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Negra Li encontra Lauryn Hill em Florianópolis

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread

Negra Li, Lauryn Hill e Junior Dread no show de Floripa

Quem acompanha minimamente o rap no Brasil, já ouviu falar do grupo RZO. Formado pelos MC’s Helião e Sandrão mais o DJ Cia nas pick-ups, o grupo já contou com a cantora Liliane de Carvalho nos vocais e na rima. Para quem não sabe, Liliane é Negra Li, que viu sua carreira atingir novos patamares após deixar o grupo de rap de Pirituba (São Paulo).

Por sua qualidade vocal, Negra Li recebeu diversas comparações com Lauryn Hill – de quem é fã declarada -, que também possui notável capacidade de cantar e rimar. No entanto, as semelhanças não param por ai: ambas são mulheres lutadoras, que venceram o machismo do rap por seu talento e trabalho, possuem carreira no cinema, são mães e, querendo ou não, as duas se viram longe dos estúdios por um bom tempo.

Ms. Hill não grava nada novo desde seu acústico MTV (2002) e Negra Li teve seu último álbum de estúdio gravado em 2007, junto de Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Desde lá fez inúmeras participações com artistas como Caetano Veloso, Skank e Akon.

Nessa segunda passagem de Ms. Hill pelo país, Negra Li foi convidada para abrir os shows de Florianópolis e Brasília. Depois de abrir o show de sua grande inspiração em Florianópolis, Negra Li falou com o Per Raps por e-mail e contou como foi a experiência que deixará marcas por toda a sua vida.

Per Raps: Como surgiu o convite para você abrir um show da Lauryn Hill? E por quê apenas em Florianópolis e Brasília e não em SP?
Negra Li: Olha, em Florianópolis surgiu através do Leo Comin, do Oculto. O Leo é DJ e promoter em Floripa, me levou tantas vezes pra tocar lá, que acabamos nos tornando amigos. O show da Lauryn foi na Pacha, e o Leo tem uma parceria com a casa… E foi assim que tudo aconteceu. Através de uma sugestão dele, da aceitação do Anjinho e do pessoal da Pacha. E claro, da aceitação que eu tenho junto ao público de Floripa, que é muito forte … Adoro aquele lugar! E toda vez que me apresento lá, sou super bem recebida.

Também vou abrir em Brasília. Esse show foi através do escritório que também fecha show pra mim, a Agência Produtora. Não sei bem como se deu a negociação, mas estou amarradona de abrir e encerrar a tour da Lauryn no Brasil. Porém esse show de Brasília será no formato com DJ e o de Floripa foi com banda, show completo, só faltou minhas dançarinas – Luciana Bauer e Amanda Angel -, pra ser 100% perfeito! Mas, nossa, foi bom demais.

Per Raps: O que você sentiu na hora?
Negra Li: Quando o Leo ligou pra Paulinha (minha produtora), ela me ligou no mesmo minuto. Já sabíamos que estava tudo certo e que um sonho seria realizado! Da outra vez que ela veio, até chorei por não ter sido lembrada.

Per Raps: Você encontrou Ms. Hill pessoalmente? Qual foi a sensação?
Negra Li: Encontrei sim. Ficamos hospedadas no mesmo hotel, fizemos a passagem de som juntas e nos encontramos novamente depois do show dela. Virei tiete mesmo, quase não consegui falar (já quase não falo nada de inglês, nervosa então?! Travei). Meu marido desenrolou o diálogo, pude falar sobre nossa trajetória parecida… Foi intenso! Maravilhoso!

Per Raps: Qual a influência de Lauryn Hill no seu trabalho?
Negra Li: Total! Quando comecei no RZO, ela cantava no Fugees, uma banda de rap. Eu olhava pra ela e me inspirava demais, acabou que peguei muito do que ela fazia e ouvia pra mim. É isso que a gente faz com os ídolos, né… Absorve!

Per Raps: Como andam seus projetos para 2010/11?
Negra Li: Estou numa correira louca de trabalho, muitos shows pelo Brasil. Dia 13 de outubro vou abrir pro Timbaland, em São Paulo. Uma tour, no mês de novembro, pela Nova Zelândia se confirmando…

Estou mergulhada na pré-produção do meu próximo CD, escolhendo repertório, escrevendo letras. Estou podendo contar com a ajuda muito grande do Sérgio Brito, do Titãs, e de parceiros antigos como Nando Reis e Samuel Rosa. Nessa busca pelo repertório também estão minha gravadora Universal Music e os produtores Rick Bonadio e Paul Ralphs.

Vou começar a filmar um novo longa chamado Poderoso Arco-Iris, que vai contar a história de um serial killer homofóbico e eu farei uma jornalista que vai investigar os assassinatos e acabará na mira do serial. Um filme com muito suspense e ação.

Veja um trecho da apresentação que abriu a turnê brasileira de Ms. Hill, em Floripa.


Graffiti: Rafael ‘Se7e’ Barão

“É de menino…” por Carol Patrocinio

Ainda no jardim de infância Rafael Fortuna Barão, 24, se destacava por seus desenhos e ficava entusiasmado em melhorar cada vez mais. Anos depois, Rafael se tornaria Se7e, artista plástico e do graffiti, que começou a carreira, aos sete anos, fazendo pichações pelas ruas do bairro junto de meninos mais velhos. “Nessa época eu já tinha um grupo de pixação chamado DDM – Detonadores de Muros e atuávamos no nosso bairro. Eu era meio que o ‘chaverinho’ da galera, pois todos eram mais velhos do que eu, mas nessa idade eu já dominava a caligrafia das pixações paulistas e isso fez com que fosse aceito por eles!”

Tudo o que está ao redor influência sua arte, tudo o que ele observa, além de outros grafiteiros e artistas, é claro. “Osgemeos têm influenciado muita gente a se tornar grafiteiro, artista ou sei lá. Pra mim, arte não se mede, mas diria que os melhores são aqueles que fazem a cultura evoluir, tipo fazendo eventos, criando novas tendências, mesclando estilos… E disso o Brasil tem aos montes”.

Para acompanhar os desenhos, Rafael de vez em quando leva um mp3 player mas prefere o sons das ruas: “Uma criança entusiasmada com a obra, o elogio de uma senhora, a buzina de uma carro seguida de um sorriso e por ai vai”. Como suas obras dependem de inspiração, é impossível escolher uma hora do dia preferida para desenhar, mas Rafael consegue driblar esse probleminha de vez em quando: “Se quero fazer um trabalho grande, rico em detalhes, prefiro o dia, mas se for pra curtir, protestar ou desestressar um pouco prefiro a noite!”

Rafael é de São Paulo, mas já grafitou em outros lugares. A cidade que mais surpreendeu o artista foi o Rio de Janeiro – “Maior visual, maior paz” -, que rendeu, inclusive, um vídeo em parceria com o fotógrafo e videomaker Guilherme Veiga. Enquanto Rafael mostra a produção de um de seus desenhos, Guilherme captou as imagens e editou com sons de Jay-Z e Beastie Boys. As imagens são de Teresópolis, no Rio de Janeiro.


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Flickr Se7e


Erykah Badu emociona público em SP


“Pornografia musical”por Carol Patrocinio

Erykah Badu é Jackie O. É Rainha de Copas. Badu é mulher. Sexo, graça, ironia. Erykah Badu sabe o que quer e não te deixa na mão. Ou deixa, só porque quer. Erykah Badu é aquela mulher que provoca, te deixa louco e vai embora, mas você não reclama – ela foi a melhor que você teve na vida, ainda assim.

Logo que a vi no palco meu coração parou. Era ela, estava ali, a pouquíssimos metros. Se eu desse alguns passos e esticasse a mão poderia tocá-la – deixa pra lá, emoção demais. E assim como meu coração, ela ficou ali, parada num canto do palco, esperando o momento certo para começar sua mágica.

E quando a mágica de Badu começa a ser feita não há como parar. Um clima intimista tomou conta do lugar. Éramos só eu e ela. Uma caixinha de música em que ela era a bailarina e eu dava corda. Toda a delicadeza de Badu anda de mãos dadas com sua força, suas certezas. O salto 15 está no pé, mas ela não precisa disso pra ser muito maior do que se poderia crer.

Quando a intimidade começou a aumentar, Erykah foi até o chão. Fez do pedestal do microfone um mastro, quase pole dance. Unhas, bocas, olhares. Aquela voz. A voz de Erykah Badu faz um registro na sua cabeça, não importa aonde vá, você sempre sabe que é ela.

O show que Erykah Badu fez em São Paulo foi sobre ela, para ela. Mas a maneira que cada um de nós nos identificamos com cada palavra, som gesto que ela faz, nos torna partes de uma gigante. Erykah Badu pode ser egocêntrica, mas ela está pensando em todos nós para fazer isso.

Ao chegar ao fim do espetáculo, Badu deixou lembranças físicas para seus fãs – um acessório, um lenço, um batom. Recebeu presentes. Voltou para o bis, deixou uma mensagem contra preconceito e ficou tão próxima aos fãs que era fácil notar a não aprovação de seu segurança, que andava o palco de lado a outro atrás dela. Erykah Badu deu tanto de si neste show que, por pouco, não saiu de cena como em Window Seat, nua por dentro e por fora.

Foi no show? Conte o que achou ou se está ainda sem palavras para isso!

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Erykah Badu consegue sample via Twitter
Erykah Badu estreia polêmico clipe de “Window Seat”
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Manos e Minas volta à grade da TV Cultura

“Unidos venceremos?”por Carol Patrocinio

Quando li que o programa Manos e Minas, o único na televisão a ter espaço totalmente aberto à cultura hip hop, seria tirado da grade da TV Cultura senti o sangue esquentar. Sabe aquele sentimento de quando você é adolescente e tem a plena certeza de que pode mudar o mundo com as próprias mãos? Foi essa a sensação.

E, de volta aos 16 anos, me uni com pessoas que acreditavam no mesmo que eu – o programa não podia acabar, não assim, sem briga. Muita gente entrou no protesto, primeiro via internet, e não foi um, não foram dois, foram vários, cada um por um motivo.

A luta saiu do espaço virtual e foi pras ruas, tornou-se política. Senador Suplicy nos representou (graças a Gisele Coutinho e seus contatos). Músicos, artistas e formadores de opinião deram sua palavra nos vídeos feitos por Zeca MCA e Rodney Suguita (aka Maniaco da Camera). Pelo Brasil todo as pessoas encontraram maneiras de mostrar sua insatisfação (graças ao bendito Twitter).

O descontentamento geral criado pelo fim de um programa que poderia dar espaço ao que cada um de nós pensa, gerou barulho a ponto das coisas mudarem. A partir daí, foi provado por A mais B que o mundo pode dar ouvidos a nós, desde que se saiba como gritar.

