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Lauryn Hill se redime em segunda passagem por SP

Nesta terça (07), os paulistanos assistiram a segunda passagem de Lauryn Hill pelo Brasil. Apesar de estar aparentemente mais motivada do que em seu primeiro show por aqui, em 2007, Ms. Hill foi alvo de críticas por parte mídia dita especializada em música e por parte dos fãs.

A principal reclamação foi em relação aos arranjos das músicas, que estavam bem diferentes das versões originais de hits como “X-Factor” e “To Zion”, entre outros. No entanto, a banda de Lauryn não se limitou a reproduzir os beats clássicos do álbum “The Miseducation of Lauryn Hill”, mas sim ultrapassar esses limites, permitindo que a própria cantora e MC tivesse a chance de improvisar e mostrar sua potência vocal.

Nós do Per Raps conferimos o show e aprovamos! Como as opiniões do público e crítica foram adversas e cada um possui seu argumento pró ou contra, ai vai nossa singela ideia sobre a passagem de Ms. Hill por São Paulo.

O sermão do monte, por Ms. Hill Eduardo Ribas

Volte a 1993. Agora imagine a figura de Whoopi Goldberg de batina, à frente de um coral de jovens revoltados com a vida (Mudança de Hábito 2). Se não tiver referências para ir tão longe, imagine a figura de um reverendo, daqueles que comandam os corais das igrejas com potentes corais negros que vivem aparecendo em filmes e videoclipes, sabe? Agora jogue isso tudo fora e substitua a figura do reverendo por Lauryn Hill.

A partir daí, o show vira um sermão e a banda acompanha a “pastora” Ms. Hill, junto de seu coral de três vozes no palco com um público que se revelaria próximo de 7 mil participantes. “Lost Ones” abre a pregação: “É engraçado como o dinheiro muda a situação, falta de comunicação leva a complicação”. Seguindo, “X-Factor”; “tudo poderia ter sido tão simples, mas você preferiu complicar”, entoa Ms. Hill.

Os espectadores do sermão celebram, mas em dúvida, já não compreendem se aquelas palavras ditas de maneira tão diferente eram as mesmas que estavam acostumados antes. Mas eram, só que alguns poucos entenderam.

Percebendo o rebanho disperso, a pastora recupera suas ovelhas relembrando seu passado de glória de sermões ainda mais acalorados, junto de seus companheiros de paróquia, digo, de Fugees. “Fe-gee-la”, “Ready or Not”, “Killing me Softly”. E se ouve um “aleluia” em alguma parte do salão. Desprestigiada se comparada às outras, “Killing me Softly” recebe um repeat, agora com o arranjo original de 1996, que mais pseudo-original que esse, só teria amostra em versão de 1973 por Roberta Flack. “Aleluia!”

Uma rápida passagem pelo sermão acústico, uma breve saída, um pedido de bis, gritos, urros, aplausos e de repente, uma quase onomatopeia após a volta: “Doo Wop” e pronto, “amém”. Alguns saíram sem entender nada, outros meio bravos porque o CD que compraram não era igual ao cânticos que ouviram naquela noite. Outros saíram felizes e alguns até em transe, graças ao contato com o divino em forma musical. A multidão se dissipa e Ms. Hill parte para sua próxima missão.

Per Raps Adverte: O texto faz analogia a um sermão religioso, mas não tem como função ou objetivo depreciar qualquer religião, seita, culto, grupo, filosofia ou pessoa. Àqueles que de alguma forma possam ter se sentido lesados pela utilização de algum termo ou pela analogia em si, reiteramos que a proposta segue de encontro a essa possibilidade.


*Video por Luciana “Playmobile” Faria.

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Negra Li encontra Lauryn Hill em Florianópolis

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread no show de Floripa

Quem acompanha minimamente o rap no Brasil, já ouviu falar do grupo RZO. Formado pelos MC’s Helião e Sandrão mais o DJ Cia nas pick-ups, o grupo já contou com a cantora Liliane de Carvalho nos vocais e na rima. Para quem não sabe, Liliane é Negra Li, que viu sua carreira atingir novos patamares após deixar o grupo de rap de Pirituba (São Paulo).

