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Resenha: MV Bill, Causa e Efeito

Agressividade e melodia em quarto álbum de estúdio – por Stefanie Gaspar*

“Ocupar vários espaços é o nosso plano de paz”, anuncia MV Bill na faixa O Bonde Não Para, um dos muitos destaques de seu quarto álbum de estúdio, Causa e Efeito. O novo trabalho do rapper é o manifesto cantado de sua ambição: uma revolução social que consiga dissociar periferia e violência e unir os dois mundos por meio da conscientização da comunidade – para ele, rima sem ação é fazer pose em um mundo que não dá espaço para o vacilo.

O mano mais polivalente do hip hop brasileiro não é daqueles que fala mas não faz: MV Bill comanda trabalhos importantes junto à comunidade da Cidade de Deus, já lançou três livros (em parceria com Celso Athayde), Cabeça de Porco, Falcão – Meninos do Tráfico e Falcão – Mulheres e Tráfico e recorre a tudo e a todos para levar os motes e ideiais da periferia para fora do gueto, pregando por circuitos que vão desde o programa do Faustão até a cidade-luxo da Daslu.

O homem que levou a realidade do tráfico, da morte, do tiro e do sangue para o horário nobre da Rede Globo mostrou em Causa e Efeito uma coragem adicional, que já se anunciava desde o DVD Despacho Urbano, de 2009: que suas letras violentas e contundentes precisam se apoiar em uma musicalidade rica e variada para que sua música vá além das palavras.

Seu álbum anterior, Falcão – O Bagulho é Doido, de 2006, já anunciava esse comprometimento com outros gêneros musicais, englobando ritmos como o soul e o samba-rock para seu repertório. Causa e Efeito segue essa mesma intenção, e Bill leva muito a sério a ideia de que o rap não pode se fechar em si mesmo.

E a incorporação de outros gêneros musicais não mudou em nada a violência das letras bruscas, ultra realistas e contundentes do rapper, que pegou pesado nas rimas e não poupou ninguém de sua língua afiada. Em Mulheres, a delicadeza dos arranjos faz o contraponto à violência da história: “Cada mãe sabe a dor que sente, quando vê o filho sendo queimado como indigente”, “ausência do amor com a presença do dinheiro, faz a mãe levar a filha junto pro puteiro. Saliva com sêmem, meninos que gemem, as pernas e as estruturas se tremem”.


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Em Cidadão Refém, Bill rima sobre o ódio entre a relação da periferia com a polícia em um ritmo que chega a lembrar um freestyle, em uma música que conta com a participação especial de Chorão, do Charlie Brown Jr. O músico não acrescentou muito à música, que traz letras repetitivas em relação as demais faixas do álbum.

A música seguinte, Liberte-se, começa com uma surpresa: um trecho da música Fumando Espero, cantada por Dalva de Oliveira. Na letra, o rapper rima com rapidez sobre a fugacidade da vida e a dificuldade de vencer em um universo restrito por regras e injustiça social.

O bom ritmo da canção é um aquecimento para a verdadeira pérola do álbum, Transformação. A música é uma pancada de extrema violência após a suavidade de Liberte-se, e traz uma melodia profundamente triste acompanhada por uma crítica ao mundo do rap: “Ficaram parados no tempo, envaidecidos dividiram o movimento. Veja só o rap, virou o partido da cara feia, com grandes bonés, pequenas ideias, falso reinado, coroa de rei, castelo de areia”. Transformação conta com a ótima participação de Chuck D, MC do Public Enemy, e a produção de KL Jay, dos Racionais, e é uma das faixas mais interessantes da carreira do músico.

Em Sou Eu, MV Bill critica o mundo da música mainstream, comandado pelas mãos poderosas das gravadoras. “Se eu tivesse o dinheiro do Jay-Z, mudaria várias coisas que acontecem por aqui (…) É o dinheiro que manda, todo mundo baba ovo de determinada banda que gravadora lança, que toca até que cansa, e um ano depois ninguém mais traz na lembrança”.

Causa e Efeito é sombrio. Não poupa quem ouve das características mais injustas da vida. Mas MV Bill acredita no poder da transformação e do rap, e na música Corrente deixa bem claro que está rimando porque tem esperanças. “Transformando o gueto com o poder de uma caneta”.

O álbum também traz ótimas participações da irmã do cantor, Kmila CDD (que divide com Bill um dos duetos mais inteligentes, afiados e engraçados de sua discografia, na faixa Estilo Vagabundo II) e Silveira (em Amor Bandido).