Mas o que queremos, dar um pequeno passo ou correr transformando cada coisa que não nos parece certa? A cultura hip hop sempre foi contestadora, lutou por aquilo que acreditava ser certo e provou que organização é o primeiro passo pro sucesso de uma empreitada. Mas como disseram, foi o primeiro round.

A mobilização virtual, que foi levada adiante e seguiu às ruas, recebeu a notícia da vitória. E agora? Chega, ou o gostinho de vencer vai te levar à próxima batalha? Mais uma vez me sinto obrigada a usar palavras do poeta Sérgio Vaz:

“Não confunda briga com luta. Briga tem hora pra acabar e luta é para uma vida inteira”.

A briga pela volta do programa Manos e Minas terminou, mas e a luta contra as injustiças que estão sendo feitas na televisão estatal de que diversos manos e minas estão sendo demitidos por uma posição de João Sayad, que visa apenas lucro e corte de gastos? Pessoas não são gastos, cultura não pode ser medida por valores.

Quem vai salvar os manos e minas da TV Cultura e do resto do país?

Leia também:
Manos e Minas deixa a grade da TV Cultura
Manos e Minas: a luta continua
Manos e Minas: Protesto ganha as ruas


Tradução: Fuck you, de Cee Lo Green

cee-lo green

“Dor de cotovelo musical” – por Carol Patrocinio

Inspirados pelo teaser do clipe do novo som do Cee Lo Green, resolvemos colocar aqui a letra da música traduzida, assim como o Boombap-Rap, do Felipe Schmidt, faz com magestria. Sabe o que você deve dizer a uma garota quando ela não se interessa por você, mas pela sua grana?

Eu te vejo dirigindo pela cidade
Com a garota eu amo e eu tipo,
Foda-se!
Ooo, ooo, oooo
Eu acho que a grana no meu bolso
Não era suficiente e eu tipo,
Foda-se!
e foda-se ela também

Eu disse,
“se eu fosse mais rico, eu ainda estaria contigo”
Rááá, isso não é uma merda?
(não é uma merda?)
E apesar dessa dor no meu peito
Eu continuo te desejando o melhor com um
Foda-se!
Ooo, ooo, oooo

Yeah, me desculpe, eu não posso bancar uma Ferrari,
Mas isso não quer dizer que eu não te faça chegar lá.
Eu acho que ele é um xbox e eu sou tipo um atari,
Mas o jeito que você joga não é justo.

Eu banquei o babaca
Que se apaixonou por você
(ah merda ela é uma golpista)
Bom
(apenas achei que você devia saber mano)
Ooooooh
Eu tenho novidades pra você
Yeah, vá correndo contar ao seu namorado

Eu te vejo dirigindo pela cidade
Com a garota eu amo e eu tipo,
Foda-se!
Ooo, ooo, oooo
Eu acho que a grana no meu bolso
Não era suficiente e eu tipo,
Foda-se!
e foda-se ela também

Agora eu sei que me endividar
Implorar e roubar e mentir e trair
Tentando ficar com você, tentando te agradar
Porque estar apaixonado por você não é barato

Eu banquei o babaca
Que se apaixonou por você
(ah merda ela é uma golpista)
Bom
(apenas achei que você devia saber mano)
Ooooooh
Eu tenho novidades pra você
Ooh, eu realmente te odeio agora

Eu te vejo dirigindo pela cidade
Com a garota eu amo e eu tipo,
Foda-se!
Ooo, ooo, oooo
Eu acho que a grana no meu bolso
Não era suficiente e eu tipo,
Foda-se!
e foda-se ela também

Então baby, baby, baby,
Por que você quis me machucar tanto?
(tanto, tanto, tanto)
Eu tentei conversar com a minha mãe mas ela me disse
“isso é com seu pai”
(seu pai, seu pai, seu pai)
Uh! Por queêêêê? Uh! Por queêêêê? Uh!
Por queêêêê menina?
Oh!
Eu te amo!
Eu ainda te amo
Oooh!

Eu te vejo dirigindo pela cidade
Com a garota eu amo e eu tipo,
Foda-se!
Ooo, ooo, oooo
Eu acho que a grana no meu bolso
Não era suficiente e eu tipo,
Foda-se!
e foda-se ela também

Todo mundo diz foda-se, mas esse foi o ‘fuck you’ mais classudo dos últimos tempos, não foi?

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Fotos da golden era do rap por Janette Beckman

Janette Beckman

Sparky D / Slick Rick / Jam Master Jay e seu filho

“Uma insider da Golden Era” – por Carol Patrocinio

Você já ouviu falar de Janette Beckman? Ela é a fotógrafa que acompanhou os maiores nomes do hip hop entre 1982 e 1990, bem a era de ouro da cena. Pode começar a pagar um pau pra essa mulher, ela esteve em contato com todos os monstros que você chama de ídolos!

Nascida em Londres, Janette cresceu curtindo dos artistas da Tamla Motown aos Rolling Stones e mergulhou de cabeça nas cenas alternativas inglesa e americana quando passou a fotografar. Além dos mestres do rap, a fotógrafa esteve com as bandas The Clash, The Specials, Police e Paul Weller. Quando mudou para Nova York se tornou a pessoa responsável por registrar a cena hip hop – Afrika Bambaata, Run DMC, Salt’ n ‘Pepa e Grandmaster Flash foram alguns de seus personagens.

Daí pra frente, a carreira da fotógrafa só cresceu e ela passou a fotografar para as revistas Esquire, Rolling Stone, People, Interview, London Sunday, Times Magazine, Observer Magazine e para empresas como a lendária marca de botas Doc Marten, os tênis Converse, Warner Brothers, Universal

Para registrar todos esses momentos de sua vida, Janette lançou alguns livros, dois deles são dedicados ao rap. Em “The Breaks: Stylin’ and Profilin'”, ela retrata, em imagens, a cena hip hop de 82 a 90 e em “Rap! Portraits and Lyrics of a Generation of Black Rockers”, textos e imagens se complementam para contar a história de uma geração que revolucionou a música.

Janette Beckman

Eric B. e Rakim / Run DMC e sua banca

Janette Beckman

Um dos Jungle Brothers / Big Daddy Kane

Janette Beckman

Flava Flav / LL Cool J

Janette Beckman

EPMD Babylon Long Island / Stetsasonic

The Breaks Stylin' and Profilin' 1982-1990The Breaks: Stylin’ and Profilin’
Fotos de Janette Beckman e texto de Bill Adler & Tom Terrell
Editora: The Power House Arena
Capa dura | 24.13 x 25.40 cm | 144 páginas | 150 fotos
US$ 35

Rap! Portraits and Lyrics of a Generation of Black Rockers“Rap! Portraits and Lyrics of a Generation of Black Rockers”
Fotos de Janette Beckman e texto de Bill Adler
Editora: St. Martin’s Griffin
21.59 x 27.30 cm, 106 páginas
US$ 13,95


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Entrevista: Lurdez da Luz, Pathy Dejesus e Lívia Cruz

Lívia Cruz por Stephanie Sidon, Pathy Dejesus (divulgação) e Lurdez da Luz (divulgação)

“Muito além do ser mulher” – por Carol Patrocinio

Quando as pessoas pensam em rap já imaginam um homem, de preferência negro, com roupas largas, cara de mau, muita marra e um microfone na mão. Ei, mundo real, chamando! Rap é música, expressa sentimentos, vivências, histórias. E isso todo mundo tem: branco, preto, amarelo, homem, mulher, religioso ou ateu. E é aí que entram as personagens do texto de hoje, três mulheres que ganharam espaço e notoriedade num mundo que – queriam que elas acreditassem – não tinha espaço pra elas. O mundo estava enganado!

Lurdez da Luz, Pathy Dejesus e Lívia Cruz. Mulheres. Bonitas. Femininas. Elas são feitas de sorrisos, olhos, unhas. E como as mulheres de outras cenas, querem estar bonitas, gostam de como são, não querem mudar para agradar e acreditam que o talento fala mais alto do que qualquer coisa.

Preconceito? Existe. Por ser mulher, por ser bonita, por ser branca ou por ser negra. Desafios? Estão aí para serem deixados pra trás e lembrados como vitórias. Qualidade? Tem de sobra. Essas mulheres provam que o que importa é fazer com o coração e aí o respeito vem, quando menos se espera.

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Per Raps: Pra você, como o preconceito é demonstrado no rap?

pathy dejesusMeu pai me falou uma parada que ainda ecoa na mente e infelizmente faz o maior sentido até os dias de hoje: se você quiser ser alguém, ser bem sucedida no caminho que escolher, vai ter que trabalhar duas vezes mais pra ter o mesmo reconhecimento porque é mulher”

Lurdez da Luz: Acho que o rap brasileiro está mais consciente nesse sentido do que o norte-americano de um modo geral, no que diz respeito as músicas misógenas é mais tranquilo. Acho que o machismo está tão arraigado que nem sei onde começa e onde termina e num é privilegio do rap não, em toda sociedade e nichos musicais rola só que de diferentes formas. Vide o número de instrumentistas mulheres em qualquer show de música, seja lá de que estilo for, sempre muito menor que o de homens.

Infelizmente ainda rola esse lance de muitas mulheres não se sentirem representadas por outras que estão no palco, que é reflexo de uma cultura machista, de de repente achar que você tá ali pra “aparecer” ou por causa dos caras, ignorando toda a dificuldade que é fazer arte, ainda mais rap. Mas comigo, pessoalmente, não é só o fato de ser mulher, tem o lance da pele clara, me vestir de um jeito estranho, ter um discurso talvez não muito simples de interpretar e desde do começo num ficar me explicando, deixar as pessoas livres pra pensarem o que quiser ao meu respeito.

Pathy Dejesus: Gosto de ver as coisas sempre por um ângulo mais positivo. Falta muito ainda, mas já foi bem pior… Ainda somos uma minoria dentro desse processo. Ainda existem as letras que inferiorizam, ridicularizam, menosprezam e ofendem mulheres (o que aliás já é bem batido, né?). Ainda tem homem que torce o nariz quando vê uma mulher no mic, nos toca-discos, dançando, grafitando. Mas o mundo é isso! Preconceito não é exclusivo do rap. Ele só é reflexo (talvez em maior intensidade) de uma sociedade preconceituosa (lê-se machista também). Ele está aí e não pode servir de empecilho pra quem realmente quer fazer parte.