Por sua qualidade vocal, Negra Li recebeu diversas comparações com Lauryn Hill – de quem é fã declarada -, que também possui notável capacidade de cantar e rimar. No entanto, as semelhanças não param por ai: ambas são mulheres lutadoras, que venceram o machismo do rap por seu talento e trabalho, possuem carreira no cinema, são mães e, querendo ou não, as duas se viram longe dos estúdios por um bom tempo.

Ms. Hill não grava nada novo desde seu acústico MTV (2002) e Negra Li teve seu último álbum de estúdio gravado em 2007, junto de Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Desde lá fez inúmeras participações com artistas como Caetano Veloso, Skank e Akon.

Nessa segunda passagem de Ms. Hill pelo país, Negra Li foi convidada para abrir os shows de Florianópolis e Brasília. Depois de abrir o show de sua grande inspiração em Florianópolis, Negra Li falou com o Per Raps por e-mail e contou como foi a experiência que deixará marcas por toda a sua vida.

Per Raps: Como surgiu o convite para você abrir um show da Lauryn Hill? E por quê apenas em Florianópolis e Brasília e não em SP?
Negra Li: Olha, em Florianópolis surgiu através do Leo Comin, do Oculto. O Leo é DJ e promoter em Floripa, me levou tantas vezes pra tocar lá, que acabamos nos tornando amigos. O show da Lauryn foi na Pacha, e o Leo tem uma parceria com a casa… E foi assim que tudo aconteceu. Através de uma sugestão dele, da aceitação do Anjinho e do pessoal da Pacha. E claro, da aceitação que eu tenho junto ao público de Floripa, que é muito forte … Adoro aquele lugar! E toda vez que me apresento lá, sou super bem recebida.

Também vou abrir em Brasília. Esse show foi através do escritório que também fecha show pra mim, a Agência Produtora. Não sei bem como se deu a negociação, mas estou amarradona de abrir e encerrar a tour da Lauryn no Brasil. Porém esse show de Brasília será no formato com DJ e o de Floripa foi com banda, show completo, só faltou minhas dançarinas – Luciana Bauer e Amanda Angel -, pra ser 100% perfeito! Mas, nossa, foi bom demais.

Per Raps: O que você sentiu na hora?
Negra Li: Quando o Leo ligou pra Paulinha (minha produtora), ela me ligou no mesmo minuto. Já sabíamos que estava tudo certo e que um sonho seria realizado! Da outra vez que ela veio, até chorei por não ter sido lembrada.

Per Raps: Você encontrou Ms. Hill pessoalmente? Qual foi a sensação?
Negra Li: Encontrei sim. Ficamos hospedadas no mesmo hotel, fizemos a passagem de som juntas e nos encontramos novamente depois do show dela. Virei tiete mesmo, quase não consegui falar (já quase não falo nada de inglês, nervosa então?! Travei). Meu marido desenrolou o diálogo, pude falar sobre nossa trajetória parecida… Foi intenso! Maravilhoso!

Per Raps: Qual a influência de Lauryn Hill no seu trabalho?
Negra Li: Total! Quando comecei no RZO, ela cantava no Fugees, uma banda de rap. Eu olhava pra ela e me inspirava demais, acabou que peguei muito do que ela fazia e ouvia pra mim. É isso que a gente faz com os ídolos, né… Absorve!

Per Raps: Como andam seus projetos para 2010/11?
Negra Li: Estou numa correira louca de trabalho, muitos shows pelo Brasil. Dia 13 de outubro vou abrir pro Timbaland, em São Paulo. Uma tour, no mês de novembro, pela Nova Zelândia se confirmando…

Estou mergulhada na pré-produção do meu próximo CD, escolhendo repertório, escrevendo letras. Estou podendo contar com a ajuda muito grande do Sérgio Brito, do Titãs, e de parceiros antigos como Nando Reis e Samuel Rosa. Nessa busca pelo repertório também estão minha gravadora Universal Music e os produtores Rick Bonadio e Paul Ralphs.

Vou começar a filmar um novo longa chamado Poderoso Arco-Iris, que vai contar a história de um serial killer homofóbico e eu farei uma jornalista que vai investigar os assassinatos e acabará na mira do serial. Um filme com muito suspense e ação.

Veja um trecho da apresentação que abriu a turnê brasileira de Ms. Hill, em Floripa.