Causa e Efeito traz repertório variado e letras explosivas, mas seu verdadeiro trunfo está em seu simbolismo: o álbum é até agora o manifesto mais consistente do discurso de MV Bill de que é possível tirar a periferia do gueto sem declarar guerra.

* Stefanie Gaspar tem 22 anos, é jornalista, viciada em música e acha que o pancadão ainda vai mudar o mundo. Apaixonada por livros e colecionadora de vinil, aproveita todo o tempo possível para ouvir música e tentar conhecer tudo ao mesmo tempo.

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MV Bill

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Resenha: Meu Sotaque, Meu Flow

Akira Presidente por João Gabriel/Divulgação

Ignorando fronteiras e misturando estilos com ginga de malandro – por Stefanie Gaspar*

Dê o play em “Que Pena”, de Akira Presidente
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-06-07T07_39_23-07_00.mp3″

“Rap nunca foi moda, e a verdade é o que importa”. É assim que o rapper carioca Akira Presidente define o gênero de seu coração em seu primeiro lançamento, o EP O Que Tu Qué. Lançado em 2009, o trabalho já mostra que o rapper Paulo Ferreira soube chegar chutando a porta com seu rap cheio de ginga, letras afiadas e influências globais.

Agora em 2010, Akira volta em grande estilo. Mantendo a pose de dândi repaginado, o carioca lança seu primeiro álbum: Meu Sotaque, Meu Flow. Logo de cara, o novo trabalho de Akira lembra muito o rap cheio de batidas e melodias intensas do Pentágono – não a toa, tanto o álbum quanto o primeiro EP do rapper foram produzidos por um dos integrantes do grupo paulistano, Apolo. É ele quem assina as melodias e a produção de grande parte das faixas de Meu Sotaque Meu Flow, criando uma base rica e equilibrada para as letras afiadas de Akira.

E que surpresa deliciosa é a audição deste álbum. Para quem gosta de repetir os clichês típicos do gênero – de que rap é um estilo fechado, sem melodia, com pouca variedade e sisudo – é hora de repensar a validade de todos esses preconceitos e se jogar de cabeça na proposta que Akira Presidente oferece nesse seu primeiro álbum de estúdio.

Por mais que a expressão esteja datada, Meu Sotaque Meu Flow é um CD global – consegue juntar referências e sonoridade de diversos estilos e regiões sem cair no pitoresco ou no caricato. Tem de funk carioca a soul e toques de samba. Tudo junto sem perder a essência.

Meu Sotaque, Meu Flow de Akira Presidente

O segredo do álbum é trabalhar, sempre, com o inesperado, mostrando que o rap pode – e deve – reunir outros estilos para sair de sua zona de conforto e englobar sonoridades que estão por aí, nas ruas. Em Gueto, primeira faixa do álbum, Akira já desce o verbo e conclama “as cachorras que mexem a bunda”. Ao fundo, o som de um canto africano. E entra, majestosa, a batida do funk carioca, mostrando que é possível conciliar a energia do pancadão com o groove natural do som de Akira.

Logo em seguida, o pancadão vira batida gatuna, sacana, na segunda faixa, Minha Área. É incrível como as batidas escolhidas por Akira, além dos scratches de DJ Alves e a masterização de DJ Roger, conseguem dar uma identidade extremamente característica ao som das primeiras faixas. É um equilíbrio típico de quem consegue reunir ambição e conhecimento dos elementos musicais necessários para se fazer rap de verdade. Rimar na rua pode ser simples, mas o som de Akira é de responsa, já que é, ao mesmo tempo, espontâneo e calculado, fruto da vontade de fazer algo além do que já existe no rap hoje.

E a misturada não para por aí – em Qué Dindin, Akira resolve apostar em um funkeado poderoso, seguido pelo clima tropical de Rio, que conta com a participação de Sain (o Stephan, filho de Marcelo D2) e a atriz Priscila Marinho. Mas a composição chave do álbum é mesmo o pancadão de Mexe Mina, que traz uma base digna de Major Lazer. A produção da faixa pode ser de Apolo, mas Diplo ficaria orgulhoso do resultado e do mix provocante de funk carioca, marcha militar, dubstep e um pézinho no electro. Um rap tão diferenciado e com tantas referências dá gosto de ouvir.

