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Graffiti: Rafael ‘Se7e’ Barão

“É de menino…” por Carol Patrocinio

Ainda no jardim de infância Rafael Fortuna Barão, 24, se destacava por seus desenhos e ficava entusiasmado em melhorar cada vez mais. Anos depois, Rafael se tornaria Se7e, artista plástico e do graffiti, que começou a carreira, aos sete anos, fazendo pichações pelas ruas do bairro junto de meninos mais velhos. “Nessa época eu já tinha um grupo de pixação chamado DDM – Detonadores de Muros e atuávamos no nosso bairro. Eu era meio que o ‘chaverinho’ da galera, pois todos eram mais velhos do que eu, mas nessa idade eu já dominava a caligrafia das pixações paulistas e isso fez com que fosse aceito por eles!”

Tudo o que está ao redor influência sua arte, tudo o que ele observa, além de outros grafiteiros e artistas, é claro. “Osgemeos têm influenciado muita gente a se tornar grafiteiro, artista ou sei lá. Pra mim, arte não se mede, mas diria que os melhores são aqueles que fazem a cultura evoluir, tipo fazendo eventos, criando novas tendências, mesclando estilos… E disso o Brasil tem aos montes”.

Para acompanhar os desenhos, Rafael de vez em quando leva um mp3 player mas prefere o sons das ruas: “Uma criança entusiasmada com a obra, o elogio de uma senhora, a buzina de uma carro seguida de um sorriso e por ai vai”. Como suas obras dependem de inspiração, é impossível escolher uma hora do dia preferida para desenhar, mas Rafael consegue driblar esse probleminha de vez em quando: “Se quero fazer um trabalho grande, rico em detalhes, prefiro o dia, mas se for pra curtir, protestar ou desestressar um pouco prefiro a noite!”

Rafael é de São Paulo, mas já grafitou em outros lugares. A cidade que mais surpreendeu o artista foi o Rio de Janeiro – “Maior visual, maior paz” -, que rendeu, inclusive, um vídeo em parceria com o fotógrafo e videomaker Guilherme Veiga. Enquanto Rafael mostra a produção de um de seus desenhos, Guilherme captou as imagens e editou com sons de Jay-Z e Beastie Boys. As imagens são de Teresópolis, no Rio de Janeiro.


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Flickr Se7e


Duelo de MCs celebra aniversário em Belo Horizonte

“Celebrar é preciso!”por Eduardo Ribas

Quem acompanha o rap, ou qualquer outra cena (com viés) independente, sabe das dificuldades que se encontra pelo caminho. Casas que não abrem espaço para festas e shows, produtores que oferecem uma coxinha e três refrigerantes como pagamento, jornalistas que estigmatizam o gênero em seus textos, os materiais para DJs (pick-ups, mixers, serato etc) e MCs/Beatmakers (microfones, mpcs etc) são muito caros e por ai vai.

Resistir a esses obstáculos é tarefa para poucos, tanto que a cada dia assistimos festas chegando ao fim, grupos terminando e a cena enfraquecendo. Um desses exemplos de resistência está a 586 quilômetros de São Paulo, especificamente em Belo Horizonte, Minas Gerais. Há cerca de três anos, surgia o Duelo dos MC’s. Seguindo o exemplo e molde de eventos como a Batalha do Conhecimento (RJ) e o Microfone Aberto (SP), apenas para citar alguns, o Duelo traz semanalmente um encontro que junta representantes do elementos da cultura hip hop no mesmo palco.

Inspirado na Liga dos MCs, evento tradicional que acontece no Rio de Janeiro, que teve uma edição especial em BH, Osleo (lê-se osléo), da Família de Rua, e o Vuks (ex-Rima Sambada) compraram a ideia e iniciaram um evento similar, sem saber exatamente a proporção do que estavam fazendo. “Na primeira edição tinha umas 50 pessoas, na segunda, umas 150. Quando a gente foi ver, o evento tava dando média de 400 pessoas por noite, pessoal de imprensa procurando, geral querendo saber o que era aquilo”, relembra Luiz Gustavo aka Gurila Mangani, MC e beatmaker que observou de perto o início do projeto.

