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“Faixa a Faixa” – Non Ducor Duco por Kamau – Parte I

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Passados cerca de oito meses do lançamento de “Non Ducor Duco“, é chegado o momento de falarmos um pouco mais do álbum que foi considerado pela revista Rolling Stone um dos 25 melhores discos brasileiros de 2008. Inspirado em uma fórmula estrangeira, o Per Raps foi ao encontro de Kamau para fazer uma espécie de raio-x desse trabalho. O MC falou um pouco sobre a repercussão do disco (que você pode conferir aqui) e ainda falou sobre cada uma das faixas separadamente, para a alegria de seus fãs. Confira:

O ÁLBUM:

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Non Ducor Duco

O disco ia chamar Parte de Mim. Aí eu vi um anúncio de um disco em algum lugar com o mesmo nome e já desisti, não dava pra ser igual. Aí eu lembrei dessa frase, “Non Ducor Duco” (Não sou conduzido, conduzo), que é uma frase que eu sempre pensei e sempre gostei por ser o lema da cidade de São Paulo. Eu gosto muito daqui. Mesmo. E eu não consigo ficar longe daqui, eu me sinto à vontade em cidades parecidas com essa, mas aqui é o lugar que eu consigo ser o que eu sou. Tudo isso me fez lembrar a frase e pensar na força dela, porque agora era tudo na minha mão mesmo. Não que não fosse das outras vezes, mas agora eu não dependi da opinião de ninguém.

AS FAIXAS:

1 – (Escuto) Vozes
Eu pensei em vários jeitos de começar a contar a história, pensei em fazer só uma rima ou só um instrumental, mas cheguei à conclusão que não devia falar nada. Eu pensei nessa parada de “escuto vozes” porque eu escutei muita coisa antes de chegar nesse estágio da minha vida, no rap. O que também é um detalhe muito importante e quase ninguém fala é que as colagens que o Dj Willian usa são rimadas. Eu gostei muito de trabalhar com ele de novo, já tinha feito a mixtape Sinopse com ele. O Primo ia fazer essa introdução, mas ele estava muito ocupado na época e ele mesmo achou que não ia conseguir encaixar bem as frases, eu tinha separado várias já. Aí falei com o Willian, ele se empolgou e encaixou tudo muito bem.

2 – Só

Tinha uma primeira versão, com a produção do Dj Zinco, que era pra ter saído na mixtape da A-Place. Aí eu falei pra ele que ia pôr no meu disco, ele até pediu pra eu esperar a mixtape, mas ela não saiu até agora, né Maurício? (risos) Então eu quis fazer a minha versão e complementar, acho que ela tem bem a ver com o meu disco. A letra tinha sido feita faz um tempo e eu complementei uma parte só pra essa versão, uma parte um pouco mais atual.

A produção dessa faixa é minha, eu produzi mais algumas faixas desse disco, mas nunca produzi muito pra fora, pra outras pessoas. Produzi o disco do Simples, algumas músicas com o Consequência, mas não faço muita batida pra fora. Eu gosto de produzir, mas não consigo chegar onde eu quero, sou chato. Então não tenho essa coisa de preferir rimar nas minhas produções. Se eu pudesse fazer um disco inteiro com o Parteum e o Nave, eu faria…

Agora que eu to me sentindo mais produtor porque eu consigo dar palpite musical pras coisas, consigo direcionar um músico pra tocar o que eu quero na minha música, e acho que isso que é ser produtor de verdade.

3 – Evolução na Locução

A idéia da rima é falar da minha evolução. Eu vou falando de uma evolução mais genérica na primeira parte, depois de estar dentro de um grupo e da carreira solo. E depois, na segunda parte, o que muita gente ainda não percebeu é que eu rimo com todos os nomes das músicas do Consequência. E ainda tem o nome do Prólogo no final…

Eu queria agradecer o Dj Suissac, do Mzuri Sana, pela base dessa música. Me sinto honrado de ser o primeiro a ter uma base dele, é a primeira que ele faz pra fora do Mzuri. Ele é bom, “Era uma vez três” é um clássico e a base é dele.