Ao final das doze faixas de Meu Sotaque, Meu Flow, a vontade é de ouvir mais, muito mais. Agora é esperar que esse carioca cheio de gingado prepare rapidinho um segundo álbum – e que inove com tanta propriedade e tesão quanto nessa primeira empreitada.

* Stefanie Gaspar tem 22 anos, é jornalista, viciada em música e acha que o pancadão ainda vai mudar o mundo. Apaixonada por livros e colecionadora de vinil, aproveita todo o tempo possível para ouvir música e tentar conhecer tudo ao mesmo tempo.

Quer mais?
MV Bill pra senador? Akira Presidente!, por Daniel Cunha
Coletivo MTV fala de “Meu Sotaque, Meu Flow”
MySpace do Akira Presidente


Lurdez da Luz fala de seu novo trabalho

Especial mulher por Oga

Da Urbália para o mundo – por E. Ribas

Conhecida primeiramente por seu trabalho no Mamelo Sound System, Luana Dias aka Lurdez da Luz lançou em 2010 seu aguardado trabalho solo. Apesar do pouco tempo na praça, o álbum já vem rendendo frutos à MC: procura pela mídia, que quer conhecê-la e apresentá-la ao grande público, além de produtores de festas, que garantem uma agenda razoavelmente cheia, se compararmos com a média no rap nacional. Trazendo músicas que passeiam por rimas cruas, o spoken word e o canto, Lurdez caminha com estilo pelas produções de primeira linha, contando com participações de peso de parceiros mais recentes e também de outros tempos.

O processo todo, da ideia inicial até o lançamento do CD, durou dois anos e envolveu pessoas a quem ela fazia o convite ou que se convidavam para participar. “Eu tinha certeza que uma hora ia sair”. Para celebrar o lançamento do disco, trazemos a resenha publicada na edição 43 da revista Rolling Stone. Leia o texto e acompanhe a pequena conversa que tivemos com Lurdez da Luz. Enjoy!

Dê o play em “Meu mundo numa quadra” [Lurdez da Luz]

http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-03-26T07_30_55-07_00.mp3″

“A brasilidade do rap iluminado de Lurdez da Luz”

O talento de Lurdez ganha a luz dos holofotes com o seu aguardado primeiro trabalho solo, que leva seu nome de batismo no rap: “Lurdez da Luz”. A MC e cantora, cujo nome real é Luana, apresenta sua evolução na música, após ter desenvolvido o talento no grupo Mamelo Sound System e na participação no projeto “3 na Massa”. O resultado disso chega com batidas dançantes e cheias de brasilidade: percussão marcante e swing envolvente. Lurdez escolheu falar do amor, mostrado de forma mais particular e íntima, mas também com espaço para uma visão universal do tema.

Além do canto falado no melhor estilo Gil Scott-Heron que Lurdez apresenta em faixas como a criativa “Ah Uh (Onomatopéias)”, sua voz hipnotiza na parceria com Jorge du Peixe (Nação Zumbi) em “Corrente de Água Doce” e a rima impressiona junto da MC do ABC paulista, Stefanie, em “Andei”, além do duo com seu parceiro de grupo, Rodrigo Brandão, em “Ziriguidum”, que ainda traz o beat mais jazzy do álbum, com trompete de Rob Mazurek, produzido por nada menos que Mike Ladd. Reforçando o time de primeira, ainda aparecem o jovem beatmaker Tiago Rump, Maurício Takara (Hurtmold) e Scott Hardy, que também produziu o Nação Zumbi.”

Per Raps: O que você acha que ainda não foi dito ou perguntado para você sobre o álbum até este momento?
Lurdez da Luz: Não se falou muito dos produtores. O Daniel Bozzio e o Marcelo Cabral deram unidade ao disco e “editaram” os beats, deixando tudo com uma cara mais orgânica. O Daniel eu já conhecia de mais nova, quando ele tocava com o Mamelo. Nós temos uma formação musical muito parecida e a experiência dele ia somar muito. Ele também tem um estúdio na casa dele e achei que ia rolar legal de gravar o disco inteiro lá. Já com o Marcelo Cabral, o Daniel [Bozzio] nos apresentou e começamos a pirar que tínhamos que colocar mais um timbau aqui, mais um xequerê ali e fomos viajando. Ele também é skatista e curte um rap mais old school e hoje toca com Romulo Fróes e Rodrigo Campos [destaques musicais de 2009].