Existem várias mulheres que quebraram e estão quebrando esse paradigma. Desde seu início, lá nos EUA entre os anos 70 e 80, a cultura é uma coisa “pra homens” e raríssimas mulheres conseguiram invadir esse espaço. As que conseguiram eram todas excepcionais (Roxanne, Salt n’ Pepa, Queen Latifah, MC Lyte, dentre várias) e fizeram a diferença! Se hoje parece difícil, imagina há três décadas. Se essas pioneiras não tivessem insistido, batido de frente pra demonstrar seu talento e sua paixão pelo hip hop, dificilmente estaríamos conversando agora.

Aqui no Brasil não é diferente… o hip hop entrou na minha vida em 94. Lembro da Rúbia, da Dina Di, da Rose MC, depois Negra Li. Tente pesar a determinação dessas mulheres naquela época… Quando fiz 13 anos, meu pai me falou uma parada que ainda ecoa na mente e infelizmente faz o maior sentido até os dias de hoje: se você quiser ser alguém, ser bem sucedida no caminho que escolher, vai ter que trabalhar duas vezes mais pra ter o mesmo reconhecimento porque é mulher. E mais duas vezes porque é negra. De onde venho as coisas nunca foram fáceis. Graças a Deus, cresci num ambiente onde ao invés de só lamentar e apontar culpados pela situação desvantajosa, batemos de frente e não desistimos tão facilmente dos nossos sonhos.

Lívia Cruz: O preconceito contra as mulheres? Eu já disse isso várias vezes, o preconceito e discriminação contra as mulheres no rap não é diferente do que a gente vê na sociedade em geral, as manifestações tão aí a toda hora, vão das cantadas e dos barulhos obscenos que a gente é obrigada a escutar quando está simplesmente passando na rua, até uma atitude mais extrema de violência física e psicológica. Esse assunto é sério e delicado, acho que a educação, como em quase, tudo é a chave, e a música, sem dúvida, tem grande papel de formação.

Per Raps: O que significa fazer um rap feminino atualmente?


Parece fácil ser MC, mas num é não. Seja homem ou mulher”

Lurdez da Luz: Atualmente já está tudo um pouco mais fácil pra todo mundo, existe uma evolução em relação a acesso a tecnologia, a informação e o fluxo de dinheiro dentro da cultura aumentou (ainda é pouco), o respeito fora do rap aumentou também. Eu comecei a fazer isso em 1999, só existia a Dina Di, que era uma rapper cabulosa mas que eu num me identificava e a Rose MC e Lady Rap, que num tinham muitas faixas gravadas pra gente ter algum ponto de partida. Eu curtia muito o estilo da SharyLaine, mas que já num lançava nada há anos… Enfim tive que inventar um jeito de fazer minhas rimas e levadas.

Lembro que mostrei meu primeiro rap pra Cris do SNJ, que também é minha contemporânea, e ela falou: “legal esse tipo de som, parece um pouco rap até”, eu ri e percebi que tava com uma parada que ia demorar pra ser compreendida. Pra mim o importante é ter em mente a expressão artística e as posições politicas, sempre em prol da evolução pessoal assim como da cultura e não “ser alguém dentro do rap”, parece fácil ser MC, mas num é não. Seja homem ou mulher.

Pathy Dejesus: Existe fazer um rap feminino? Dá separar a arte e subclassificar? Não acredito nisso. Odeio rótulos. Existe talento ou não. Existe paixão ou não. Existe rap bom e rap ruim. E isso independe do sexo de quem está fazendo.

Lívia Cruz: Pra mim, no meu rap, significa mostrar o ponto de vista genuíno da mulher, eu gosto de contar historias e ainda acho que a gente se pauta muito no que os homens do rap vão pensar das nossas letras, das nossas atitudes, e isso torna os nossos relatos muito tímidos… Quero ver isso mudar, e tô fazendo minha parte pra essa mudança.

Per Raps: Beleza ajuda ou atrapalha? Como?

Muitas vezes me sinto subestimada, vejo isso nítido nos olhares das pessoas quando subo no palco, mas depois que começo a cantar isso muda”

Lurdez da Luz: Acho que ajuda a abrir portas mas talvez até atrapalhe em ter credibilidade. Como disse sobre posições políticas na resposta acima, num é só saber em quem vai votar, o porquê é bem mais amplo, como por exemplo não acreditar em padrões de beleza impostos, tipo a magra, alta, de olho azul ou até mesmo a “rainha de ébano”, claro que deve ser uma benção de deus ser lindo, mas ficar impondo isso que nem a Rede Globo num deveria ser papel do rap.

Pathy Dejesus: Acho que a pergunta correta seria: ser feminina ajuda ou atrapalha? Li uma entrevista da Negra Li (de quem sou fã) uma vez falando sobre isso. Da postura supostamente correta para ser respeitada num ambiente onde ela era minoria… Usar roupa larga, nada de maquiagem, ficar séria o tempo todo pra não chamar a atenção. Pra não lembrarem que se tratava de uma mulher… Imagina a barra!

Por isso digo que as coisas estão evoluindo! E vai de nós, mulheres, nos impor, nos preservar, e sermos levadas a sério. Sou vaidosa e não vou mudar minha personalidade pra fazer o que amo. Aliás, isso não faz o menor sentido, né?! Acho lindo quando vejo Lívia [Cruz], Lurdes [da Luz], Nathy [MC], Flora [Matos], as DJs do Applebum… Todas maravilhosas, nenhuma abre mão do seu estilo pra rimar, pra discotecar. O respeito não é imposto. É conquistado!

Lívia Cruz: Por incrível que pareça, acho que atrapalha mais do ajuda. Existe um preconceito de que mulher bonita não é inteligente, muitas vezes me sinto subestimada, vejo isso nítido nos olhares das pessoas quando subo no palco, mas depois que começo a cantar isso muda, e é divertido também, surpreender pro bem. A beleza vai muito além da estética, eu gosto de quem sou, não quero mudar pra agradar ninguém, e isso transparece nas minhas músicas e na minha conduta, algumas pessoas se incomodam, mas paciência… Bonito mesmo é ser feliz!

Per Raps: Hoje você é respeitada na cena por seu trabalho, independentemente do seu sexo, o que você acha que fez com que isso acontecesse?

pathy dejesus Sou movida a grandes desafios, não nasci pra concordar, pra aceitar. Minha maior concorrente sou eu mesma, e não alivio, não facilito, não tenho pena de mim mesma”

Lurdez da Luz: Em primeiro lugar fico honradíssima, dinheiro é bom e todo mundo precisa, mas respeito pra mim vale ouro. Acho que foi resistir em primeiro lugar, se mantar fiel ao que se é e não balançar em relação ao que ” tá pegando no momento”. Foco no som e amor por esse tipo de música em especial mais do que por qualquer outra.

Pathy Dejesus: Repito que venho de uma criação (obrigado Pai e Mãe) onde sempre me lembraram quem eu sou, de onde vim e de como as coisas seriam mais difíceis por isso. Mas essa situação de “desvantagem” sempre me foi mostrada de uma forma que eu tivesse vontade de bater de frente pra conquistar meus objetivos.

Sempre fui “minoria”. Mulher negra é minoria duas vezes. Sempre tive que batalhar dobrado pra ter reconhecimento. E sinceramente, gosto disso! Sou movida a grandes desafios, não nasci pra concordar, pra aceitar. Receber um inicial “não” como resposta sempre me motivou a melhorar, buscar mais conhecimento, me preparar cada vez mais. Tem horas que realmente dá vontade de desistir… Mas minha maior rival não me pouparia, não me perdoaria. Minha maior concorrente sou eu mesma, e não alivio, não facilito, não tenho pena de mim mesma. Acho que vem daí o respeito no meu trabalho. E na vida!

Lívia Cruz: Esse respeito veio naturalmente por um conjunto de coisas, meu trabalho vem em primeiro e com ele o desejo de fazer virar, acreditar, ousar, perseverar, e por consequência algumas pessoas no meu caminho me ajudaram muito, sem essas pessoas, provavelmente, eu estaria bem mais longe do ponto que me encontro agora.

Time do Loko apresenta Lurdez da Luz, Lívia Cruz e Pathy de Jesus
Quando? Sábado, (14), às 00h
Onde? Hole Club (R Augusta, 2203 – Jardins/SP)
Quanto? R$15 (H) e R$10 (M)

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Novidades de 09′: Lívia Cruz
Lurdez da Luz fala de seu novo trabalho


Manos e Minas deixa grade da TV Cultura

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“Pra onde foi o respeito que o hip hop merece?” – por Carol Patrocinio com entrevistas de E. Ribas

Com um sonoro “Acabou” recebemos a notícia, do produtor Zeca MCA, que o programa Manos e Minas, da TV Cultura, havia oficialmente sido extinto. A alegação da emissora estatal é que isso ocorreu por “política da empresa” e que não tinha nada contra as pessoas envolvidas. “Tá todo mundo triste, mas sabemos que é um jogo de favores e favorecimento. O Manos e Minas não é um porgrama caro, então parece ser mais uma política da empresa de não querer falar com esse tipo de público. Cortaram as vias de acesso com a juventude”, explica o apresentador do programa, Max B.O..

Pra quem ainda não entendeu do que estamos falando, aqui vai a explicação. Nesta quinta-feira (5) pela manhã, todos que buscaram ler o jornal O Estado de S. Paulo*, se depararam com a seguinte afirmação do presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad: “O Vitrine deverá ser suspenso para reformulação. O Manos e Minas sai da grade, assim como o Login. Em compensação, haverá um jornal com debates todo dia. Teremos sessões de cinema em acordo com a Mostra de Cinema de São Paulo”.

Para Max B.O. a conclusão é simples: “Eles dizem que estão sem orçamento, mas contrataram a Marília Gabriela. Eles preferem pagar duzentos pra um ou dois, que pegar duzentos e dar um pra duzentas pessoas”. Curiosamente terminam os dois programas direcionados aos jovens na emissora.

Manos e Minas/Foto: DJ Erick Jay

Depois de saber de sua demissão por uma mensagem de celular recebida de uma produtora que trabalha na emissora – “Força”, dizia o texto – Max chegou a conclusão de que “se os caras mandaram embora até o Heródoto Barbeiro“, não era o Manos e Minas que seria poupado. Saído do MC RAPorter da RedeTV!, o apresentador comenta que sabia que o trabalho ali não seria eterno: “Um dia eu sabia qeu deixaria de ser apresentador (do Manos e Minas), mas gostaria ir lá me apresentar como MC no programa”.

As especulações sobre o programa, que já teve nas pick-ups o saudoso DJ Primo, já aconteciam há alguns dias e rumores rondavam a internet. Alguns, como Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, acreditam ser uma ação partidária: “Maluf, Quércia e Fleury governaram São Paulo e respeitaram os princípios públicos da TV Cultura de São Paulo. Quem destruiu a TV Cultura foram os governadores que há 16 anos coronelizam São Paulo. Agora, José Serra joga a pá de cal”.

