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Mister Bomba fala do álbum “De Ponta a Ponta”

No final do mês de março, o Per Raps trouxe aos leitores a primeira parte da entrevista feita com Mister Bomba, MC e produtor do grupo SP Funk. Trazemos agora a segunda parte da conversa que tivemos com Bomba, dessa vez falando sobre seu trabalho solo – “De Ponta a Ponta” -, twitter e outros assuntos.

Falando em álbum, o disco terá festa de lançamento no dia 14 de julho, na Matilha Cultural, no centro de São Paulo. Fique atento!

Não deixe também de ler também “O outro lado de Mr. Bomba“, a primeira parte da entrevista feita pelo Per Raps, em que o MC e beatmaker falou sobre seu início no rap, um pouco de sua rotina, seu modo de produzir sons e sobre seu grupo, o SP Funk.

Falando “De Ponta a Ponta” – por Eduardo Ribas

Dê o play em Mister Bomba, “Gênesis” (De Ponta a Ponta/2010)
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-05-18T10_07_29-07_00.mp3″

Per Raps: Pra começar, como está o andamento da produção do “De ponta a ponta”?
Mr. Bomba:Tá na reta final. Já ta mixadão, a arte da capa tá quase pronta, mas de última hora eu resolvi incluir mais 3 músicas, que vão estar prontas até a data da masterização.

O nome do álbum faz alusão a temática preferida do Planet Hemp, no Brasil, e Cypress Hill, na gringa ou é apenas uma coincidência?
Mr. Bomba: Cada um vai entender como prefere mas, o nome tem a ver com o lance de eu produzir e rimar, por isso é Mr. Bomba De Ponta a Ponta, tanto na produção, como nas letras.

Per Raps:O “De ponta a ponta” já tem previsão de lançamento? Pretende convocar beatmakers ou a produção será só sua?
Mr. Bomba: O álbum iria sair em abril. Tem participação do Coral Kadoshi, Sombra, Bio Rima aka Obaminha, Tio Fresh e Criolo Doido, Bukassa e Mc Jota. Me dediquei pra fazer aquela produção artesanal com muita alma em todas as faixas, daí o nome do disco – Mr. Bomba De Ponta a Ponta -, mas eu não fiz sozinho. Tive a ajuda de músicos como Munari, Cabralha, Marcelinho, Nadinho, Tadeu Dias, João Lavraz e cada um trouxe suas ideias. No futuro eu planejo trabalhar com outros produtores, mas nesse eu fiz todas. Composto, produzido, arranjado e rimado by Tio B.

Per Raps: Em uma entrevista para um site, o Highsnobiety, você disse que o estilo de “Biriri” era o “tranco”. Pretende investir nesse estilo novo ou foi apenas uma maneira de explicar a pegada diferente do som?
Mr. Bomba: Era não, é. E eu estou investindo tempo e esforço nisso porque, se liga na fita, o Hip Hop se espalhou no mundo todo, mas em cada lugar tem uma identidade nacional, um tipo de rap local, quem tem a influência do Rap americano misturado com a cultura local. Na Jamaica tem o Dancehall, em Porto Rico tem o reggaeton, em Angola tem o Kuduro, no Rio de Janeiro tem o Funk e até no Tecnobrega do norte e no Axé do nordeste tem influência do Rap.

Todos esses estilos que citei fazem muito mais dinheiro do que nós, com esses preconceitos, daí entra na questão de que é um por amor e dois por dinheiro, mas hoje em dia nem amor tá vivendo sem dinheiro. Até nos EUA, se você for ver, em Chicago tem o Juke, no sul o Dirty South e o Crunk, então, quando me perguntaram se São Paulo tem uma identidade eu disse: “tem, é o Tranco”, porque eu já estava pensando nesse nome fazia tempo, chega de imitar os manos, vamos fazer o nosso, e se quem estiver lendo e quiser somar com bases, danças e músicas novas, é só chegar!

Per Raps: Reparamos que você tem se utilizado bastante do Twitter, o que acha dessa ferramenta e qual a importância do uso da web para o seu trabalho?
Mr. Bomba: Nos dias de hoje, quem não tá na net fica quase impossível entrar no jogo, então eu tento estar conectado o máximo de tempo possível e agora com o twitter eu posso centralizar mais. Youtube, Myspace, Facebook e Orkut, todos conectados. Eu nunca pensei que pra você ser rua e ser falado na rua teria que estar mais na frente do computador do que na própria rua.