Per Raps: Como foi o processo de escolha de quem participaria do disco?
Lurdez da Luz: Foi bem por admiração. Já tinha ido escutar algumas coisas no [DJ] PG e no [DJ] Makoto, tudo isso quando eu fui montar um show pra um campeonato de skate feminino. Não sabia que ia gravar um disco, mas já tinha umas letras pra encaixar em beats. O Zeca [MCA, da Rádio Boomshot] que veio com uma ideia de fazer um vinil, mas desencanamos pelo alto custo. O Maurício Takara eu achava que tinha que ter alguma coisa dele, já que ele é um produtor de música eletrônica, mas está sempre envolvido com o rap. O Mike Ladd veio tocar no [Projeto] Colaboratório e trouxe um monte de coisa, daí encaixei a letra em um beat dele pra um show e ele me ofereceu a batida. Daí casou. O difícil foi encaixar o estilo de produção dos caras de fora com os caras daqui, mas como eu gosto dos dois estilos, tentei colocar tudo dentro um contexto.

Per Raps: Existia um projeto para o CD ou você simplesmente foi escrevendo?
Lurdez da Luz: Eu já tinha uma ideia de fazer um compacto que chamasse “amor aos pedaços”, que seriam raps-canção que só teria ideias sobre amor. A “Ziriguidum” eu já tinha o refrão e resolvi desenvolver isso. Eu comecei a fazer rap numa época que tava rolando uns discos meio conceituais, como o do Del e Kid Koala, Mike Ladd, que também tinha esse lance do spoken word falando da teoria dele de pós-futuro. Ao mesmo tempo que é menos complexo e mais feminino, minha ideia era desenvolver um tema só em um trabalho só. Eu gosto disso.

Per Raps: Os discos da época tropicalista da música brasileira parecem ter grande influência no seu background musical.
Lurdez da Luz: Os discos daquela época de 70 eram mais conceituais e de uma forma indireta também me influenciaram. Foi uma música muito importante que ficou muito tempo escondida. “Andei” é da Flora Purim com o Airto Moreira e eu não tenho esse disco. Mesmo assim fui lá e fiz. Me interessa muito essa música lado “B” do Brasil.

Per Raps: Fale mais do som “Andei”. Você já falou em uma entrevista do lance da Stefanie também ser de Santo André, o que trazia um tipo de identificação pra você. Foi apenas por isso?
Lurdez da Luz: Eu queria muito uma MC mulher no disco, tinha visto ela [Stefanie] no Simples e achei que ia se encaixar muito bem. Ela tem muita verdade na rima dela. Na época que fui morar em Santo André com a minha mãe uma pessoa da prefeitura me colocou em contato com o Nato [PK] pra fazer um show no Parque da Juventude. Daí ele me apresentou pra ela. Sobre a música, apesar do refrão cantado, é o som mais rap do CD.

Per Raps: Você já tem um esquema de como serão ou shows ou ainda está trabalhando na melhor forma?
Lurdez da Luz: Ainda estou defininindo como fica a apresentação (risos)! Mas show ao vivo sou eu, DJ Mako e Rodrigo [Brandão]. Vou começar a ensaiar também com banda, que eu vou estrear numa continuação do projeto “Presença Feminina”. Vai ter baixo [Marcelo Cabral], bateria/percussão [Richard Ribeiro/Projeto Porto] e DJ Mako no dia 10 de abril, no Centro Cultural São Paulo.

Per Raps: Fale um pouco sobre a concepção da capa do disco.
Lurdez da Luz: O Ricardo Fernandes fez a capa do CD. Achei que a fonte [estilo de letra] ajudou e por isso achei que não precisava nem de um nome para o CD. A ideia em si eu achei legal. O fundo preto com a luz ficou um lance luz e trevas, sabe? Fizemos um ensaio fotográfico, mas não me senti muito bem com o resultado. Mas não precisei usar as fotos posadas.

Per Raps: E sobre a presença do spoken word no CD. Calhou do trabalho ter saído “colado” com o lançamento do segundo trabalho de Gil-Scott Heron, de quem você se mostrou fã.
Lurdez da Luz: Pois é! Eu lembro de ter pego o “Revolution Will be not televised” como influência. Eu acho mais difícil cantar do que rimar, mas muita cantora vem perguntar como eu consigo fazer isso, mas eu é que não entendo como elas fazem aquelas coisas com a voz. Estava ouvindo um disco da Wanda Robinson [poetisa e integrante do Black Panthers] e captei algumas coisas de palavras e saiu o “Ah Uh [Onomatopéias]”. Na última faixa, pedi pro [Tiago] Rump samplear a Gal Costa e a gente brincou com esse negócio do nome no rap, que muita gente de fora acha que é uma egotrip. E no disco da Gal, ela fala “meu nome é Gal” e daí comecei a falar o nome de um monte de mulher que eu admiro.

