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Conheça a 1º Mostra Urbanidades

mostra urbanidades

Fazia tempo que São Paulo esperava que um evento viesse ocupar o lugar vazio deixado pelo extinto festival de cinema que rolava no CineSesc, a Mostra de Filmes Hip Hop de São Paulo. Quem conheceu sabe a importância do evento pra gente que curte cinema e a cena hip hop. Ali rolaram filmes que você não conseguia ver em mais nenhum lugar. E essa é a cara da 1ª Mostra Urbanidades.

Filmes que você ouviu falar, leu sobre, mas não sabia onde assistir, shows bacanas com gente que tá com a carreira fresquinha e gente que já tem estrada, além de oficinas pra você mergulhar de cabeça na cena hip hop.

Pra facilitar, aqui vão alguns destaques do evento, mas a programação completa você vê na imagem abaixo e pode acompanhar o que está rolando no blog da mostra.

Programação 1ª Mostra Urbanidades

Clique para ver a programação completa

Destaques

Eu, o vinil e o resto do mundo (Lila Rodrigues e Karina Ades/Brasil, 2008)
Sesc Santana, 27/07 às 20h e Galeria Olido, 28/07 às 17h e 31/07 às 19h30

Motoboys – Vida Loca (Caio Ortiz/Brasil, 2003)
Galeria Olido, 24/07 às 19h30 e 30/07 às 15h

Onde a coruja dorme, Bezerra da Silva (Márcia Derrak e Simplício Neto/Brasil, 2001)
Matilha Cultural, 29/07 às 19h

Pixo (João Wainer e Roberto T. Oliveira/Brasil, 2009)
Matilha Cultural, 23/07 às 19h e Galeria Olido, 24/07 às 17h e 28/07 às 19h30

Versificando (Pedro Caldas/Brasil, 2009)
Galeria Olido, 27/07 às 15h e 31/07 às 17h

Pra começar bem a semana, nessa terça-feira (13) rola no Sesc Santana a Oficina de MC com Kamau, Projota e Rashid, às 17h e depois a exibição do filme “Freestyle, um Estilo de Vida”, de Pedro Gomes, às 20h.

Tudo grátis e da melhor qualidade! Vai colar?

1ª Mostra Urbanidades
Quando? Até 31 de julho
Onde? Galeria Olido (Av São João, 473, Centro/SP), Matilha Cultural (R Rego Freitas, 542, Centro/SP) e Sesc Santana (Av Luiz Dumont Villares, 579, Santana/SP)
Quanto? Grátis, exceto na Galeria Olido, que custa R$ 0,50 e R$ 1


Enquanto a Beyoncé não chega no país, versões!

Ilustração feita por Ryan Casey [goryango.com]

Ilustração feita por Ryan Casey

Em tempos da rainha do requebrado, Beyoncé, no Brasil – com shows esgotados e fãs enlouquecidos -, quem não pensa em entrar na onda de “Single Ladies” para chamar um pouquinho de atenção?

O clipe da bonitona do R&B (ou seria melhor chamar de pop?) fez sucesso pelo mundo inteiro com sua coreografia repetida até exaustão por gays, héteros, crianças e é claro que a galera do rap não poderia ficar fora dessa.

Inspirando-se em Beyoncé, UCB e Wale se juntaram pra fazer o “Pat your Wave” – algo como “afofe seus cachos”, no bom português. A música é boa, o clipe também e as meninas que dançam são humanas e você nota isso lá pro 1:15, quando as garotas começam a dançar e tudo mexe com elas, diferente da Beyoncé.

E falando em tudo mexer, lembrei da nossa querida Preta Gil. Brasileira, que não desiste nunca, e com coragem. A filha do talentosíssimo Gil resolveu não perder o momento e arriscar um versão de “Single Ladies”. Enquanto Beyoncé diz que “se você gosta devia colocar um anel ali”, incentivando os caras a se comprometerem, e UCB e Wale dizem pra você deixar as ondas do seu cabelo mais bonitas, Preta resolveu que a versão dela falaria sobre estar solteira naquele noite. Ok, é sempre carnaval, né?

