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Manos e Minas: protesto ganha as ruas

Pelas palavras do presidente da TV Cultura, João Sayad, o Manos e Minas acabou, no entanto, a repercussão do ocorrido e as ações em prol do programa, seguem a pleno vapor. Em São Paulo, duas grandes mobilizações: uma audiência pública e um show no Studio SP.

A audiência partiu de uma conversa realizada em um protesto ocorrido no Sarau da Cooperifa, no último dia 11, e foi marcada no auditório Franco Montoro, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, nesta terça-feira (24), às 19h. Estarão presentes diversos nomes ligados à cultura hip hop, que deverão questionar as mudanças que estão programadas para o canal Cultura. Serão recolhidas também assinaturas para o abaixo-assinado em favor do Manos e Minas.

Já na quinta-feira (26), Kamau, Emicida, Max BO e Funk Buia sobem ao palco do Studio SP junto do Instituto, na festa Seleta Coletiva, contra o fim do único programa dedicado exclusivamente à cultura de rua no Estado mais rico do Brasil. Além do protesto, a boa música marca presença, assim como um dia esteve presente no palco do teatro Franco Zampari, onde o programa era gravado. Para o organizador da festa, Daniel Ganjaman, o fato é uma “perda irreparável”.


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Outro grande nome da cultura hip hop que manifestou seu apoio à causa foi Mano Brown, que apontou o lado político da escolha pela retirada de Manos e Minas da programação da TV Cultura. Para o Brown, há condições de se conseguir um espaço ainda melhor, e que esse pode ser um ciclo que recomeça, agora mais articulado e experiente. “Tudo que é bom, recomeça”, aponta no video.

Ainda na semana passada (14), a Sintonia Crew, formada majoritariamente por jovens, realizou uma batalha de freestyle com o tema #salveomanoseminas, em Ipatinga (MG). O resultado da connversa sobre o tema e os improvisos foram registrados em vídeo.

Na grande mídia o destaque fica para a coluna de Maria Rita Kehl no jornal O Estado de S. Paulo deste sábado (21). A crítica, muito bem fundamentada, questiona o motivo de João Sayad ter aceitado o cargo de presidente da TV Cultura, “um empreendimento que ele não conhece, não parece interessado em conhecer e, acima de tudo, evidentemente não gosta”. Dentre outros questionamentos, o programa Manos e Minas é tido como exemplo.

Escolho, para terminar, o triste exemplo de um programa que já foi extinto pela atual direção: Manos e Minas. Um corajoso programa de auditório dedicado ao hip hop (…). Manos e Minas não precisa de argumentos de segurança pública para se justificar. Dar espaço ao rap na televisão é importante por si só. Mas a decisão de acabar com o programa nos faz refletir sobre o modo como a elite paulista concebe a inclusão simbólica da periferia na produção cultural da cidade: não concebe. Daí que a pobreza, aqui, seja um problema exclusivo de segurança pública. A extinção de Manos e Minas lembra, não pelo conteúdo, mas pelo princípio operante, as desastradas políticas de “limpeza” da cracolândia. Quem mais, senão uma TV pública, poderia investir na visibilidade dos artistas da periferia?

E assim como Maria Rita Kehl, perguntamos: Quem mais, senão uma TV pública, poderia investir na visibilidade dos artistas da periferia?

Leia também Manos e Minas: a luta continua
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Audiência Pública em prol do Manos e Minas
Quando? Terça-feira, 24
Onde? Avenida Pedro Álvares Cabral, 51 – São Paulo/SP
Auditório Franco Montoro, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo [Clique para ver mapa] A sessão é aberta ao público
A partir das 19h.

Seleta Coletiva contra o fim do Manos e Minas
Quando? Quinta-feira, 26
Onde? Studio SP – Rua Augusta, 591 – São Paulo/SP
Quanto? $25 na porta/$15 na lista [www.studiosp.org]
A partir das 01h.


5 raps entre amigos no dia da amizade

“Quem é que não tem um amigo?”. Não, não é Criança Esperança, e sim uma pequena celebração ao Dia da Amizade. No dia 20 de julho é comemorado em diversas partes do mundo o Dia do Amigo. Aqui no Brasil, essa data é celebrada dia 18 de abril, então pra não perder o rumo da prosa, ficamos com o Dia da Amizade, em julho.

Controvérsias a parte, o Per Raps aproveitou a desculpa e fez uma pequena lista com músicas que foram feitas por parceiros musicais no rap, mas que também são amigos na vida. Para não ficarmos presos a estilos (underground, pop, comercial, gangsta ou sej ao que for), tentamos focar nos sons que foram importantes para o rap de alguma forma, já deixando claro que essas escolhas darão brecha para discussão: “Vocês esqueceram essa! Mano, como esqueceram aquela? Pô, esse Per Raps só dá falha!”.

Mas a ideia é que cada um lembre de uma bela parceria e mande nos comentários, assim teremos no final uma enorme lista de grandes raps feitos por amigos. Bóra?

*Props Oga Mendonça, Zeca MCA e Fióti.

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Xis e Dentinho, “De Esquina”
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-07-19T15_20_03-07_00.mp3″

“Esquina paranoia delirante”, essa frase ecoou por festas e quebradas por muito tempo, além de ter reverberado até de forma acústica após um convite que Cássia Eller fez a Xis, em 2001. A música originalmente faz parte da coletânea “O Poder da Transformação” (Paraddoxx, 1997) e o single vendeu cerca de 8 mil cópias em apenas seis meses.

Em entrevista à revista +Soma, Xis contou como a música começou a estourar: “A gente colocou ‘De Esquina’ na 24 de Maio (rua que concentra galerias com lojas de discos no centro de SP), demos de mão em mão e a música começou a estourar cada vez mais.”

SP Funk com RZO e Sabotage, “Enxame”
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-07-19T15_32_38-07_00.mp3″

O clipe desse som era presença constante no finado Yo! Raps MTV, um dos sucessos da madrugada. “Enxame” apresenta bem o grupo que foi apadrinhado por nada menos que Thaíde & DJ Hum já em seu primeiro álbum, “O lado B do Hip-Hop” (2001), que apareceu com rimas inusitadas e analogias complexas para a época. Por si só já é um som de peso, mas contando ainda com a participação de Sabotage, Helião e Sandrão, criou um clássico instantâneo.

“A amizade vai fortalecer, você vai ver/ Nem que eu tenha que exercer, meu proceder” (Sabotage em “Enxame”).

Marcelo D2, Aori e Marechal, “L.A.P.A.”
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-07-19T15_25_32-07_00.mp3″

L.A.P.A. foi lançada no CD “Meu Samba é Assim” (2006), que veio logo depois do grande sucesso de “A Procura da Batida Perfeita”. Os três MC’s que aparecem nessa rima são parceiros de longa data; Aori e Marechal se conheceram por meio de Black Alien há cerca de 10 anos, Marcelo D2 conheceu Aori por seu trabalho e o convidou para sua primeira turnê como artista solo.

Já Marechal trabalhou com D2 no acústico feito para a MTV. O trio chegou a fazer outros sons, juntos e separados, entre elas “Sábado Zoeira” (Marcelo D2 , Aori & Marechal), “Loadeando” (Marcelo D2 e Marechal) e “Voo dos Dragões” (Marechal e Aori).