Per Raps: Você acha que rolou uma mudança de mentalidade em termos de ideia nas rimas do Bomba do SP Funk e o Bomba que vai rimar no “De ponta a ponta”?
Mr. Bomba: Muita gente pensou que o SP Funk tava querendo ser “os intelectuais do Rap”, mas não era nada disso, com o tempo foram aparecendo vários – não vou citar nomes, mas vários, um mais complicado que o outro -, mas se for ver, as ideias são simples. Mas é muita ideia por música, as ideias estão todas aí, a gente só tem que ser uma antena e ficar na sintonia pra que elas cheguem com nitidez pra quem vai ouvir. Quem ouvir o “De Ponta a Ponta” vai ver que eu continuo com a mesma mentalidade de busca por um som novo e original, que sempre foi o ideal do SP Funk.

Per Raps: Na entrevista concedida ao Programa Freestyle, você apresentou no programa o som “Gênesis”, que deverá estar no novo trabalho. A música teve inspiração no som “This Way”, do Dilated People com o Kanye West?
Mr. Bomba: Quando eu vi o Coral Kadoshi cantar foi tipo uma luz que bateu, tipo um clarão, e eu pensei: “eu tenho que gravar com eles”. Desde que eu fiz o beat achei que ficou bem épico, então eu resolvi chamar nesse som, pra abrir o disco com essa vibração. Aí fui pro estúdio MCR no dia da gravação com o coral sem nada, nem melodia nem letra e nós – eu e o Marcelo, do Caral – escrevemos essa letra em menos de cinco minutos, parecia psicografia. Foi um momento mágico e ficou registrado no disco.

Per Raps: Falando nisso, definiu o formato: EP, mixtape, virtual ou convencional?
Mr. Bomba: CD, download e uma edição limitada em formato surpresa. Também estou trabalhando em mais três mixtapes e nas bases do novo do SP Funk.

Per Raps: Sobre o single “Biriri”, esperava tanto barulho? A ideia de gravar um clipe desse som partiu de você?
Mr. Bomba: Na hora que eu fiz o refrão eu já soube que ia fazer barulho, sempre soube. Eu nem tinha a letra, só o refrão e a base, e já sabia que era sucesso. E aí eu agradeço os DJ’s que acreditaram e fizeram que uma ideia se tornasse um hit. Dj’s como Ahlemão, Tubarão, Silvinho, Milk, Flash, Puff, Marquinhos Da Pesada, Kefing, Scratch, KL Jay – que às vezes até usa de fundo pro programa de rádio -, ao Cia, Negralha, Heron, Jason Salles, Marcynho, Hadji, Marks, RJay, ao Tchicky Al Dente – que já chegou a rolar duas vezes seguidas no Favela Chic, em Paris -, ao Kassiano, ao Sandrinho, Roger Flex, Zeu, Naomi, Spinha, André Heat, Anão, Master Ney, Caio Gentil e todos que fortalecem no Brasil – vocês sabem quem são.

Aí veio a ideia do clipe. Fizemos com a estrutura que deu, só pra ser um street vídeo mesmo. Mas o mais da hora é que várias pessoas colocaram na net videos caseiros com a música. E tem vídeo com mais de 250 mil acessos. Louco também é que as pessoas acham que é um funk mas, se for ver, ela é um Rap puro e bem cru em termos de produção. Ela não tem um refrão R&B pra ficar mais comercial. Ali eu to rimando do começo até o fim, se é um novo estilo eu não sei, eu só quero fazer o meu som e provar que hip hop não pode ter barreiras porque a música é uma só.

Não deixe de ler a primeira parte da entrevista feita com Mister Bomba

Mais:
Myspace
Programa Freestyle com Mister Bomba e Tio Fresh (SP Funk)

*Agradecimentos ao Marcílio, do Programa Freestyle pela força neste post.