Erykah Badu emociona público em SP


“Pornografia musical”por Carol Patrocinio

Erykah Badu é Jackie O. É Rainha de Copas. Badu é mulher. Sexo, graça, ironia. Erykah Badu sabe o que quer e não te deixa na mão. Ou deixa, só porque quer. Erykah Badu é aquela mulher que provoca, te deixa louco e vai embora, mas você não reclama – ela foi a melhor que você teve na vida, ainda assim.

Logo que a vi no palco meu coração parou. Era ela, estava ali, a pouquíssimos metros. Se eu desse alguns passos e esticasse a mão poderia tocá-la – deixa pra lá, emoção demais. E assim como meu coração, ela ficou ali, parada num canto do palco, esperando o momento certo para começar sua mágica.

E quando a mágica de Badu começa a ser feita não há como parar. Um clima intimista tomou conta do lugar. Éramos só eu e ela. Uma caixinha de música em que ela era a bailarina e eu dava corda. Toda a delicadeza de Badu anda de mãos dadas com sua força, suas certezas. O salto 15 está no pé, mas ela não precisa disso pra ser muito maior do que se poderia crer.

Quando a intimidade começou a aumentar, Erykah foi até o chão. Fez do pedestal do microfone um mastro, quase pole dance. Unhas, bocas, olhares. Aquela voz. A voz de Erykah Badu faz um registro na sua cabeça, não importa aonde vá, você sempre sabe que é ela.

O show que Erykah Badu fez em São Paulo foi sobre ela, para ela. Mas a maneira que cada um de nós nos identificamos com cada palavra, som gesto que ela faz, nos torna partes de uma gigante. Erykah Badu pode ser egocêntrica, mas ela está pensando em todos nós para fazer isso.

Ao chegar ao fim do espetáculo, Badu deixou lembranças físicas para seus fãs – um acessório, um lenço, um batom. Recebeu presentes. Voltou para o bis, deixou uma mensagem contra preconceito e ficou tão próxima aos fãs que era fácil notar a não aprovação de seu segurança, que andava o palco de lado a outro atrás dela. Erykah Badu deu tanto de si neste show que, por pouco, não saiu de cena como em Window Seat, nua por dentro e por fora.

Foi no show? Conte o que achou ou se está ainda sem palavras para isso!

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Segundo semestre recheado de shows internacionais

“Declarando falência por motivos culturais” – por E. Ribas

O segundo semestre de 2010 está repleto de apresentações internacionais no Brasil. Nomes como Erykah Badu, Lauryn Hill, Rage Against the Machine, Cypress Hill, Jamiroquai Anti-Pop Consortium estão entre aqueles que farão show por aqui. Variando do rap até o funk e o soul, esses nomes prometem causar boa impressão.

O grande problema dessa leva de shows é o valor, que na maioria dos casos é bem salgado. No entanto, vale a pena economizar um pouco na balada (ou seja no que for) para curtir ao menos um desses. O Per Raps aproveitou para destacar alguns desses shows e mostrar quais nós indicamos, mostrando o que de melhor você poderá encontrar em cada um deles.

Há boatos que Jay-Z também virá para o Festival SWU, mas ainda não houve confirmação oficial.

Anti-Pop Consortium

Anti-pop Consortium

Pela primeira vez no Brasil, o quarteto nova-iorquino Anti-Pop Consortium traz as novidades de seu último álbum, o elogiado “Fluorescent Black” (2009). Conhecidos por seu quê visionário, o grupo é considerado à frente de seu tempo e de tudo que o mundo conhece como hip hop. Formado em 1997 por Beans, High Priest, M. Sayyid e o produtor Earl Blaize, o Anti-Pop ficou parado por quase sete anos, mas mostra que ainda tem muito o que mostrar ao público.

Se sua ideia é fugir do convencional, então vale a pena ir ao show para conhecer uma forma diferente de se pensar o hip hop hoje em dia. Mas não se espante com as bases eletrônicas, os broken beats, o barulho e a interferência que você ouvirá, afinal esse é para muitos o grande trunfo do Anti-Pop Consortium. Completando a programação do SubRapCombo, M.Takara junto de R. Brandão (Mamelo Sound System) e Afasia (Carlos Issa e Akin).