Mano Brown e Dom Pixote (U-Time), “Mente do Vilão”
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A dupla foi apresentada em meados de 2005 juntamente com o Sabotage e o RZO, durante um dos ensaios da Escola de Samba Vai-Vai. Foi nesse dia que Brown falou para Pixote que o Rap estava precisando de gente como ele, que ele deveria voltar a rimar. Eis que o MC voltou! Vez ou outra chamado por Brown de Fiote, Dom Pixote aprendeu a ouvir Racionais com o irmão mais velho, já falecido.

Hoje os dois MC’s são amigos e parceiros de rima, acumulam produções juntos e atuam no Big Ben Bang Johnson. O som “Mente do Vilão” foi lançado em 2009 e deverá fazer parte do novo trabalho dos Racionais MC’s, que deverá sair ainda em 2010.

Emicida, Rashid, Projota e Fióti, “Ainda Ontem”
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-07-20T11_41_00-07_00.mp3″

Emicida é irmão de Fióti e os dois conheceram Rashid e Projota por volta de 2005 lá na Galeria Olido, no saudoso Microfone Aberto apresentado por Kamau. A música “Ainda Ontem” foi ideia inicial do Rashid, que chegou com o refrão, mostrou para seus amigos e parceiros que ficaram vidrados na hora. Começaram a escutar um disco do Dom Salvador para ter mais ideias e deixar o som com uma cara bem brasileira. A energia desse projeto foi tão boa que Rashid convidou Emicida e Projota para cada um escrever 8 linhas e criar a faixa juntos.

O Fióti entrou na história quando acompanhava a produção da música e involuntariamente começou a tocar no ritmo do beat com seu cavaco e impressionou quem ouvia, depois disso não teve como deixá-lo de fora. “Ainda Ontem” faz parte da mixtape “Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe”, de 2009. A música traz os mais jovens dessa lista e representa o futuro promissor do rap.

Homenagem: Black Alien & Speed Freaks

Quem é que nunca ouviu um som da dupla de MC’s mais conhecida de Niterói (RJ)? Apesar de Black Alien não lançar nada novo faz um tempo, essa lembrança serve de homenagem a memória de Speed, assassinado no início de 2010. A dupla trabalhava junta desde 1993 e tem diversas músicas no currículo. Destacamos aqui uma delas, “Krishna Budahh”, em um dos raríssimos videos dos dois encontrados na web. Speed Freaks, Rest in Peace!

Menção honrosa: “Dominum” (Non Ducor Duco, 2008)  de Kamau e Parteum + Rick; “Zulu/Zumbi“(Velha Guarda 22, 2007) do Mamelo Sound System e Nação Zumbi (Jorge Du Peixe), “Destruir” (Ordem de Despejo, 2008) do Subsolo, “Um Cara de Sorte” (CD quase inteiro) do Enézimo, “Amigos”, Slim Rimografia.

Comente e nos ajude a lembrar de grandes parcerias entre amigos no Rap!


Linha do tempo do rap nacional (parte III)

Segue a terceira e derradeira parte da nossa linha do tempo do rap nacional, que inclui algumas de nossas previsões para o ano de 2010. Saca só:

2008 – Pouquíssimos lançamentos de discos marcaram o ano. Entre eles, o que mais chamou a atenção foi o primeiro disco solo de Kamau, Non Ducor Duco, que fez parte da lista dos melhores 25 álbuns do ano pela revista Rolling Stone. Aos 45 minutos do segundo tempo, nos últimos dias do ano, o Pentágono veio com seu segundo disco, Natural, firmando o grupo como um dos principais expoentes da nova escola.

Com o disco de Doncesão, chamado Primeiramente, Dj Caíque se firmou na cena rap nacional como um dos grandes produtores do momento, além de liderar o selo 360 Graus Records, que já se mostrou muito produtivo nos primeiros anos de existência, proporcionando diversos lançamentos. Ainda falando de produção musical, o ano foi marcante para a cena de Curitiba, que se mostrou bastante proeminente, com destaque para os beatmakers Dario e Nave, responsável pelo instrumental da música “Desabafo”, do disco A Arte do Barulho, de Marcelo D2, uma das canções mais executadas do ano em todo o país.

O ano marcou também a perda de um dos nossos melhores disc-jóqueis e um dos grandes agitadores da cena nacional, o Dj Primo, vítima de uma pneumonia. Primo era também o Dj residente do recém criado programa Manos e Minas, na TV Cultura, primeiro espaço criado na televisão brasileira desde o fim do Yo! MTV.

DJ Primo

DJ Primo (foto retirada do blog do Jornal do Brasil)

Outros álbuns importantes: RenegadoDo Oiapoque a Nova York; SombraSem Sombra de Dúvida; Projeto ManadaUrbanidades; Enézimo – Um cara de sorte; Subsolo – Ordem de Despejo;

2009Emicida é o nome da fera, o dono de 2009. Ele já começou o ano com o status de “melhor MC de freestyle” do país e, com o lançamento da mixtape Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe – parafraseamos aqui o próprio e confirmamos – chegou ainda mais longe. Concorreu a prêmios na MTV, concedeu dezenas de entrevistas (tanto para a mídia alternativa quanto para a ‘grande’ mídia) e fez shows pelo Brasil inteiro. Indiretamente, trouxe fôlego para a cena e teve um papel fundamental para que outros artistas do gênero ganhassem espaço em casas de shows e afins.

Big Ben Bang Jhonson

O rapper MV Bill também teve um ano bem agitado em 2009: lançou o DVD ao vivo com banda Despacho Urbano, além de alguns clipes novos e diversas aparições na grande mídia. Outra novidade que balançou os ânimos dos fãs de rap foi a criação do coletivo Big Ben Bang Johnson, grupo idealizado especialmente para shows ao vivo e que conta com alguns dos principais representantes do rap paulista: Mano Brown, Ice Blue, Helião, Sandrão, Dj Cia, Dom Pixote, Du Bronks, entre outros.

O ano deixou a desejar, mais uma vez, na questão dos lançamentos, com pouquíssimos discos inteiros colocados na rua. A escassez pode indicar também uma mudança de tendências do mercado musical, com a criação e utilização de novos formatos, mas é algo que só teremos a confirmação nos próximos anos. Em compensação, tivemos ótimos videoclipes. O rap acompanhou a tecnologia da alta definição e lançou pérolas como Qui nem Judeu, de DBS e a Quadrilha, Picadilha Jaçanã, do Relatos da Invasão, É o Moio e Multicultural, do Pentágono, Triunfo, de Emicida, Sol, de Slim Rimografia, e O Tempo, do Casa di Caboclo, todos contando com uma excelente produção e se equiparando ao que de melhor existe em termos de videoclipe na música brasileira.

2010 – O fim do ano chegou e, com ele, as promessas de que 2010 será ‘o ano do rap’. Todos os (pelo menos) últimos dez anos foram anunciados por alguém como ‘o ano do rap’ e alguns deles realmente chegaram perto de se tornar realidade. O momento porém, não é dos mais propícios. O rap perdeu espaço nas periferias do país para o funk e o sertanejo, por exemplo, músicas com maior apelo popular. No entanto, a cena se encontra em um momento muito especial, tanto pela sua capacidade criativa, quanto pela sua imagem perante à mídia e à população em geral.

