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Contra Fluxo – SuperAção (2007)

Capa do disco SuperAção, do Contra Fluxo, lançado no final de 2007

Capa do disco SuperAção, do Contra Fluxo, lançado no final de 2007

Por diversas vezes, os nomes de bandas e grupos, criados no início de suas carreiras, pouco dizem sobre a obra desses artistas tempos depois desse começo. Às vezes o nome, que foi criado só para que existisse um, se torna simplesmente uma marca. Porém, em alguns casos pontuais, o nome representa toda a essência de determinado artista. É o caso do grupo paulista Contra Fluxo. Desde quando foi formado, em 2003, o fluxo convencional seguido pelos outros nunca foi o escolhido pelos seis integrantes do grupo.

As diferenças já podem ser notadas logo de cara, na formação do Contra Fluxo: quatro MCs e dois Djs. Isso mesmo, dois, no melhor estilo Jurassic 5, que conta com os maestros Cut Chemist e Dj Numark. No caso do Contra, os responsáveis por comandar a sinfonia são os Djs Big Edy e Willian. Já a linha de mestres de cerimônia é constituída por Deja Vu, Mascote, Munhoz e Ogi, quatro rimadores que, juntos, conseguem extrair o melhor de cada e funcionam como um só.

O segundo álbum do grupo foi lançado no final de 2007 e, mais uma vez, contrariou o fluxo: foi o primeiro disco duplo feito por artistas da nova safra do rap nacional. SuperAção teve sua estréia com um caloroso show no festival Indie Hip Hop e, pouco mais de um ano após seu lançamento, merece ser relembrado.

Ao todo, são 35 músicas produzidas por diversos beatmakers do país, (a maioria delas por Munhoz a.k.a. Prof. M.Stereo) várias delas com grande potencial para se tornarem clássicos do rap brasileiro. No entanto, como as rádios insistem em não tocar o rap que é feito por aqui, essas mesmas músicas acabam virando clássicos apenas para quem comprou o cd, fez o download na internet ou acompanha o trabalho do grupo em apresentações e show. Enfim, vamos às principais faixas e destaques do álbum.

Muitas delas se destacam individualmente, porém o grande mérito deste trabalho é conseguir fazer um álbum tão coeso com tantas pessoas envolvidas (somando os dois discos, são mais de 20 participações), principalmente no disco 1. O segundo disco, uma mixtape, é uma compilação de músicas habilidosamente mixadas pelo Dj Big Edy e já apresenta algumas rimas isoladas e sem muita conexão umas com as outras, em especial por parte dos MCs convidados. Os integrantes do grupo também se dividem bem mais neste cd e todos rimam sozinhos em algumas das músicas.

A faixa “Contratempos”, que tem um instrumental épico e acelerado criado por Dj Caíque, abre o disco 1 com os quatro MCs rimando sobre as adversidades da vida e a vontade de superá-las. Destaque para a levada agressiva dos quatro, proporcionadas pelo belíssimo beat, e pelo refrão, cantado em uníssono: “Contratempos, contra o tempo, contra tudo, contra todos /Nada cai do céu, batalho e me supero, suor escorre da face, o corre é mais que sincero…”

Em “Seguem Contra o Fluxo”, os quatro rimadores contam com a ilustre presença do carioca Shawlin, que chega para abrilhantar outra das melhores faixas desse disco, produzida pelo curitibano Dario. Essa é com certeza a música que mais fala sobre o espírito do Contra Fluxo, como revelam, por exemplo, as rimas de Munhoz :“Experiência, acúmulo de vivências, escolher o pior caminho por nada mais do que crença / A gente busca respostas, vive na base da aposta, acreditando que é possível viver do que se gosta”; e as de Shaw: “Nego pensa que é onda, que a gente é do contra, que a gente apronta, nem sabe metade do que conta / Pois tem dedo que aponta e nesse mundo é só mais um, já vi que o bom senso nem sempre é se juntar ao senso comum”.

Outras participações que muito acrescentam ao álbum são as de Rodrigo Brandão e Espião na bela “Alameda da Memória”, e dos curitibanos Nave e Nairóbi em “Ruas”. Na primeira, em cima de um beat contagiante e nostálgico de Dario, novamente, os MCs lembram da época em que se envolveram com o hip hop e de suas respectivas trajetórias. Destaques para a rima de Espião, que faz um retrato das festas que rolavam em São Paulo há alguns anos atrás, e para a performance de Dj Willian, com suas cada vez mais criativas intervenções com colagens. Em “Ruas”, o carro-chefe é o instrumental, cortesia do “savaviano” e sempre presente Nave, que traz caixas bem marcadas e um belo sample de flauta, além de mais um refrão confeccionado pelos toca-discos de Dj Willian.