Erykah Badu

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Sua primeira apresentação por aqui já faz tempo, rolou no finado Free Jazz Festival há 13 anos. Quem foi diz ter sido um dos melhores shows vistos em terra brasilis. E não tenha duvidas disso! Erykah não é do tipo que produz hits fonográficos, apesar de vez ou outra aparecer nas paradas e ter seus videoclipes presentes na programação de canais dedicados à música (no Brasil, nem tanto).

Por incrível que pareça, o ponto forte dessa apresentação não deverá ser seus álbuns anteriores – Baduizm (1997), Mama’s Gun (2000), Worldwide Underground (2003), New Amerykah Part One (4th World War) (2008) -, e sim seu mais novo lançamento, New Amerykah Part Two (Return of the Ankh) (2010), um dos álbuns mais românticos e bem dosados (com beats mais orgânicos) da cantora, sendo também muito bem recebidos pela crítica.

Apenas o time da produção do disco já garantiria o sucesso, contando com pedradas do novato James Poyser, além do saudoso J-Dilla, Questlove (The Roots), Madlib e 9th Wonder. Sobre o que esperar do show? Tom intimista e soul hipnótico da melhor qualidade.

Lauryn Hill

Lauryn Hill

Conhecida por ser MC e cantora de um dos grupos mais celebrados do rap, o Fugees, Miss Hill sobe aos palcos brasileiros pela segunda vez. No entanto, desde a última vez não houve muita novidade da norte-americana, musicalmente falando. Depois de começar sua carreira solo com o bombástico The Miseducation Of Lauryn Hill (1998), a MC teve problemas com sua gravadora e viu sua produção musical decair.

Na primeira passagem de Lauryn por São Paulo (2007), o som, que parecia ter uma potência muito maior do que a casa comportava (Credicard Hall), deixou muitos fãs com um zumbido nos ouvidos por alguns dias (!). Isso comprometeu todo o show. Para piorar, Miss Hill não parecia estar no auge de sua empolgação.

Para esse novo show, Lauryn traz um único lançamento desde sua coletânea “Ms. Hill” (2002), a música “Repercussion”. Já é um sinal de retomada, mesmo o som sendo uma peça única. No mais, sempre vale a pena relembrar ótimas músicas como “Doo Wop“,“Everything Is Everything” e “Ex Factor“.

Rage Against The Machine

Rage Against The Machine por Tobin Voggesser

Se você tem ao menos 20 e poucos anos pode curtir um pouco da fúria das letras de Zach de La Rocha, juntas dos riffs distorcidamente impressionantes de Tom Morello em sua adolescência. Há quem curta rap e torça o nariz para Rage Against the Machine, no entanto o conteúdo das rimas de Zach desintegra muito discurso de rappers wannabe por ai. Sem contar com a musicalidade do grupo, que não se contenta com o destaque vocal e “guitarrístico”, mas traz o ótimo baixista Tim Commerford e baterista que maltrata as baquetas (positivamente falando, claro), Brad Wilk.

O RATM terminou no início dos anos 2000, após a saída de Zach de La Rocha, no entanto os integrantes remanescentes embarcaram junto do vocalista Chris Cornell (ex-Soundgarden) no projeto “Audioslave“. O grupo foi bem e rendeu boas músicas, mas para a felicidade dos fãs, Zach retornou em 2007 e vários shows foram marcados pelo mundo inteiro para celebrar a nostalgia.

Nada novo deverá ser apresentado, mas levando em conta que é a PRIMEIRA apresentação do grupo por essas bandas, vale a pena apertar o cinto e pagar R$ 190 (uooow!) para vê-los.

Anti-pop Consortium no SubRapCombo 2010
Quando?
28 de agosto (sábado), às 21h
Onde? Choperia do SESC Pompéia
Quanto? R$ 20,00 [inteira], R$ 10,00 [carteirinha, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] e R$ 5,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]
Classificação: Não recomendado para menores de 18 anos
O Anti-pop Consortium também se apresenta no SESC São Carlos (27/08) e no SESC Ribeirão Preto (25/08).