Durante este ano, não foi nada raro encontrar pessoas de estilos totalmente diferentes daqueles que estamos acostumados a ver em shows de rap. O rap está se tornando mais interessante pra muita gente. Porém, o público-alvo, que sempre foi a periferia, se diluiu bastante, e a periferia pouco conhece e acompanha o tipo de música que estamos acostumados a divulgar aqui no Per Raps, por exemplo. Como resgatar esse público? Não sabemos a resposta, mas o disco novo dos Racionais, prometido para 2010 por Mano Brown na entrevista para a Rolling Stone, pode ajudar a formular esse quebra-cabeça.

Fora esse, outros vários discos são aguardados ansiosamente pela cena, muitos deles com potencial para colocar a engrenagem para funcionar a todo vapor novamente. Entre os principais, estão o do RZO, Marechal (RJ), Don L., do Costa a Costa (CE) e um disco póstumo de Sabotage. Mas há muita gente surgindo por aí e a promessa é a de um ano recheado de bons lançamentos.

Nossas apostas?

Ataque Beliz (DF)

Criolo Doido

Gasper (GO)

Ogi

Rashid

Rincon Sapiência

Savave (PR)


Veja como foi um dos finais de semanas mais agitados de maio

O último fim de semana do mês de maio proporcionou uma ótima surpresa para os fãs de rap em São Paulo. Entre os dias 29 e 30, rolaram shows de grupos como a banca do Big Ben Bang Johnson, Slim Rimografia, Contra-Fluxo, os gringos do Wallbangaz e Parteum. Distribuídos em diversos pontos da cidade, os grupos conseguiram atrair um bom público e deram uma mostra de que o rap pode e consegue ainda fazer barulho.

Acompanhe abaixo 3 breves coberturas de diferentes shows feitos pela equipe do Per Raps e pela colaboradora Lígia Lima. Se você foi a algum desses shows, não deixe de comentar. Caso tenha fotos e vídeos, socialize!

Big Ben Bang Johson- Hutúz 2008

Big Ben Bang Johson- Hutúz 2008

Big Ben o quê? Big Ben Bang Johnson! – por Eduardo Ribas

São Paulo, dia 30 de maio de 2009, 9 horas da noite. O local, Sesc Pompéia*. O motivo: Big Ben Bang Johnson. Big Ben o quê? Big Ben Bang Johnson, a união no palco de nomes como Mano Brown, Ice Blue, Pixote, Helião, Sandrão, Dj Cia, Conexão do Morro e vários outros representantes de peso do rap nacional que movimentam a cena desde, pelo menos, uma década.

E quem imaginaria ver um time como esse reunido no Sesc Pompéia, local que sempre abriu espaço para shows de grandes bandas de diversos estilos, só que não tanto para esse estilo de rap? A notícia da realização deste evento foi de se espantar, pois o estilo mais “ganguero”, adotado pelos presentes no palco, fora um dia “banido” pelo próprio governo do Estado. Felizmente, não foi o que aconteceu dessa vez.

Foi espaço para Mano Brown comandar uma festa que, se não fosse a “rigidez” da casa, seguiria pela noite inteira. A fúria, que geralmente é atribuída a esses grupos, ficou apenas por conta das letras de sons clássicos, que se mostraram bem vivos no coro entoado pelo público. Apesar da noite fria na capital paulista, a casa estava cheia. Também não era para menos, pois muitos tiveram a chance de ver a apresentação dessa “banca” pela primeira vez (e sabe-se lá quando poderão conferir de novo).

Assim como a platéia, o palco também estava cheio. Quem esteve presente teve a chance de se empolgar em diversos momentos. “O trem”, do RZO, “Vida Loka – parte I”, dos Racionais MC’s, “Lembranças”, do Consciência Humana, “Click, clack, bang”, do Conexão do Morro e “A mente do vilão”, com Du Bronks, Dom Pixote e Mano Brown são apenas alguns dos grandes exemplos de ápices da noite. Os “90 minutos de ritmo, poesia, verborragia ferina, malandragem e swing” fizeram valer a noite.

*Na sexta (29/05) também rolou um show do Big Ben Bang Johnson, no Sesc Pompéia.

Montagem com fotos do show do Contra-Fluxo feita por Lígia Lima

Montagem com fotos do show do Contra-Fluxo feita por Lígia Lima

Contra no Neu – por Lígia Lima

Não importa quanto tempo passe, quando os caras se juntam no palco a energia toma conta. Daí para você com as mãos para cima cantando os refrões é uma questão de minutos.

Não foi diferente na sexta-feira, 29 de maio, no Neu. A noite era fria, aparentemente como o público, mas bastou uma intimada do grupo Contra Fluxo para o povo se jogar e ferver do começo ao fim, num show vibrante que só quem tava lá é testemunha.

O repertório foi o de sempre, mas dessa vez, com bônus muito bem-vindos dos sambas – sim, sambas – “Vacilão”, de Ogi e “Caiu de maduro”, de Munhoz, além das mais que especiais participações de R. Brandão e Espião, numa sessão inesquecível da clássica “Alameda da Memória”.

O clima da casa, apesar de algumas limitações de infraestrutura, contribuiu bastante e o que era pra ser show tornou-se celebração, festa. Definitivamente, uma noite especial.

Parteum, em seus 10 anos de carreira, e DJ Suissac

Parteum celebra 10 anos de carreira c/ DJ Suissac (Divulgação)

Parteum, ParteDEZ – por Nathalia Leme

Num final de semana com 2 apresentações do Big Ben Bang Johnson, Zoeira Hip Hop, comemorando seus 3 anos (com direito à apresentação do grupo holandês Wallbangaz) e show do Parteum. O quê escolher?
Eu confesso que escolheria o teletransporte ou a minha clonagem só para comparecer em todos os eventos que o final de semana reservava. Mas não; tive que escolher. Ok escolhi ir a todos que eu pude!

Hole Club, um pico super conhecido da galera do rap, no último sábado, dia 30 de maio, foi palco de uma festa. Um mix de emoção e seriedade. Explico: foi a comemoração de uma década de carreira do MC e produtor Fábio Luiz, o Parteum, agora pai da pequena Cora. Mas com o toque de seriedade característico do MC e porque essa comemoração não foi mencionada pelo próprio. Foram os mestres de cerimônia, Max B.O e DJ Kefing (com seu set brasileiríssimo) que deram a dica da tal comemoração e mantiveram todo mundo animado e mais ainda mais ansioso para o show.

No palco, Parteum foi acompanhado pelos amigos e companheiros de Mzuri Sana, o DJ Suissac e o MC Secreto. O show mesclou a trajetória solo e em grupo do MC, com bases, grooves e harmonias de jazz, improviso, rimas inspiradas em literatura, dois álbuns, um EP e seis mixtapes lançadas

O MC cantou sons dos dois discos do Mzuri Sana (Bairros, Cidades, Estrelas, Constelações e Ópera Oblíqua). Da carreira solo, Parteum atacou com sons como “A Força da Sugestão”, “O Círculo” e uma que eu, particularmente, não tinha visto ao vivo: “Rumo”, do disco Raciocínio Quebrado.

Canções da mixtapes não ficaram de fora do repertório, e nem da boca da galera que acompanhou fervorosamente cada verso. Música inédita também constou, uma pequena mostra do que vem por aí no próximo álbum do rapper.
Quem venham muitas outras décadas por aí.

