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Don L. rumo a Tóquio: “Eu quero o topo”

“A gente tem poder e o mundo quer te derrubar, uns nascem pra fazer regra e nóis nasce pra quebrar” Don L. (‘Mel e Dendê Remix’) – por Daniel Cunha

Há cerca de três anos, um grupo de Fortaleza, no Ceará, balançou o cenário do rap com o lançamento da mixtape Dinheiro, sexo, drogas e violência de Costa a Costa. Formado por Don L., Nego Gallo, Junior D, Preto B e Flip Jay, o Costa a Costa surgia para o público do Brasil com uma postura diferenciada, falando com propriedade sobre um cotidiano conturbado em que se misturavam justamente “dinheiro, sexo, drogas e violência”.

No mesmo ano, o grupo foi pivô de uma polêmica entrevista concedida ao então Bocada Forte (hoje Central Hip Hop), quando declararam que a maioria do que se ouvia no rap nacional da época era perda de tempo (confira a entrevista aqui). De lá para cá, algumas novidades como o clipe de ‘Costa Rica’, a faixa ‘Vida Vadia’, presente na mixtape Rotação 33, de Kl Jay e, mais recentemente, músicas inéditas (incluindo ‘Não Para’, parceria com Dj Hum) da principal voz do Costa a Costa, o rapper Don L., que se prepara agora para gravar seu disco solo.

E 2010 é o ano. Don L. se diz pronto para ocupar o posto que merece, “o topo”, e é sobre isso que ele fala na entrevista feita pelo Per Raps. Confira:

Don L. – Êxodo e Êxito
http://raps.podomatic.com/enclosure/2010-02-22T08_28_59-08_00.mp3″

Per Raps: Na música Essência, você cita um momento da sua vida como uma espécie de divisor de águas, em que você decidiu deixar pra trás a vida que levava para se dedicar completamente à arte. Você pode falar um pouco sobre esse momento?
Don L.: “Eu senti que a tristeza ia chegar e mudar / ia tomar meu coração”. Eu tive que interromper uma fase da minha vida no auge. Deixar tudo pra trás e começar do zero. Parece difícil. Mas pra mim, mais difícil é continuar no erro, sabendo que isso tá me atrasando, me tomando muita energia que eu posso canalizar pra uma parada mais positiva. Quando fica óbvio que você precisa mudar é bom mudar logo, porque pode ser sua última chance. Tem que começar mudando por dentro, e as coisas começam a mudar por fora. Depois vem todas as outras consequências da sua mudança. As primeiras a aparecer são as más. No meu caso houve dívidas, falta de grana total, stress. Ter que aturar o que eu sempre odiei: não poder comprar um pano bom, um tênis novo, não poder sair de rolê e beber um bom drink, comer mal, e por aí vai… Não gosto de enfatizar essa parte. Na verdade, o grande segredo está em não enfatizar essa parte. O que você pode fazer a não ser encarar? Existem várias coisas boas acontecendo na sua vida nesse exato momento e você não enxerga, você se concentra nas más. Aí é que tá o erro. Depois do dilúvio, o sol há de brilhar. E mesmo um dilúvio é um milagre da natureza, é uma renovação, e você tem que respeitar isso.

Per Raps: As músicas presentes na mixtape do Costa a Costa foram feitas na sua fase anterior?
Don L.: Sim, a mixtape foi feita na fase anterior. Mas isso não quer dizer que eu vá negar a importância do que foi feito e dito ali. Pelo contrário, com certeza marcou o rap nacional. Chocou, abalou, motivou, sacodiu muita gente. Agora me sinto preparado pra fazer meu primeiro disco oficial. Aprendi com os erros, percebi os acertos, e agora tô pronto pra fazer novas apostas. Algumas serão erros que eu vou me arrepender no futuro, e outras serão acertos, e aprender com isso é o que eu chamo de evolução.

Per Raps: A temática das suas letras está mudando muito em relação às que foram feitas pra mixtape?
Don L.: Eu tenho um milhão de novos temas pra falar, não tem sentido eu ficar só nos antigos. Mas também não tem sentido eu não voltar aos temas antigos, sob uma nova visão, mais experiência. A única constante é coração. Isso você vai sempre encontrar no meu som.

Per Raps: Em “Êxodo e Êxito”, um de seus últimos lançamentos, assim como em algumas músicas do Costa a Costa, você se coloca como um dos melhores rappers da cena (vide “fala o nome do rapper acima do meu nível e eu deixo essa merda agora pra ti, primo”) – e nós concordamos. O que você acha que te diferencia dos outros?
Don L.: Acho que tenho flow, letra e produção num nível alto, sem uma coisa prevalecer em detrimento da outra. Isso é difícil de se ver. Mas não acho que sou o único. Tem outros e outras bons pra caralho por aí. Alguns tão trampando com os melhores. E eu tô fazendo tudo sozinho, longe de onde as coisas acontecem na música. Agora imagina aí, quando eu puder trampar com os melhores músicos, produtores, assessoria, como vai ser? Eu não falo isso como uma forma de me gabar nem desmerecer os outros, saca? Mas levando em consideração as condições adversas que tive e tenho que superar pra fazer o que eu faço, a certeza de que estou entre os melhores é o que me mantém trabalhando. Se não fosse isso, eu já tava em outra há muito tempo. Aliás, se alguém tiver palavras pra me convencer do contrário, eu saio dessa agora.