De acordo com a definição do site da própria emissora, a TV Cultura é uma “emissora de televisão brasileira de sinal aberto que oferece à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promove o aprimoramento educativo e cultural de seus telespectadores”. Se é esse o objetivo, o que está acontecendo? Será que estão errando a mão na hora de ‘colocar ordem na casa’?

Por inspiração de seus fundadores, as emissoras de sinal aberto da Fundação Padre Anchieta não são nem entidades governamentais, nem comerciais. São emissoras públicas cujo principal objetivo é oferecer à sociedade brasileira uma informação de interesse público e promover o aprimoramento educativo e cultural de telespectadores e ouvintes, visando a transformação qualitativa da sociedade” Do site da Fundação Padre Anchieta

“Nossa plateia era de estudantes, o Manos e Minas valia como nota para quem relatava o que rolava no programa. Tinham salas que ganhavam o direito de ir ao programa como prêmio, sabe? Também iam pessoas de casas de assistência, pessoas com liberdade assistida…”, conta o apresentador. A pergunta que fica é: seria esse o problema?

Manos e Minas - equipe/Foto: Dj Erick Jay

Conversamos com algumas pessoas para saber o que acham das mudanças de rumo da emissora que teria, por princípio, a iniciativa de levar conteúdo de interesse público aos telespectadores. E pela movimentação acontecida no Twitter, que levou a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, o público quer que o programa, e alguns outros da emissora, continuem na grade.

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André Maleronka – jornalista, editor da Revista Vice e colaborador da Revista +Soma

André Maleronka

Acho que isso significa uma ideia de cultura e de papel do Estado das quais discordo. As declarações do presidente da TV Cultura – ele menciona ineficiencia e inchaço do quadro de funcionários – são uma faca de dois gumes. Essa suposta eficiência: é de audiencia que ele fala? Uma Tv do estado não deveria ter isso como objetivo, na minha opinião. Inchaço: normalmente isso é causado por má administração. É o mesmo grupo que está no poder do Estado de SP há 24 anos.

Então é tudo muito esquisito. Mas acho que, resumindo bem, é isso: me parece uma ideia (ideologia neoliberal, na verdade) de cultura enquanto entretenimento e realização enquanto sucesso financeiro. Lamento, e acho uma visão de mundo bem rasa.”

Daniel Ganjaman – produtor musical, engenheiro, músico e DJ nas horas vagas

Daniel Ganjaman

Atualmente, o Manos e Minas é a única voz da cultura de rua na televisão brasileira. Vivemos um momento onde manifestações artísticas e culturais tem pouquíssimo espaço nos meios de comunicação de massa no Brasil. O Manos e Minas sempre foi um programa muito democrático, com espaço pra música, dança, arte, temas sociais e muitos outros assuntos que não são comuns na grade de outras emissoras. Além disso, havia o foco em temas ligados a periferia de forma criativa e produtiva, com ênfase nas manifestações culturais da comunidade – assuntos só abordados em outros programas com um certo ranso de ‘coitadinho’ ou de ‘caridade’.

Vejo que a situação é muito mais séria, já que está prevista uma demissão em massa e uma completa reformulação na grade da emissora. A existência da TV Cultura sempre foi um diferencial enorme dentro da programação da TV brasileira exatamente por se tratar de uma emissora estatal, sem um compromisso direto com os números de audiência. Isso possibilitava uma programação muito mais interessante e despretenciosa, o que é praticamente impossível numa emissora com interesses comerciais. Ao mesmo tempo, acredito que de certa forma esse é o caminho natural das coisas, já que hoje em dia é possível ter acesso a esse tipo de programação mais específica pela internet, onde o acesso vem ficando cada dia mais democrático. Sinceramente, acredito que a criação de portais de internet dedicados a essa cultura ou um upgrade nos portais existentes pode ser uma forma de cobrir parte desse buraco que ficará na ausência do programa Manos e Minas. Com certeza, uma perda irreparável”

Pedro Alexandre Sanches – jornalista cultural e autor dos livros “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” e “Como Dois e Dois São Cinco”

Pedro Alex Sanches

São Paulo tem uma triste tradição no que diz respeito aos espaços reservados para manifestações culturais das populações menos favorecidas em geral. O hip-hop ocupa um lugar importante nisso que considero uma forma de discriminação, que a gente nota em episódios como a resistência da Virada Cultural em escalar rappers, ou esse agora com o programa “Manos e Minas”. Não é um problema só da TV Cultura, é muito mais generalizado, mas o triste, agora, é justamente a TV Cultura, talvez o único veículo de São Paulo que andava se preocupando, fechar o espaço que havia aberto. É um retrocesso, e, repito, esconde, sim, por trás uma carga forte de discriminação. Programas elitistas como o ‘Manhattan Connection’, do GNT, também dão audiências pequenas (e pouco lucro, imagino), mas não consta que pensem em tirá-los do ar por causa disso”

Leandro Roque de Oliveira aka Emicida – rapper e ex-apresentador de um dos quadros do Manos e Minas

Emicida

Desrespeitar o hip hop, infelizmente, já é uma característica de orgãos culturais, excluir o rap idem, mas o que me chocou nesse ‘cancelamento’ – coloco entre aspas pois até agora não fui notificado formalmente de minha demissão pela empresa que me ‘contratou’ e coloco entre aspas para ressaltar a importância deste contrato – foi o desrespeito a mim e a mais, aproximadamente, 20 pessoas que integram a equipe do Manos e Minas.

Fomos comunicados de nossa demissão (fora o resto das equipes dos outros programas também excluídos da grade), através de uma entrevista em um dos maiores jornais do país, cedida pelo novo presidente, João Sayad. Dizem que quando nos dirigimos a presidentes devemos expressar respeito utilizando termos como ‘excelentíssimo senhor’ e outras formalidades, mas de onde eu venho, não se deve mostrar respeito por quem não te respeita, e nesta atitude, no minimo bagunçada, da TV Cultura junto com essa nova diretoria, sobraram dúvidas, demissões, cortes e desrespeito pelas pessoas que dedicaram seus talentos à instituição.

Fala-se em construir uma nova TV cultura (excluindo programas culturais?), fala-se em reformular a grade, atrair o interesse da população (a mesma que era representada por um programa como o Manos e Minas), falou-se até em venda do terreno nestes últimos dias (que isso?). Eu não tenho palavras rebuscadas para enriquecer os textos como muitos, nem me considero tão inteligente assim, mas ontem fui a uma reunião em que ouvi ‘o programa é maravilhoso, o custo não é alto, dá uma resposta legal de audiência, mas está fora’.

Nunca vi aquilo como um emprego, assim como muitos da equipe como Truty, Zeca MCA, Max B.O., Erick Jay e outros que vivenciam o hip hop fora da sala de produção, víamos aquilo como uma oportunidade de levar a cultura, com a nossa cara, para nossos irmãos, aqueles que não se veêm representados nos artistas que vão no Faustão (com todo respeito a estes artistas), aqueles que já não têm acesso a saneamento básico, moradia, alimentação, educação decente e agora perdem seu programa companheiro dos sábados, onde podiam ter uma opção para fugir da programação nojenta da grade da tv aberta brasileira (salvo raras exceções).

Nos resta aguardar esta ‘nova TV Cultura’, que terá para sempre em sua história, este primeiro passo torto, como se tivesse sido empurrada por uma direção que se pautou pelo próprio umbigo. É ano de eleição, não faço campanha pra ninguem, acho que estamos ruim de opções, não acredito em coincidências nem gosto de ver caracteristicas comuns nos adversários (pois é assim que enxergo quem fecha portas para nós). Após ver estas características comuns o segundo passo é generalizar, coisa que também odeio fazer, e o terceiro passo é dizer: PSDB é foda”

Jair dos Santos aka Cortecertu – DJ, pesquisador e editor adjunto do site Central Hip-Hop

DJ Cortecertu

O Manos e Minas representa um dos braços do Hip-Hop na mídia, pois não é apenas um programa, o Manos e Minas é parte da retomada dos trabalhos que dão visibilidade ao Rap e à cultura de rua, numa articulação com outros estilos musicais como o samba-rock. Em dois anos de vida, o programa tratou com respeito nossa cultura.

Ao meu ver, o Manos e Minas poderia dar espaço para outros tipos de rap feitos por aqui, isso aumentaria a audiência e o poder de influência do programa. As manifestações em favor do programa pela internet mostram a diversidade em nosso cenário, artistas e curtidores de vários estilos divulgaram seu apoio, isso é um sinal, algo que precisa ser levado em conta para a resistência do Manos e Minas e para a criação de qualquer iniciativa semelhante”

Do outro lado do muro
Em comunicado oficial, a Fundação Padre Anchieta, responsável pela TV Cultura, explica os cortes:

tv-cultura

Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Mobilizações
Além da mobilização virtual para achar atenção ao caso levando a tag #salveomanoseminas ao Trending Topics brasileiro, acontecerão as demonstrações presenciais de insatisfação com a emissora. Veja qual o melhor dia e horário pra você fazer a sua parte e escolha sua manifestação.

Rinha de MC’s

Show do Emicida em Santos
Quando? Sexta-feira (6) às 23h
Onde? Club 49 (Rua Visconde do Rrio Branco n° 49 – Santos/SP)

Quer ler mais?
* No jornal O Estado de S. Paulo: “Sayad admite inchaço da TV Cultura, mas avaliará demissões caso a caso”

* No Conversa Afiada: “Tucanos fecham TV Cultura. Eles já têm a Globo”

* No Coletivo Action: “O fim do Manos e Minas?”

* No blog de Jéssica Balbino: “Salve Manos e Minas”

* No R7: “Fim do Manos e Minas causa protestos no Twitter”

* No blog Jornalismo B: “Comentários sobre uma emissora pública de televisão”

* Mídia Kit da TV Cultura: Saiba quem assistia a programação

* No Central Hip-Hop/Bocada Forte: “MobilizAção: militante quer acionar ministro pelo Manos e Minas”

Não confunda briga com luta. Briga tem hora pra acabar e luta é para uma vida inteira” Sérgio Vaz

O Per Raps agradece a ajuda de todo mundo que colocou no Twitter a tag #salveomanoseminas e ainda está colocando, além dos blogs e pessoas que ajudaram a fortalecer essa luta. Sem nomes porque quem fez sua parte, sabe. E quem não fez não merece nosso respeito.


Batalha do Conhecimento: sucesso de público em São Paulo

Conhecimento é muito mais do que flowpor Carol Patrocinio

Batalhas de MCs são os poucos lugares que você me veria gritando “ooooow”, levantando a mão e gritando por causa da rima de alguém. Não sei você, mas a capacidade de improvisação que algumas pessoas têm me deixa pasma e me faz voltar a ser criança, torcendo pelo time no jogo de futebol do recreio.