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Shows e Festas

PROJETO APPLE FLYERProjeto Apple @ Pau de dá em Doido Entretenimento

A festa será comandada pelos Djs Nato_pk (Enézimo/PDD Mixtape/Quilombo Djs), Rodrigo Silva (Choldra), Bola 8 (Realidade Cruel), Spaiq (Thaíde), Douglas Dobil e Nenê. Os MC’s da festa serão Enézimo, Arnaldo Tifu, Bruno Cabrero e Caprieh.

Além disso, vai rolar o Duelo de Maçã: 1 MC convidado duelando com 4 MC´s Desafiantes! Serão 4 rounds e um prêmio em dinheiro para o vencedor.

Local:

R. Arthur de Queiroz, 32 (Bar da Ana)
Estação de trem de Santo André
Info: 9954-0106 – 7186-0711
A partir das 22hs

chaka

Chaka Hotnightz @ Tapas Club

A festa é liderada pelos selectas Brandão, Granado, Akin, Gerez, Nicolas e Smoot, mais conhecidos como Ponicz Crew, que define a discotecagem como “powerful music”, englobando todos os estilos – da música brasileira à jamaicana, do balanço ao rap, da africana ao rock, passando pelo jazz e diferentes faces da música de vanguarda.

TAPAS CLUB
Endereço: Rua Augusta, 1246
Contato: 11 2574 1444
A partir das 23:00
Entrada: R$10

simples-net

Simples + Dj’s Marco, Nyack e Will @ Hole Club

“Nem me lembro quando foi o último. O Rick foi morar em Floripa, o Will foi tocar com o D2, o Diego foi arrumar uma filha e a Stefanie foi escrever (pelo menos ela) e fez uns shows por aí. Mas dia 06/06 no Hole Club, todo mundo junto. Como nunca deixou de ser na verdade.

Sem complicar demais. Sem enfeitar demais.

Quem vai?

Nós vamos.”

Fonte: Blog Estranhamente – por Kamau

Serviço:
Dia 06 de Junho, Sábado, a partir das 23h
Local: Hole Club – Rua Augusta, 2203 – Jardins – São Paulo/SP
Ingressos de 10 a 12 reais (mulher não paga entrada até meia noite)
Informações: 3086-10 ou hole@holeclub.com.br


Pedro Gomes e a profissionalização do rap – Parte II

Pedro...

O documentário Freestyle sairá em DVD ainda este ano (Divulgação)

O Per Raps publica agora a segunda parte da entrevista de Pedro Gomes. Nela, o jovem cineasta fala sobre a produção do documentário Freestyle: Um estilo de vida, que já rendeu diversos prêmios e teve exibições por todo o mundo. Para quem ainda não teve a oportunidade de assistir, o vídeo deve sair em DVD no segundo semestre.

Nesta segunda parte, Pedro também fala sobre a vontade de trabalhar com um grupo paulista, sua conexão com a marca Nike e a viagem que fez à China no ano passado. Tudo isso e mais um pouco você confere aqui, a partir de agora.  Confira!

Freestyle: Um estilo de vida

Quando eu comecei a capturar as imagens eu ainda estava na faculdade, e pensei justamente naquela idéia de dar um retorno pra cultura hip hop. Eu estava lá estudando cinema e pensei em fazer um documentário sobre rap. Fiquei com essa idéia na cabeça durante um bom tempo. Aí no terceiro ano de faculdade já tinha a Rinha dos MCs, e era bem na época que eu produzia a festa (junto com Pentágono e Criolo Doido). E eu pensei: “Mano, eu conheço os melhores MCs de freestyle do Brasil”. E é uma cena interessantíssima, é louvável a parada. Aí eu peguei uma câmera boa pra época e comecei a fazer sozinho, eu e a câmera. Aí um tempo depois eu convidei dois amigos pra me ajudarem, o Henrique Danieleto e a Stefanie Mota, e a gente começou a ir junto fazer as entrevistas.

Tínhamos umas 30 horas de material e eu já tinha começado a editar quando surgiu a idéia do PAC. Foi engraçado porque eu fiquei sabendo pelo Bocada Forte – quando a matéria subiu já tinha passado o prazo de inscrição, mas foi prorrogado por uma semana. Aí eu escrevi o projeto em três dias, anexei um cd com o que eu já tinha de imagem e foi aprovado. E foi muito legal, foi a primeira vez que eu tive grana pra fazer um projeto, eu me empolguei. Resolvi gravar tudo de novo, em alta qualidade, pra ficar foda mesmo. Aí já chamei uma equipe de umas oito pessoas: técnico de som, fotógrafo, câmera, assistente. Com isso, refiz os depoimentos, fomos pro Rio filmar a Liga dos MCs, que pela primeira vez tinha uma edição nacional.

O objetivo maior era que o rap gostasse. O lançamento do vídeo foi muito legal. Nós fizemos na Cinemateca, que é um cinema muito clássico de São Paulo, ali na Vila Mariana, em uma sala muito louca, novinha, que acabou de ser construída pelo BNDES, toda high tech, animal. No dia, estava chovendo pra caramba em São Paulo, alagou tudo, e a sessão era às 20 horas. Quando deu o horário, não tinha ninguém. Aí fui lá conversar na direção e os caras lá são muito rígidos, fazem tudo certinho, com cronograma. Eu perguntei se podia atrasar meia horinha e eles aceitaram. Na sala lá cabem 300 pessoas. Quando deu 20h30, tinham 500 pessoas pra assistir. Aí nós enchemos uma sessão, fizemos uma fila pra outra e abrimos uma sessão extra. Foi foda!

O pessoal gostou pra caramba, a galera mais velha, que eu respeito muito a opinião, também gostou e eu fiquei muito feliz com isso. E mandei pra vários festivais, pros que eu tinha grana pra mandar, porque é caro. E aí no Brasil ganhou prêmios, passou na França, na China, no Japão. E ele foi meu pontapé inicial, aí que eu comecei uma carreira mais sólida. No segundo semestre vamos lançar o DVD do filme, que vai ser vendido junto com um CD com músicas dos MCs que participaram. Vai ser uma edição limitada.

Sonho

Eu falo pra todo mundo que o meu próximo projeto tem que ser uma ficção, um filme mesmo, senão eu vou ficar sendo conhecido como documentarista e não é isso que eu quero. Eu quero criar bagagem suficiente pra conseguir uma grana pesada e fazer um documentário dos Racionais. Mas tudo bonitinho, com o aval dos caras, para ir às salas de cinema – coisa grande. Quero mostrar várias coisas que têm que ser ditas sobre Racionais e as pessoas não falam. A gente não tem noção do que é o Racionais. O rap (no geral) não tem essa noção, do que é vender um milhão de cópias. O segundo que vende mais, vende 30 mil, olha a disparidade. A gente não sabe o que é ganhar um prêmio de Escolha da Audiência da MTV. Quando você esta vivendo o processo, como o rap vive o Racionais, não da para perceber a evolução, percebe-se com mais clareza quem vê de fora e esporadicamente. Por isso, tenho esse sonho de mostrar para os de dentro e para os de fora, quão grande é o Racionais.

Pedro....