4 – Parte de Mim

O Parteum me mostrou a primeira base pra esse som durante uma sessão com o Pep Love e o Casual, do Hieroglyphics. Ele estava mostrando umas bases pros caras, aí eu comentei que ia fazer o disco, ele mostrou uma base que eles não quiseram e eu falei que queria ela pra mim. Eu cheguei até a gravar ela, mas a sessão se perdeu. Aí quando eu fui gravar a versão pra esse disco, ele encontrou a sessão, mas eu falei que queria uma nova e nós gravamos de novo.

A idéia da letra tem um duplo sentido: ‘parte de mim’, de ser um pedaço de mim, e ‘parte de mim’, das coisas que partem da minha iniciativa, da minha vontade, ou as rimas que saem de mim.

5 – Não acredite se quiser
Eu sentia a necessidade de expressar minha opinião sobre esses assuntos (mídia, história e religião) e chamar um pouco a atenção pra isso. Eu vejo muita gente abraçando a idéia, com explicações vagas sobre alguns temas, mas a gente têm a opção de não acreditar, de não escolher certas coisas. Eu sei que é fácil falar quando se está de fora, quando a gente não sabe a situação da pessoa que escolheu, que abraçou aquilo.

Muita gente fala: “na televisão passam coisas que alienam as pessoas”. Eu já assisti novela, ta ligado, hoje nada mais daquilo me chama a atenção. Mas eu sei o que aquilo quer dizer, eu não vou acompanhar a novela e fazer tudo que ela falou que é legal ou que não é legal. Eu já tenho minha opinião sobre várias coisas do mundo, a novela não vai mudar minha opinião radicalmente, não vai formar a minha opinião. Tem coisas que eu posso tirar de positivas também.

Agora a gente têm a internet pra buscar a informação, mas ao mesmo tempo tem muito lixo na internet. As pessoas falam: “não, mas eu vi na internet!” E daí que você viu na internet? Qualquer um coloca qualquer coisa lá. Então as pessoas têm que ter um filtro. É sua experiência de vida que vai formar sua opinião.

6 – Porque eu rimo

Os MCs que eu convidei são aqueles que estavam mais próximos de mim no momento e que eu achava que tinham alguma coisa a dizer. A maior ausência nesse som é o Rick, que eu queria que tivesse participado dessa também. A idéia da letra é bem simples e o que eu falo no começo né, são os motivos de rimar de cada um.

7 – Vida
Eu perdi um parceiro, chamado Skitter, que é aliado dos meninos do Primeira Função também. No meu aniversário eu fiquei sabendo que ele tinha se suicidado. Foi a primeira pessoa próxima da minha idade que eu perdi, e depois disso eu perdi mais dois primos, um assassinado e outro que sofreu um acidente de moto. Um era da minha idade, o outro era o meu primo mais novo, e foi uma parada muito estranha. A gente vê as pessoas mais velhas passando pra outra fase pelos mais variados motivos, mas geralmente é porque elas já viveram bastante, e essas pessoas ainda tinham muita coisa pra viver.

Eu não queria fazer um som lamentando a morte deles, mas queria celebrar a vida deles e ao mesmo tempo me perguntar algumas coisas, então eu fiz como se fosse uma conversa com eles. E ao mesmo tempo que a gente perde algumas pessoas, outras nascem todos os dias. E na terceira parte eu falo disso…eu não vou ser pai ainda, mas eu fiz pra um filho ou uma filha que vier. Eu acho da hora aquela música do Xis, ‘Tudo por você também’, e aí quando o filho dele nasceu ele colocou o nome que já estava na cabeça dele, que era Joshua. Eu acho legal eu poder mostrar isso pra um filho ou pra uma filha e falar: “essa música eu fiz pra você antes de te conhecer”.

Emicida, Jeffe e Kamau no Indie Hip Hop 08' por Ênio César

Emicida, Jeffe e Kamau no Indie Hip Hop 08' por Ênio César

8 – Equilíbrio

O que eu mais busco equilibrar na minha vida é entre o que eu quero e o que eu preciso. Muitas vezes a gente precisa de alguma coisa que a gente não sabe, e muitas vezes a gente quer uma coisa que a gente não precisa. É exatamente isso que eu falo: vontade e necessidade; responsabilidade e felicidade. É isso que eu tento equilibrar, tudo isso aliado à minha carreira.