E dessa vez ninguém falou da mãe, fez piada sobre um MC gordinho ou achou que levaria o público a loucura fazendo graça sobre banalidades. A Batalha do Conhecimento veio a São Paulo para provar que freestyle é muito mais do que rima superficial.

Enquanto o berço do rap se leva demais a sério e se impede de rir, os cariocas chegaram fazendo piada sobre política, rindo – pra não chorar – da situação do país e mostrando que humor faz parte, sim, da cultura hip hop. E tudo isso sem deixar de lado o 5º elemento – que sem sempre é levado em conta -, o conhecimento.
Garotos de 15 anos rimam sobre assuntos que caras com muito tempo de estrada têm dificuldade de lidar enquanto dançam no melhor estilo Soulja boy e te fazem perder a linha do pensando na hora de seguir a rima. É a diferença de quem está acostumado a trabalhar o conhecimento. Mais do que uma competição para saber quem é o melhor ‘freestylero’, é um lugar para se refletir sobre assuntos que muitas vezes são silenciados para não arrumar confusão.

Desde cafetinagem até sexo x amor, passando por política, superfaturamente das obras da Copa de 2014, legume e profilaxia – que precisou até de uma consulta nos bastidores pra explicar o que realmente queria dizer a palavra – as rimas de alto nível levaram a plateia formada por gente de SP, Bahia, Curitiba e outros lugares do país, a loucura.

Ginga, flow, marra. Tudo o que qualquer um espera de um MC unido a ideias bem desenvolvidas. Quem gosta de desafios intelectuais – não do tipo cult babaca, mas aquele que faz sua mente trabalhar – teve um prato cheio na noite dessa quinta-feira.

Batalha do Conhecimento por Luciana Faria

MC Marechal prova com a Batalha que é preciso direcionar, mostrar caminhos, dar opções, discutir ideias e lapidar pensamentos. Nem sempre um cara quer rimar sobrepondo palavras com pouco sentido, quem tem o que dizer não precisa ser o mais veloz, o que fala mais alto; quem sabe o que precisa ser dito vai com calma, fala baixo e passa a mensagem.

Quem ganhou? Um paulista, da Batalha do Santa Cruz e do grupo Crewolina, Marcello Gugu. Bairrismo? Não, de forma alguma. São Paulo mostrou que sabe competir, que também tem levada, ginga e, acima de tudo, ideia boa na cabeça. Que mais momentos de união aconteçam e aí sim a voz do rap terá força, porque saberá exatamente sobre o que está falando.

O que é a Batalha do Conhecimento?

A Batalha é um evento em que MCs se enfrentam fazendo freestyle, que teve início no Rio de Janeiro por volta de 2003. Idealizado pelo MC Marechal, o público presente indica palavras para que sejam feitas as rimas de cada batalha e o esquema de seleção é mata-mata; perdeu, saiu.

Além da batalha, rolou no Sesc Pinheiros  a exibição de um filme – dessa vez foi o Profissão MC, de Alessandro Buzzo – e um show – Rashid apresentando seu CD de estreia. Pra conhecer os MCs que se enfrentaram no palco do Teatro Paulo Autran, leia a matéria do Central Hip Hop.

Veja a galeria de fotos feita por Luciana Faria.


Conheça a 1º Mostra Urbanidades

mostra urbanidades

Fazia tempo que São Paulo esperava que um evento viesse ocupar o lugar vazio deixado pelo extinto festival de cinema que rolava no CineSesc, a Mostra de Filmes Hip Hop de São Paulo. Quem conheceu sabe a importância do evento pra gente que curte cinema e a cena hip hop. Ali rolaram filmes que você não conseguia ver em mais nenhum lugar. E essa é a cara da 1ª Mostra Urbanidades.

Filmes que você ouviu falar, leu sobre, mas não sabia onde assistir, shows bacanas com gente que tá com a carreira fresquinha e gente que já tem estrada, além de oficinas pra você mergulhar de cabeça na cena hip hop.

Pra facilitar, aqui vão alguns destaques do evento, mas a programação completa você vê na imagem abaixo e pode acompanhar o que está rolando no blog da mostra.

Programação 1ª Mostra Urbanidades

Clique para ver a programação completa

Destaques

Eu, o vinil e o resto do mundo (Lila Rodrigues e Karina Ades/Brasil, 2008)
Sesc Santana, 27/07 às 20h e Galeria Olido, 28/07 às 17h e 31/07 às 19h30

Motoboys – Vida Loca (Caio Ortiz/Brasil, 2003)
Galeria Olido, 24/07 às 19h30 e 30/07 às 15h

Onde a coruja dorme, Bezerra da Silva (Márcia Derrak e Simplício Neto/Brasil, 2001)
Matilha Cultural, 29/07 às 19h

Pixo (João Wainer e Roberto T. Oliveira/Brasil, 2009)
Matilha Cultural, 23/07 às 19h e Galeria Olido, 24/07 às 17h e 28/07 às 19h30

Versificando (Pedro Caldas/Brasil, 2009)
Galeria Olido, 27/07 às 15h e 31/07 às 17h

Pra começar bem a semana, nessa terça-feira (13) rola no Sesc Santana a Oficina de MC com Kamau, Projota e Rashid, às 17h e depois a exibição do filme “Freestyle, um Estilo de Vida”, de Pedro Gomes, às 20h.

Tudo grátis e da melhor qualidade! Vai colar?

1ª Mostra Urbanidades
Quando? Até 31 de julho
Onde? Galeria Olido (Av São João, 473, Centro/SP), Matilha Cultural (R Rego Freitas, 542, Centro/SP) e Sesc Santana (Av Luiz Dumont Villares, 579, Santana/SP)
Quanto? Grátis, exceto na Galeria Olido, que custa R$ 0,50 e R$ 1


Skatistas invadem Avenida Paulista

“Mais skate, por favor” – por Carol Patrocinio

E se a avenida mais famosa de São Paulo, cartão postal da cidade, fosse dominada por skatistas com seus carrinhos e o barulho ensurdecedor de rolamentos correndo no asfalto? Pois é isso que vai acontecer neste domingo (20), durante a comemoração (antecipada) do Go Skateboarding Day.

Wild In The Streets Brasil 2010

O evento pode ser considerado um flash mob, já que não tem uma equipe organizadora e deixa claro que é apenas uma session de skate para comemorar o dia. A ação já acontece em outros lugares do mundo e é promovida pela Emerica, é o Wild In The Streets, unindo skate, manifestação pacífica e os melhores e mais tradicionais picos das cidades.

A antecipação da comemoração do Go Skateboard Day deu-se por causa do trânsito caótico de SP. Já que o objetivo é sensibilizar os moradores da cidade através de uma boa impressão causada por skatistas não dava para atrapalhar a cidade com o evento, né?

E como qualquer mobilização, o Wild In The Streets São Paulo que chamar atenção para algo. Nesse caso é a prática do skate nas praças públicas, de maneira civilizada, sendo uma opção de cuidar de áreas livres urbanizadas. A intenção é que a prática seja uma ferramenta pra humanizar estes espaços.

Ninguém deu autorização para que todo mundo andasse de skate nas ruas de São Paulo, mas quem vai impedir que você circule em paz pelas ruas da cidade num domingo de manhã? É seu direito e, feito com segurança, não tem porque causar problemas. O evento é um encontro entre amigos que curtem andar de skate. Vocês é um deles? Então está convidado!

Wild In The Streets Brasil 2010

Pra você se animar ainda mais, vai rolar um Best Trick na Praça Roosevelt em formato de jam na borda de mármore. Serão anunciadas as melhores manobras a cada 10 minutos. E chegando no Pátio do Colégio rola um desafio de manobra de solo.

Algumas dicas que estão sendo divulgadas pelo pessoal que vai participar:

– Não ocupe as ruas antes das 10 da manhã, fique nas calçadas da Paulista antes das 10, vamos deixar o transito fluir normalmente antes do evento.

– Lembre-se que só iremos conseguir realizar o evento com sucesso se soubermos nos manter agrupados, por isso fiquem próximos e respeitem as instruções que serão dadas pelo megafone.

– Uma vez dada a largada e em movimento pela Paulista e Consolação, vamos nos locomover todos juntos, respeitando ao próximo e evitando acidentes e colisões.

– Haverá uma Van na nossa frente que estará ditando o passo. Vamos ficar sempre atrás dela. Na Consolação vamos realizar uma breve parada pra agrupar todos pra uma foto da descida em frente ao Cemitério. Não perca, essa vai ser uma das fotos mais clássicas da história do skate na cidade de São Paulo!

– Saindo da Praça Roosevelt mais uma vez é importante nos mantermos em grupo, pra garantir boa presença de skatistas andando juntos em direção ao Teatro Municipal/Viaduto do Chá, o qual cruzamos e passamos pela Praça Patriarca em direção ao Patio do Colégio.

– Haverá um encerramento pra TV no Pátio do Colégio, porém logo após ainda vamos pro Vale do Anhangabaú, sessão final nas bordas do Vale antes do jogo!

Wild In The Streets Brasil 2010

Wild In The Streets Brasil 2010
Quando? Domingo (20), encontro às 9h30 e saídas às 10h, pontualmente.
Onde? Da Av. Paulista, em frente ao Banco Central (wallride), até o Vale do Anhangabaú, no Centro de SP, com paradas na Praça Roosevelt, Pátio do Colégio e Vale do Anhangabaú.


Cultura também é resistência

“Não há paz sem justiça” – por Carol Patrocinio

Police extermination policy por Carlos Latuff (latuff2.deviantart.com/)

Imagem de Carlos Latuff (latuff2.deviantart.com/)

O rap está dentro da cultura hip hop e essa cultura, nada mais é, do que uma forma de resistência, uma maneira de encarar o mundo diferentemente do que querem que ele seja encarado.

Fazer parte de uma cultura como essa é ir contra as desigualdades, contra o vigente, contra o comodismo. E o rap até pode ser feito por diversão apenas, mas como algo inserido no movimento hip hop, não pode ser totalmente descompromissado ou apenas ser música pela música.

E pensando na resistência, o que você tem feito para mudar o mundo? Como você tem se organizado para tornar diferente a realidade? Não é preciso grandes atos, momentos heroicos. Você recicla seu lixo? Prefere produtos que não agridam a natureza? Olha nos olhos das pessoas quando fala com ela? Baixa o vidro do carro quando um moleque chega perto com olhos baixos? Quanto você faz e quanto gostaria de fazer?