Pedro é formado em cinema pela PUC (Arquivo)

Nêgo tem que saber a real, por exemplo (guardadas as devidas proporções): o mestre Chico Buarque vende muito, escreve demais e tem uma forte participação social na sua arte. Os Racionais vendem muito, escrevem demais e têm uma forte participação social em sua arte, ou seja, os dois têm o mesmo valor? Não! Mas, porque a mídia não trata os daqui como os de lá? É isso que quero dizer. Os caras que estudam a música, os críticos, os formadores de opinião, eles têm que reconhecer o que é esse fenômeno chamado Racionais.

Em outubro de 2008, a Rolling Stone publicou uma lista dos 100 maiores artistas da música brasileira. E lá estava Mano Brown na 28ª posição na frente de nomes como: Tom Zé, Cazuza, Marisa Monte, Lulu Santos, Clara Nunes, Martinha da Vila, João Bosco, Djavan, Zeca Pagodinho, Daniela Mercury e por aí vai…

Nike

No dia do meu aniversário, no ano passado, um cara fodão do marketing de lá me ligou e me chamou pra ir pro escritório dele, porque ele queria me conhecer. Na minha cabeça eu achei que era por causa de trampo. Aí eu cheguei lá, ele me apresentou o escritório, a empresa, e trocando idéia de boa, ele me contou: “A gente vai escolher 64 pessoas no Mundo pra acompanhar o lançamento da marca na China e queremos que você seja uma delas”. O cara me falou isso do nada. E eu fiquei em êxtase, claro. Pra ele viajar é normal né, mas pra mim…E eu topei, claro.

Eles buscaram meu nome pela internet. Uma coisa que eu acho que ajudou é que a Liga dos MCs teve um apoio da Nike e eu estava lá filmando. Então acho que alguém me viu e chegou nele. Aí ele conseguiu o documentário, gostou, entrou no meu MySpace, gostou também e acabou me chamando. Aí a gente foi pra China e foi a experiência mais surreal da minha vida. Ficamos lá seis dias e foi louco, tinha 64 cabeças muito pensantes, todo mundo ali produzindo. Nossa missão era falar de algo quando voltasse, a gente resolveu fazer uns vídeos.

Foi o lançamento da Nike Sportswear, que é voltada pra cultura de rua. E a partir dessa viagem rolou uma afinidade profissional e pessoal com os caras e eu estou fazendo coisas com eles até hoje.

Crítica

Tenho uma filosofia sobre críticos que é a seguinte: eu dou valor a dois tipos de críticos. Um, os que têm um claro conhecimento sobre o assunto e dois, os que já realizaram algo sobre o assunto. Porque mano, senão fica muito fácil e cômodo, dormir o dia inteiro, acessar a internet no final do dia, ver meus trabalhos, ir pra balada à noite e começar a falar deles. Algumas pessoas falaram mal do meu doc, mas dessas quantas são Ph.D em hip-hop, ou quantas já fizeram um filme sobre a cultura? Entende meu raciocínio? Aí aparecem pessoas criticando o CD de alguém, um show, uma rima… Você pesquisa um pouquinho a biografia dessa pessoa e percebe que ela nunca gravou um disco, sequer sabe o que é colocar voz em uma música, não sabe o que é um timbre, um loop, um sample, mas já se acha afiada para criticar.

E, tem outra também, depois dessa peneira toda só aceito as criticas construtivas, requisito numero 1 para se criticar: “não confunda a obra com o autor”. O fato de eu não gostar de uma pessoa não é padrão para eu analisar sua obra e a recíproca é verdadeira. Eu gosto de um monte de gente que faz rap ruim por aí. Então, resumindo… critiquem-me, critiquem o Pentágono, o Kamau, o Emicida, mas antes disso passem por 10% do que eles passaram… Gravem cd’s independente, façam boas rimas, gravem vídeos, lotem seus shows e, depois, pensem em criticar a obra dos caras (ou a minha).

Não vamos nem falar de dinheiro para não polemizar, cada qual sabe o que seu coração diz. Mas, se o cara ta feliz trabalhando o dia inteiro, todos os dias da semana, ganhando pouco, aturando playboy chato mandando e sobrevivendo no limite. Azar o dele. Eu quero é mais.

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Emicida citou Pedro em sua nova mixtape

Emicida citou Pedro em sua nova mixtape (Ênio César)

Durante a entrevista que nos concedeu alguns meses atrás, Emicida contou uma história de como Pedro Gomes o ajudou em um momento e foi importante para a sua carreira. Na recém lançada mixtape “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe”, inclusive, o MC fez uma homenagem ao Pedro na última faixa – Ooorra (aquela que deu nome à mixtape). Se liga:

EMICIDA

“Eu conheci os caras do Pentágono em 2006, quando colava na Rinha direto, e o Pedro chegou em mim um dia e falou de um evento que chamava Liga dos MCs e me chamou pra ir pra lá. Eu falei que até queria, mas era no Rio de Janeiro, né. E ele me disse que ia dar um jeito de a gente ir pra lá. Aí ele se ofereceu pra pagar tudo do bolso dele e eu ofereci metade do prêmio se eu ganhasse. E a gente foi, fomos de avião, ele fez questão de fazer tudo certinho, do jeito como tinha que ser.

Chegando no Rio eu já tava na maior pressão, pensando que não podia perder, porque era mó responsa né, o cara tava me bancando. O prêmio era de R$ 1.000, nem era ‘a grana’, mas eu precisava ganhar, e ganhei. Foi foda. Ganhei também uma outra batalha lá que chamava o Rei do Microfone, que também rendeu uma graninha, umas roupas, aí a gente dividiu tudo.

E nessas meu nome foi aparecendo em mais eventos de Freestyle. Teve também o Hutuz, a galera lá começou a prestar atenção em mim, foi legal. E antes da final ia ter um evento que o Max B.O. me chamou pra rimar em São Paulo, no Jardim Jangadeiro, na zona sul. Eu não tinha como não aceitar. Aí eu e o Pedro voltamos pra SP, eu cantei aqui e depois voltamos pro Rio de novo.

Então por esse período ele me agenciou mesmo, cuidou de toda parte de produção, de estar onde a gente tinha que estar. Foi muito louco, eu gosto muito do Pedro por isso, ele é tipo meu irmão”.


“Faixa a Faixa” – Non Ducor Duco por Kamau – Parte II / Videoclipe “É o Moio”

Kamau em ação por Acauã Novais

Kamau em ação por Acauã Novais

Pra quem achou que tínhamos esquecido, segue a segunda parte da resenha faixa a faixa do disco Non Ducor Duco, dixavado pelo próprio Kamau. Boa leitura!

10 – Domínio

Todo mundo quer saber do Dominantes, mas a gente fala no começo da música: não é grupo. Não pretendemos lançar nada. Já tive a idéia de fazer algo com o Parteum, mas pela incompatibilidade de tempo não rolou. Na minha parte da letra, eu falo de dominar a minha vida e na segunda parte eu falo de dominar o que eu faço, que é rimar, de falar o que eu quero falar. Sobre o Rick, a história de porque ele não participou já foi contada, mas tem uma coisa muito importante a ser falada agora: o Simples não acabou.