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A ideia central do evento é abrir espaço para todos os elementos do hip hop, e não apenas para as batalhas de MC. “O carro-chefe é a batalha (de freestyle), mas a preocupação é que seja um evento de hip hop, sempre tem roda de b-boy, de 15 em 15 dias tem grafiteiro pintando o viaduto”, conta PDR, o Pedro Valentim. Pedro é hoje um dos organizadores do evento, junto de Osleo, DJ Roger Dee e Monge (todos fazem parte da Família de Rua). Além de todos esses elementos, vez ou outra ainda há espaço para pocket-shows com artistas diversos. Já passaram por lá nomes como Shaw (RJ), Slim Rimografia (SP) e Simpson (MG) entre outros.

Sobre a batalha de freestyle, começou no formato simples: MC contra MC, sem muita imposição. Depois, se assemelhou aos moldes da Batalha do Conhecimento (RJ), com temas sugeridos. Hoje, o duelo é no esquema de “bate-volta”, um MC rima oito barras (tamanho de um verso regular de rap), o outro responde com outras oito e por ai vai. A cada sexta-feira, o estilo muda: duelo tradicional de freestyle, temático e batalha no “bate-volta”.

O palco para o Duelo dos MCs é o Viaduto Santa Tereza, localizado na região central de Belo Horizonte. O local é histórico, mas antes do evento era habitado por moradores de rua, a sujeira tomava conta e sinalizava o abandono da área. “Não tinha luz, era escurão, tipo um ‘guetão’, submundo da cidade”, conta Mangani. Três anos depois, a revigoração feita pelo Duelo trouxe de volta ao espaço a cultura. “Nós começamos a ocupar, o Duelo trouxe vida nova ao espaço”, completa PRD.

Local de fácil acesso, ao lado de uma estação de metro e de ônibus, o Duelo dos MC’s atrai público mais diverso possível, “desde cara do rap até patricinha”, segundo Gurila Mangani. As edições rolam todas as sextas, a partir das nove da noite, acabando por volta da meia-noite.

E falando nisso, nesta sexta-feira (27) rola a edição de aniversário do evento. Na programação, show com o MC B.Réu, presença de MCs convidados, roda de dança, intervenção de grafite e mais. Serão vendidos bottons comemorativos do Duelo dos MC’s, a três reais cada.

Alguns dirão que três anos não é o suficiente para ressaltar a importância de um evento, festa ou seja o que for. Outros vão enaltecer a iniciativa e imaginar: “queria poder colar nesse rolê hoje”. Mas nada disso importa. Como já disseram, “só quem é de lá sabe o que acontece”. Nada melhor do que ler as palavras de um dos frequentadores do Duelo dos MCs para entender o que você pode estar perdendo. “Você tem que vir aqui pra ver como é… é muito loca a vibe, você vai achar que tá no Bronx!”, finaliza Gurila Mangani.

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Obra d’OsGemeos é atacada em São Paulo

Quem não quer viver da sua arte?por Carol Patrocinio

“Pichadores atacam painel de grafite mais famoso de São Paulo”. Ao ler essa manchete confesso não saber direito qual sentimento tomou conta de mim, mas o que sobrou foi uma tristeza enorme. Pichadores e grafiteiros, na minha cabeça, não deviam lutar um contra o outro, são artes irmãs, formas de expressão.

É claro que a gente volta naquele papo de que quando o grafite entra na galeria deixa de ser arte de rua, mas será que é mesmo melhor ter sua obra exposta apenas em locais remotos do que fazer barulho e chamar a atenção de milhares de pessoas ao redor do mundo?