O outro lado de Mr. Bomba

Há cerca de um mês, me foi dada a chance de entrevistar um das figuras mais ativas da cena: Mr. Bomba. A ideia era que o post fosse para o blog da XXL, no entanto o Per Raps acabou ganhando esse “presente” dos parceiros. Foram trocados quase 10 emails para chegarmos a conclusão da matéria, por isso decidimos não desperdiçar o material e publicar a entrevista em duas partes. Na primeira delas, você conhecerá quem é Mr. Bomba, como ele produz, quais são suas influências, seus trabalhos anteriores e outros detalhes. Na segunda parte da entrevista, você terá acesso aos detalhes de seu novo trabalho, “De Ponta a Ponta”, que promete agitar o rap nacional. Entre outros papos, não poderíamos deixar de falar de seu grupo, o SP Funk. Curte ae!

Buemba! Buemba! Mr. Bomba – por E. Ribas

Dê o play em “Biriri”, de Mr. Bomba
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-03-30T11_36_20-07_00.mp3″

Marcelo Mendonça de Menezes ou Mr. Bomba é conhecido por muitos pelo seu trabalho no SP Funk, grupo que surgiu no final dos anos 90, e desde lá já mostrava junto de seus colegas que não fazia parte do rap apenas para mostrar sua marra. O lançamento do primeiro CD (2001) comprovou isso, trazendo Sabotage, Z’áfrica Brasil e RZO nas participações e rimas que abalaram as estruturas do rap na época. Bomba foi inclusive o responsável pela criação do SP Funk em 2005, junto de Primo Preto. Com a saída do parceiro para assumir o comando do YO! Raps, veio o convite para firmar parceria com Fresh, Maionezi e QAP para fechar a formação do grupo.

No entanto, nem todos sabem que Mr. Bomba era o responsável por grande parte dos beats dos dois CDs que o SP Funk lançou. É ai que seu pseudônimo no rap faz ainda mais sentido: suas produções soam como verdadeiras bombas. Trabalhou também com o rapper Cabal, produzindo o beat para “Mexe seu corpo”, do álbum “Prova Cabal” (2005). Já no ano seguinte, Bomba fez o beat para um som de Marcelo D2, o single: “Gueto”, que contava também com a participação de outro Mister, o Catra. Junto de Cabal e P. Rima criou o grupo Braza, que trazia MC’s de rap rimando em batidas do funk carioca. Misturavam também palavras do português e do inglês, buscando expandir as fronteiras do rap nacional.

Como MC, Bomba mostra que tem compromisso com o rap e tem registro de participações em grupos dos mais diferentes estilos, entre eles a Academia Brasileira de Rimas, o CD “Brooklyn Sul” do Sabotage e “Enemy of the Enemy”, dos ingleses do Asian Dub Foudation. Para conhecer mais sobre sua rotina, suas influências e novidades sobre o SP Funk, acompanhe a entrevista.

Per Raps: Como o rap passou a fazer parte da sua vida?
Mr. Bomba: Foi o meu irmão o Guilherme, que também é músico, trompetista e produtor da banda Guizado. A gente curtia mais rock, aí um dia ele apareceu com um disco do Run DMC, o “Raising Hell”, que foi o primeiro disco de rap que eu ouvi. Ai vieram Kool Moe Dee, Beastie Boys e o interesse foi aumentando. Começei a ouvir o programa da Zimbabwe, na Band, ouvi os primeiros nacionais dessa época com Thaíde, Pepeu, até que veio o Public Enemy, daí eu passei a escrever e tentar entender o inglês de verdade.

Fui bombardeado de rap pelo meu parceiro Dj Wagner, que na época comprava disco na galeria (antiga Guetto Records), alí pra mim foi uma descoberta de um mundo novo. Ele só comprava de 20 [discos] pra cima e deixava comigo, às vezes até antes de ele levar pra casa pra eu poder gravar em fita cassete, eu escrevia o nome de todas as músicas do disco com a letra bem pequena pra caber no papel da caixinha. Quase 20 anos depois, só tenho a agradecer a todos os responsáveis.

Per Raps: Qual a rotina de Mr. Bomba de segunda a domingo?
Mr. Bomba: Acordo 10, 11h e faço tudo que eu tiver pra fazer na rua até umas 3, 4h depois vo direto pra net e telefone, resolvendo tudo que tiver pra resolver vendendo meus shows, já que sou eu mesmo que faço isso, depois lá por 8h começo a trampar na música e daí o processo é bem confuso, de repente tô fazendo um trampo pra alguém, paro no meio, faço um beat do nada, volto pro trampo, sempre escrevendo algumas ideias. Ah, de vez em quando encaixa aquele skateboardizinho básico que ninguém é de ferro.