11 – Resistência
O Kl Jay é um dos maiores exemplos de longevidade, de evolução dentro do hip hop. Acho que as duas maiores referências que a gente têm são ele e o Brown, que continuam relevantes hoje em dia. Não que as outras pessoas não sejam relevantes, mas muita gente perde o fio da meada e se perde lá pra trás, ou quer pular demais de fase e acaba se tornando outra coisa. O Kl Jay continua sendo ele, o Brown continua sendo ele, e os caras estão à frente de muita gente que chegou agora, e continuam, na minha opinião, tão relevantes quanto no Holocausto Urbano, no Consciência Black.

12 – Sabadão
Eu sempre saí bastante, desde de uns 18 anos, mas nunca foi pra arrebentar na balada, foi sempre pra trocar idéia com o pessoal, me divertir. Aí eu parei um pouco de sair pra me concentrar no disco, mas eu ainda sou uma pessoa da madrugada, de ficar pensando milhões de coisas, escrever, ouvir música, ficar na net. Eu parei um pouquinho de sair uma época, mas esse é meu trampo né, eu gosto de ouvir música, de ver as coisas acontecendo, de conhecer pessoas.

Muita gente veio falar pra mim: “Pô, mas você ta reclamando dos caras que pedem VIP pra entrar nos rolês!” Mas ninguém prestou atenção que no começo eu ligo pra alguém pra conseguir um VIP. Porque às vezes as pessoas têm grana, mas pedem VIP pra falar que é VIP. Eu não gosto de ficar pedindo não, mas às vezes eu quero muito e não tenho grana, e aí eu peço mesmo. E eu peço pra quem eu sei que eu posso pedir, pra alguma pessoa que eu sei que vai me entender, que a gente já se conhece. Mas tem gente que eu nunca falei, nem conheço, que me liga pra pedir, e é desses caras que eu falo na música. Imagina eu ligar pra produtora do show do Kanye West: “E aí, eu sou do rap, não tem como você me arrumar um ingresso?” Não é assim.

Geralmente nessas músicas que falam de balada, ou o cara se deu bem ou ele se deu muito mal, nem chegou na balada. E essa daí é só uma balada ruim, ta ligado? Mas é assim mesmo que funciona, é mais real pelo menos, a balada tava ruim e eu fui embora.

13 – Komwé
Hoje em dia todo mundo é paparazzi, todo mundo é crítico, e muita gente fala da vida da pessoa sem saber de nada. Só porque a gente vê uma pessoa toda semana, em um pedacinho do dia dela, a gente vai saber como ela é? Não é assim. E tem um monte de gente falando de mim, do Emicida, do Kl Jay, do Mano Brown, do Rappin’ Hood, do B. Negão e de sei lá mais quem, tudo sem saber do que está falando.

Os caras não sabem como é, então quem fala o que quer escuta o que não quer mesmo. Komwé é tipo “E aí?” em Angola, quem me ensinou isso foi o MC Kappa (MCK) que é de lá e que eu conheci por aqui.

14 – Amar é
Em todas as músicas de relacionamento que eu já fiz, cada uma foi direcionada pra uma ou mais pessoas. Essa é uma música de amor em que eu tento definir o que é o amor. Existem várias formas de amar, de amar várias coisas, pessoas, formas diferentes. Quando a gente ama, a gente sente várias coisas que eu falo na rima mesmo, a gente se esforça sem esperar por retorno. Faz porque acha legal, sem esperar nada em troca. Eu estava numa situação estranha na época também, refletindo bastante sobre isso e acabou saindo a letra.

15 – Tambor
Tambor é um resgate do que é a nossa música, de como era feita a música na África e muita coisa não chegou pra gente aqui do jeito que era lá, porque as pessoas que trouxeram os escravos pra cá não queriam que a cultura se perpetuasse, só queriam usar pra finalidade de trabalho, usar a mão de obra mesmo, não era um intercâmbio. Mas ao mesmo tempo a parada é tão forte que não tem como tirar isso da pessoa.

E a linguagem do tambor, que veio de muito tempo atrás, continua sendo ‘mais ou menos’ a mesma, e isso é uma forma de resistência também, de perpetuar a nossa idéia. O tambor mudou, mas é o que eu falo, desde o djembê até a MPC continua a mesma essência. A gente mudou o jeito de tocar o tambor, mas muitas pessoas não mudaram a idéia e só mudaram talvez o jeito de falar, para que a idéia possa ser entendida e se propagar. O Rincon e a Thalma arregaçaram nessa música.

"Não sou conduzido, conduzo" - Acauã Novais

"Não sou conduzido, conduzo" - Acauã Novais

16 – A quem possa interessar
A primeira parte é livremente baseada no meu irmão, que corre atrás de trampo, de estágio. Ele fez colegial técnico, então ele acordava cedo e não tinha muito tempo pra fazer as outras coisas que ele gostava, mas ao mesmo tempo ele gostava de estar ali. Ele gosta do trampo que ele faz porque é o que ele escolheu, mas tem muita gente que não gosta do que faz porque não escolheu aquele trampo, e por um acaso se tornou técnico de televisão, por exemplo. Mas é um trabalho digno, a pessoa se sente bem trabalhando e tendo as coisas delas, fazendo o corre dela.

Muita gente quer tripudiar em cima, às vezes você trampa 15 anos da sua vida, compra um carro, aí chega alguém falando: “Ta boy hein?” Boy? Você guardou dinheiro por 15 anos e ta boy? Não caiu do céu não, ta ligado. E a música é também pra que essas pessoas não se preocupem com aquelas que só vêem quando você conseguiu juntar, que é pra você continuar fazendo seu corre que também compensa. Correr pelo certo compensa.

A segunda parte é baseada num camarada meu da escola que estudou pra caramba pra passar no vestibular, e ele conseguiu mesmo uma bolsa num cursinho particular, passou em arquitetura na USP e hoje ele é arquiteto. Outro dia ele apareceu num show meu e disse que está trabalhando com reforma, não é bem o que ele queria, mas ele é arquiteto, ta ligado? Um camarada meu, um cara que sentava na minha frente na sala de aula, no colégio estadual, que me passava cola (eu também passava pra ele às vezes, que eu também era bom aluno), e faz o que se dedicou pra fazer.

Outra coisa que é muito importante e é um assunto que eu abordo na letra é que ninguém mais é fã de rap hoje em dia. Eu sou pra caramba. Sou fã do Rincon, sou fã do Emicida. O Emicida pra mim é um dos melhores, eu falo pra ele e ele não acredita, mas ele é inspiração pra mim, tanto quanto o Kl Jay, quanto o Brown são. E os caras têm medo de falar que são fãs, chegam em você cheio de dedos: “Aí, não é querendo não, ta ligado, não é querendo pagar mas eu gosto da sua música”. Pô, gosta do negócio, admite que gosta, que é fã, não tem problema nenhum nisso não.

Kamau mostrando suas rimas para o público da Neu (17/04) - Acauã Novais

Kamau mostrando suas rimas para o público da Neu (17/04) - Acauã Novais

17 – Homens trabalhando
Aquela conversa que rola minha e do Nave antes do beat foi uma simulação da realidade, a gente reproduziu uma conversa que tínhamos tido antes de verdade. Isso só quer dizer que a história não acabou.



Perdeu a primeira parte? Clique aqui para conferir.

