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Ataque Beliz – Reconceito (2009)


O grupo brasiliense Ataque Beliz liberou para download nesta sexta-feira todas as faixas de seu novo álbum, Reconceito. Lançado no final de 2009, o trabalho do grupo já reverberava pela internet e rendeu espaço na mídia, inclusive com uma entrevista polêmica no maior jornal do DF, o Correio Braziliense. Em seu site oficial, o grupo também criou o projeto Sua Nota, uma maneira de arrecadar recursos onde os fãs podem realizar doações baseados em quanto acham que vale o disco.

Formado desde 2001 pelo DJ Gusta e os MC’s Anderson Maya, Alisson e Higo Melo, o Ataque Beliz (se pronuncia Ataque Bêlíz) chega com essa pedra que visa rever os conceitos sobre o rap como música e o hip hop como estilo de vida pelos integrantes. O saldo musical disso você poderá conferir ouvindo o disco. Para complementar, acompanhe a resenha feita por Daniel Cunha.

Ataque Beliz – Reconceito

Ataque Beliz – “O giz e o fuzil”
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-02-26T14_03_28-08_00.mp3″

Brasília é a principal referência do gangsta rap no Brasil. O estilo, adotado por grupos como Cirurgia Moral e Tribo da Periferia, é o que faz a cabeça da grande maioria dos adeptos do rap nacional por lá e, portanto, dá pra imaginar o quanto é difícil que alguém com uma proposta diferente conquiste seu espaço. Nos últimos anos, essa tarefa foi melhor conduzida pelas mulheres: Flora Matos e Lívia Cruz são os maiores exemplos de artistas brasilienses que conseguiram se destacar em outros lugares do Brasil, fazendo um tipo de som que pouco tem a ver com o estilo popularizado pelo grupo americano N.W.A., no final dos anos 80.

É nesse contexto que surge o Reconceito, primeiro disco oficial do grupo Ataque Beliz, lançado no final do ano passado. Com pouquíssimas aparentes conexões com o mundo do gangsta rap, o grupo surpreende pela pluralidade na temática das letras. Fazem reflexões sobre o rap e o hip hop, falam de poesia, de amor e, o mais interessante, fazem críticas sociais importantes e bem argumentadas – coisa que anda meio em falta no rap tupiniquim – sempre com muita propriedade. Do lado do som, o saldo também é bastante positivo; várias das músicas contam com o acompanhamento de uma banda de apoio, dando um aspecto mais orgânico e um toque jazzístico às composições do grupo.

Musicalmente, os destaques do álbum vão para ‘Madrugada’ e ‘Eu e os camaradaz’. A primeira traz um clima de festa reminiscente, que lembra as músicas de baile dos anos 80, com belíssimas frases de sax e um refrão contagiante, cantado por Wlad Borges. Na segunda, uma linha de baixo complexa e bem definida, somada a alguns elementos do jazz e uma batida em downtempo, são o pano de fundo para o assunto que não falta em discos de rap: o rolê pela noite.

Se o jazz é o ritmo no qual os músicos do Ataque Beliz mais passeiam, é no rock que eles acertam em cheio. Em ‘O giz e o fuzil’, riffs de guitarra criam o ambiente para a melhor letra do disco, onde os MCs fazem uma parábola entre a educação e a criminalidade. A música, vencedora da etapa nacional do RPB Festival de 2009, fala sobre como a educação que é oferecida às nossas crianças é contraditória e deficitária, e não oferece recursos para que possam ascender socialmente, tornando o fuzil a principal opção para uma mudança de cenário. “O grito do fuzil reprimiu o que o giz pôde dizer, você se contradiz na minha hora de aprender / ninguém vai me enganar depois de tudo que eu vi, você pode me negar tudo o que aconteceu, se o estudo não condiz com a vida que eu vivi, eu vou te devolver aquilo que você me deu”.

Um outro ponto alto do disco são as duas músicas em que os MCs do grupo fazem uma espécie de terapia do espelho com o mundo do rap e do hip hop. ‘Bom som’ tem uma letra bem direta e explicativa que poderia ser utilizada como cartilha para os artistas que não tem certeza se fazer música é mesmo o negócio deles (“O público quer bom som, o público quer bons shows!”). Na outra reflexão, em ‘As maravilhas do hip hop’, a discussão é sobre aqueles que acham que participar da cultura pode ser um bom caminho para se ganhar fama ou dinheiro, coisa que muitos ainda acreditam. Eles esmagam essa tese relatando as dificuldades enfrentadas por MCs, DJs, bboys e grafiteiros em suas trajetórias.

Resumindo, Reconceito, do Ataque Beliz, não é um disco recheado de hits, prontos pra estourarem pelas rádios do país. É bem mais do que isso. Um disco sólido, muito bem produzido e com conteúdo de sobra para nossos ouvidos. Nas primeiras audições, me lembrei da adolescência, quando ouvir discos de rap ainda era pra mim como ler um livro, tamanha a quantidade de informações novas que ia absorvendo. Compre e/ou baixe o disco, e boa “leitura”!