Você gostou mais do qual? Preta Gil? Beyoncé? UCB e Wale? Ou as Esquiletes do novo Alvim e os Esquilos?


Confira detalhes da estreia do clipe do grupo Versu2 (BA)

Versu2 - divulgação

“Acredito muito no ritmo, mas acredito ainda mais na poesia”por Carol Patrocinio

O rap é sempre rap, mas a cena muda muito dependendo do lugar em que ela está. Não adianta achar que se você conhece a cena de São Paulo, como é o caso do Per Raps, você conhece tudo. Pra falar sobre o Versu2, que acaba de lançar um clipe, precisamos mergulhar na cena de Salvador. Como não pudemos gastar com passagem e estadia, quem nos ajudou nessa imersão foi o Rangell Santana (aka Blequimobiu), do Central Hip Hop (Bocada Forte) e do próprio Versu2.

Conheça agora um pouco da cena de Salvador, as ideias e rumos do Versu2, que faz rap com sotaque de ótima qualidade e assista ao clipe que ainda está quentinho depois de sair do forno.

Per Raps: Então, eu queria falar sobre o clipe, mas antes preciso q você me dê uma ajuda pra entender a cena daí. Uma coisa é ouvir falar, acompanhar pela internet, outra coisa é viver o barato – como é o lance de espaço pra show, abertura com público, interação dos grupos, MC’s e Djs?
Rangell/Blequimobiu: Pra shows temos poucos espaços ainda. Tem a Zauber que tem mais abertura, mas, apesar de estar no Centro, é numa ladeira que o público tem preconceito porque fica perto de um antigo local de prostituição, então é visto como um lugar perigoso. Daí a Boomerangue tem uma boa estrutura, mas pra conseguir pauta é muito complicado, ela é a mais estruturada e fica na orla. A Secretaria de Cultura tem feito um bom trabalho com os espaços públicos, mas também sofremos com a disponibilidade de pautas.

O público do rap em Salvador é  como em todo lugar, festas pequenas são frequentada pelos artistas, adeptos em geral. É bem complicado levar pessoas novas a estas festas, não temos dinheiro pra divulgação em massa. Terminamos limitados às festas dos amigos pra divulgar os flyers, os outdoors e busdoors, que são a verdadeira mídia de massa em Salvador, os demais são muito caros, não temos como investir. Quando tem shows com artistas como Racionais, e se investe neste aparato de divulgação, daí vemos festas com até 15 mil pessoas.

Acho que Salvador tem a cena hoje mais diversificada – você pode ir num show e ver grupos com uma linha under, gangsta, pop, gospel, candomblé e todos se respeitando, cada um passando sua mensagem sem desfazer do outro. Fazemos rap e aprendemos com os outros locais que estes rótulos só atrapalharam o crescimento da música como um todo. Também fazemos diversos eventos com outros rimos musicais (rock, reggae…) e, ultimamente, tem rolado interações com o pagode.

Versu2 - Fernando Gomes

Per Raps: Como foi a decisão de fazer um clipe?
Rangell/Blequimobiu: Então, em janeiro de 2008, eu e Coscarque percebemos que já tínhamos bons sons pra gravar um disco e ficamos seis meses no estúdio trabalhando nele. E em julho rolou de fazermos um show no teatro e o pessoal curtiu as músicas novas, depois fomos tocar em BSB com GOG e uma formação louca com Mano Brown, Pixote e Dj Cia, num evento da Conferência Nacional de Políticas para Promoção da Igualdade Racial. O pessoal elogiou muito por lá e percebemos que nosso som num agradava só aos amigos.

Aí voltamos na ideia de fazer mais shows e saber quais músicas realmente poderiam ir pro disco. Nesta brincadeira, organizamos uma tour com o Marechal e a banda de hardcore Lumpen, da qual eu era parte quando mais novo e eles cantam uma letras minhas. Na sequência rolou de trazer Emicida, Inumanos e o Kamau e, paralelo a isto, a cidade começou a ver nosso ritmo e como isto tava fazendo a cidade ser percebida na cena nacional, então vários caras se movimentaram.