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Videoclipe – É o Moio

Como prometido, o Pentágono colocou no ar, ontem (21) à noite, o videoclipe da música É o Moio, do disco Natural, dirigido por Pedro Gomes. Filmado em alta qualidade, com definição de cinema, o clipe é uma produção como nunca vista antes no rap nacional. Corra e seja um dos primeiros a assistir o vídeo, clicando aqui.

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Festa

Quateirão apresenta: Funk Buia e Dj Tano

Quateirão apresenta: Funk Buia e Dj Tano

Nesta quarta-feira (22), a festa Quarteirão recebe o MC Funk Buia e o Dj Tano na Jive Club. A discotecagem fica por conta do Dj Kefing ( Lua, Tapas)

Serviço:
Hoje (22) na Jive Club.
Al. Barros, 376. Higienópolis – Sao Paulo/SP
Informações: 3663-2684 ou http://www.jiveclub.com.br/
Lista: quarteirao2009@gmail.com
Aceitam cartões de crédito e débito Visa e Mastercard

E aí, o que achou da resenha do disco do Kamau? Gostou? Era isso mesmo que pensava das músicas? E o clipe do Pentágono, viu? Gostou? Comente e expresse a sua opinião.

A História do Indie Hip Hop no Sesc – Parte II

Além de MC e produtor de eventos nas horas vagas, Rodrigo Brandão é ainda um dos maiores conhecedores de hip hop do Brasil, e tem contato direto com monstros da história da cultura, como o próprio Afrika Bambaata. Por esse e outros motivos, sua opinião sobre o atual momento do hip hop no país deve ser considerada essencial para entendermos a época de ‘vacas magras’ em que o hip hop se encontra por aqui.

Na segunda parte da matéria exclusiva com ele, você confere, além dessa visão, outras informações sobre a edição do festival Indie Hip Hop deste ano, que terá a participação de Talib Kweli, e ainda uma novidade sobre o eterno Sabotage, considerado por Brandão um dos padrinhos do festival. Para os fãs do grupo Mamelo Sound System, ele adiantou que sua parceira Lurdez da Luz está finalizando um EP de nove músicas, que será lançado no ano que vem.
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Preconceito

“Sempre existiu muito preconceito em relação ao hip hop, que muitas vezes até se justifica, por um pensamento recorrente de: ‘ah não, esses boy tão vindo aqui pra tomar’, existe muito ainda esse tipo de atitude. Fora isso existe, do outro lado, preconceito mesmo com o hip hop, com rap, por parte de quem é de fora, do olhar exterior. Por um lado interno do hip hop ainda existe muita má organização, muito preconceito, muita falta de noção de que as coisas tem quem andar pra frente e você tem que se relacionar.

Se você for parar pra pensar, tanto musicalmente quanto em termos de atitude mesmo, pensando em grana, o hip hop lá fora só virou grande do jeito que está hoje porque foi aprendendo ao longo dos anos a englobar informação e samplear estilos de música cada vez mais variados, e ainda valorizar a coisa nova, a coisa ‘fresh’. Aqui no Brasil é o contrário.

Mano Brown fotografado nos batidores de um show por João Wainer

Mano Brown fotografado nos batidores de um show por João Wainer

O tempo todo, até hoje, a maioria das pessoas tá tentando imitar o Racionais, que é do caralho, eu sou fãzasso dos caras, original pra caralho, mas o melhor jeito de você ser fã de Racionais é você se espelhar na atitude, na independência, no histórico dos caras, mas tentar espelhar aquilo ali dentro do que você é. Eu amo o Mano Brown, é o meu herói com certeza, mas eu vou meter uma bombeta igual à dele, vou falar as gírias iguais a dele? Não vou, vai ser ridículo, vai ser até pior porque eu vou estar tentando sugar o que o cara é e tentar me aproveitar do que ele conquistou.

E aí, enquanto isso não acontecer, realmente os caras que tão olhando de fora vão ter razão de olhar com preconceito pro hip hop. Junta isso ao que aconteceu na Sé no ano passado, aí fodeu. Porque o que aconteceu? O rap já era considerado esquisito naquela época, mas tinha uma coisa que era super popular, que é o Racionais. Eu estava no palco, vi o que aconteceu e foi bola cantada na caçapa.

Naquele dia, a polícia de São Paulo foi ali pra bagunçar, tava ali pra criar um evento que tornasse a situação do Racionais e conseqüentemente do hip hop em geral, muito pior. Porque é um troço que é contestador, que não se curvou, e aí pensaram: ‘os caras vão cantar na Sé no palco principal do maior evento de cultura da cidade…então agora mesmo que nós vamos acabar com isso aí!’.

E o que a gente ouve falar, não é uma informação que alguém do Racionais me falou, é que eles tão tendo dificuldade pra marcar show. E isso se reflete em toda a história, ninguém está conseguindo marcar show de rap. Contratante de rap lembra do episódio com a polícia, pensa que vai dar errado. Infelizmente isso ecoa e o que acontece é que o grupo mais importante, que chegou mais longe fazendo rap no Brasil, agora se vê numa sinuca de bico. E se eles que são a ponta de lança da história estão travados, tudo que vem atrás está travado também.

Então o hip hop no Brasil está numa situação extremamente complicada, em termos de conseguir sobreviver mesmo. E nas periferias, com a invasão do funk, o que acontece é que o pessoal do funk aceita o rap, mas o pessoal do rap não aceita o funk, então tende ao lance do hip hop ficar cada vez mais apertado, cada vez mais fechado.

Indie Hip Hop / Trabalho

A verdade é que o festival já me toma muito mais tempo do que eu gostaria. Se tiver que partir de mim essa idéia de ampliar, fazer outra edição, levar pra outro estado, aí que eu não vou fazer meu som mesmo. E na verdade, tudo que me move é fazer música. O meu sonho é que existisse um circuito de festivais de rap e também de outro tipos de som que englobassem o hip hop, e eu não precisasse fazer isso.

Eu acredito na parada da seguinte forma: se eu tenho a oportunidade de fazer, eu vou fazer até onde der pra mim, porque eu já estou fazendo mais do que eu gostaria, entendeu? Se eu pudesse, queria estar fazendo turnê do Mamelo pelo Brasil inteiro. Ao mesmo tempo, se você tem paixão por uma cultura e enxerga isso, um pouco eu vou fazer, mas eu não vou parar minha arte, aquilo que eu acredito, pra virar arauto de uma cultura.

Querendo ou não, é uma cruz que eu tenho que carregar também. O ano inteiro chega gente pedindo pra tocar no Indie, pedindo pra participar, quando na verdade o lema é: não dá pra ajudar quem não se ajuda. Tipo assim, quem tá fazendo o seu trabalho corretamente e direito, é natural acabar sendo convidado.

Enéas aka Enézimo lançará o CD "Um cara de Sorte" no Indie 08'

Enéas aka Enézimo lançará o CD "Um cara de Sorte" no Indie 08'

Vou te dar um exemplo palpável disso, que é a rapaziada de Santo André, do Pau-de-dá-em-Doido. Eu já conhecia o Enéas de muito tempo, ele é do Armageddon, aí no ano passado a gente foi fazer um show do Mamelo na prefeitura de Santo André, num projeto que chama Canja Com Canja. Aí chegou o Enéas, me entregou a mixtape do Pau-de-dá-em-Doido e falou: ‘a gente acabou de lançar. Escuta aí!’. E eu falei: ‘valeu’. Ele não virou pra mim e falou que queria tocar, que isso, que aquilo.