Erykah Badu em São Paulo
Quando? 29 de agosto, a partir das 20h
Onde? Credicard Hall – Av. das Nações Unidas, 17.955
Quanto? entre R$ 100 e R$ 400, com direito à meia-entrada
Informações: http://www.credicardhall.com.br / (11) 4003-6464

Lauryn Hill em São Paulo
Quando? 7 setembro de 2010, às 21h30
Onde? Credicard Hall (Av. das Nações Unidas, 17.955 – Santo Amaro)
Quanto? de R$ 100 a R$ 250. Podem ser adquiridos pela internet (www.ticketsforfun.com.br)
Informações: http://www.credicardhall.com.br e (11) 4003-6464
A cantora se apresenta em Florianópolis no dia 3 de setembro no Stage Music Park, no dia 6 no Citibank Hall no Rio de Janeiro e termina sua passagem pelo Brasil com um show em Brasília, na Prainha da ASBAC, dia 12.

Rage Against the Machine no SWU Music and Arts
Quando? 9 de outubro de 2010
Onde? Fazenda Maeda (Rodovia SP 75 Santos Dumont, Km 18 Sul, em frente a balança, sentido Itu/Sorocaba.)
Quanto? de R$95 a R$560 [Ponto de venda: Ginásio do Ibirapuera (Rua Manoel da Nóbrega, 1361, Paraíso, São Paulo) ou http://www.ingressorapido.com.br]
Informações: http://www.swu.com.br

O que achou dos shows? E dos preços? Vai em alguma apresentação? Comente!


Entrevista: Lurdez da Luz, Pathy Dejesus e Lívia Cruz

Lívia Cruz por Stephanie Sidon, Pathy Dejesus (divulgação) e Lurdez da Luz (divulgação)

“Muito além do ser mulher” – por Carol Patrocinio

Quando as pessoas pensam em rap já imaginam um homem, de preferência negro, com roupas largas, cara de mau, muita marra e um microfone na mão. Ei, mundo real, chamando! Rap é música, expressa sentimentos, vivências, histórias. E isso todo mundo tem: branco, preto, amarelo, homem, mulher, religioso ou ateu. E é aí que entram as personagens do texto de hoje, três mulheres que ganharam espaço e notoriedade num mundo que – queriam que elas acreditassem – não tinha espaço pra elas. O mundo estava enganado!

Lurdez da Luz, Pathy Dejesus e Lívia Cruz. Mulheres. Bonitas. Femininas. Elas são feitas de sorrisos, olhos, unhas. E como as mulheres de outras cenas, querem estar bonitas, gostam de como são, não querem mudar para agradar e acreditam que o talento fala mais alto do que qualquer coisa.

Preconceito? Existe. Por ser mulher, por ser bonita, por ser branca ou por ser negra. Desafios? Estão aí para serem deixados pra trás e lembrados como vitórias. Qualidade? Tem de sobra. Essas mulheres provam que o que importa é fazer com o coração e aí o respeito vem, quando menos se espera.

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Per Raps: Pra você, como o preconceito é demonstrado no rap?

pathy dejesusMeu pai me falou uma parada que ainda ecoa na mente e infelizmente faz o maior sentido até os dias de hoje: se você quiser ser alguém, ser bem sucedida no caminho que escolher, vai ter que trabalhar duas vezes mais pra ter o mesmo reconhecimento porque é mulher”

Lurdez da Luz: Acho que o rap brasileiro está mais consciente nesse sentido do que o norte-americano de um modo geral, no que diz respeito as músicas misógenas é mais tranquilo. Acho que o machismo está tão arraigado que nem sei onde começa e onde termina e num é privilegio do rap não, em toda sociedade e nichos musicais rola só que de diferentes formas. Vide o número de instrumentistas mulheres em qualquer show de música, seja lá de que estilo for, sempre muito menor que o de homens.

Infelizmente ainda rola esse lance de muitas mulheres não se sentirem representadas por outras que estão no palco, que é reflexo de uma cultura machista, de de repente achar que você tá ali pra “aparecer” ou por causa dos caras, ignorando toda a dificuldade que é fazer arte, ainda mais rap. Mas comigo, pessoalmente, não é só o fato de ser mulher, tem o lance da pele clara, me vestir de um jeito estranho, ter um discurso talvez não muito simples de interpretar e desde do começo num ficar me explicando, deixar as pessoas livres pra pensarem o que quiser ao meu respeito.