Segundo o jornal Folha de S. Paulo o grupo de pichadores que fez intervenções no Centro Universitário Belas Artes, em 2008 – que rendeu o documentário Pixo, de João Wainer -, na galeria Choque Cultural, em Pinheiros, e na 28ª Bienal Internacional de São Paulo foi o responsável por “atravessar” o mural da dupla OsGemeos, um dos mais conhecidos de São Paulo, na alça de acesso da 23 de Maio ao elevado Costa e Silva, na Bela Vista, e que havia sido apagado por engano por uma empresa contratada pela prefeitura.

A publicação diz que o ataque aconteceu na madrugada dessa sexta-feira, 19, e a prefeitura já apagou os escritos. É claro que não apenas por cuidado ao grafite, mas por serem ofensas ao prefeito Gilberto Kassab. O grupo não fala nada sobre o ocorrido, a prefeitura não se manifesta e OsGemeos também não. Silêncio.

O desrespeito dos pichadores é o mesmo desrespeito da empresa que apagou a obra ‘por engano’, mas toda a classe artística prefere não se manifestar. Quem está certo? Quem está errado? Qual o motivo de tudo isso? “Um dos recados chamava atenção para “a cidade em calamidade”. Os pichadores também inseriram uma cifra no mural (R$ 200 mil) –número que atribuem ao custo da “maquiagem” no local (entre gastos com tinta, cachê para os grafiteiros etc). Por fim, escreveram ofensas pessoais a Kassab. Segundo apurou a reportagem, o grupo planeja “atravessar” outros grafites”, diz a matéria na Folha.

Entender esse protesto que agride não só os políticos, mas os artistas seria um grande presente a todos nós. O Per Raps abre espaço para o grupo se manifestar, para pixadores defenderem ou mostrarem seu ponto de vista contrário a intervenção.

O que eu queria que alguém me explicasse é: por que uma obra, quando valorizada pelo dinheiro, perde o valor para uma parte dos artistas? Quem não quer viver de arte?

Leia mais sobre pixo.
Leia mais sobre o caso dos grafites apagados na Av. 23 de maio.


Inspire-se

Imagem do designer Mathiole

Universo online – por Carol Patrocinio

Esqueça tudo o que você já viu na internet, não tem nada a ver com o mais famoso universo online (uol) que te oferecem por aí. Esse universo é diferente, criativo e vai te ajudar a ganhar um fôlego para atravessar o sábado e o domingo e começar bem uma nova semana em que você vai se sentir muito mais criativo do que imaginava.

Unic. verse é um projeto do ilustrador Mathiole, dono também da imagem que abre o post de hoje. A ideia do cara é mostrar o que é, na cabeça dele, o universo. Essa coisa imensa que está ao redor de todos nós mas basta parar pra pensar nisso que a gente fica meio maluco.

O mais bacana é que a ilustração é contínua, como um muro, mas online. Você vai arrastando a barra de rolagem pro lado e coisas incríveis aparecem na sua tela. Vá ao site dele, veja as imagens, respire fundo e pense no que é o universo pra você.

Saiba mais:
Site
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Em época de semana de moda

Começo de ano é sempre assim, estilistas colocam sua coleção na passarela pra você já saber o que vai pegar na próxima estação. E não adianta falar que não liga pra moda porque o sneaker que você usa é um tipo de moda street, assim comos os bonés, as calças mais justas – que estão fazendo a cabeça de muitos meninos do rap – e as camisetas com cara de anos 80 ou o estilão skatista.

Se você começou a ler o post e foi conferir se estava mesmo no Per Raps, fique tranquilo, você não errou de site. Uma das manifestações culturais mais fortes que existe é a moda, afinal, o que você veste pode dizer muito sobre você e sobre o que você pensa em relação ao mundo.

No Brasil, semana passada rolou o Fashion Rio, essa semana está rolando o São Paulo Fashion Week e ao redor do mundo a moda não para nunca! É claro que não vamos nos alongar no assunto, afinal, esse é um blog sobre música, mas como as pessoas que fazem música na gringa acabam aparecendo mais do que a arte em si, não podemos ignorar certas coisas.

Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Chris Brown foi visto vestindo uma peça bem estranha durante a Fashion Week de Milão.  Um sapato que, acredito, pouca gente por aqui usaria, ou talvez nem mesmo Kanye West. Se liga no visual!