Per Raps: Como você  define o rap pop feito no Brasil? Para você, aonde sua música se encaixa nesse conceito de rap pop e aonde ela se distancia?
Don L.: Acho toda essa discussão sobre o pop uma parada muito confusa, principalmente porque não existe uma definição de pop. Não dá pra definir o pop como se fosse um estilo. Pop é mais um certificado de potencial de venda do que um estilo de música ou mesmo de comportamento. Pode ser uma merda, e pode ser do caralho. Caetano Veloso é pop, e Latino é pop. Você pode botar eles dois na mesma prateleira, mas não dá pra botar eles dois no mesmo patamar artístico. O pop pode ser uma coisa fabricada, artificial, pra vender no verão e depois ser jogado fora. Ou pode ser uma coisa que tenha valor artístico, que vá sobreviver ao tempo, e até que seja contestador, mas que seja bem aceito pela sociedade em geral, ou por uma boa parte dela que justifique o retorno financeiro do investimento necessário. Nos dois casos tem que ter investimento. É caro ser pop.

Acho que minha música tem, naturalmente, sem forçar, potencial pra ser pop. Como o Marcelo D2, Negra Li, MV Bill, Gabriel o Pensador, entre outros, tiveram: sendo eles mesmos, fazendo a música que eles gostam e acreditam, com maturidade suficiente pra que essa música possa atingir um grande público, cada um no seu estilo. O que eu não tive ainda foi o investimento necessário. Mas pretendo. Não vamos ser hipócritas. Quem não quer tocar no palco principal dos maiores festivais de música pop? Pra isso precisa ser pop. Lógico. O erro é achar que você precisa vender a alma ao diabo pra chegar lá, que você precisa fazer uma coisa completamente estúpida, que você precisa tirar o conteúdo do seu trabalho, etc… Mas é o contrário, você precisa estar muito maduro artisticamente.

As pessoas quando falam mal do pop, falam se referindo a artistas apelativos, mas esquecem que Alicia Keys, Norah Jones, Jay-Z, Kanye West, Caetano Veloso, Los Hermanos, Marisa Monte, O Rappa, Zeca Pagodinho, todos eles são pop, e são grandes artistas que ainda vão ser ouvidos daqui 20 anos, o que não vai acontecer com o Latino. Então, não posso falar do pop. O que eu falar do pop vai ter que ser algo que se aplique pro Latino e pr´O Rappa, ou seja, musicalmente nada.

Per Raps: Em entrevista para o Bocada Forte há alguns anos, você  falou algumas coisas sobre o “velho rap nacional”. Hoje, em 2010, vemos que muitos dos grupos e artistas que perpetuavam as ideias que você criticava sumiram do mapa. Acha que é a comprovação de que o que você falava estava certo?
Don L.: Acho que o tempo provou. Não preciso nem dizer. Mas acho que errei também numa coisa. O que eu falei tava certo mas a maneira como falei tava errada. E isso faz muita diferença. Mas é como eu me sentia no momento. Foi de coração. Com todos os sentimentos bons e ruins que existiam no momento, e a minha indignação com a hipocrisia, e com tudo que eu tava vivendo a flor da pele, mas foi de coração. Quando falei naquela época de ‘velho rap nacional’ não me referi em nenhum momento à velha escola. O conceito de ‘velho rap nacional’ era sobre ideias e práticas velhas que estavam acabando, e acabou, com a credibilidade e o resto de mercado que o rap tinha. Mas a maneira que eu falei isso estava errada, porque as ideias eram construtivas, mas o tom era repulsivo.

Per Raps: Quem, da velha escola, você  acredita que continua fazendo um trabalho relevante/importante?
Don L.:Não tenho ouvido muita coisa. Sinto falta do Xis no jogo. Espero que ele venha com trampo novo em 2010. O rap precisa se reafirmar como música. E acho um cara como o Xis faz falta.

Per Raps: Você  mesmo produz a maioria das suas músicas? A qualidade dos beats, desde a mixtape, também chamaram bastante a atenção de quem ainda não conhecia o trabalho do grupo. Como você entrou nessa área de criação musical? Teve o auxílio de alguém ou foi meio autodidata?
Don L.: Não tive outra opção, tive que ser autodidata. O máximo de auxílio que tive foi assistir o DJ Paulão e Clodoaldo, do grupo paulista Resumo do Jazz, quando eles vieram pra Fortaleza produzir a primeira coletânea de rap daqui, em 2004. Eu digo que eles são meus mestres. Fiquei olhando eles produzirem, sem querer perguntar muito pra não atrapalhar. Depois foi uma longa jornada de aprendizado e correria pra comprar os equipamentos básicos, estudar música, engenharia de som, pesquisar música, história da música e estudar inglês, porque o que você pode encontrar de graça na internet sobre isso é em inglês… Tudo porque eu tinha uns sentimentos escritos num papel e precisava botar pra fora, e não queria depender de ninguém pra isso.