Pathy Dejesus: Gosto de ver as coisas sempre por um ângulo mais positivo. Falta muito ainda, mas já foi bem pior… Ainda somos uma minoria dentro desse processo. Ainda existem as letras que inferiorizam, ridicularizam, menosprezam e ofendem mulheres (o que aliás já é bem batido, né?). Ainda tem homem que torce o nariz quando vê uma mulher no mic, nos toca-discos, dançando, grafitando. Mas o mundo é isso! Preconceito não é exclusivo do rap. Ele só é reflexo (talvez em maior intensidade) de uma sociedade preconceituosa (lê-se machista também). Ele está aí e não pode servir de empecilho pra quem realmente quer fazer parte.

Existem várias mulheres que quebraram e estão quebrando esse paradigma. Desde seu início, lá nos EUA entre os anos 70 e 80, a cultura é uma coisa “pra homens” e raríssimas mulheres conseguiram invadir esse espaço. As que conseguiram eram todas excepcionais (Roxanne, Salt n’ Pepa, Queen Latifah, MC Lyte, dentre várias) e fizeram a diferença! Se hoje parece difícil, imagina há três décadas. Se essas pioneiras não tivessem insistido, batido de frente pra demonstrar seu talento e sua paixão pelo hip hop, dificilmente estaríamos conversando agora.

Aqui no Brasil não é diferente… o hip hop entrou na minha vida em 94. Lembro da Rúbia, da Dina Di, da Rose MC, depois Negra Li. Tente pesar a determinação dessas mulheres naquela época… Quando fiz 13 anos, meu pai me falou uma parada que ainda ecoa na mente e infelizmente faz o maior sentido até os dias de hoje: se você quiser ser alguém, ser bem sucedida no caminho que escolher, vai ter que trabalhar duas vezes mais pra ter o mesmo reconhecimento porque é mulher. E mais duas vezes porque é negra. De onde venho as coisas nunca foram fáceis. Graças a Deus, cresci num ambiente onde ao invés de só lamentar e apontar culpados pela situação desvantajosa, batemos de frente e não desistimos tão facilmente dos nossos sonhos.

Lívia Cruz: O preconceito contra as mulheres? Eu já disse isso várias vezes, o preconceito e discriminação contra as mulheres no rap não é diferente do que a gente vê na sociedade em geral, as manifestações tão aí a toda hora, vão das cantadas e dos barulhos obscenos que a gente é obrigada a escutar quando está simplesmente passando na rua, até uma atitude mais extrema de violência física e psicológica. Esse assunto é sério e delicado, acho que a educação, como em quase, tudo é a chave, e a música, sem dúvida, tem grande papel de formação.

Per Raps: O que significa fazer um rap feminino atualmente?


Parece fácil ser MC, mas num é não. Seja homem ou mulher”

Lurdez da Luz: Atualmente já está tudo um pouco mais fácil pra todo mundo, existe uma evolução em relação a acesso a tecnologia, a informação e o fluxo de dinheiro dentro da cultura aumentou (ainda é pouco), o respeito fora do rap aumentou também. Eu comecei a fazer isso em 1999, só existia a Dina Di, que era uma rapper cabulosa mas que eu num me identificava e a Rose MC e Lady Rap, que num tinham muitas faixas gravadas pra gente ter algum ponto de partida. Eu curtia muito o estilo da SharyLaine, mas que já num lançava nada há anos… Enfim tive que inventar um jeito de fazer minhas rimas e levadas.

Lembro que mostrei meu primeiro rap pra Cris do SNJ, que também é minha contemporânea, e ela falou: “legal esse tipo de som, parece um pouco rap até”, eu ri e percebi que tava com uma parada que ia demorar pra ser compreendida. Pra mim o importante é ter em mente a expressão artística e as posições politicas, sempre em prol da evolução pessoal assim como da cultura e não “ser alguém dentro do rap”, parece fácil ser MC, mas num é não. Seja homem ou mulher.

Pathy Dejesus: Existe fazer um rap feminino? Dá separar a arte e subclassificar? Não acredito nisso. Odeio rótulos. Existe talento ou não. Existe paixão ou não. Existe rap bom e rap ruim. E isso independe do sexo de quem está fazendo.