Dj Big Edy, Mascote, Deja Vu, Ogi, Dj Willian e Munhoz

Dj Big Edy, Mascote, Deja Vu, Ogi, Dj Willian e Munhoz

Na realidade, todas as faixas deste primeiro disco merecem atenção especial, cada uma por motivos particulares. Para não passarem batidas, fica aqui também a lembrança às ótimas “Nem Tudo o Que Brilha”, pelas excelentes rimas; “Provações”, que fala justamente sobre o título do disco, superação; a mistura com samba de “Corrente do Bem”, com um belo refrão cantado pelos quatro, provando a versatilidade dos MCs (as três produzidas por Munhoz); e “Verdes Montes”, que fecha o disco com mais um belíssimo instrumental de Dario e uma letra pouco convencional ao rap.

O segundo disco terá bem menos espaço nessa resenha, mas não por isso merece menos atenção: entre as 19 faixas, ele esconde diversas pérolas. Destaque para a participação de Rick, que rima em “Quem Vai Chegar” junto com Leco, Ogi, Mascote e Jeff, e em “A Rua Vai Cobrar”, que ainda traz rimas cabulosas de Ogi e Jamés Ventura, ambas produzidas por Ogi (que prepara um disco solo para este ano). Com beats de Munhoz, “Por Bem, Por Mal”, em que Mascote rima sobre relacionamentos, “Quando Me Inspira”, disparada por Deja Vu, e “Até o Fim”, cantada (mais do que rimada) por Munhoz, comprovam a qualidade de todos os integrantes do grupo.

Por todos esses motivos e outros, SuperAção é um trabalho que não pode cair no esquecimento. Deve ser lembrado como um álbum completo, com lindos instrumentais e ótimas rimas, sempre trazendo algo novo ao ouvinte. Munhoz, que tomou a frente na produção, também se posta cada vez mais como um dos maiores produtores que o rap nacional tem hoje. Além disso, o grupo conta com os scratches de Dj Willian, na opinião deste humilde blog um dos melhores Djs de grupo do país, por saber encaixar colagens como ninguém e pelo leque de possibilidades que oferece a cada novo trabalho.

No momento, o Contra Fluxo está escolhendo os instrumentais para o próximo disco do grupo, que deve sair no ano que vem. Mantendo a tradição de “contrariar o fluxo”, os integrantes do grupo cogitam fazer desta vez um álbum conceitual (para quem não sabe, um trabalho em que todas as faixas giram em torno de um conceito, como fizeram EMC e Common Market em seus últimos trabalhos, por exemplo), o que comprovaria mais uma vez o pioneirismo do Contra.

Enquanto o fluxo normal das coisas se envereda por caminhos pelos quais não queremos trafegar, nossas esperanças se depositam em quem anda pela contra mão. Contra Fluxo.

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7 Respostas

  1. Adorei esta matéria e conhecer um pouco mais da história dos meninos e melhor do que isso só vendo um show.
    Desejo muito sucesso e boa sorte, p/ os guris!
    Ah! aqui em Porto Alegre também tem um grupo formado por dois dj´s e sete mc´s, chama-se Tr.O.Pa = Trovadores Originais de Porto Alegre, bem fera o som dos guris.

    março 4, 2009 às 20:55

  2. Parabéns pela matéria, salve familia duContra….

    março 6, 2009 às 16:28

  3. jb louco

    contra tudo, contra todos. bom di mais, fodastico
    parabens

    março 7, 2009 às 00:17

  4. Cauã

    Ae pessoal, loka a materia. parabens, satisfação pro contra …………
    parabens mais uma vez.

    março 18, 2009 às 16:32

  5. saulo

    ola pessoal gostei tanto dessa banda que coloquei a música “a rua vai cobra” no meu video de skate feito em Belo Horizonte recentemente, espero que gostem e valeu por ser uma grande influência no mundo skate também…

    abril 11, 2009 às 06:11

  6. TiaguH

    ae. como posso fazer downloads das musicas… aki no Para num tem cds de rap… i o unico jeito de ter u som d v6 eh baixando… tem como da essa força ae… flws… abraço!

    março 16, 2010 às 12:58

    • Olá, TiaguH.

      Aqui no Per Raps não disponibilizamos downloads de CDs, a não ser que tenhamos uma autorização dos grupos. Para adquirir o CD do Contra, tente entrar em contato com o pessoal da loja Colex pelo 11 3224 9730 ou no email colexoficial@gmail.com

      Abraço!

      março 16, 2010 às 14:33

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