O Felipe Franca tinha uma ideia de fazer um clipe nosso há muito tempo, chegamos a filmar umas cenas ao vivo, aí não deu certo o ao vivo e ficamos sem falar disto um tempão. Um dia eu tava na rua e o encontrei, comecei a falar da ideia que eu tinha, e fui mostrando as locações a ele – que é praticamente numa avenida só, a Carlos Gomes, um pedaço da Rua Chile e duas locações internas, a loja Mutantes, que eu sempre frequentei, e a Oficina de Investigação Musical do Maestro Bira Reis, que aparece no clipe tocando um metal.

Eu sabia que não tinha nome ainda pra lançar o EP, ele tá todo gravado mas eu não queria ser mais um disco na net, já que o processo de ouvir música tá muito louco, tem muita gente botando som todo dia na net, estamos cada dia mais rigorosos no que ouvir e sem tempo de ouvir obras inteiras. Poucos caras conseguem fazer um disco pra se ouvir todo e até você perceber a ligação de uma letra na outra (quando existe) pode ser muito tarde…

Então queria chamar atenção nacionalmente e vi que o clipe era a forma mais rápida de acontecer. Se fosse bem feito as pessoas iriam falar. Então saímos juntando pessoas que estivessem afim de mostrar este novo momento da arte como um todo em Salvador. Queria um clipe de rap, mas queria os locais em que passei minha adolescência, em que conheci o rap, o rock e tal. Queria pessoas que representam no clipe – nele tem o Finho, que grafita e ilustra, fez a capa do disco, tem o Baga que é MC e também grafiteiro, ele aparece no clipe tipo vigiando o Finho grafitando. Tem o Dimak, que cito na letra, foi ele que me apresentou os primeiros raps, ele é o melhor grafiteiro pra mim, e queria ele no video, então ele aparece com o Cdois, do OtraVidda, que é um moleque muito sangue bom e vem fazendo coisas bem positivas.

Aí tem o Jonnhy, que passa esbarrando no Coscarque, ele é um cara que faz as notícias correrem na rua. Tem o Robson Véio, como vendedor da loja e o coroa é o Jorginho, dono da loja, ambos referências minhas, me indicaram muitas músicas. Nesta mesma cena aparece o Diego 157 comprando discos, e sobre o balção tem o disco do Daganja e o 157 nervoso, que foram lançados pelo meu selo, o Positivoz. Aparece também o Fernando Gomes fotografando, e tem, no final, o Daganja, que na Testemunhaz tocava percussão e achei legal resgatar isto dele, já que ele tem uma raiz muito forte no Samba.

Então este clipe é um pouco de minha vida, de onde busco harmonia, de onde me inspiro de ver o corre corre do povo. Tem dia que estou mal por uma besteira e, quando passo naquela rua e vejo o povo indo e vindo atrás de um qualquer pra viver, eu me resgato. Costumava andar muito ali a noite e ficar observando o tráfico, a prostituição e isto também me inspirava a me manter no caminho legal, pra poder retratar aquela rua que de noite é tão fria e de dia tão quente. Ou vive-versa (risos!).

Per Raps: E daqui pra frente, quais os planos e as expectativas?
Rangell/Blequimobiu: Em janeiro vamos lançar um concurso de remix com a faixa do clipe e premiar com R$ 300, que é  o preço que a maioria dos caras bons na arte cobra nos beats. Daí pensei que poderia, desta forma, atrair Don L, Nave, Dario, Diego 157, Diamantee e Munhoz, entre outros, a participar da competição e ganhar mais respeito ainda na cena.

Vamos lançar dia 01/01/2010 e como juri vamos ter eu, o Coscarque, Kamau, Marechal e Cortecertu, além do juri popular. São pessoas de gostos bem diferentes, então vai ser bem legal.

A estratégia é revigorar o clipe, mantê-lo em certa evidência por um mês; depois vem fevereiro e no carnaval é complicado trabalhar, então vamos deixar pra lançar o EP, com 7 faixas, em março e depois tentar viajar pra SP/RJ/CWB, mostrar nossa energia ao vivo. Todos os caras que tocamos aqui têm se surpreendido conosco justamente no palco.

Acreditamos no show, nas pessoas falarem de nosso som ao vivo, e por isso procuramos trabalhar bem. Marechal, Gasper, Kamau e Emicida viram e comentaram justamente isto, a energia ao vivo.