Lívia Cruz: Pra mim, no meu rap, significa mostrar o ponto de vista genuíno da mulher, eu gosto de contar historias e ainda acho que a gente se pauta muito no que os homens do rap vão pensar das nossas letras, das nossas atitudes, e isso torna os nossos relatos muito tímidos… Quero ver isso mudar, e tô fazendo minha parte pra essa mudança.

Per Raps: Beleza ajuda ou atrapalha? Como?

Muitas vezes me sinto subestimada, vejo isso nítido nos olhares das pessoas quando subo no palco, mas depois que começo a cantar isso muda”

Lurdez da Luz: Acho que ajuda a abrir portas mas talvez até atrapalhe em ter credibilidade. Como disse sobre posições políticas na resposta acima, num é só saber em quem vai votar, o porquê é bem mais amplo, como por exemplo não acreditar em padrões de beleza impostos, tipo a magra, alta, de olho azul ou até mesmo a “rainha de ébano”, claro que deve ser uma benção de deus ser lindo, mas ficar impondo isso que nem a Rede Globo num deveria ser papel do rap.

Pathy Dejesus: Acho que a pergunta correta seria: ser feminina ajuda ou atrapalha? Li uma entrevista da Negra Li (de quem sou fã) uma vez falando sobre isso. Da postura supostamente correta para ser respeitada num ambiente onde ela era minoria… Usar roupa larga, nada de maquiagem, ficar séria o tempo todo pra não chamar a atenção. Pra não lembrarem que se tratava de uma mulher… Imagina a barra!

Por isso digo que as coisas estão evoluindo! E vai de nós, mulheres, nos impor, nos preservar, e sermos levadas a sério. Sou vaidosa e não vou mudar minha personalidade pra fazer o que amo. Aliás, isso não faz o menor sentido, né?! Acho lindo quando vejo Lívia [Cruz], Lurdes [da Luz], Nathy [MC], Flora [Matos], as DJs do Applebum… Todas maravilhosas, nenhuma abre mão do seu estilo pra rimar, pra discotecar. O respeito não é imposto. É conquistado!

Lívia Cruz: Por incrível que pareça, acho que atrapalha mais do ajuda. Existe um preconceito de que mulher bonita não é inteligente, muitas vezes me sinto subestimada, vejo isso nítido nos olhares das pessoas quando subo no palco, mas depois que começo a cantar isso muda, e é divertido também, surpreender pro bem. A beleza vai muito além da estética, eu gosto de quem sou, não quero mudar pra agradar ninguém, e isso transparece nas minhas músicas e na minha conduta, algumas pessoas se incomodam, mas paciência… Bonito mesmo é ser feliz!

Per Raps: Hoje você é respeitada na cena por seu trabalho, independentemente do seu sexo, o que você acha que fez com que isso acontecesse?

pathy dejesus Sou movida a grandes desafios, não nasci pra concordar, pra aceitar. Minha maior concorrente sou eu mesma, e não alivio, não facilito, não tenho pena de mim mesma”

Lurdez da Luz: Em primeiro lugar fico honradíssima, dinheiro é bom e todo mundo precisa, mas respeito pra mim vale ouro. Acho que foi resistir em primeiro lugar, se mantar fiel ao que se é e não balançar em relação ao que ” tá pegando no momento”. Foco no som e amor por esse tipo de música em especial mais do que por qualquer outra.

Pathy Dejesus: Repito que venho de uma criação (obrigado Pai e Mãe) onde sempre me lembraram quem eu sou, de onde vim e de como as coisas seriam mais difíceis por isso. Mas essa situação de “desvantagem” sempre me foi mostrada de uma forma que eu tivesse vontade de bater de frente pra conquistar meus objetivos.

Sempre fui “minoria”. Mulher negra é minoria duas vezes. Sempre tive que batalhar dobrado pra ter reconhecimento. E sinceramente, gosto disso! Sou movida a grandes desafios, não nasci pra concordar, pra aceitar. Receber um inicial “não” como resposta sempre me motivou a melhorar, buscar mais conhecimento, me preparar cada vez mais. Tem horas que realmente dá vontade de desistir… Mas minha maior rival não me pouparia, não me perdoaria. Minha maior concorrente sou eu mesma, e não alivio, não facilito, não tenho pena de mim mesma. Acho que vem daí o respeito no meu trabalho. E na vida!