Sapato de Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Sapato de Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Pra quem estava acostumado a ver Chris Brown em seus videos, essas roupas ai estão bem fora do usual. Será que o cara tava tentando se adaptar ao Fashion Week, será que contratou o personal stylist errado ou é sem noção e errou na mão mesmo? Diga aí o que você achou!


Os shows de domingo (06/12) do Indie Hip Hop ‘09

Finalmente, a parte II do Indie Hip Hop 2009. Desta vez, você acompanhará videos feitos no domingo (06/12), dia da apresentação do coritibano Nel Sentimentum, os cariocas d”A Filial, além do encontro entre Parteum com Kamau e do Elo da Corrente junto do Mamelo Sound System.

Para você que quer relembrar ou de repente trocou o festival pela rodada final do Brasileirão, o churrasco na casa do vizinho ou assistiu o Indie no sábado e não conseguiu ingresso pro domingo, disponibilizaremos um vídeo de cada apresentação. Em breve, traremos um balanço final do Indie Hip Hop 2009.

De quebra, acompanhe também imagens do painel montado pela dupla OSGEMEOS. Curte aê!

Obs: O áudio da apresentação de Pateum e Kamau não está dos melhores por problemas técnicos, mas vale pelo registro do importante momento.

Mural OSGEMEOS

Nel Sentimentum (CWB)

A Filial (RJ)

Parteum e Kamau

Elo da Corrente e Mamelo Sound System


Entrevista com o grafiteiro Cope 2

Per Raps entrevista com COPE 2 (Parte I)

“Você começa colocando o nome nas paredes, cabulando aula, juntando seus colegas para roubar marcadores e ir escrever nos trens”, assim foram os anos 80 em Nova Iorque para Fernando Carlo. Sua conexão com a cultura de rua sempre foi verdadeira e de respeito. De b-boy a “149 Street”, do emblemático “4 Subway Line” aos “Kings Destroy”. Mais conhecido como Cope 2, ele é considerado uma lenda no grafite mundial por seu clássico throw up e o estilo de letra wildstyle. Ele desembarcou no Brasil para o encontro de grafite “Meeting of Styles”, que ocorreu nos dias 14 e 15 de novembro, em São Bernardo do Campo. O grafiteiro, artista e empresário tem bagagem, por isso mantenha bem atento os olhos sob as ruas de São Paulo e sinta a forma do grafite vindo do Bronx.

Do Bronx às ruas de São Paulopor Cissa Maia aka Ciss

Per Raps: Você faz parte da história do hip hop nos anos 80. Havia um clássico cenário de sneakers, rap e vestuário. Uma época que também retratou a cultura de rua, marcada pelas representações culturais, pelo estilo de vida e de identidade cultural. Você já foi b-boy. Como foi vivenciar esse momento?
Cope 2:  No Bronx é onde as pessoas são desencanadas. Sim, eu amava dançar break. Meu parceiro RIP 7, da Rock Steady Crew, foi quem me ensinou bastante. Na minha área, Uptown Dekalb Avenue, as crianças do quarteirão já dançavam break e nós praticávamos muito por volta de 1980. Meu primo conhecia o Mr. Freeze e RIP 7 e, nesse momento, eles trouxeram a galera do Rock Steady Crew para participarmos das batalhas no nosso bairro. Foi divertido, mesmo perdendo, isso saiu em 20/20 das notícias. Porém meu amor era mais pelo grafite nos vagões dos metrôs.