Per Raps: O sotaque tem a ver com isso?
Rangell/Blequimobiu: Hahaha. Sabe, esta parada de sotaque é muito engraçada porque, antes de viajar aí a primeira vez, eu achava que o rap tinha as gírias e o jeito de falar do rap, mas depois percebi que era o contrário, todo mundo aí falava meio parecido, era um sotaque de vocês.

Quando os caras do Rio começaram a gravar, eu achava eles todos parecidos, assim como achei, por um tempo, os de CWB. Quando saiu a mixtape do Costa a Costa vi a riqueza do sotaque.

Quando lançamos “Que som é  este”, com o sample de Ivete Sangalo, parecia que iríamos ser um grupo de rap axé ou sei lá o que, então ficamos preocupados, por isto lançamos o som mais rap do disco, com sample de jazz e tal, mas nas outras faixas tem reggae, rock, timbau, e um monte de maluquisse (risos).

Per Raps: E a intenção é levar essa mistura pros outros cantos do país?
Rangell/Blequimobiu: Vou te ser sincero, nem foi intencional, mas quando fomos buscar os beats, saímos de casa em casa escolhendo os que nos identificamos e quando vimos tava uma mistureba da porra. Ficamos preocupados, a princípio, depois, quando ouvimos tudo junto, vimos que era bom, que, mesmo sem querer, era nossa realidade, eram os sons de nosso povo.

Queremos montar uma banda pro show de lançamento e para poder vender o show com mais profissionalismo. Tem uma pessoa nossa que vai começar a trabalhar esta parte junto a produtoras de pagode e axé, nos festivais de música. Aqui tudo é meio mega, você subir num palco com três MCs e um Dj é complicado, se chega uma banda com peso, aí os caras pagam direito. Uns pensam pela quantidade, e não qualidade, daí queremos juntar tudo.

Mais em:
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MySpace


Lançamentos de 09: Nathy MC

Nath MC

Foto retirada do MySpace da MC

Uma voz feminina entre graves

Esse fim de ano promete vários bons trabalhos no rap nacional. Entre eles: Ogi (Contrafluxo), Flora Matos, Lurdes da Luz (Mamelo Sound System), Lívia Cruz, além de EP’s do (Tiago) Rump, do Pentágono e Projota. Isso apenas citando aqueles que anunciaram seus lançamentos publicamente.

Dentre essa lista de nomes, alguns deverão se apresentar no Indie Hip Hop 2009, mas dificilmente haverá espaço para todos. No entanto, traremos aqui no Per Raps alguns desses lançamentos, vezes com resenhas, comentários, entrevistas etc.

A escolhida para abrir essa série é a paranaense Nathy MC, que contou em entrevista para a colaboradora do Per Raps, Ciss (Cissa Maia), um pouco do processo de “materialização” de seu primeiro trabalho. Curte ae!

A voz suave de Nathy MC – por Ciss aka Cissa Maia

“Encaro isso como qualquer MC na sua função”, diz Nathalia Valentini Lissa, 25 anos, paranaense, que encontrou na cidade de São Paulo a oportunidade para desenvolver o projeto mais importante da carreira – o lançamento do primeiro álbum solo. Dona de um sorriso cativante, tatuagens pelo corpo e mãos firmes ao microfone, a charmosa Nathy MC, carrega influências da vida em Curitiba. “Comecei a ouvir rap em meados de 1997. Sempre fui admiradora e ouvinte. Nessa época, eu andava muito na rua com meus amigos e, entre algumas madrugadas pelo centro de Curitiba, resolvi me aventurar no “freestyle”. Era algo que acontecia naturalmente e muito divertido. Participei de algumas batalhas lá e chegou um momento que resolvi começar a gravar minhas letras”.