Per Raps: Quem são seus referênciais na produção?
Mr. Bomba: Timbaland, Bangladesh, Pollow Da Don, RedOne, Daft Punk, Dre, Kanye West, Disco D, Benny Blanco, G.Master Duda, Riztrocrat, Nave, Zegon, Cia, Ganjaman.

Per Raps: Que equipamentos prefere usar? Inclui samples ou só beats originais?
Mr. Bomba: MPC 2500, teclados Microkorg e Fantom, e ProTools. Gosto de samplear e criar melodia, é que às vezes sampler limita um pouco, só que depois de um certo tempo bate a a saudade, mas quase sempre faço um detalhe ou outro no teclado.

Per Raps: O que se ouve por ai é que você tem trabalhado numa linha mais dançante, acha que a ideia de under ou pop no rap influencia seu trabalho?
Mr. Bomba: Eu sempre gostei de som dançante, desde Bomb the Bass, New Order até Kraftwerk, Devo, e os funks do Rio, desde 1997 eu vou nos bailes no Rio com o Primo e o Mr.Catra, isso me fez abrir os olhos e a mente pra um som mais pista. Nos dois discos do SP Funk, sempre teve um som ou outro mais club, hoje o que a gente tá vendo é todos estilos de música querendo estar no baile, acho que o baile é o meio mais eficaz na música, mas o disco tem seus momentos reflexão também. Por enquanto ainda existe a divisão under e pop, mas a gente tá lutando pra que fique uma coisa só, sem barreiras, nosso estilo ja tem muita barreira fora, então se ficar unido fica mais forte.

Per Raps: No passado você trabalhou com o rapper Cabal, que está prestes a lançar um trabalho novo também. Esse poderá ser um dos nomes que participará de seu novo álbum?
Mr. Bomba: Eu gravei uma música “Traz de Volta” no trampo novo dele, e estamos conversando pra voltar o Braza também, que foi o trampo com o P. Rima e o produtor Disco D.

Per Raps: Falando no projeto “Braza”: a ideia do grupo era promover essa mistura de rap com funk e música eletrônica na gringa ou só se divertir?
Mr. Bomba: Sim, a ideia era e continua exatamente essa, eu acho que não pode ter preconceito porque funk também é Hip Hop, vem da mesma origem do Miami Bass, e que os MC de funk tão cantando? É rap! O que a gente quer é mostrar a cultura de rua do nosso país se eles não aceitam música em outras línguas, a gente rima em inglês, por que não? Fazer o que gosta, o que sabe, e se divertir, por que não? E entrar nos EUA, assim como meu mano Zegon tá fazendo, mostrando pra noiz que é possível pra um brasileiro entrar no mundo do rap lá de fora.

Per Raps: Agora, a pergunta que não quer calar: o SP Funk acabou ou só deu um tempo?
Mr. Bomba: Só fazendo uma média… Estamos fazendo cada um com seu projeto separados, mas sempre com a essência do SP em cada trampo, fazendo na bola de meia, mas tâmo fazendo músicas novas. Se preparem!

Per Raps: No segundo aniversário do Programa Freestyle rolou uma apresentação do SP Funk, vocês têm se apresentado ou foi apenas uma união para um momento especial?
Mr. Bomba: Não tanto quanto sozinho, mas estamos trabalhando pra ter material novo porque se não fica tipo banda velha tocando os mesmos sons por obrigação, tem que botar lenha na fogueira, se não apaga. Olha o Rolling Stones, Aerosmith, esses caras fazem música nova até hoje. A gente faz show e quando faz é loko, todos que tiveram oportunidade de assistir sabem que o barato é loko, quande a gente se junta a energia do público invade o palco, parece que vai acabar o mundo.

Per Raps: Adianta alguma novidade sobre o CD novo do SP Funk ou é tudo surpresa?
Mr. Bomba: A única coisa que eu posso dizer é que ano que vem nós vamos entrar em estúdio com uma ideia, do naipe de uma “Fúria de Titãs”: uma frase, uma imagem, que vai ser o tema pra fazer esse trabalho novo, sempre pensando no futuro.

Mais
Myspace

Na parte II, acompanhe a história do hit “Biriri” e saiba como anda a produção do álbum “De ponta a ponta”. Fique ligado!