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Resenha: Meu Sotaque, Meu Flow

Akira Presidente por João Gabriel/Divulgação

Ignorando fronteiras e misturando estilos com ginga de malandro – por Stefanie Gaspar*

Dê o play em “Que Pena”, de Akira Presidente
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-06-07T07_39_23-07_00.mp3″

“Rap nunca foi moda, e a verdade é o que importa”. É assim que o rapper carioca Akira Presidente define o gênero de seu coração em seu primeiro lançamento, o EP O Que Tu Qué. Lançado em 2009, o trabalho já mostra que o rapper Paulo Ferreira soube chegar chutando a porta com seu rap cheio de ginga, letras afiadas e influências globais.

Agora em 2010, Akira volta em grande estilo. Mantendo a pose de dândi repaginado, o carioca lança seu primeiro álbum: Meu Sotaque, Meu Flow. Logo de cara, o novo trabalho de Akira lembra muito o rap cheio de batidas e melodias intensas do Pentágono – não a toa, tanto o álbum quanto o primeiro EP do rapper foram produzidos por um dos integrantes do grupo paulistano, Apolo. É ele quem assina as melodias e a produção de grande parte das faixas de Meu Sotaque Meu Flow, criando uma base rica e equilibrada para as letras afiadas de Akira.

E que surpresa deliciosa é a audição deste álbum. Para quem gosta de repetir os clichês típicos do gênero – de que rap é um estilo fechado, sem melodia, com pouca variedade e sisudo – é hora de repensar a validade de todos esses preconceitos e se jogar de cabeça na proposta que Akira Presidente oferece nesse seu primeiro álbum de estúdio.

Por mais que a expressão esteja datada, Meu Sotaque Meu Flow é um CD global – consegue juntar referências e sonoridade de diversos estilos e regiões sem cair no pitoresco ou no caricato. Tem de funk carioca a soul e toques de samba. Tudo junto sem perder a essência.

Meu Sotaque, Meu Flow de Akira Presidente

O segredo do álbum é trabalhar, sempre, com o inesperado, mostrando que o rap pode – e deve – reunir outros estilos para sair de sua zona de conforto e englobar sonoridades que estão por aí, nas ruas. Em Gueto, primeira faixa do álbum, Akira já desce o verbo e conclama “as cachorras que mexem a bunda”. Ao fundo, o som de um canto africano. E entra, majestosa, a batida do funk carioca, mostrando que é possível conciliar a energia do pancadão com o groove natural do som de Akira.

Logo em seguida, o pancadão vira batida gatuna, sacana, na segunda faixa, Minha Área. É incrível como as batidas escolhidas por Akira, além dos scratches de DJ Alves e a masterização de DJ Roger, conseguem dar uma identidade extremamente característica ao som das primeiras faixas. É um equilíbrio típico de quem consegue reunir ambição e conhecimento dos elementos musicais necessários para se fazer rap de verdade. Rimar na rua pode ser simples, mas o som de Akira é de responsa, já que é, ao mesmo tempo, espontâneo e calculado, fruto da vontade de fazer algo além do que já existe no rap hoje.

E a misturada não para por aí – em Qué Dindin, Akira resolve apostar em um funkeado poderoso, seguido pelo clima tropical de Rio, que conta com a participação de Sain (o Stephan, filho de Marcelo D2) e a atriz Priscila Marinho. Mas a composição chave do álbum é mesmo o pancadão de Mexe Mina, que traz uma base digna de Major Lazer. A produção da faixa pode ser de Apolo, mas Diplo ficaria orgulhoso do resultado e do mix provocante de funk carioca, marcha militar, dubstep e um pézinho no electro. Um rap tão diferenciado e com tantas referências dá gosto de ouvir.

Ao final das doze faixas de Meu Sotaque, Meu Flow, a vontade é de ouvir mais, muito mais. Agora é esperar que esse carioca cheio de gingado prepare rapidinho um segundo álbum – e que inove com tanta propriedade e tesão quanto nessa primeira empreitada.

* Stefanie Gaspar tem 22 anos, é jornalista, viciada em música e acha que o pancadão ainda vai mudar o mundo. Apaixonada por livros e colecionadora de vinil, aproveita todo o tempo possível para ouvir música e tentar conhecer tudo ao mesmo tempo.

Quer mais?
MV Bill pra senador? Akira Presidente!, por Daniel Cunha
Coletivo MTV fala de “Meu Sotaque, Meu Flow”
MySpace do Akira Presidente

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7 Respostas

  1. Gusta

    Excelente resenha de um disco surpreendentemente foda! Akira é realmente muito bom, tanto liricamente quanto com sua levada única. E a produção o leva a um nível que o rap nacional a muito tempo precisava alcançar.
    Comprei o álbum assim que ele saiu e venho divulgando insistentemente onde posso, pois acho que ele ainda não teve a divulgação e o reconhecimento que merece.
    Mas ainda a tempo. O Rap nacional merece a qualidade e a diversidade que o Akira tem pra oferecer.
    Parabéns Per Raps e parabéns Akira.
    Abraços!

    junho 7, 2010 às 14:55

  2. Assim como PoDu e Rapadura Xique-Chico, Akira Presidente representa a renovação e a evolução do rep brasileiro. O dia em que mentes fechadas abrirem os ouvidos da percepção musical… muita coisa vai mudar, a começar pela subserviência norte-americana. É preciso que o “ripirrópe tupiniquim” renove o discurso e seja mais original.

    Saudações do Sr. Cerne Lírico!!!

    junho 7, 2010 às 17:22

  3. engraçado que essa resenha praticamente só aborda os instrumentais. rap sempre foi, em primeiro lugar, as palavras, e aqui nem os assuntos das letras foram citados.

    vocês escrevem bem, só têm que se ligar mais.

    junho 7, 2010 às 21:51

    • Sei que você escreveu esse comentário na humilde e não na maldade. Por isso, te desafio: ao invés de apenas lançar a crítica, por que você não soma e fala sobre as letras do álbum “Meu Sotaque, Meu Flow”?

      Tenho certeza que vai acrescentar ao post, ainda mais se pensarmos que esse blog tem característica colaborativa. O desafio tá lançado…

      junho 7, 2010 às 22:56

  4. Stefanie Gaspar

    Na hora de escrever o texto, resolvi focar mais na parte instrumental exatamente por considerar que esse é o aspecto em que o álbum inova e se destaca.

    Mas é uma boa mesmo: fazer a análise das letras do álbum! Boraí

    =)

    junho 9, 2010 às 09:45

  5. Ninguém pode expor uma opinião diferente que ja surge até uma “batalha”… enfim, é o rap.
    Akira é bom mermo. Ouvi o EP e quero ouvir o CD.
    Muita paz e luz na caminhada de quem faz por onde.

    junho 9, 2010 às 11:29

  6. SENSACIONAL!!!!

    O som é um dos mais foda que eu já vi no brasil.
    Gosto de melodias, e o vocal black as vezes eh deixado de lado pelos rapers. Vamo nessa…muito loko o som!!!

    junho 9, 2010 às 16:50

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