Entre dores, amores e conflitos, almejar um novo destino não foi tarefa fácil. “Eu sempre vim pra São Paulo. No começo eu vinha de excursão com os meninos do graffiti para Santo André e acabava conciliando com algum show de rap que gostaria de assistir. Depois de um tempo, eu vinha sempre que rolava alguma atração (grupo de rap, dj ou mc) de fora do Brasil e acabava ficando 1 ou 2 meses a mais do que tinha planejado, justamente porque São Paulo me atraía em algumas coisas, como a intensidade das grandes cidades e a distribuição da informação em massa. Nesse tempo todo que passei aqui, conheci algumas pessoas importantes que me ajudaram e me ajudam na minha vida até hoje.

Uma dessas pessoas, Marcelo Sinistro, acreditou no meu trabalho e me deu a oportunidade de trabalhar aqui, não só como MC, mas em algumas festas também. Nesse momento decidi que era minha hora de agir, tranquei minha faculdade, fiz as malas, e graças a Deus até hoje estou aqui. Ainda lembro bem da primeira frase que o Primo, quando me viu aqui em São Paulo, disse: Você fez a melhor coisa da sua vida”, revela com entusiasmo.

Mesmo assim, a bela MC externou suas preocupações de uma jovem adulta com delicadeza, empurrando a própria sorte com dedicação. “O tempo todo eu corri muito, trabalhei em Shopping e continuei nas festas à noite, aonde trabalho até hoje. Demorei quase um ano pra juntar a grana para fabricação e gravação do meu disco. Foi muito corrido todo o processo de gravação, pois eu tinha pouco tempo livre pra isso. Tudo isso que passei aqui até hoje só me trouxe coisas positivas: trabalho, contatos, amigos, crescimento e conquistas, meu disco é uma dessas coisas”.

É no meio das batidas que Nathy MC exala atitude e beleza, como uma das representantes femininas do rap nacional. E nem é preciso mudar de sexo para ter voz, tudo ainda fica mais atraente quando a própria mostra que segue iluminada no território predominantemente masculino. “Hoje em dia lido com essa diferença da forma mais profissional que eu posso. Se eu falar que não houveram dificuldades em todo o processo que passei, estou mentindo, mas acho que as coisas estão melhorando pro rap aqui no Brasil em todos os aspectos, acho que tem lugar pra todo mundo trabalhar independente de sexo ou gênero.” E ainda cita suas maiores influências. “Acho que não passo um dia sem ouvir um som dos Racionais, então começo com eles, na cola vem Marechal, Black Alien, Emicida, Shawlin, Ogi”, acrescenta.

CAPA-ENCARTE FRENTE

A ideia de gravar um disco já passava pela mente de Nathy MC, mas a parceria com o Dj Soares tornou o plano em realidade. “Comecei a escrever as letras, a princípio, em cima dos beats que o Dj Soares estava produzindo, e fechei de gravar as faixas, mixar e masterizar com o Munhoz. Todas as letras são muito pessoais, falam da minha vida e das minhas experiências, é como uma autobiografia. Em função disso, o nome do disco é Nathy MC”.

Recém saído do forno, o álbum possui 11 faixas repletas de composições autorais e participações especiais como dos MCs Ogi (na faixa “Dama e o Vagabundo”), Emicida (na faixa “Lágrimas da Voz”) e Lurdez da Luz (na faixa “Nossa História”). E o que esperar de tudo isso? “Uma mulher que sonha, vive, chora, ri, perdoa, não desiste, e cresce a cada dia que passa com cada problema que surge na sua vida”, finaliza graciosamente.

O disco estará disponível em algumas lojas da galeria e nas mãos da própria Nathy MC. O lançamento acontecerá ainda no fim do ano.

Mais no blog da Nathy MC: Linda Terrorista.


Som novo!

Chegou no e-mail

Chegou no e-mail!

Você, assim como a gente, sabe da dificuldade para divulgar sons quando você ainda está começando – ou até mesmo depois de um bom tempo na batalha! Como muita gente manda o trabalho pra gente e o Per Raps acredita que pode ajudar na divulga desse material, estreamos hoje a coluna “Chegou no e-mail”.

O funcionamento é beeeem simples: você manda a música em mp3 pra gente, no nosso e-mail (perrapsblog@gmail.com), com o assunto [Chegou no e-mail]. E a gente vai fazendo coletâneas dessas músicas, sem julgamento de valor, estilo ou qualquer outra coisa.