Per Raps: Como foi presenciar o começo do grafite nos metrôs e do street bombing em NY?
Cope 2: Meu primo fazia tags pelo bairro. Ele escrevia Chico 80. Ele tipo quem me iniciou no grafite. A gente pegava o metrô para olhar todos os novos pieces, enquanto circulava nele. Era incrível ver os pieces bem loucos do COMET e BLADE. Esses caras eram os melhores, mas nada comparado aos whole cars feito pelo LEE. Esses caras, TRACY 168, PNUT 2, CASE 2 arrebentavam nos metrôs. Meu favorito era MITCH 77, do grupo Latin Artist. Eu amava o estilo inflamado dele. Ele era como um herói, quando eu era criança. O BAN 2 da OTB era o “King of the Insides”, ou seja, vandalizava todos os carros do metrô por dentro. Eu amava o jeito que usava o #2, então eu adicionei no COPE e fiz o COPE 2. Ele foi uma outra inspiração. Eu lembro do TRAP, SKEME, DEZ, SEEN, DUSTER. Eu segui os caras mais extraordinários que incendiaram naquela época.

Divulgação

Per Raps: E sobre a 149th Street. Qual a importância desse local para o grafite?
Cope 2: Infernal… eu amava aquele lugar. Era na 149 Street Grand Concourse no Bronx. Meu parceiro TRAP OTB levou-me lá pela primeira vez em 1980. Foi o lugar onde conheci os verdadeiros caras da velha escola, como BEAR 167, CASE 2, DEZ, SKEME, GMAN, BAN 2. Era o local que todos se encontravam e assistiam os trens passarem por ali. Todo mundo cabulava a escola para apenas observar o grafite em partes do trem. Eu sinto falta disso.

Per Raps: Você era bem jovem nessa época e vendia drogas, não é mesmo? O grafite foi uma saída?
Cope 2: Sim. Eu fiz como todos os que vivem no bairro. Era como uma guerra, um campo de batalha matando-se por drogas. Tudo o que eu sou agradeço à Deus. Eu tive o grafite para ir de encontro à uma causa. Poderia ter sido morto ou está na prisão, como muito dos meus amigos que cresceram comigo. Então o grafite me deu uma direção para ficar famoso pelo mundo inteiro. Agradeço por todas as bênçãos.

Per Raps: CAP foi um dos mais polêmicos escritores do grafite em NY. Ficou bem famoso por “atropelar” outros nomes, como também criou o conhecido throw up COPE.
Cope 2: Um parceiro costumava escrever KOPE e eu escrevia BIN por volta de 1978-79. Nós saíamos para roubar algumas coisas todos os dias até começar a escrever mais nos metrôs. Ele propôs para eu escrever COPE. O #2 veio porque eu idolatrava o BAN 2 OTB. Eu comecei a destruir os trens até que outro parceiro, CONE TFN conheceu o CAP MPC. Ele queria me conhecer pessoalmente, porque gostava de como eu bombardeava, então me pôs em contato com a MPC. Presenteou-me com a letra do meu throw up, o que me fez ser famoso pelo mundo. CAP desrespeitava as pessoas porque as mesmas o desrespeitavam. Ele queria somente respeito, caso não o respeitassem, passava por cima de todos. Eu consigo entendê-lo.

Per Raps: Você já arrumou confusão com nomes de peso como GHOST, REAS, SEEN, PJ e o próprio CAP. Você ainda costuma “atropelar” o nome de alguém? É uma questão de respeito ou faz parte do grafite?
Cope 2: Claro! Uma vez que alguém me desrespeitou, eles viam o novo rei na cidade. Os caras do grafite ficam com ciúmes, por isso eles passavam por cima de mim. Eu ficava louco e ia lá em cima das merdas deles de novo. Você me respeita e é recíproco, se não, eu vou e destruo suas merdas.

Per Raps: Quais anos você consideraria a melhor época do grafite em NYC?
Cope 2: Ah cara, com certeza de 1970 a 1984, depois não foi tão bom assim. Os trens morreram e tudo foi para as ruas, rooftops, estradas e essas coisas.