*Fotos por Luciana Faria.

Agenda
Lurdez da Luz @ Estação Urb
Data: 27 de março a partir das 21h
Endereço: Dissenso
Rua dos Pinheiros, 747 – São Paulo / SP
Contato: 11.2364-7774
Preço: R$20 na porta, $15 na lista (lista@urbanaque.com.br)

Lurdez da Luz @ CCSP
Data: 10 de abril 2010 às 19h
CCSP – Rua Vergueiro 1000, Paraíso, São Paulo, São Paulo
Preço: R$ 5 (inteira) | R$2,50 (meia)

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Ataque Beliz – Reconceito (2009)


O grupo brasiliense Ataque Beliz liberou para download nesta sexta-feira todas as faixas de seu novo álbum, Reconceito. Lançado no final de 2009, o trabalho do grupo já reverberava pela internet e rendeu espaço na mídia, inclusive com uma entrevista polêmica no maior jornal do DF, o Correio Braziliense. Em seu site oficial, o grupo também criou o projeto Sua Nota, uma maneira de arrecadar recursos onde os fãs podem realizar doações baseados em quanto acham que vale o disco.

Formado desde 2001 pelo DJ Gusta e os MC’s Anderson Maya, Alisson e Higo Melo, o Ataque Beliz (se pronuncia Ataque Bêlíz) chega com essa pedra que visa rever os conceitos sobre o rap como música e o hip hop como estilo de vida pelos integrantes. O saldo musical disso você poderá conferir ouvindo o disco. Para complementar, acompanhe a resenha feita por Daniel Cunha.

Ataque Beliz – Reconceito

Ataque Beliz – “O giz e o fuzil”
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-02-26T14_03_28-08_00.mp3″

Brasília é a principal referência do gangsta rap no Brasil. O estilo, adotado por grupos como Cirurgia Moral e Tribo da Periferia, é o que faz a cabeça da grande maioria dos adeptos do rap nacional por lá e, portanto, dá pra imaginar o quanto é difícil que alguém com uma proposta diferente conquiste seu espaço. Nos últimos anos, essa tarefa foi melhor conduzida pelas mulheres: Flora Matos e Lívia Cruz são os maiores exemplos de artistas brasilienses que conseguiram se destacar em outros lugares do Brasil, fazendo um tipo de som que pouco tem a ver com o estilo popularizado pelo grupo americano N.W.A., no final dos anos 80.

É nesse contexto que surge o Reconceito, primeiro disco oficial do grupo Ataque Beliz, lançado no final do ano passado. Com pouquíssimas aparentes conexões com o mundo do gangsta rap, o grupo surpreende pela pluralidade na temática das letras. Fazem reflexões sobre o rap e o hip hop, falam de poesia, de amor e, o mais interessante, fazem críticas sociais importantes e bem argumentadas – coisa que anda meio em falta no rap tupiniquim – sempre com muita propriedade. Do lado do som, o saldo também é bastante positivo; várias das músicas contam com o acompanhamento de uma banda de apoio, dando um aspecto mais orgânico e um toque jazzístico às composições do grupo.

Musicalmente, os destaques do álbum vão para ‘Madrugada’ e ‘Eu e os camaradaz’. A primeira traz um clima de festa reminiscente, que lembra as músicas de baile dos anos 80, com belíssimas frases de sax e um refrão contagiante, cantado por Wlad Borges. Na segunda, uma linha de baixo complexa e bem definida, somada a alguns elementos do jazz e uma batida em downtempo, são o pano de fundo para o assunto que não falta em discos de rap: o rolê pela noite.