Nessa primeira edição, que ficou mais longa do que a gente imaginava, você vai ouvir gente de vários lugares do Brasil, pra provar que talento tem em qualquer lugar, basta encontrar as coisas certas!

Invasão dus Ratueiras – Um belo dia
supeR.atos – Batida dessa vida
Suite 702 – O telefone dela
Bgame – Luz da Vida
Inquilinus – Nossa Canção
Calibre MC – Dinheiro e Mulher
Fex Bandollero – Encontrei
Preto WO – Só tirando onda
Divox e B.I.G. – Nosso Hino
Dalmatas – Você sabe o que fazer
Versu2 – Que som é este man?
Homens do Pântano – Gravidade zero


O lado B de Prefuse 73

Guillermo e Rasheed_CCJ (Juliana Ferracini)

O CCJ ficou cheio na apresentação de Prefuse 73 (Juliana Ferracini)

“Um outro lado do Prefuse 73” – por Eduardo Ribas

Prefuse 73 é um dos diversos projetos musicais de Guillermo Scott Herren, que também faz questão de dividir os créditos com seu parceiro de longa data, Ryan Raja Rasheed. Parceiro que, por sua vez, também possui um projeto bem interessante, o Leb Laze.

A dupla é de Miami, onde a maioria da população é de latinos, assim como Guillermo, de pai espanhol e mãe cubana/irlandesa. Rasheed foge da regra e é descendente de libaneses. Os dois se conheceram logo após os tempos de escola, possuem um humor parecido e curtem o mesmo estilo de rap. Apesar disso, tudo começou a ficar mais sério apenas quando Guillermo pediu que Rasheed remixasse uma fita e, logo depois, eles começaram a fazer turnês juntos.

Bem humorados e sem se preocupar com a marra tradicional no hip hop, os dois possuem uma aparência quase que similar: magrelos, com bronzeado de escritório à moda européia e com um estilo de se vestir básico e discreto. Pode ser que essa não tenha sido a imagem que você tinha construído em sua mente ao ouví-los, certo? Mas não se preocupe, você não é o único. Em uma passagem engraçada da carreira de 10 anos dos dois, alguns promoters já disseram na caruda que esperavam os “black dudes” (os caras negros) para tocar em suas festas. Tiveram que ouvir o latino e o libanês.

A conversa, com quase o mesmo tanto que risadas e idéias, rolou antes do show feito neste domingo (18/10), no CCJ. Quem respondeu a maioria das perguntas foi Guillermo, o “porta-voz” do Prefuse 73. Mais reservado, Rasheed só pontuava alguma coisa quando realmente se fazia necessário. Os assuntos variaram da marra no hip hop à falta de referência da molecada de hoje e aprendizados com a carreira e as turnês. Agora é só curtir!

Faço isso há muito tempo e não vou parar até estar morto!Guillermo Scott Herren

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E. Ribas (Per Raps), Rasheed e Guillermo no CCJ - Foto de Carol Patrocinio

A ideia inicial rolou sobre a evolução musical do Prefuse 73 desde sua última passagem pelo Brasil. Guillermo diz que era difícil ter uma resposta. “Nós apenas tocamos, não esperamos muito. As pessoas têm o que oferecemos, e oferecemos 100% de respeito. Se vocês não gostam disso, então me desculpe. Não tem muito o que fazer a respeito”. Quando fala do som de Prefuse 73, Guillermo afirma categoricamente: “gosto de fazer música barulhenta”. Ambos concordam que fazem um som progressivo e não necessariamente algo diretamente ligado ao hip hop.

A dupla se apresenta com vários fios, vocais feitos por Guillermo, um notebook, MPC, uma mesa de som e sintetizadores. Claramente tímidos, nenhum dos dois procura encarar a plateia e até na hora de reagir a assobios, apenas acenam. “Se recebemos resposta da plateia achamos legal, mas não somos o tipo de banda que diz: obrigado, como está sendo essa noite pra vocês?”, responde Guillermo. “Estamos nessa há 10 anos, não precisamos de abraços de cada um que está na plateia. Nós somos só uns caras que querem fazer um som e trocar uma ideia. Não somos o Led Zeppelin, sabe?”, ironiza.