Lívia Cruz: Esse respeito veio naturalmente por um conjunto de coisas, meu trabalho vem em primeiro e com ele o desejo de fazer virar, acreditar, ousar, perseverar, e por consequência algumas pessoas no meu caminho me ajudaram muito, sem essas pessoas, provavelmente, eu estaria bem mais longe do ponto que me encontro agora.

Time do Loko apresenta Lurdez da Luz, Lívia Cruz e Pathy de Jesus
Quando? Sábado, (14), às 00h
Onde? Hole Club (R Augusta, 2203 – Jardins/SP)
Quanto? R$15 (H) e R$10 (M)

Mais?
Novidades de 09′: Lívia Cruz
Lurdez da Luz fala de seu novo trabalho


Enquanto a Beyoncé não chega no país, versões!

Ilustração feita por Ryan Casey [goryango.com]

Ilustração feita por Ryan Casey

Em tempos da rainha do requebrado, Beyoncé, no Brasil – com shows esgotados e fãs enlouquecidos -, quem não pensa em entrar na onda de “Single Ladies” para chamar um pouquinho de atenção?

O clipe da bonitona do R&B (ou seria melhor chamar de pop?) fez sucesso pelo mundo inteiro com sua coreografia repetida até exaustão por gays, héteros, crianças e é claro que a galera do rap não poderia ficar fora dessa.

Inspirando-se em Beyoncé, UCB e Wale se juntaram pra fazer o “Pat your Wave” – algo como “afofe seus cachos”, no bom português. A música é boa, o clipe também e as meninas que dançam são humanas e você nota isso lá pro 1:15, quando as garotas começam a dançar e tudo mexe com elas, diferente da Beyoncé.

E falando em tudo mexer, lembrei da nossa querida Preta Gil. Brasileira, que não desiste nunca, e com coragem. A filha do talentosíssimo Gil resolveu não perder o momento e arriscar um versão de “Single Ladies”. Enquanto Beyoncé diz que “se você gosta devia colocar um anel ali”, incentivando os caras a se comprometerem, e UCB e Wale dizem pra você deixar as ondas do seu cabelo mais bonitas, Preta resolveu que a versão dela falaria sobre estar solteira naquele noite. Ok, é sempre carnaval, né?

Você gostou mais do qual? Preta Gil? Beyoncé? UCB e Wale? Ou as Esquiletes do novo Alvim e os Esquilos?


P.U.T.S.

Imagem retirada do MySpace e editada por Shumiski

Imagem retirada do MySpace e editada por Shumiski

O P.U.T.S. pede passagem*

O grupo californiano People Under the Stairs (PUTS) fez uma passagem pelo Brasil no último mês que rendeu várias boas lembranças. Dos principais, participaram da primeira transmissão ao vivo da Rádio Boomshot, forma ao programa Manos & Minas (26/10), discotecaram no Milo Garage, tocaram na festa Chocolate (na Clash) e no espaço +Soma.

Acompanhamos de perto os corres que o Zeca MCA fez para garantir que rolasse a transmissão ao vivo na Boomshot (20/10), e felizmente tudo deu certo! Quem acompanhou o Twitter também teve a chance de ver todas as dificuldades dessa proposta ousada da Boomshot. Seguindo a agenda doPUTS, o grupo tocou na Chocolate, com direito a um freestyle empolgado do Thes One, além de um clima de festa que marcou o show desde o começo.

Já na +Soma, foi um fim de semana (dos dias 24 e 25 de outubro) de muito som. Quem recebeu o povo foi o Dj Tamenpi, pra variar só com pedradas! O som não colaborou muito no sábado e Thes One teve que segurar todo mundo no gogó de início. O som melhorou, voltou a ficar ruim e eis que o Edú Lopes (d’A Filial) interferiu pedindo pra que a galera mandasse energias positivas, já que a situação começava a ficar tensa. Alguns minutos depois, tudo voltou ao normal e o show seguiu bem até às 23h e tantas.

Para não deixar a passagem desse importante grupo de rap, o Per Raps resolveufazer a sua homenagem com imagens de duas parceira: A Luciana Faria (aka Lu Playmobile) e a Mayla Yumegari (do SneakersBR e Maze Skateshop). Curta ae a galeria e, se tiver imagens de qualquer uma das apresentações dos caras, mande pra gente!

* Com informações de Nathália Leme.