Resistência não é apenas entrar num movimento social e sair às ruas. Você pode fazer a sua parte na internet, sem sair de casa, seguro. Você pode fazer isso diariamente no seu trabalho, mudando pequenas ações. A sua parte precisa ser feita, independentemente da forma escolhida. E é disso que se trata o documentário “Cultures of Resistance”.

O filme vem sendo exibido em festivais pelo mundo e disponibiliza alguns materiais na internet. É impossível não pensar no que temos feito logo após assistir ao trailler – o que motivou este post. É normal pensar em conflito por causa de guerras, Irã, Iraque. Problemas raciais na África – pra onde todo mundo resolveu olhar por causa da Copa.

Só que muito se esquece que tudo aquilo que passa na TV sobre os problemas enfrentados nos ‘piores’ lugares do mundo também acontece aqui, pertinho, no dia-a-dia. O Brasil vive uma guerra não declarada diariamente, o que é muito pior, porque o país continua sendo visto como “tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.

O documentário mostra também ações aqui no país. Gente que luta contra essa guerra silenciosa, que não esquece que o mundo está um caos apenas porque a seleção vai jogar. O que poderia ser feito com a grana que cada um dos jogadores vai ganhar quando voltar? O que poderia ser feito com o investimento no pão e circo se essa verba fosse levada para a educação, por exemplo?

Não é só o rap, mas principalmente ele tem voz para mostrar e mudar esse outro lado. A única coisa que é necessário é escolher qual a sua arma. Não se acomode, lembre que o mundo não para e a única maneira de tornar as coisas diferentes é começando.

Foto de André Cypriano (andrecypriano.com)

Foto de André Cypriano (andrecypriano.com)

Veja o vídeo com partes do documentário sobre o Brasil no Vímeo.

Cultures of Resistance
Caipirinha Productions – 2010
Direção: Iara Lee
Produção: George Gund
Edição: Jeff Marcello
Câmera: David Ross Smith
90 minutos


Obama aparece em video de rap

“Uh Tererê” – por Carol Patrocinio

Pra começar, quem disser que nunca dançou – ou pelo menos bateu o pé – ouvindo a música “Whoomp There It Is” (mais conhecida no Brasil como “Uh Tererê“), do Tag Team, está mentindo. Não tem como ignorar que essa música, feita num dos momentos do rap que eu, particularmente, mais acho divertido, tem algo que te obriga a se mexer. E pra que ninguém se sinta mal, sabe quem mais também dançou ao som desse som?

O-BA-MA. Oh yeah, Obaminha, presidente dos EUA e nosso querido representante negro no poder da maior potência econômica. Além de ser mega poderoso, o cara agora foi visto no clipe da música que balançou milhares de “big buts” ao redor do mundo. Tudo bem que nada foi confirmado, a assessoria de imprensa não disse se é realmente ele, mas… Olha essa foto!

Obama

Se não é Obama, é Will Smith disfarçado!

O mais bacana de tudo isso é ver que um cara que hoje tem o poder da nação mais poderosa do mundo também curte rap e qualquer dia pode colar no mesmo rolê que você. Ah, vai falar se você não dançava até o chão no melhor estilo anos 90, com calça larga e brilhante e tudo?!

 A gente queria colocar o vídeo do TViG, que foi nossa fonte, mas não rolou embedar…

Então, vamos lá, todo mundo, pela democracia: “Uh Tererê!”. “Yes, we can” é tão ‘last week’…

*Hora de relaxar, o blog anda tenso demais nas últimas semanas. Todo mundo respirando aí?


Conheça e faça o download da Arte de Samplear

Bruce Slim Beats - Arte de Samplear 2010

Antes de tudo, dê um play no som e aí você começa a ler o texto. Fechado?

Você pode conhecê-lo como Slim Rimografia mas nesse trabalho o MC atua como produtor e assina como Bruce Slim. O cara é o mesmo, a qualidade do trampo também e – depois do fim de contrato com uma gravadora que gerou problemas – Slim entra numa nova fase e apresenta um trabalho cheio de novos nomes e sons inéditos. “Eu sempre penso nos artistas que gosto independente de quantas pessoas os conheçam. Se acho que tem a ver com os beats, ‘vamo que vamo’”.

O próprio Slim não sabe como nomear o novo trampo. Não é uma mixtape, mas é como se fosse. “É uma alternativa de utilizar os beats que eu já tinha produzido aqui em casa e a vontade de trabalhar com outros artistas também”. Na verdade, é “Arte de Samplear 2010” e pronto!

Dessa vez, o rapper rima em poucas faixas e atua muito mais como produtor. Um tempo na escrita para limpar a cabeça e esperar a hora certa – que já está chegando – de lançar o terceiro álbum, Slim Rimografia & Thiago Beats.

Os sons que você está ouvindo – se aceitou a indicação do Per Raps – foram todos produzidos, gravados, mixadas e masterizadas no Estúdio Mokado por Bruce Slim. Tem material de dezembro de 2006 até fevereiro de 2008. As fotos são do Tiago Rocha, o projeto gráfico de Rafael Parisotto-Reajalab e os scratchs do DJ RM.

Mais em:
MySpace
Baixe a Arte de Samplear 2010 completa


Virada Hip Hop no Espaço +Soma

Virada Hip Hop Espaço +Soma

Quando a vontade é mais fortepor Carol Patrocinio com entrevista de E. Ribas

Resolvemos focar nisso porque é um negócio que tem que ter, não tinha como fazer outra coisa se o rap estava praticamente fora da programação da Virada” – Tiago Moraes, um dos organizadores do Espaço +Soma

Quem não ficou indignado com a falta de respeito e oportunidade que o rap recebeu neste ano na programação da Virada Cultural da cidade de São Paulo? Ainda que alguns representantes da cena se apresentem em locais afastados ou como Djs – mesmo a organização chamando de outro nome que não rap ou Hip Hop -, faltava alguma atitude em relação a isso.

A gente reclamou aqui no blog, outras pessoas reclamaram em seus veículos e meios de comunicação, mas quem colocou a mão na massa pra mudar as coisas foi a equipe que cuida do Espaço +Soma. O Eduardo Ribas bateu um papo com o Tiago Moraes, que arregaçou as mangas e foi atrás de um jeitinho, junto com a galera da revista, para mostrar que o rap pode muito mais do que a prefeitura gostaria.

“A gente tava querendo fazer uma coisa mais oficial, mas quando a gente viu isso (o vídeo do organizador da Virada Cultural falando do rap) resolveu fazer do nosso jeito. O rap sempre tem espaço na revista +Soma, todo mundo curte por aqui, quando a gente viu o que tava acontecendo vimos que não fazia sentido não focar no rap. A gente viu que um monte de gente ia ficar órfã”, explica Tiago.

E realmente, os órfãos agradecem. Os caras fizeram uma lista, convocaram a galera que podia ajudar a organizar tudo com rapidez e ligaram pro Kamau, a Stefanie, o Rincón [Sapiência, entrevistado na última edição da revista] e o Akira, além do Edu (d’A Filial e curador musical do espaço) e o Akin, que são prata da casa.

“A gente nunca faz mais de um show, rolou no ‘Presença Feminina’, mas a gente tenta fazer só um show e sempre mais cedo. Chegamos a pensar em fazer alguma coisa com 24 horas, mas seria muita loucura. Depois pensamos em fazer algo estendido, com programação indo das 8h até às 3h. Apesar de ter rolado em cima da hora estamos divulgando bastante porque a gente quer que venha bastante gente e é gratuito, democrático”. A gente também espera que o espaço fique cheio de gente bacana provando que o rap é educado, civilizado, não precisa de revista policial e nem ser jogado para as margens da cidade.

Quem vai na Virada Hip Hop?
Shows de A Filial(RJ), Akira Presidente (RJ), Rincón Sapiência, Stefanie, Kamau, Akin e discotecagem do DJ Tamenpi (RJ)
Quando? Sábado, 15 de maio às 20h
Onde? Espaço +Soma (Rua Fidalga, 98, Vila Madalena – São Paulo)
Quanto? Grátis
O que mais? O espaço tem um café, que vende comes e bebes, além disso, quem quiser ir de carro pode ficar tranquilo que tem um estacionamento logo em frente que ficará aberto até às 5h.


Mês da mulher: O saldo

Especial mulher por Oga

O mês de março no Per Raps foi delas. De Anita Tijoux a Lurdez da Luz. De Dina Di a Flora Matos. De Nathy MC ao Rap de Saia. De Stefanie ao black style. Mulher, de uma ponta a outra, completa, incompreendida. Será que você perdeu alguma parte na correria?

Que nenhuma mulher tenha de perder o coração para ganhar o espaço*

Aprendendo a falar mais baixo para ser ouvida – por Carol Patrocinio

Foi embora o mês da mulher e com ele, Dina Di. Nenhum de nós esperava se deparar com uma perda dessa magnitude para o rap brasileiro: uma pioneira. O hip hop ficou mais pobre, mas com mais força para viver e seguir em frente, lembrando da mensagem deixada não só por Dina, mas por diversas mulheres que se foram, mas deixaram marcas na arte.

Num balanço do mês que propomos dedicar as mulheres, assumimos que precisaríamos de muito mais tempo para fazer jus ao nosso plano. São muitas mulheres, muitas meninas, muitos talentos, sonhos e objetivos para serem comentados, tratados e discutidos.

O começo, o editorial, já foi difícil. Como dizer tudo o que está guardado dentro de milhares de mulheres sem perder a delicadeza e a ternura? Como ser forte sem se tornar masculina? Como ser ouvida sem deixar a voz afinar e parecer que se está gritando? E aí, tentando responder a todas essas dúvidas, como fazem mulheres todos os dias, ele nasceu. Veio ao mundo e foi bastante elogiado, ele traduziu o que muitas de nós gostaríamos de dizer, mas não sabemos como porque faltam palavras.

O editorial “Quem foi que disse que mulher é especial?” é uma junção de forças de todas as mulheres que já se foram, que ainda estão, que lutam, que têm medo, que encaram ou fogem. Mulheres que têm coragem de ser o que realmente são – boas e más -, cada uma na sua realidade. Ser forte não é apenas seguir o que a sociedade pede, é ser você mesma e arcar com as consequências.

Em “Quatro histórias e um caminho” demos de cara com Flora Matos, Lurdez da Luz, Nathy MC e Stefanie. Sons diferentes, vidas diferentes e caminhos que se cruzam entre eles e com os nossos. Meninas de fibra que estão mostrando a competência da mulher num mundo de homens e machismo.

Aproveitamos o mês para saber “Quem tem medo do ‘rap de saia’?” e reapresentamos um documentário feito por mulheres, sobre mulheres e que fica muito longe de ser filme de mulherzinha. Lembramos da importância da moda na formação da sociedade que conhecemos hoje e o que ela representa com o primeiro post da colaboradora Clarice Machado – “Os pioneiros do black style”.