A partir daí, surge a dúvida sobre a diferença de comportamento da dupla em uma apresentação ao vivo e dentro de um estúdio. “No estúdio você precisa fazer algo que as pessoas vão ouvir e comprar. É totalmente diferente! Num estúdio você está confinado com máquinas por todos os lados e ao vivo você tem que ir lá e mandar ver. Como se fosse no jazz, você improvisa em cima de um tema, mas no jazz os solos podem durar uma hora, nós não podemos fazer isso!”.

Guillermo diz que às vezes uma parcela do público parece esperar algo diferente do que ele realmente é, mas quando o conhecem, conseguem perceber que ele não é o que esperavam. “Tem gente que chega tipo: e ae, mano, firmeza? E eu, tipo: E ae, tudo bem? Não seguimos a regra, simplesmente fazemos nossa parada”. Aliás, essa parece ser uma preocupação recorrente de Guillermo, já que muita gente parece não entender a proposta de seu som, sem contar com os estigmas do hip hop, que teimam em continuar existindo. Mas pra ele, isso só serve para mostrar o quanto as pessoas podem ser engraçadas. “Uma vez, um promoter do nosso show recebeu uma ligação perguntando que horas o cara negro chegaria. E ele respondeu: então, na real o cara é tipo cubano, sabe? E o cara: aaah, tá”.

[Youtube=http://www.youtube.com/watch?v=1Lm6fS_dGkY]

Amadurecimento profissional

Quando comecei, eu era bem tímido, sabe? Na hora de tirar fotos, eu sempre tinha que me esconder. Mas o sentido disso tudo era: não me entenda como um mano, nem como uma personalidade, deixe que seja a música. Quando saiu o segundo álbum, eu estava mais sob controle da parada e chega um ponto da carreira que tudo está mais firme, então você tem que ir lá e fazer a foto, a entrevista e lidar com isso. Aprender isso é parte do processo.

E nesse mundo de turnês, se você quer ser levado a sério isso faz sentido. E se você pensar pelo lado de que as coisas só irão acontecer se você tiver um manager ou um selo, esquece. Você vai desmoronar em um ano! A maioria do tempo sou eu e ele (Rasheed), correndo pelos aeroportos com nossas coisas, tirando fotos.

Influências e sonoridade

Nós dois obviamente temos um background do rap do final dos anos 80 e os anos 90. Até nos outros projetos isso é perceptível, obviamente nós temos esse laço. Mas curtimos alguns “barulhos” do Japão, que são melhores que qualquer hip hop desses que estão sendo feitos hoje. As pessoas perguntam o que eu ando ouvindo e esperam que eu responda uma parada underground, então respondo: eu gosto do novo do Jay Z. É um som poderoso, sabe? Ao mesmo tempo estamos ouvindo músicas da Itália, depende muito. É legal ter um certo humor por trás dos sons. E o importante é se divertir.

Poderíamos ser uns caras que falam “foda-se”, mas não, não nos importamos com pose e coisa do tipo. Crescemos juntos (Guillermo e Rasheed), pegamos nossas influências e tentamos crescer, evoluir. Muitas bandas hoje têm fórmulas pra fazer sucesso. Tem umas fórmulas da TV pra se chegar ao sucesso. Não sei como, mas ainda estamos tocando nosso som e nos divertimos.

Queremos ser mais engraçados que sérios, não queremos dizer que gostamos do hip hop do passado. Porque o que aconteceu nos últimos 10 anos, tem coisa boa, coisa não tão boa, mas não quero ser representado por nada disso. No Brasil a cena é foda e eu sempre permaneço atento a ela, mas tem uns lugares do mundo que não dá, não queremos isso pra gente.

O rap hoje em dia

Guillermo acredita que os raps ficaram mais inteligentes nos anos 90, já que os MC’s falavam baixarias com analogias complexas ou de um jeito mais refinado e isso soava bem legal para ele. Mas hoje, as pessoas parecem não se importar mais, pois segundo ele, a molecada não tem muita referência. “Algumas coisas são inteligentes demais pra eles! Ninguém entende o que o Mos Def tá falando, sabe? A molecada quer o instantâneo, quer pegar o som e jogar no iPod. É tudo: Bam! Twitter e tal. ‘Aqui está o som, baixe aqui.’ Nós estávamos aqui antes disso e permanecemos mesmo depois, essa é a parte mais importante”.

