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Quem é esse tal de sistema?

“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”. Jiddu Krishnamurti – por Daniel Cunha

Pelo quê os militantes do hip hop lutam desde a sua criação, no início da década de 70? Você saberia responder essa pergunta? Acredito eu que seja pelo bem estar das pessoas. Por uma sociedade justa e livre de preconceitos e elitismo, onde todos tenham as mesmas oportunidades para alcançarem o que desejam, seja lá o que isso for. É por isso que nesse post iremos apresentar aqui no Per Raps, apesar da falta da ligação “clara” com a “cultura hip hop”, o documentário Zeitgeist: Addendum (2008), do filmmaker americano Peter Joseph, que já há algum tempo circula como um dos mais populares vídeos da internet, mas ainda não teve a devida repercussão aqui no Brasil.

Zeitgeist: Addendum é a sequência de Zeitgeist (2007), filme que foi lançado na internet e traz críticas pesadas ao cristianismo, ao sistema financeiro mundial e contestações referentes aos ataques do dia 11 de setembro de 2001. É basicamente um filme sobre teorias da conspiração. Em Addendum, além de dar continuidade a algumas dessas teorias, Peter Joseph faz uma análise da sociedade e da maneira como ela é estruturada.

O primeiro alvo é, novamente, o sistema monetário, e o diretor explica como funciona o processo de criação de dinheiro em um sistema bancário de reservas fracionadas, utilizando os EUA como exemplo. Joseph mostra que o dinheiro é criado a partir de dívidas e, quanto mais dinheiro existe no mercado, mais endividadas estão as pessoas. O resultado disso é uma inflação perpétua, economicamente autodestrutiva. O criador de Zeitgeist mostra o sistema monetário como uma estrutura social paralisante, onde a grande maioria não tem chances de ascender socialmente, se revelando, na verdade, um sistema moderno de escravidão.

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Uma leve pausa pra falar de rap. Quando ainda fazia parte do Consequência, Kamau cantou em “Numtointendendu”: “Diz que o culpado é o sistema, mas então me explica, quem é esse tal de sistema que não se identifica?”. Essa frase soou bem na época, já que muitos dos artistas e grupos se limitavam a reclamar e atacar o tal “sistema” levianamente, mostrando pouco conhecimento sobre o tema.

Dê o play em Consequência, “Numtointendendu” (Prólogo EP/ 2002) http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-03-04T09_13_50-08_00.mp3″

Hoje, vemos que o número de rappers interessados em falar de questões como essas foi bem reduzido, o que por um lado, é preocupante. Existem dezenas de maneiras de descrever o sistema – e Peter Joseph nos apresenta algumas delas – mas, assim como mostra o filme, o “sistema” (a forma como a sociedade é estruturada) é mesmo um dos grandes inimigos do bem estar das pessoas. Os tempos mudaram e o tema não precisa mais ser tratado com ingenuidade, mas para vencer, ainda é preciso conhecer o inimigo. Portanto, é fundamental conhecer o tal “sistema”, como funciona, os meios em que ele habita, quais são os trâmites. A informação é o melhor aliado nesta luta e, como amplificadores da informação, este também é um papel dos artistas.
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Em um segundo momento, o filme também apresenta o trabalho dos “assassinos econômicos”, que trabalharam por baixo dos panos para que os EUA conseguissem criar um império mundial clandestinamente, e o conceito de “Corporatocracia”, um grupo de indivíduos que gerenciam as grandes empresas e agem como imperadores, controlando a mídia e os políticos.

E qual a solução para transformar essa situação? É claro que não há uma resposta pronta e nada será resolvido em um passe de mágica. O filme apresenta uma nova proposta de organização da sociedade, o The Venus Project, ideia do cientista americano Jacque Fresco que propõe o comum aproveitamento dos recursos do planeta Terra por todas as pessoas e uma economia mundial baseada em recursos, ao invés do dinheiro.

O Projeto traz algumas ideias para cada setor da sociedade (como educação, trabalho, transportes etc.), mas achar que ele poderia ser viabilizado de uma hora pra outra seria um pouco ingênuo. O negócio é entender que ele mostra caminhos interessantes e, portanto, é legal ficar atento para iniciativas que apontem para direções semelhantes.

Assista aqui o filme Zeitgeist Addendum, na íntegra

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Projeto Vênus

E você, já assistiu o documentário? O que achou? Tem indicações de outras obras com temas semelhantes? Deixe sua opinião nos comentários.

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7 Respostas

  1. MUITO BOM o texto! Zeitgeist é um vídeo excelente mesmo, ainda não vi o Addendum, mas parece levar em conta mais o lado econômico do mundo que a gente vive.

    O que assusta no rap começar a deixar de lado a questão do sistema é a perda de foco, o esquecimento da condição primordial da música, falar a verdade dos guetos, das populações abastadas, ser a voz dos excluídos.

