem e na contribuição que ele dá à cultura Hip-Hop nacional. Esses dias ouvi alguém dizendo: “Somos todos amadores”. E hoje eu compreendo o que ele quis dizer… Fazemos por amor! Aqui, de certa forma, não existe um “profissionalismo extremo”, porque o amor à cultura é o que nos move… O “melhorar” é uma constante pra gente e toda ideia e contribuição será bem-vinda.

Per Raps: Além do site, o que o BF conquistou?

André Cesário: Fizemos muitas coisas, parcerias em eventos fora de São Paulo, eventos no Jardim Monte Azul. Montamos uma ONG para dar legalidade ao site e dessa forma tentar atingir outras pessoas que ainda não tem acesso à internet; por isso resolvemos fazer a Revista Bocada Forte.

Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer algumas pessoas que  fazem ou fizeram parte do site e que foram fundamentais para que ele esteja no ar até hoje: Fábio, Rodrigo, Ingrid, Guto, Noise, Gil, Sete, Diko, Rangell, Fabiana Meninni, Celso, Athaíde, Adriano, Claudinho, Urbanos, Cortecertu, Gilpones, Bruno Gil e Rodrigo Bueno.

Se eu esqueci de alguém, não faltará oportunidade de agradecer SEMPRE! A todos os site, blogs que de alguma forma fazem a cada dia a informação chegar aos mais diversos lugares, parabéns a todos! E a todos os artistas que acreditam como nós que é sempre possível fazer um trabalho digno.

flyer BF 10 anos

Hoje, dia 25 de julho, o Tapas Club abre as portas para o show de lançamento do primeiro single de Rael da Rima, que marca a comemoração dos 10 anos do portal de hip-hop Bocada Forte. Na festa – que vai contar ainda com discotecagem dos DJs Kefing e Marco – o MC, músico e compositor integrante do Pentágono sobe ao palco acompanhado de seu violão e da banda formada por Muka Batera, Bruno Dupre (guitarra solo), Xandola (guitarra base) e Rafael da Costa (baixo). O show também terá participação de Paulo Msário (um dos quatro MC’s do Pentágono).

Bocada Forte @ Tapas Club
Endereço: Rua Augusta, 1246
Telefone: (11) 2574-1444
Preço: R$ 15,00 – com nome na lista, R$ 10,00. Ambos os preços dão direito ao CD com as três versões do single “Trabalhador”. (Via: Revista 100%)