Aí eu escutei o trampo, achei bacana, apresentei pro pessoal do Sesc, eles também gostaram. Os caras foram, entraram no elenco do festival, fizeram um show do caralho, uma puta surpresa pra quem não conhecia o trabalho deles, se destacaram. Esse ano os caras continuam na correria, então é gente que tá trabalhando e é natural que isso acabe crescendo e ecoando.

Isso é a coisa de uma cultura, de uma teia de gente trabalhando pra coisa funcionar. E acho que enquanto não tiver mais Enéas, mais Kl Jays, mais Djs Natos, mais Rodrigos e mais Per Raps, o bagulho não vai rolar, tá ligado? Eu acho que quando tiver todo mundo trabalhando pra coisa dar certo, aí sim a gente vai se encontrar e dominar os espaços que existem pra ser dominados.

Eu acho que a coisa tem que partir mais nesse sentido de: ‘o que eu posso fazer pra crescer o meu e o de todo mundo?’. O Kl Jay é um exemplo disso. Ele poderia ter feito uma mixtape só com música gringa, ou até com algumas coisas nacionais, mas não, ele fez questão de fazer só com música brasileira e ainda chamou um monte de gente que não está nos vinis que ele usou pra participar também.

Kl Jay, um exemplo a ser seguido no Hip Hop (divulgação)

Kl Jay, um exemplo a ser seguido no Hip Hop (divulgação)

O cara criou oportunidade pro trabalho de um monte de gente ser mostrado dentro do trabalho dele. Esse é o tipo de mentalidade. Ele vai parar de discotecar, de fazer o Sintonia, pra produzir evento? Não vai. Mas vai, dentro do possível, produzir evento que ele possa participar e trazer mais gente, o meu ponto de vista é o mesmo.

O que mais falta é gente trabalhando pro hip hop. Ao mesmo tempo que é legal que a coisa é muito de rua, tem essa falsa aura de facilidade, que é só pegar um mic, rimar Brandão com sangue bom e já era. E na verdade não é isso, existe toda uma história de lírica de rap, de fonética, de dialogar aquilo com uma musicalidade, porque senão vira um discurso só, tem ainda a coisa de habilidade de Dj, e tudo isso tem uma sintonia fina que faz parecer fácil mas que é muito difícil.

Tem uma música do Beans de uns anos atrás em que ele fala isso, o problema é que tem “too many emcees and not enough listeners” (“muitos MCs e poucos ouvintes”). Tem muita gente querendo ser artista e poucos fãs, pensando: ‘pô, eu gosto do bagulho então vou trabalhar com isso, vou produzir evento’. É essa história.

O hip hop é uma cultura que nasceu de uma atitude de você fazer as coisas por você mesmo, e agora chegou num ponto que tá ao contrário, nego tá querendo ser carregado no colo e não fazer nada por si mesmo. Acho que as pessoas que tão chegando agora tem que sacar de pensar: ‘beleza, isso aqui mexeu comigo de certa maneira a ponto de eu querer fazer parte disso, então eu vou buscar retribuir pra cultura, além de só buscar tirar da coisa’.

Critérios

A partir de 2005, começamos a trabalhar com uma regra: o artista tem que ter lançado um disco oficial no ano, e ter tido destaque. Nas últimas três edições, funcionou desse jeito. O grande problema é que nós estamos na era do mp3. Esse ano, quem lançou disco e fez barulho ao longo do ano foi só o Kamau, principalmente, e na seqüência o Doncesão e o Dr. Caligari, ambos com o Dj Caíque.

Então chegou uma hora que eu me reuni com um pessoal do Sesc e perguntei: ‘nós vamos usar essa regra pra ajudar ou pra atrapalhar’? Porque do jeito que estava combinado não ia dar muito certo, só iam ter esses shows aí. Então abriu-se a exceção no seguinte sentido: quem já tem uma certa relevância no cenário e vai estar com disco oficial sendo vendido no dia do evento, pôde participar. Com isso abrimos pra participação do Enézimo, do Projeto Manada e do Subsolo, que vão estar com cd à venda no Indie. O único cd que já chegou, desde o dia em que a gente marcou foi o Sombra (além de Kamau, Doncesão e Caligari). A regra tem que ser moldada de acordo com a realidade, e eu acho que o festival está se tornando até mais do que uma coisa de passar quem fez barulho no ano, mas uma plataforma de lançamento.

Curitiba

Eu cheguei até a apresentar o material do Savave pro pessoal do Sesc, porque o som é bacana, o show é bacana e o formato do trampo é muito original, com o cd pequenininho. Mas aí ficou aquela história de que aquilo ali também pode ser considerado uma mixtape, e aí se abrisse, tinha vários outros trabalhos e ia complicar essa seleção.

Outro cara que foi uma pena, que eu só tive a certeza de que ele estava prensando o cd depois que o elenco já estava fechado, é o Nel Sentimentum. E Curitiba é foda porque é o seguinte, todo ano desde o Hieroglyphics os caras fecham um busão e vem. Então eles tem uma representatividade na parada e a gente tem mó vontade de colocar alguma coisa de lá e de Santo André também, que a primeira vez que teve alguma coisa foi o Pau-de-dá-em-Doido no ano passado, porque o pessoal de lá vai pra caramba e a gente tem essa vontade de dar espaço pra rapaziada até pra retribuir esse amor que vem de lá.

Alternativo x Gangsta

Pros gringos que vêm tocar aqui, em geral, o que pauta o evento é o nome do artista, a representatividade que ele tem, e o caráter do rap dele. Por exemplo, eu sou muito fã do Scarface, mas não vou tentar trazer o Scarface pra tocar no Indie, não dá né, é outro ponto de vista. É até bom deixar claro que o nosso festival é uma festival de rap alternativo, então o artista tem que ter o mínimo de identificação com essa proposta. A coisa do gangsta não nos diz respeito mesmo, até tem várias coisas que eu gosto, mas não é o caráter do Indie.

Homenagem ao rapper Sabotage pelos Racionais MC´s em 2003

Homenagem ao rapper Sabotage pelos Racionais MC´s em 2003

É aquela história, não tem como rotular a verdade de ninguém, tem cara que nasceu aquilo, viveu aquilo e a arte do cara é cabulosa. O Sabotage foi um exemplo claro disso. A lírica dele era 100% gangsta, mas o jeito que o cara fazia a coisa, a mensagem que ele passava, ele se encaixaria facilmente na proposta do Indie e eu considero ele um dos padrinhos do festival.

Eu acredito que, com a morte do Sabota, morreu muita esperança no rap brasileiro, porque ele era um cara que misturou todo mundo. Era uma época em que estava todo mundo muito próximo de um jeito que nunca aconteceu antes e nem depois. A perda dele foi maior do que só da pessoa dele, do talento e do artista cabulosíssimo que ele era, mas também foi a perda de uma pessoa que estava literalmente fazendo o equilíbrio da parada. E dia 24 de janeiro completa meia década sem ele. Cinco anos depois, não aconteceu nada.

(O produtor Rica Amabis, do Instituto, estava junto durante a entrevista e informou que o disco com músicas póstumas e inéditas do “Maestro do Canão” está na fase final de produção e deve sair até o meio do ano que vem. Aguardem.)