9 – Instinto
É a primeira música que eu escrevi quando entrei no Instituto. Ela tem duas partes com o Instituto e uma terceira parte que eu escrevi pra esse disco. Eu acho que é uma letra meio de MC, que a gente escreve meio no instinto mesmo.  É tipo uma letra de exercício, que você vai colocando a idéia no papel e ela vai fluindo. Mesmo assim, ela não deixa de ter uma conclusão. Já tinha na segunda parte e agora ficou bem mais claro com a terceira parte. A base é minha e do Primo.

(Continue acompanhando o Per Raps, a segunda parte sai nos próximos dias).

________________

Festa

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Para quem fica em Sampa neste feriado, uma boa dica é colar na festa da Colex, que levará ao palco o grupo Mzuri Sana. O trio formado por Parteum, Secreto e o DJ Suissac, (com 10 anos de carreira, dois álbuns lançados pela gravadora Trama, diversas apresentações pelo Brasil, além de um DVD no forno) inaugura neste sábado (11), a noite Colex: Edição Hip-Hop.

O trio mostra composições dos dois álbuns, “Bairros Cidades Estrelas Constelações” (2003) e “Ópera Oblíqua” (2006), além de visitar composições da carreira solo do MC/Produtor Parteum, conhecido por trabalhar com gente de peso como Ed Motta, MV Bill, Rappin’ Hood, Nação Zumbi e Tom Zé, entre outros”. A responsa da apresentação do show fica com o Kamau, já a discotecagem será do DJ Willian (Contra-Fluxo).

Colex Edição: Hip-Hop com Mzuri Sana
Data: 11 de abril, sábado, às 23h
Hole Club – Rua Augusta, 2203 – Jardins/SP
Ingressos: Mulheres vip até 00:30 após R$10
Homens R$12 nome na lista/flyer ou R$15 sem nome/flyer
Censura: 18 anos/Lotação: 400 lugares
Informações: (11) 3224-9730 ou listacolex@gmail.com
Site: www.mzurisana.com

Venda de camisetas e CDs no evento

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5 Respostas

  1. José Avelino Pires Assunção

    “O disco ia chamar Parte de Mim.”
    O que aconteceu, parte de mim não iria atender ao chamado? E o todo de mim, também não?
    Por que paulista não pode perguntar: como é que você se chama?

    julho 1, 2009 às 13:08

    • Não entendi esse comentário. Mas achei o nome Non Ducor Duco melhor. Sintetizava melhor a idéia do que eu queria pro disco.

      julho 29, 2009 às 02:46

  2. DD

    eu tenho o prazer enorme de conhecer o kamau pessoalmente!!!e vira e mexe faço alguns shows com ele,o kara é bom no que faz!!eu estou aprendendo muito com ele,sou uma rapper de 23 anos aqui de sampa,e o rap nacional precisa de mudanças e evolução…e o kamau assim como tantos outros e outras tem de sobra pelo brasil…

    julho 28, 2009 às 01:39

  3. Esse novo Albúm de Kamau mostrou um novo estilo de audio rap com a verdadeira cara de São Paulo concreto, babel, metro nosso dia a dia mundo de nossa gente entende.. ficou de qualidade comercial para todos os públicos todas as raças não sendo somente periferia isso que se destacou e traz muito reconhecimento..

    junho 20, 2010 às 02:00

  4. Diego Tadeu

    Conheci as músicas do Kamau um mês antes de postar esse comentario e gostei muito.

    Parabéns Kamau pelo som, boas rimas, boas batidas e uma ideia positiva. É isso ai eu acho ke esse é o caminho que o rap deve seguir.

    Só fico indignado. Tanta coisa ruim tem tanta divulgação.

    E musicas boas igual as suas não são tão divulgadas…

    novembro 2, 2010 às 01:19

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