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“Faixa a Faixa” – Non Ducor Duco por Kamau – Parte II / Videoclipe “É o Moio”

Kamau em ação por Acauã Novais

Kamau em ação por Acauã Novais

Pra quem achou que tínhamos esquecido, segue a segunda parte da resenha faixa a faixa do disco Non Ducor Duco, dixavado pelo próprio Kamau. Boa leitura!

10 – Domínio

Todo mundo quer saber do Dominantes, mas a gente fala no começo da música: não é grupo. Não pretendemos lançar nada. Já tive a idéia de fazer algo com o Parteum, mas pela incompatibilidade de tempo não rolou. Na minha parte da letra, eu falo de dominar a minha vida e na segunda parte eu falo de dominar o que eu faço, que é rimar, de falar o que eu quero falar. Sobre o Rick, a história de porque ele não participou já foi contada, mas tem uma coisa muito importante a ser falada agora: o Simples não acabou.

11 – Resistência
O Kl Jay é um dos maiores exemplos de longevidade, de evolução dentro do hip hop. Acho que as duas maiores referências que a gente têm são ele e o Brown, que continuam relevantes hoje em dia. Não que as outras pessoas não sejam relevantes, mas muita gente perde o fio da meada e se perde lá pra trás, ou quer pular demais de fase e acaba se tornando outra coisa. O Kl Jay continua sendo ele, o Brown continua sendo ele, e os caras estão à frente de muita gente que chegou agora, e continuam, na minha opinião, tão relevantes quanto no Holocausto Urbano, no Consciência Black.

12 – Sabadão
Eu sempre saí bastante, desde de uns 18 anos, mas nunca foi pra arrebentar na balada, foi sempre pra trocar idéia com o pessoal, me divertir. Aí eu parei um pouco de sair pra me concentrar no disco, mas eu ainda sou uma pessoa da madrugada, de ficar pensando milhões de coisas, escrever, ouvir música, ficar na net. Eu parei um pouquinho de sair uma época, mas esse é meu trampo né, eu gosto de ouvir música, de ver as coisas acontecendo, de conhecer pessoas.

Muita gente veio falar pra mim: “Pô, mas você ta reclamando dos caras que pedem VIP pra entrar nos rolês!” Mas ninguém prestou atenção que no começo eu ligo pra alguém pra conseguir um VIP. Porque às vezes as pessoas têm grana, mas pedem VIP pra falar que é VIP. Eu não gosto de ficar pedindo não, mas às vezes eu quero muito e não tenho grana, e aí eu peço mesmo. E eu peço pra quem eu sei que eu posso pedir, pra alguma pessoa que eu sei que vai me entender, que a gente já se conhece. Mas tem gente que eu nunca falei, nem conheço, que me liga pra pedir, e é desses caras que eu falo na música. Imagina eu ligar pra produtora do show do Kanye West: “E aí, eu sou do rap, não tem como você me arrumar um ingresso?” Não é assim.

Geralmente nessas músicas que falam de balada, ou o cara se deu bem ou ele se deu muito mal, nem chegou na balada. E essa daí é só uma balada ruim, ta ligado? Mas é assim mesmo que funciona, é mais real pelo menos, a balada tava ruim e eu fui embora.

13 – Komwé
Hoje em dia todo mundo é paparazzi, todo mundo é crítico, e muita gente fala da vida da pessoa sem saber de nada. Só porque a gente vê uma pessoa toda semana, em um pedacinho do dia dela, a gente vai saber como ela é? Não é assim. E tem um monte de gente falando de mim, do Emicida, do Kl Jay, do Mano Brown, do Rappin’ Hood, do B. Negão e de sei lá mais quem, tudo sem saber do que está falando.

Os caras não sabem como é, então quem fala o que quer escuta o que não quer mesmo. Komwé é tipo “E aí?” em Angola, quem me ensinou isso foi o MC Kappa (MCK) que é de lá e que eu conheci por aqui.

14 – Amar é
Em todas as músicas de relacionamento que eu já fiz, cada uma foi direcionada pra uma ou mais pessoas. Essa é uma música de amor em que eu tento definir o que é o amor. Existem várias formas de amar, de amar várias coisas, pessoas, formas diferentes. Quando a gente ama, a gente sente várias coisas que eu falo na rima mesmo, a gente se esforça sem esperar por retorno. Faz porque acha legal, sem esperar nada em troca. Eu estava numa situação estranha na época também, refletindo bastante sobre isso e acabou saindo a letra.

15 – Tambor
Tambor é um resgate do que é a nossa música, de como era feita a música na África e muita coisa não chegou pra gente aqui do jeito que era lá, porque as pessoas que trouxeram os escravos pra cá não queriam que a cultura se perpetuasse, só queriam usar pra finalidade de trabalho, usar a mão de obra mesmo, não era um intercâmbio. Mas ao mesmo tempo a parada é tão forte que não tem como tirar isso da pessoa.