Se o jazz é o ritmo no qual os músicos do Ataque Beliz mais passeiam, é no rock que eles acertam em cheio. Em ‘O giz e o fuzil’, riffs de guitarra criam o ambiente para a melhor letra do disco, onde os MCs fazem uma parábola entre a educação e a criminalidade. A música, vencedora da etapa nacional do RPB Festival de 2009, fala sobre como a educação que é oferecida às nossas crianças é contraditória e deficitária, e não oferece recursos para que possam ascender socialmente, tornando o fuzil a principal opção para uma mudança de cenário. “O grito do fuzil reprimiu o que o giz pôde dizer, você se contradiz na minha hora de aprender / ninguém vai me enganar depois de tudo que eu vi, você pode me negar tudo o que aconteceu, se o estudo não condiz com a vida que eu vivi, eu vou te devolver aquilo que você me deu”.

Um outro ponto alto do disco são as duas músicas em que os MCs do grupo fazem uma espécie de terapia do espelho com o mundo do rap e do hip hop. ‘Bom som’ tem uma letra bem direta e explicativa que poderia ser utilizada como cartilha para os artistas que não tem certeza se fazer música é mesmo o negócio deles (“O público quer bom som, o público quer bons shows!”). Na outra reflexão, em ‘As maravilhas do hip hop’, a discussão é sobre aqueles que acham que participar da cultura pode ser um bom caminho para se ganhar fama ou dinheiro, coisa que muitos ainda acreditam. Eles esmagam essa tese relatando as dificuldades enfrentadas por MCs, DJs, bboys e grafiteiros em suas trajetórias.

Resumindo, Reconceito, do Ataque Beliz, não é um disco recheado de hits, prontos pra estourarem pelas rádios do país. É bem mais do que isso. Um disco sólido, muito bem produzido e com conteúdo de sobra para nossos ouvidos. Nas primeiras audições, me lembrei da adolescência, quando ouvir discos de rap ainda era pra mim como ler um livro, tamanha a quantidade de informações novas que ia absorvendo. Compre e/ou baixe o disco, e boa “leitura”!

Mais:

Site oficial
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Nel Sentimentum – Sentimentumlogia (2008)

Nel Sentimentum (Imagem retirada do Flick Upgroundbeats)

Nel Sentimentum (Imagem retirada do Flick Upgroundbeats)

Aproveitando a vinda do emcee curitibano Nel Sentimentum para o Indie Hip Hop 2009, o Per Raps fechou uma parceria relâmpago com o excelente blog de resenhas Boom Bap, do jornalista carioca Felipe Schmidt, para publicar aqui sua resenha do disco “Sentimentumlogia”, lançado no final do ano passado.

Vale lembrar que os ingressos do Indie começaram a ser vendidos hoje (10), então é bom correr pra já garantir o seu e não correr o risco de ficar de fora. O preço dos ingressos e a programação você pode conferir direto no site do Sesc.

Confira:


Nel Sentimentum – Sentimentumlogia (2008)

Ao longo da vida do rap e das intermináveis e pretensiosas discussões sobre como se deve fazê-lo, um atributo sempre foi ressaltado em consenso: o sentimento. No Brasil, onde o gênero ainda não alcançou todas as suas possibilidades, tal característica é, mais do que bem-vinda para um artista, praticamente um pré-requisito para não desistir do sonho de viver de música. Então, nada mais justo do que se incorporar o sentimento, certo? E quando isto se torna tão imprescindível que vira até nome artístico? Este é o caso de Nel Sentimentum, um emcee e beatmaker de Curitiba, vivendo com seu sobrenome há quase dez anos dentro da cena.

SENTIMENTUMLOGIA-CAPA

Depois de tanta batalha, o cara lançou seu primeiro trabalho solo, o álbum “Sentimentumlogia”, no fim de 2008. Condene o injustificável atraso deste(s) blog(s) para falar sobre o disco, pois o registro faz parte da linha de frente da safra curitibana de raps. Combinando, como o próprio Nel diz, “rimas de verão com beats de inverno”, o emcee/produtor leva o ouvinte para uma viagem interessantíssima na mente de um jovem adulto nascido e criado numa das cidades mais importantes do país, e ainda assim fora do tradicional eixo Rio-São Paulo.

O resultado é um álbum com o qual todo e qualquer pessoa entre as duas e três décadas de vida pode se identificar facilmente. Musas inspiradoras que se tornam demônios depois de conquistadas, rolês pela noite curitibana, falsos amigos, questionamentos sobre o futuro; está tudo registrado nos versos de Nel de forma sincera e, claro, com muito sentimento, ainda que alguns destes temas já sejam recorrentes na cena alternativa brasileira. E há também outro ingrediente importante na lírica do emcee, como explicitado logo na introdução, “Sentimentulogia”: a positividade.