Per Raps: Como foi o período da operação governamental intitulada “Clean Train Campaign” na sua vida? Hoje em dia, os europeus são tidos como os grafiteiros que mais vandalizam trens e metrôs no mundo. Certamente que na Europa o número de linhas é mais extensa, mesmo assim eles são únicos ao burlar também o sistema de segurança de NYC.
Cope 2: Sim, é louco como os europeus vêm a NY e sonham em pintar o metrô aqui. Isso é bom! Mas eles nunca poderiam fazer na vida o que eu fiz no ínicio dos anos 80. Eu fui feliz. Deus abençou aquela época. Quanto a NYC… é… está morto mesmo… poucas crews ou grafiteiros fazendo acontecer na cena por aqui. Muito disso tem a ver com os adversários. É impressionante como muitos são inimigos. Eu tento ser pacífico com os grafiteiros, mas eles são falsos. Eles apertam a mão, batem nas costas e “oh Cope, você é o cara, estou orgulhoso de você continuar fazendo suas coisas”, depois viram e vão para outro grafiteiro e dizem coisas como “foda-se o Cope. Ele é um rato. Ele é informante. Puro ego”. É tão falso. Eu odeio essa merda, por isso o grafite em NYC é chato e morto, mas eu continuo fazendo o meu e é por isso que muitos me odeiam. Eu mantenho o grafite vivo, querida. Você sabe disso.

Per Raps: Então qual foi uma das coisas mais intrigantes que você presenciou durante esse tempo?
Cope 2: Não tenho certeza. Eu acho que as várias brigas entre os grafiteiros e como os policias de NY fundam certas idéias na galera por informação, dizendo a eles de que certos amigos são ratos e dedo duros. E não é verdade. Mas os grafiteiros ainda acreditam que a polícia é amiga. Eu não acredito nisso. Os policiais são obscuros, mentirosos e nada confiáveis. Eu fui derrubado por alguns, chamava de amigos o HOW e NOSM e os camaradas da TATS CRU, que são do bairro, acreditaram nos policiais contra mim. É realmente triste e louco, que a lealdade é acreditar na polícia do que no seu verdadeiro amigo, quando ainda não se tem provas. Eu penso que no fim é tudo ódio.

Per Raps: Você não precisa provar mais nada a ninguém. Mas fora seu nome, King, True Legend e God são algumas das suas tags. Por um acaso você se inspirou no Bruce Lee?
Cope 2: Sim. Eu peguei isso do Bruce Lee e Bob Marley. Eles são lendas. Muitos grafiteiros através dos anos me chamavam de lenda, então eu penso que foi somente algo que ficou comigo. Lendas de NY têm o COMET, BLADE, LEE, SEEN, CAP, DONDI, MINONE. Eu poderia citar vários nomes. É demais. Outros muito bons eram STAY, HIGH 149, TAKI 183, IZ THE WIZ (RIP). Muitos. Eu amo todos.

Cope bombardeando um trem (Divulgação)Per Raps: NY é uma cidade grande. É possível escrever nomes por toda a cidade?
Cope 2: Vejamos. Toda a cidade começou nos metrôs, que percorriam pelos bairros. A galera queria destruir cada linha, poucos fizeram isso. Outros fizeram como IZ THE WIZ. Ele era surpreendente. Um que era viciado nisso era o MINONE. Ele destruiu as linhas. Eu fiz um pouco por toda a cidade, mas nenhum cara bombardeou todos os cinco municípios. É até fácil se você tiver um carro. Eu e PER 1 FX fizemos isso em 1993, mas foi EASY e JOZONE quem realmente vandalizaram toda a cidade por volta de 1986. Eles começaram com isso pelas ruas, agora é referência percorrer a cidade inteira para ganhar fama rapidamente. Não é como a Era dos trens, que era bem melhor.

Per Raps: Atualmente quem são os caras que mais representam em NYC?
Cope 2: Bem… agora não existem muitos “Kings of NYC” depois de mim, EASY, JOZ e outros. Há o SKUF , VEEFER e JA XTC . Aliás, o JA é o último “King of NYC” representando até hoje. O cara é a máquina do vandalismo. O exterminador no graffiti. Bomber!!!