E a linguagem do tambor, que veio de muito tempo atrás, continua sendo ‘mais ou menos’ a mesma, e isso é uma forma de resistência também, de perpetuar a nossa idéia. O tambor mudou, mas é o que eu falo, desde o djembê até a MPC continua a mesma essência. A gente mudou o jeito de tocar o tambor, mas muitas pessoas não mudaram a idéia e só mudaram talvez o jeito de falar, para que a idéia possa ser entendida e se propagar. O Rincon e a Thalma arregaçaram nessa música.

"Não sou conduzido, conduzo" - Acauã Novais

"Não sou conduzido, conduzo" - Acauã Novais

16 – A quem possa interessar
A primeira parte é livremente baseada no meu irmão, que corre atrás de trampo, de estágio. Ele fez colegial técnico, então ele acordava cedo e não tinha muito tempo pra fazer as outras coisas que ele gostava, mas ao mesmo tempo ele gostava de estar ali. Ele gosta do trampo que ele faz porque é o que ele escolheu, mas tem muita gente que não gosta do que faz porque não escolheu aquele trampo, e por um acaso se tornou técnico de televisão, por exemplo. Mas é um trabalho digno, a pessoa se sente bem trabalhando e tendo as coisas delas, fazendo o corre dela.

Muita gente quer tripudiar em cima, às vezes você trampa 15 anos da sua vida, compra um carro, aí chega alguém falando: “Ta boy hein?” Boy? Você guardou dinheiro por 15 anos e ta boy? Não caiu do céu não, ta ligado. E a música é também pra que essas pessoas não se preocupem com aquelas que só vêem quando você conseguiu juntar, que é pra você continuar fazendo seu corre que também compensa. Correr pelo certo compensa.

A segunda parte é baseada num camarada meu da escola que estudou pra caramba pra passar no vestibular, e ele conseguiu mesmo uma bolsa num cursinho particular, passou em arquitetura na USP e hoje ele é arquiteto. Outro dia ele apareceu num show meu e disse que está trabalhando com reforma, não é bem o que ele queria, mas ele é arquiteto, ta ligado? Um camarada meu, um cara que sentava na minha frente na sala de aula, no colégio estadual, que me passava cola (eu também passava pra ele às vezes, que eu também era bom aluno), e faz o que se dedicou pra fazer.

Outra coisa que é muito importante e é um assunto que eu abordo na letra é que ninguém mais é fã de rap hoje em dia. Eu sou pra caramba. Sou fã do Rincon, sou fã do Emicida. O Emicida pra mim é um dos melhores, eu falo pra ele e ele não acredita, mas ele é inspiração pra mim, tanto quanto o Kl Jay, quanto o Brown são. E os caras têm medo de falar que são fãs, chegam em você cheio de dedos: “Aí, não é querendo não, ta ligado, não é querendo pagar mas eu gosto da sua música”. Pô, gosta do negócio, admite que gosta, que é fã, não tem problema nenhum nisso não.

Kamau mostrando suas rimas para o público da Neu (17/04) - Acauã Novais

Kamau mostrando suas rimas para o público da Neu (17/04) - Acauã Novais

17 – Homens trabalhando
Aquela conversa que rola minha e do Nave antes do beat foi uma simulação da realidade, a gente reproduziu uma conversa que tínhamos tido antes de verdade. Isso só quer dizer que a história não acabou.



Perdeu a primeira parte? Clique aqui para conferir.

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Videoclipe – É o Moio

Como prometido, o Pentágono colocou no ar, ontem (21) à noite, o videoclipe da música É o Moio, do disco Natural, dirigido por Pedro Gomes. Filmado em alta qualidade, com definição de cinema, o clipe é uma produção como nunca vista antes no rap nacional. Corra e seja um dos primeiros a assistir o vídeo, clicando aqui.

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Festa

Quateirão apresenta: Funk Buia e Dj Tano

Quateirão apresenta: Funk Buia e Dj Tano

Nesta quarta-feira (22), a festa Quarteirão recebe o MC Funk Buia e o Dj Tano na Jive Club. A discotecagem fica por conta do Dj Kefing ( Lua, Tapas)

Serviço:
Hoje (22) na Jive Club.
Al. Barros, 376. Higienópolis – Sao Paulo/SP
Informações: 3663-2684 ou http://www.jiveclub.com.br/
Lista: quarteirao2009@gmail.com
Aceitam cartões de crédito e débito Visa e Mastercard

E aí, o que achou da resenha do disco do Kamau? Gostou? Era isso mesmo que pensava das músicas? E o clipe do Pentágono, viu? Gostou? Comente e expresse a sua opinião.
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2 Respostas

  1. SouLZa B

    Na verdade, já tinha ouvido o Kamau comentar sobre as músicas do seu disco. Mas vale a pena sempre ler novamente, pois em cada vez tem um detalhe diferente que não havia sido citado. Uma coisa que eu gostei muito, foi o Kamau falar que, quem gosta do som, tem que falar mesmo. Também penso assim, não é pagação de pau, é consideração pelo trabalho bem feito.
    A respeito do clipe do Pentagono, sem palavras, mas um ótimo trabalho dessa rapaziada, ótimo cd, ótima música e ótimo clipe.

    abril 27, 2009 às 20:28

  2. PONTE

    Muito bom saber q o Simples não acabou!

    abril 30, 2009 às 18:07

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