Mais:

Site oficial
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14 Respostas

  1. Camila

    Era um grupo como esse que faltava na biblioteca. Coisa rara se assim posso dizer. Onde o Rap de qualidade é quase invisível e temos que optar pelo rap americano como mos def, the roots, etc…mas como disse, ainda bem que chegaram esses garotos pra complementar o cenário.

    eu li a materia, nem sabia quem era, baixei o disco e digo: vale a pena!

    du caralho!

    grande texto.

    abs

    Camila

    fevereiro 26, 2010 às 19:48

  2. Pingback: uberVU - social comments

  3. Tekão

    A primeira vez que vi o show desses caras, fiqui encabulado com tanta versatilidade e desenvoltura com as músicas, repertório cheio de swing e animação com o público.
    Fiquei na VIBE pra comprar o cd, mas eles enrolaram que só pra colocar nas ruas, na época ficava puto esperando, mas hoje sei qual o motivo..eles queriam fazer o melhor e fizeram.

    sucesso belizes

    Bela resenha

    fevereiro 26, 2010 às 20:51

  4. Nossa “oração” é que esse disco (e os próximos…) soe tão bem a todos ouvidos como soou ao do Daniel. Ótima resenha.
    Baixem, divulguem, critiquem.
    Conheçam nosso site ( http://www.ataquebeliz.com )

    fevereiro 26, 2010 às 22:55

  5. James

    Cresçam e apareçam. Os palcos estão solitários, precisando de vocês.

    fevereiro 27, 2010 às 01:30

  6. Carlos Maciel

    Isso mostra como Brasília tem uma grande referência no RAP nacional! Os caras são aqui, representam e apresentam a cara do rap. Alguns não curtem, preferem o gangstar rap, outros aprovam e batem palma assim como EU!

    sucesso na caminhada.

    fevereiro 27, 2010 às 13:24

  7. Fora o cenário da música atual, seja o de Bras – Ilha ou de todo o páis, está sedento de caras, sons, melodias e letras novas para que assim voltemos a nos identificar com nosso som, e não com o que vem de fora carregados de intenções de nos representar, estamos também precisando de boas observações, críticas e receptividade tal qual teve o Daniel (alguma jornalista do Correio podia aprender com ele). Excelente leitura da obra, analítica, precisa e ainda sugere o consumo!
    Mas quero ressaltar que o mérito não é só da boa escrita do Daniel… O Ataque Beliz é um mote e tanto pra se falar coisas boas né! SRSRSRSR
    Bom demais estarmos juntos… Beliziando.
    Hoje é Isso

    fevereiro 27, 2010 às 19:56

  8. Nine Ribeiro

    Eu sou suspeita né de comentar pq pago pau mermo! Som de qualidade, envolvente…fora que os meninos né sao lindos! cada um com seu jeitinho cativante, o Higo é o mais chato mas é lindo tb…huahuahua Amo todos! Que Deus continue abençoando e inspirando esse grupo!!! Bom SOM!!!

    fevereiro 27, 2010 às 23:19

  9. edgar pereira

    Fico muito feliz em ver que os caras estão fazendo barulho no cenário. Sei que a batalha está longa ainda, mas sei o que querem e por que vieram…acompanho há muito tempo a trajetória e sei o quanto é importante cada luta que eles enfrentam e o mérito está ai…chegando aos poucos!
    Sucesso é pouco pra desejar, palavras podem falta pra dizer o que eu desejo a essa rapaziada!
    Boa resenha, vi que foi feita de faixa a faixa e isso deixa interessado mais ainda quem ainda não tem esse disco.

    por isso, baixem sem desmerecer!

    e caminhando família Beliz!

    abraço!

    Rasta

    fevereiro 28, 2010 às 17:43

  10. Se RAP é ritmo e poesia… hoje, afirmo que não há nada mais ritmado e poético que Ataque Beliz!
    Letras incríveis (que é pra pra gnt que pensa!), batidas na medida certa… e 1 coisa envolvente que até agora não soube definir!
    O disco demorou pra sair… mas é aquilo do processo de lapidação… pra ficar perfeito, demora… Não que esteja no ápice da perfeição… mas tá no caminho… e a parada do envolvente, acho que é AMOR e verdade!
    Ataque Beliz é RITMO, POESIA, AMOR E VERDADE! ficou em dúvida?! Confere no disco… é a prova dos 9!

    Boa matéria… Bom som… Bom show.

    fevereiro 28, 2010 às 18:49

  11. Daniel Cunha

    Obrigado pelos elogios de quem gostou da resenha, valeu! Mas o negócio aqui é mesmo falar do trampo do grupo, que apesar de já ter uns anos de estrada, traz um fôlego novo pra cena. Quem ainda não baixou ta marcando, escutem o Ataque Beliz!

    fevereiro 28, 2010 às 20:07

  12. bruno

    caralho, que cd foda, ah mto tempo nao ouvia algo assim no Brasil, mto bom mesmo.

    fevereiro 28, 2010 às 22:19

  13. Grande resenha. Como várias já feitas!
    Bom album! esses eu conheço das antiga…

    Só espero que os olhos se abram não somente para alguns poucos que conseguem penetrar no clássico bairrismo SP-RJ.
    No DF não queremos ser bajulados, nem excluídos. Queremos que o espaço seja democrático para todos do país.

    a qualidade fala por si própria…

    março 1, 2010 às 11:52

  14. Suely Mesquita

    Sabe o que deixa em transe? É prestar atenção nas letras que envolvem sem perceber, uma cadência harmônica que transmite uma jogada de palavras, isso é mágico.

    “A Poesia” por exemplo, foi transmitida de uma forma simples e verdadeira, foi colocada cada detalhe que uma pessoa sente quando escreve, quando lê e quando se indentifica.

    Gostei do disco e recomendo, pois o Ataque Beliz conseguiu colocar o disco nas ruas e conseguiu fazer ele tocar em qualquer momento do cotidiano.

    Sorte Ataque!

    março 1, 2010 às 13:08

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