Per Raps: Quando acessamos determinados fórus de sites sobre grafite, é perceptível a palavra “dedo duro”, ou seja, algumas pessoas, inclusive do grafite, falam sobre um possível envolvimento seu com a “Vandal Squad”.
Cope 2: Meu Deus! O negócio é que a galera do grafite em NY são “bichas” e puros inimigos . Existe apenas um punhado dos considerados reais e seria só as crews. Eu represento por todos os que não fazem isto, então foda-se o resto. A minha fama é quem eu sou, o que eu faço, meu video Kings Destroy, meu livro True Legend, os negócios feito com empresas, mostras de arte, as viagens. Todos eles passam a odiar essas coisas, então me chamam de rato delator, porque é tudo o que eles tem a dizer.

É triste, pois não há provas e nunca terão sobre nada. Eu sou bem verdadeiro com as pessoas. Sou realista e não há nenhuma linhagem de Porto Rico como a minha. Dedo duro não funcionam na minha linhagem. Minha família é real, não há idiotas e espero que não. Mas é isso, somente adversários, mesmo chamando você de amigo, depois acabam todos falando mal de você pelas costas. É realmente triste. O bom é que Deus sabe das verdadeiras intenções no meu coração. Então eu nem estresso mais.

Per Raps: Grafite é considerado um crime grave desde que o “Vandal Squad” foi criado em NYC. Anualmente a cidade sofre um prejuízo de milhões de doláres. Mesmo sendo ilegal, a intenção é intimar cada vez mais quem pratica o vandalismo e também na preservação por uma cidade visualmente mais limpa. Porém, realiza-se que o jogo ficou mais perigoso, pois os considerados vândalos ficaram mais competitivos uns com os outros. Além da adrenalina em torno das ações, há o desafio em burlar o sistema de segurança construído pelo governo. Diante dessa perspectiva sobre o vandalismo, ainda temos o grafite autorizado e a arte de rua. O que é o verdadeiro grafite?

Cope 2: O real grafite para mim era tornar-se rei de uma linha de metrô como nos anos 70 ou 80 ou somente pintar ou bombardear os carros do metrô. Uma vez que a Era do metrô morreu ao longo do tempo aqui, mesmo assim as coisas continuam nas ruas. Eu amo fazer throw ups pelo bairro e todo o resto. Hoje em dia estou com 40 anos e não vale tanto a pena assim correr determinados riscos. Agora eu tenho que pagar as contas, colocar comida na mesa e pagar moradia. É bem diferente sendo 2009 e não 1980 quando era mais novo. Podem até me chamar de vendido, mas não são eles que vão olhar adiante por mim, só vão ficar falando as mesmas merdas como sempre. Eu odeio esse lance de grafiteiros. Eles conseguem ser mais fofoqueiros do que as mulheres. É por isso que eu gosto de sair mais com as garotas. Mas não com as grafiteiras, porque elas agem da mesma forma, por exemplo a Toofly. Eu odeio essa p… falsa!!! Ela é uma das que falam mais merda sobre outras grafiteiras, depois você a vê pintando com elas. Oh Meu Deus!!! Nem curto isso!! É aquilo, eu faço minhas coisas, continuo no grafite e chocando.

Per Raps: Você está no grafite há muitos anos e nunca desistiu.
Cope 2: Eu desisto quando Deus quiser. Ele me colocou aqui, fez ser quem eu sou hoje. Uma benção. Ele sabe que sou um homem honrado. Um rei bárbaro! Um Deus! Reis dos reis! A verdadeira lenda! Eu sou o que Deus fez do nascimento da minha mãe Norma Iris Fontanez. Eu te amo, mãe. Deus abençõe tua alma, minha deusa! Então até o último suspiro na terra, vou continuar minha viagem até aqui. Eu vou deixar para trás um legado. Uma das lendas na história real do grafite. Estou no “Meeting of Styles” representando o filme Bomb It. Quero pintar com meus amigos OSGEMEOS, realmente pessoas maravilhosas. Eu amo esses caras. São verdadeiros no coração. Com o COYO e ISE, também verdadeiros camaradas do Brasil. Cope 2 do Bronx! A lenda do grafite!