Esta abordagem positiva tem forte ligação com a produção do disco. A influência do jazz e da música brasileira é visível logo nas primeiras notas que são ouvidas. Nel dilui tais referências numa direção mais suave, tranquila, com bastante atenção aos detalhes, o que resulta num clima bem relaxante ao longo de todo o álbum. Este modus operandi poderia ser denominado como um jazz-rap da melhor qualidade, mas vai além, e talvez esta seja a contribuição mais importante de “Sentimentumlogia”: a presença maciça de samples nacionais na produção, manipulados de uma forma que se encaixam perfeitamente na proposta de sonoridade dos beats. Em vez do jazz-rap, um mpb-jazz-rap.

E é quando esta mistura está  em potência total que os destaques aparecem. “Feito músicas de Elis” é um ótimo storytelling, e conta como Nel encontrou aparentemente sua alma gêmea, para logo depois encontrar-se num dilema: ou a menina ou a música. A simples existência do disco já mostra a escolha do emcee. A forma como ele descreve a musa, o encontro entre ambos e os momentos bons e ruins do relacionamento é divertidíssima, apesar de alguns escorregões na escrita.  O beat, que combina acordes de violão a pianos discretos, é mais um ponto forte da faixa.

“Bóra pro role” é uma canção mais leve, uma narração descritiva da noite de Curitiba, sobre metais apropriadamente funkeados. “Pilantragem”, que trata de um tema presente em 11 de cada dez discos de rap do Brasil, chama a atenção justamente pela batida, com o violão novamente assumindo o comando e ditando o clima da música. Por fim, a contemplativa “O amanhã” é um momento de reflexão interessante, cheio de divagações, sobre um groove positivamente preguiçoso.

Com “Sentimentumlogia”, Nel prova mais uma vez a qualidade do rap feito, não só em Curitiba, mas no Brasil como um todo. Um trabalho de produção que não fica atrás de nenhum lançamento americano, com valorização da cultura nacional, o que é sempre muito bem-vindo. Mais um tempo maturando sua escrita, e o jovem curitibano tem tudo para tomar o país inteiro de assalto e ser um expoente da nova geração de emcees brasileiros. O sentimento, o mais importante, ele já tem.

Nel Sentimentum acabou de lançar um novo single, chamado M.C.E.E. e você ouve e lê tudo sobre a nova música no blog Boom Bap.

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Quando dá vontade de escrever sobre um show

Foto: Reinaldo Canato/Entrelinhas

As irmãs Célia e Hélène Faussart no Sesc Pinheiros Foto: Reinaldo Canato/Entrelinhas

“Um duo capaz de seguir no repeat, eternamente” – por Eduardo Ribas

Mágico. Quando uma apresentação musical é definida por essa palavra, pode-se ter certeza de que não foi um simples show. Duas cantoras, ambas com vozes que não são desse mundo, capazes de manter um sorriso aberto por uma hora e meia, assim como arrepios sequenciais, tamanha a emoção passada em cada interpretação. A quem me refiro? Les Nubians, dupla franco-camaronesa que veio ao Brasil em 2009 graças às comemorações do ano da França em terras tupiniquins.

Com vestes tradicionais africanas, além de pinturas tribais no rosto, as irmãs Célia e Hélène Faussart mantém literalmente os pés na contemporaneidade com sapatos de salto alto – abandonados próximo ao fim da apresentação. Outro traço do ‘hoje’ são as inúmeras visitas a ritmos de diversas partes do globo, do samba ao reggae, lembrando das percussões tribais até no R&B. E não havia ligações só com o moderno, mas também com o público.

Conversando com a platéia em português, que por vezes virava portunhol, as irmãs conseguiram passar sua mensagem: elogiaram a eleição de Barack Obama, questionaram os ideais franceses de “liberdade, ïgualdade e fraternidade” e mostraram que a imagem que o Brasil tem no exterior é de unidade, mas que tiveram acesso as lutas de movimentos negros desde os anos 80 por aqui e assim deram ainda mais valor a história do país. Além disso, mostraram a sua visão em relação a música, fator de mudança do mundo, que primeiro precisa partir do indivíduo, para depois contagiar o próximo e assim por diante.