Nosso velho colaborador e palpiteiro, Oga Mendonça, o Macário do Projeto Manada, ofereceu um post cheio de história sobre o trabalho da MC Anita Tijoux, uma referência do rap no Chile. E fechamos o mês com um entrevista com Lurdez da Luz – “Da Urbália para o mundo”, que tem mostrado a cara em todos os veículos de comunicação e valorizado a figura da mulher no rap, além de mostrar que não é preciso ter rimas duras esquecendo da brasilidade para fazer sucesso.

Fora do especial, tivemos a participação da incentivadora de longa data Débora Costa e Silva entrevistando o recluso rapper Parteum – “Rap terá nova chance na Trama“. E a triste perda do rapper Speed Freaks, de quem ainda não tínhamos falado aqui, mas não deixávamos de ficar de olho no trabalho.

Março foi um bom mês. Recebemos elogios, puxões de orelha, sugestões e vimos que cada vez é mais importante abrir espaço para que o leitor diga o que está faltando, o que tem demais, o que poderia rolar. Assim como pedimos respeito para as mulheres, pedimos respeito, acima de tudo, ao rap, que é o objeto central do nosso trabalho e só pode crescer com a força de cada um de nós, abelhas operárias. Então, se você acha que pode melhorar o hip hop com uma ideia, não guarde só pra você, divida com o mundo ou, pelo menos, com a gente – é só mandar um e-mail pra perrapsblog@gmail.com. A gente pode demorar, mas responde!

Coração de mãe que o Per Raps é, o mês de março acabou mas a gente ainda vai te dar um último presente no mês dedicado a figuras tão complicadas, complexas e paradoxais que são as mulheres. Ainda entra no ar uma entrevista com a MC gringa Amanda Diva, fechando em grande estilo nossa comemoração ao mundo feminino.

* Imagem de Tara McPherson.


Homenagem a Dina Di

Dina Di se foi mas deixou uma marca no mundopor Carol Patrocinio

Era época de Racionais MC’s, anos 90, cena rap nacional dominada predominantemente por homens. Aí chega Dina Di: mulher, branca, do interior de São Paulo. Ok, o que isso tem demais? As ideias que Dina mandava. Mulher não precisa ser submissa, amor é bom mas não pode acabar com a sua vida, meninas terão espaço quando tiverem trabalho de qualidade. Se alguém te contasse essa história, você iria achar que a garota que mandava essas ideias permaneceria num cenário machista como aquele? Pois é, Dina Di sobreviveu.

E foi por qualidade, por dedicação, por acreditar no rap, na mensagem, na força que poderia ser passada a quem estivesse perdendo a esperança que Dina Di ganhou respeito e espaço na cena. Não foi um rosto bonito, um bom rebolado e uma música com refrão que gruda na cabeça. Foram sons de respeito, letras que fizeram muita gente pensar no caminho que estava seguindo e nas opções que tinha.

Dina Di retratou um mundo em que nem toda mulher de presidiário é mulher de malandro, em que os rumos podem ser mudados ou então o caminho escolhido pode ser outro. A MC mostrou a luta de quem está do “outro lado da muralha”, de segurar a barra, esperar o homem voltar e acreditar que merece ser feliz.

“Não, não nasci pra ser mulher de ladrão
muito menos de irmão,
respeito quem é, moro jão,
dinheiro é bom sim,
não malotes, jóias no cofre, ilusão”

No último sábado, 20, o corpo de Dina Di cansou de lutar, coisa que sua mente nunca fez. Depois de passar pelo momento mais feminino que uma mulher pode passar: dar a luz. Dina Di trouxe Aline ao mundo que tentava arrumar, mas seu corpo foi invadido por uma infecção oportunista, coisa que ela nunca deixou ninguém fazer, invadir sua vida e mudar o rumo sem sua autorização.

O corpo vai embora, mas a ideia continua. Entre diversos textos de adeus, lamentações virtuais e comentários sobre a força de Dina Di fica a esperança de que a chama não se apague, que tudo o que ela pregou, ensinou e acreditou seja levado adiante. Que outras mulheres entendam que ser mulher é muito maior do que um olho pintado e uma roupa feminina. Que a força feminina de Dina Di mostre que não é preciso perder a ternura.

Para marcar o mundo algumas pessoas plantam árvores, escrevem um livro ou fazem um filme. Dina Di apenas viveu a vida que acreditava ser a certa e deixou uma marca muito maior do que quem vive tentando fazê-lo. Daqui pra frente é obrigação de todos nós não deixar que a mensagem seja tão frágil quanto o corpo físico.

Dina Di ainda vive e só vai deixar de fazê-lo quando cada um de nós permitir. Que isso nunca aconteça. Continue inspirando onde quer que esteja, Dina Di.

“É tudo o que a gente passou,
até que a morte nos separe,
palavras são palavras”


Obra d’OsGemeos é atacada em São Paulo

Quem não quer viver da sua arte?por Carol Patrocinio

“Pichadores atacam painel de grafite mais famoso de São Paulo”. Ao ler essa manchete confesso não saber direito qual sentimento tomou conta de mim, mas o que sobrou foi uma tristeza enorme. Pichadores e grafiteiros, na minha cabeça, não deviam lutar um contra o outro, são artes irmãs, formas de expressão.

É claro que a gente volta naquele papo de que quando o grafite entra na galeria deixa de ser arte de rua, mas será que é mesmo melhor ter sua obra exposta apenas em locais remotos do que fazer barulho e chamar a atenção de milhares de pessoas ao redor do mundo?

Segundo o jornal Folha de S. Paulo o grupo de pichadores que fez intervenções no Centro Universitário Belas Artes, em 2008 – que rendeu o documentário Pixo, de João Wainer -, na galeria Choque Cultural, em Pinheiros, e na 28ª Bienal Internacional de São Paulo foi o responsável por “atravessar” o mural da dupla OsGemeos, um dos mais conhecidos de São Paulo, na alça de acesso da 23 de Maio ao elevado Costa e Silva, na Bela Vista, e que havia sido apagado por engano por uma empresa contratada pela prefeitura.

A publicação diz que o ataque aconteceu na madrugada dessa sexta-feira, 19, e a prefeitura já apagou os escritos. É claro que não apenas por cuidado ao grafite, mas por serem ofensas ao prefeito Gilberto Kassab. O grupo não fala nada sobre o ocorrido, a prefeitura não se manifesta e OsGemeos também não. Silêncio.

O desrespeito dos pichadores é o mesmo desrespeito da empresa que apagou a obra ‘por engano’, mas toda a classe artística prefere não se manifestar. Quem está certo? Quem está errado? Qual o motivo de tudo isso? “Um dos recados chamava atenção para “a cidade em calamidade”. Os pichadores também inseriram uma cifra no mural (R$ 200 mil) –número que atribuem ao custo da “maquiagem” no local (entre gastos com tinta, cachê para os grafiteiros etc). Por fim, escreveram ofensas pessoais a Kassab. Segundo apurou a reportagem, o grupo planeja “atravessar” outros grafites”, diz a matéria na Folha.

Entender esse protesto que agride não só os políticos, mas os artistas seria um grande presente a todos nós. O Per Raps abre espaço para o grupo se manifestar, para pixadores defenderem ou mostrarem seu ponto de vista contrário a intervenção.

O que eu queria que alguém me explicasse é: por que uma obra, quando valorizada pelo dinheiro, perde o valor para uma parte dos artistas? Quem não quer viver de arte?

Leia mais sobre pixo.
Leia mais sobre o caso dos grafites apagados na Av. 23 de maio.


Editorial: Dia Internacional da Mulher

Especial mulher por Oga

Quem foi que disse que mulher é especial? – por Carol Patrocinio

Dia Internacional da Mulher… Que piada! Quem disse que a gente faz alguma coisa demais? Somos apenas seres humanos que usamos nosso corpo da maneira que deveríamos. Somos mães porque temos útero. Corremos contra o tempo e a balança porque nos foi dado pernas. Pensamos mais nos outros do que em nós mesmas porque temos cérebro. Não somos diferentes dos homens.

Um dia só pra gente? Mas e aí, o que acontece? Podemos largar tudo o que fazemos normalmente – a luta por um emprego melhor, por um salário decente, a busca por um cara que nos respeite – e ficar apenas colhendo os louros de fazer parte de uma ala tão importante e celebrada da sociedade?

Ou nesse dia temos que esquecer quantas de nós já passaram por humilhações, dificuldades, medos e apuros por apenas ser mulher? Quantas de nós não conseguem decidir ser coração ou razão para não ser taxada de mole ou “mal comida”, como dizem por aí? Quantas de nós receberam olhares maldosos por causa de uma roupa ou forma de falar?

Ser mulher é ser minoria mesmo existindo em número maior. Ser mulher é não poder ser feminina demais, masculina demais, competente demais, tranquila demais. Ser mulher é precisar pensar mil vezes no visual, na forma de falar, na maneira de se impor. E aí, no Dia Internacional da Mulher, as pessoas dizem que somos especiais.

Não queremos ser especiais, queremos ser iguais. Queremos poder ir e vir, escolher a forma que queremos falar, vestir, se portar. Não somos iguais fisicamente, o que é óbvio, mas queremos – e podemos – ser iguais em relação a inteligência, capacidade, oportunidades (que não nos são dadas). Não queremos ter que ouvir a famosa máxima “Quer ser igual? Carrega suas sacolas, abre a porta do carro sozinha” e desistir de explicar que não é questão de querer ou conseguir fazer, mas questão de gostar de mimos.

Chega desse papo de ser especial, apenas usamos o que nos foi dado da melhor forma possível. Que tal, ao invés de elogiar uma vez por ano, dar a chance a uma mulher de mostrar sua capacidade e potencial sem pensar que ela pode não conseguir por ser mulher?

Mas o Per Raps, o que tem a ver com tudo isso? Ele vai ser um dos veículos que dão parabéns às mulheres e no resto do ano coloca fotos que denigrem sua imagem? Ele vai se tornar um blog feminista e organizar uma fogueira de sutiãs com direto a empurrar alguns exemplares masculinos nela? Nada disso.

O Per Raps decidiu que esse mês não vai falar muito de mulher. Quem vai falar são as mulheres! São essas representantes de uma minoria que luta contra as maneiras vigentes de dominação que vão mostrar o que é viver nesse mundo sendo mulher, ouvindo rap, fazendo rap, sendo “fêmea”. Esse mês vai ter brasileira, gringa, vai ter música, texto, indicação de som, de influência…

Nesse mês, o Per Raps não fica mais cor de rosa, porque mulher não precisa disso pra ser feminina. Em março o Per Raps mostra que a mulher não é diferente do homem, ela é competente, inteligente e luta por um lugar ao sol. E não é isso que todo mundo faz?