A decepção com os jovens de hoje acaba revelando uma concordância com as ideias de Jay Z, de morte do Auto-Tune (D.O.A). “O hip hop porcaria do rádio parece aparecer assim: em dois segundos se escreve algo e aí, esse é o gancho e o verso vai rimar com isso. E então, para o auto-tune!”

“Os jovens não querem ouvir umas paradas desafiantes, mas você tem que pensar: não me importo com isso. Daqui há 20 anos quando você for ouvir os clássicos, T-Pain não estará lá! Vai ser um disco do Doom ou do Madvilain. E vão falar: se liga nessas gravações. E as paradas ainda vão ser mágicas, sabe? Hoje tudo soa meio ‘rave’, tudo tem auto-tune. É claro que tem coisas que eu ouço, claro. Mas chega no dia seguinte e eu esqueço. Não vou chegar a comprar nada disso”.

Conclusão

Mesmo com toda essa perspectiva aparentemente desfavorável, Guillermo e Rasheed ainda buscam motivos para prosseguir. “Se desistíssemos por causa do panorama, estaríamos trabalhando em trampos regulares. Faço isso há muito tempo e não vou parar até estar morto! Eu simplesmente não vou, sabe?” E estamos contando com isso!

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Quando dá vontade de escrever sobre um show

Foto: Reinaldo Canato/Entrelinhas

As irmãs Célia e Hélène Faussart no Sesc Pinheiros Foto: Reinaldo Canato/Entrelinhas

“Um duo capaz de seguir no repeat, eternamente” – por Eduardo Ribas

Mágico. Quando uma apresentação musical é definida por essa palavra, pode-se ter certeza de que não foi um simples show. Duas cantoras, ambas com vozes que não são desse mundo, capazes de manter um sorriso aberto por uma hora e meia, assim como arrepios sequenciais, tamanha a emoção passada em cada interpretação. A quem me refiro? Les Nubians, dupla franco-camaronesa que veio ao Brasil em 2009 graças às comemorações do ano da França em terras tupiniquins.

Com vestes tradicionais africanas, além de pinturas tribais no rosto, as irmãs Célia e Hélène Faussart mantém literalmente os pés na contemporaneidade com sapatos de salto alto – abandonados próximo ao fim da apresentação. Outro traço do ‘hoje’ são as inúmeras visitas a ritmos de diversas partes do globo, do samba ao reggae, lembrando das percussões tribais até no R&B. E não havia ligações só com o moderno, mas também com o público.

Conversando com a platéia em português, que por vezes virava portunhol, as irmãs conseguiram passar sua mensagem: elogiaram a eleição de Barack Obama, questionaram os ideais franceses de “liberdade, ïgualdade e fraternidade” e mostraram que a imagem que o Brasil tem no exterior é de unidade, mas que tiveram acesso as lutas de movimentos negros desde os anos 80 por aqui e assim deram ainda mais valor a história do país. Além disso, mostraram a sua visão em relação a música, fator de mudança do mundo, que primeiro precisa partir do indivíduo, para depois contagiar o próximo e assim por diante.

Empolgaram com “J’veux D’la Musique”, fizeram o público cantar em sua versão de “Tabou” e em uma das poucas composições inteiras em inglês, “Temperature Rising” – com direito a uma versão de “Mas Que Nada”, de Sérgio Mendes, no meio do som – também obedeceram um pedido do público, cantando “Demain” a capela, despertaram “bicos” que ensaiavam o francês em “Makeda” e, para finalizar, “Saravah”, já no bis. Para quem não esperava uma visita musical das irmãs Nubians tão cedo, até pelo não lançamento de um material novo recentemente, foi uma surpresa e tanto. O próximo CD da dupla foi prometido para 2010.

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Célia Faussart cantou, encantou e até arriscou um samba no pé (Reinaldo Canato/Entrelinhas)

Para muitos ali, a dupla poderia continuar cantando num repeat infinito.