Empolgaram com “J’veux D’la Musique”, fizeram o público cantar em sua versão de “Tabou” e em uma das poucas composições inteiras em inglês, “Temperature Rising” – com direito a uma versão de “Mas Que Nada”, de Sérgio Mendes, no meio do som – também obedeceram um pedido do público, cantando “Demain” a capela, despertaram “bicos” que ensaiavam o francês em “Makeda” e, para finalizar, “Saravah”, já no bis. Para quem não esperava uma visita musical das irmãs Nubians tão cedo, até pelo não lançamento de um material novo recentemente, foi uma surpresa e tanto. O próximo CD da dupla foi prometido para 2010.

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Célia Faussart cantou, encantou e até arriscou um samba no pé (Reinaldo Canato/Entrelinhas)

Para muitos ali, a dupla poderia continuar cantando num repeat infinito.


Ópera rap no dia do rock

Comemore o dia do rock ouvindo…rap! – por Eduardo Ribas

Você sabe que hoje, 13 de julho, é o dia mundial do rock? Pois é! A data foi escolhida em 1985, quando ocorreu o primeiro ‘Live Aid’, um festival organizado para arrecadar fundos para as vítimas da fome, na Etiópia.

Aproveitando a deixa, o Per Raps traz a resenha do novo trabalho de MV Bill, o DVD “Despacho Urbano”. Mas agora você pode estar se perguntando: o que tem a ver o Bill com o rock? Neste caso, tudo!

Isso, pois este DVD traz os sucessos do MC da Cidade de Deus em versão rock e acompanhado de uma banda. Acompanhe abaixo a resenha para saber mais.

“Despacho Urbano, A Ópera Rap Rock da Favela”

O DVD é repleto de extras e promete agradar crítica e fãs*

Poucos representantes da cena rap nacional conseguiram a visibilidade que MV Bill possui. Seja em relação a seus trabalhos sociais ou com sua música. Dessa vez, o MC carioca da Cidade de Deus lança um registro de sua carreira que merece elogios; o DVD Despacho Urbano.

Produzido de forma independente, o trabalho possui uma apresentação de sons ao vivo de MV Bill acompanhado por uma banda. Isso permite que os tradicionais beats sejam revisitados com uma roupagem mais rock, por vezes “funkeado” ou até com uma levada reggae. A direção de fotografia também tem destaque, assim como os inserts de imagens, que somam ao conteúdo das letras.

Além do show ao vivo, o DVD conta com a videografia de 11 clipes do “Mensageiro da Verdade”  (MV), inclusive com um clipe inédito da música “Estilo Vagabundo”. Nos extras também há espaço para imagens do ensaio da banda e traz algumas músicas que não foram para o show em uma versão mais rap.

Há uma seção com depoimentos do diretor e da equipe que participou das filmagens. O menu é animado, bilíngue e as legendas podem ser vistas em português, inglês ou espanhol. “Despacho Urbano” vai além de um simples show, é o registro de uma carreira de sucesso que transcende o gênero do rap.

*Esta resenha foi originalmente publicada na revista Rolling Stone Brasil, edição 34.

E nesta terça 14/07, exibição e venda do DVD Despacho Urbano do MV Bill, no Espaço Metrópole!

MapaOficial

DVD Despacho Urbano/MV Bill @ Espaço Metrópole

Local: Espaço Metrópole – Avenida São Luis, 187 – 2º Piso (Galeria Metrópole)
a 200 metros da estação República do metrô
Dia e horário: 09 de junho de 2009, das 19h às 23h
Informações: 0xx(11) 3081-2093 / 7891-6498 / ID: 9*61307
info@revistaelementos.com.br
Estacionamentos: na Rua da Consolação e Rua Araújo

E no sábado, dia 18/07, tem show e lançamento oficial do DVD, na Hole Club.

ElementosQuilomboMvBillQuilombo Hip-Hop Party @ Hole Hole

Local: Hole Clube – Rua Augusta, 2203 (Jardins)
Entrada: Homem/mulher R$ 15,00 ou R$ 20,00 (entrada+DVD)
Informações: contato.quilombohihop@gmail.com
0xx(11) 7892-0249 / Nextel ID 9*14295 (Guilherme)

Capa smkok

DVD “Despacho Urbano, A Ópera Rap Rock da Favela”
Chapa Preta Produções
Apoio Cultural: Smoking
Valor: R$ 5,00 (loja virtual Central H2 – http://www.centralhh.com.br)

Saiba mais:

Site oficial: http://www.mvbill.com.br
Myspace: http://www.myspace.com/mvbill
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