Bem-vindo a um mundo um pouco diferente do que você está acostumado. E que comece um mês de março que reverbere por todos os meses que o seguem.


Inspire-se

Imagem do designer Mathiole

Universo online – por Carol Patrocinio

Esqueça tudo o que você já viu na internet, não tem nada a ver com o mais famoso universo online (uol) que te oferecem por aí. Esse universo é diferente, criativo e vai te ajudar a ganhar um fôlego para atravessar o sábado e o domingo e começar bem uma nova semana em que você vai se sentir muito mais criativo do que imaginava.

Unic. verse é um projeto do ilustrador Mathiole, dono também da imagem que abre o post de hoje. A ideia do cara é mostrar o que é, na cabeça dele, o universo. Essa coisa imensa que está ao redor de todos nós mas basta parar pra pensar nisso que a gente fica meio maluco.

O mais bacana é que a ilustração é contínua, como um muro, mas online. Você vai arrastando a barra de rolagem pro lado e coisas incríveis aparecem na sua tela. Vá ao site dele, veja as imagens, respire fundo e pense no que é o universo pra você.

Saiba mais:
Site
Flickr


Rap não é moderno, é conservador

O rap é conservador demais para o mundo de hoje – por Carol Patrocinio

Não sei você, mas eu leio a Veja toda semana. Ok, mentira. Não leio, mas folheio todas as páginas só pra ver se tem algo absurdo demais para passar batido. Não, não sou uma leitora por prazer, mas para saber o que tem sido falado e o que a maior parte das pessoas no país passará a levar como verdade absoluta da semana. De vez em quando sou surpreendida e encontro algo realmente bom, que merece ser lido e, talvez, passado para outras pessoas.

O personagem das páginas amarelas dessa semana é o escritor inglês Nick Hornby. E o que isso tem a ver com o Per Raps, certo? O cara é um dos maiores estudiosos da cultura pop que consegue transmitir esse conhecimento de forma atraente. Ele é autor de diversos livros, entre eles “Alta Fidelidade“, que virou filme e ganhou o coração de milhares de apaixonados por cinema e música. A entrevista trás, além de curiosidades sobre sua carreira e motivações, um ponto de vista bastante interessante sobre o rap – que obvia e erroneamente é chamado de hip hop na publicação.

Hornby diz que o rock perdeu seu lugar de contestação social e que quem ainda faz isso é o rap. Ok, todos nós concordamos. O rap busca mudança, transformação e tal, mas sabe o que mais ele diz? Que o que choca no estilo musical é a atitude conservadora. Pois é, o rap não é moderno, ele apenas traduz certas coisas que seu avô ou tataravô também acreditavam – guardadas as devidas proporções, é claro.

Se você for levar em consideração algumas formas de se fazer rap vai encontrar letras machistas, em que a preocupação maior é o status social e o dinheiro. O contexto é aquele mesmo de sempre, em que o homem é superior e a mulher submissa, que pode ser comprada facilmente porque não tem outra saída. Existe algo mais conservador do que isso?

Para completar, podemos ver a atitude de muitos representantes do rap que não respeitam as mulheres no mercado da música e acreditam que elas precisam ser masculinizadas para poder pertencer de verdade ao universo que, na cabeça deles, foi criado por e para homens.

Na verdade esse é um post pra fazer a gente pensar. Será que, ao invés de mudar o mundo para melhor, não estamos reproduzindo uma mentalidade que já deveria ter sido deixada para trás sem nem nos darmos conta disso?

Melhorando ainda mais o panorama, o rapper Jay-Z, um dos que mais divulga a música e mais fatura com isso, trás a tona outra característica do rap: a segregação racial. Em uma festa do músico, na última terça-feira (16), as pessoas brancas que tentaram entrar na área VIP foram barradas por seguranças que diziam que nenhum branco poderia passar dali. É claro que Jay-Z diz que não teve nada a ver com isso, mas os fatos estão aí.

Na nossa sociedade, por mais que não se queira acreditar, mulheres apanham de namorados (vide Rihanna), são obrigadas a usar burcas em nome da cultura e podem ser trocadas por camelos. Um lugar em que caras acham que quem gosta de homem é gay e mulher gosta de dinheiro, muitos encontram no tráfico e na criminalidade uma forma de fazer parte da sociedade capitalista e a honra tem seu significado esquecido diariamente.

Vivemos uma situação em que negros ainda aguentam pessoas atravessando a rua para ‘não dar chance para o azar’ e brancos precisam provar que, realmente, sabem enterrar (se é que você me entende), temos que lembrar daquele tempo em que mulheres não podiam falar com homens, tinham que usar saias, cuidar da casa, e negros e brancos sentavam-se separados no transporte público. Lembra disso?

Então, sem nem perceber podemos estar trazendo tudo isso de volta. Mas ainda há tempo. E sabe, eu tive um sonho…

E o que você acha: o rap é realmente conservador em suas ideias? Registre sua opinião nos comentários!


Botando fé no rap*


Senhor Felicidade mandou rimar – por Carol Patrocinio

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer que o rap é religião, que muda vidas e que transforma o mundo? Isso poderia ser dito sobre religiões de verdade e também poderia ser usado num daqueles sermões de igreja, bem longos e cansativos.

Pra quem não está acostumado a seguir uma religião, às vezes rola uma dificuldade de se concentrar na hora de ouvir uma palestra, uma pregação, missa ou o que quer que seja. Mas e aí, o que fazer com os jovens que têm energia demais para ficar parados só ouvindo um papo lento?

Ou pior ainda, e se o padre resolver falar em latim? Ou ler trechos enormes da Bíblia, com aquela linguagem mega antiga? Nas religiões orientais, várias coisas são ditas numa língua que você não entende e, às vezes, não consegue nem repetir. E teve um cara que foi esperto o suficiente pra notar tudo isso e acertar lindo pra levar uma galera pro templo.

Esse cara em questão é um monge budista chamado Kansho Tagai, o Senhor Felicidade. E quando você pensa em monge já vem na tua cabeça um canto gregoriano e tal, tudo na maior paz e santidade, né? Nada disso! Senhor Felicidade quer saber de passar a mensagem e, pra isso, escolhe a melhor maneira possível.

No templo de 400 anos que fica no centro de Tóquio você pode ouvir um rap rolando se passar na hora certa. Imagina você passando na frente de um templo budista e ouvindo rap? Certeza que ia entrar! Se liga no vídeo do cara rimando e a galera curtindo.

Depois do rap, a ideia é levar o sapateado ao budismo; afinal, o que é música sem dança? O monge quer aparecer dançando, tem vontade de aprender a sambar e disse que já é craque no Moonwalk do finado rei do pop, Michael Jackson.

Não dizem que quem canta, seus males espanta? Taí a prova vida de que dá certo. Não deixe o rap parar!

-> Se você faz rap religioso, mande pro perrapsblog@gmail.com com um mp3 e o assunto “Chegou no E-mail”. Vamos fazer uma mix só nesse estilo. Curtiu?

-> E se você quiser conhecer outro tipo de música misturada com budismo, dá uma olhada no “Os The Darma Lóvers”  – que explicam o ‘os’ é brasileiro, ‘the’ vem de The Who e ‘Darma Lóvers’ (escrito assim com acento mesmo) é porque eles adoram o Buda.

*com informações da BBC


Em época de semana de moda

Começo de ano é sempre assim, estilistas colocam sua coleção na passarela pra você já saber o que vai pegar na próxima estação. E não adianta falar que não liga pra moda porque o sneaker que você usa é um tipo de moda street, assim comos os bonés, as calças mais justas – que estão fazendo a cabeça de muitos meninos do rap – e as camisetas com cara de anos 80 ou o estilão skatista.

Se você começou a ler o post e foi conferir se estava mesmo no Per Raps, fique tranquilo, você não errou de site. Uma das manifestações culturais mais fortes que existe é a moda, afinal, o que você veste pode dizer muito sobre você e sobre o que você pensa em relação ao mundo.

No Brasil, semana passada rolou o Fashion Rio, essa semana está rolando o São Paulo Fashion Week e ao redor do mundo a moda não para nunca! É claro que não vamos nos alongar no assunto, afinal, esse é um blog sobre música, mas como as pessoas que fazem música na gringa acabam aparecendo mais do que a arte em si, não podemos ignorar certas coisas.

Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Chris Brown foi visto vestindo uma peça bem estranha durante a Fashion Week de Milão.  Um sapato que, acredito, pouca gente por aqui usaria, ou talvez nem mesmo Kanye West. Se liga no visual!

Sapato de Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Sapato de Chris Brown na Semana de Moda de Milão

Pra quem estava acostumado a ver Chris Brown em seus videos, essas roupas ai estão bem fora do usual. Será que o cara tava tentando se adaptar ao Fashion Week, será que contratou o personal stylist errado ou é sem noção e errou na mão mesmo? Diga aí o que você achou!


Enquanto a Beyoncé não chega no país, versões!

Ilustração feita por Ryan Casey [goryango.com]

Ilustração feita por Ryan Casey

Em tempos da rainha do requebrado, Beyoncé, no Brasil – com shows esgotados e fãs enlouquecidos -, quem não pensa em entrar na onda de “Single Ladies” para chamar um pouquinho de atenção?

O clipe da bonitona do R&B (ou seria melhor chamar de pop?) fez sucesso pelo mundo inteiro com sua coreografia repetida até exaustão por gays, héteros, crianças e é claro que a galera do rap não poderia ficar fora dessa.

Inspirando-se em Beyoncé, UCB e Wale se juntaram pra fazer o “Pat your Wave” – algo como “afofe seus cachos”, no bom português. A música é boa, o clipe também e as meninas que dançam são humanas e você nota isso lá pro 1:15, quando as garotas começam a dançar e tudo mexe com elas, diferente da Beyoncé.

E falando em tudo mexer, lembrei da nossa querida Preta Gil. Brasileira, que não desiste nunca, e com coragem. A filha do talentosíssimo Gil resolveu não perder o momento e arriscar um versão de “Single Ladies”. Enquanto Beyoncé diz que “se você gosta devia colocar um anel ali”, incentivando os caras a se comprometerem, e UCB e Wale dizem pra você deixar as ondas do seu cabelo mais bonitas, Preta resolveu que a versão dela falaria sobre estar solteira naquele noite. Ok, é sempre carnaval, né?

Você gostou mais do qual? Preta Gil? Beyoncé? UCB e Wale? Ou as Esquiletes do novo Alvim e os Esquilos?