    Achei muito interessante a abordagem econômica da parada, Zeitgeist fala sobre um mundo que a gente mesmo nem imagina que possa existir.

    Fica como indicação o Livro “A Verdadeira história do Clube Bildenberg”, sobre uma conferência anual fechada a 130 pessoas – entre eles banqueiros, executivos, donos de corporações de mídia – apontadas como os donos do mundo.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Clube_de_Bilderberg

    Abraço,
    Robas

    março 4, 2010 às 16:27

    • Daniel Cunha

      Legal Robson, concordo com você sobre a falta de foco. Acredito que foram algumas músicas de rap que me despertaram uma consciência social, quando ainda era adolescente, e vejo a geração atual fazendo muito mais músicas introspectivas, filosóficas ou falando do rolê. Claro que eu gosto de tudo isso, é o que eu mais ouço, mas mesmo assim sinto falta de alguns raps ‘dedo na ferida’, tipo Televisão, do Face da Morte com o GOG, por exemplo. Foram músicas importantes pra minha formação, e acho que os mais jovens não têm muitas referências de críticas sociais no que está sendo lançado de uns anos pra cá…

      Não deixe de assistir o filme e valeu pela indicação do livro, vou atrás.
      Abs

      março 4, 2010 às 17:47

  2. Viny Deriva

    Muito bom o texto Daniel.

    Acho que se nos atermos a falar só do Hip Hop, eu discordo um pouco da questão posta pelo Kamau. Acho que o Sistema já foi identificado a mais ou menos um século e meio! Na verdade foi o Hip Hop que nunca quis conhecê-lo a fundo, os que quiseram, são exceção. Poucos no Hip Hop realmente usaram o movimento como ferramenta política real, defendendo posições políticas definidas, a coisa sempre ficou muito no plano da crítica à cultura, o que é muito importante também, mas que não pode ser entedendida como algo a parte do “mundo político”.
    É preciso que o Hip Hop sofra uma aprimoramento e até mesmo um amadurecimento conceitual. O Potencial é grande, não para salvar o mundo, mas para ser a maior rede de idéias e contestação política já vista. Muito maior do que o Punk foi, pois o Hip Hop consegue chegar a uma parcela muito maior da população.

    Bom texto camarada, ótimas reflexões!
    Abraço

    março 4, 2010 às 17:10

    • Daniel Cunha

      Pois é, Viny, é o que eu disse, essa ideia do Kamau foi legal pra época, mas acho que os caras levaram isso muito a sério, a ponto de todo mundo desencanar. Ta faltando gente nova preparada pra falar de política, mas tem algumas coisas legais por aí. O próprio Kamau tem uma música no Non Ducor Duco, “Não acredite se quiser”, que segue essa linha. “O giz e o fuzil”, do Ataque Beliz, também tem uma crítica foda, tem que ouvir.

      Valeu, abs

      março 4, 2010 às 17:51

  3. Monge MC

    Dois Docs são muito interessantes pra incrementar a analise dos dois Zeitgeists e são eles: One -The Movie e The Corporation; ambos disponiveis para assistir na net!

    Bom texto ótima iniciativa e é Nóz!

    Hip Hop a Cultura é Eterna!

    março 5, 2010 às 02:51

  4. Muito interessante o trabalho desse diretor aí.. com muito conteúdo pra criticar o Status Quo…
    o Projeto Vênus é uma de várias idéias visionárias de um mundo de comunhão com a natureza e o Cosmos.

    As idéias sobre a sociedade, a manipulação da informação, do pensamento e do capital lembram as idéias de um filme sobre a vida de Alan Moore, o quadrinista que criou várias HQs para adultos, um dos primeiros a trabalhar nesse segmento de historias de heróis pra adultos. No filme ele fala dos elementos que usou nas histórias, criadas na maioria nos anos 80 e a relação que esses elementos tem com a sociedade da época. As suas mais conhecidas HQs que até viraram filme são “V de Vingança” e “Watchmen”, histórias bem politizadas. O cara é também um mago, e estuda as religiões do planeta. O filme fala sobre teorias de conspiração, magia, religião, apocalipse, cultura pop e varias outras coisas do imaginário social.

    Aí deixo o link do youtube pro filme do Alan Moore.
    Assistam aE
    Valeu!

    março 5, 2010 às 13:21

  5. Zeitgeist é foda. Fiquei uns 2 dias atordoado pois vi na mesma madrugada o Zeitgeist e o Addendum. E quanto mais eu conheço o mundo mais percebo que preciso “me conhecer cada vez melhor”. Existem muitas coisas que simplesmente estão fora do nosso alcance, e depois de saber de tudo aquilo, o importante é saber como reagir perante o que voce nao pode mudar. É frustrante, mas temos sérias limitações.

    março 5, 2010 às 15:59

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