Per Raps: Eu conheci as ideias do Osho por meio do myspace do Costa a Costa, li alguns livros e me identifiquei bastante. Onde você acha que as ideias dele se encaixam na sua carreira como músico?
Don L.: Isso é uma parada muito pessoal. Mas interfere diretamente na minha música, porque minha música é pessoal, às vezes introspectiva. As ideias dele se encaixam na minha vida como um todo. O Osho é um cara que pode fazer todas as suas certezas e convicções caírem por terra, e te mostrar um ponto de vista completamente novo, a partir do qual você vai ver todas as coisas de uma forma diferente.

Per Raps: Sobre seu disco solo, existe previsão de lançamento? Em que pé  estão as gravações? O que você  pode nos falar sobre ele?
Don L.: Essas músicas que estão no MySpace e disponíveis pra download são as músicas de transição. As músicas do disco ainda estão por vir. Estou com mais umas cinco prontas, mas ainda não são as do disco. São ainda dessa fase transitória. Vou lançar em breve. Começo a produzir o disco mesmo em março. Espero terminar em um ou dois meses. Pode parecer pouco, mas tem muita vivência acumulada, é só botar pra fora. Depois tem mixagem, masterização, negociação e aí não sei quando lanço.

Per Raps: Nesse seu trabalho sozinho, como funciona, nas músicas, sua relação com Fortaleza? Você faz questão de fortalecer a imagem do Ceará e do nordeste ou tenta fazer algo mais universal, sem necessariamente deixar tão claro o lugar de onde vem? Acha que na música também ainda existe muito preconceito do sul do Brasil em relação ao norte e nordeste?
Don L.: Tento fazer algo mais universal, deixando claro o lugar de onde eu vim. Deixar claro o lugar de onde você vem é indispensável pra se tornar universal. Eu fui em Porto Alegre agora, do outro lado do país, uma cidade muito diferente da minha, mas que tem tanta gente que se identifica com minha música quanto tem em Salvador. Não acho que na música em geral exista preconceito com o norte e nordeste, mas no rap sim, principalmente com o nordestino que tá no nordeste ainda. Quando o cara é nordestino mas tá no Rio de Janeiro ou São Paulo, não sei se é tanto. Porque não é uma coisa tipo racial, é mais uma ideia de que o nordeste é ainda muito atrasado ou caipira, e o rap é uma música de grandes centros urbanos. Acho que é isso. Falta de conhecimento total, porque o nordeste tem três das cinco maiores capitais do país: Recife, Salvador e Fortaleza. Quando não é isso, é medo.

Mas na música em geral, acho que é até valorizado, porque historicamente, em todos os estilos, os nordestinos se destacaram: João Gilberto, Caetano Veloso, Bezerra da Silva, Raul Seixas, Luíz Gonzaga, e por aí vai… A lista é interminável. É certo que eles tiveram que ir pro sudeste um dia. Isso é inevitável até hoje, a não ser que você faça forró elétrico em Fortaleza ou axé em Salvador.

Per Raps: Por fim, o que você  espera da sua carreira como rapper? Onde você  acha que pode chegar?
Don L.: No topo. No máximo patamar. Num patamar que ainda não existe paralelo.

Mais:
MySpace
Twitter

Você também pode baixar as músicas de Don L. nos links:
Essência, Êxodo e Êxito e No Baile
Não Para

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7 Respostas

  1. Pingback: uberVU - social comments

  2. muito boa entrevista, parabéns. Don L. é figura e merece esse espaço, é um dos rappers mais originais do Brasil.
    entrevistei ele pro Gafieiras em 2008.
    segue o link – http://tinyurl.com/yg2lnnv

    fevereiro 22, 2010 às 18:13

    • Valeu pela dica da entrevista, Dafne! A ideia que rolou lá no Gafieiras com ele é bem legal. Vai servir de comparativo do que rolava em 2008 e agora, em 2010.

      fevereiro 22, 2010 às 18:22

  3. DON L. com certeza tu mereces fazer sucesso!!! VIDA VADIA é um clássico, chapei naquela música desde a primeira vez que eu escutei… isso sim é rap nacional de qualidade, original do nordeste… espero que o cd esteja a venda em algum, pois tenho interesse em comprar… Abraços, valeu.

    fevereiro 22, 2010 às 21:38

  4. Dani

    Parabéns ao Don L. e ao perraps pela entrevista!

    Luz na caminhada…. um só!

    fevereiro 23, 2010 às 20:22

  5. Admiro muito o trampo do Costa a costa, é isso Don L, tem que trampar, se não trampar a parada não fica boa.
    Espero que vão aparecendo estas pessoas de talento , porque o Brasil é grande e tem muitos diamantes ainda escondidos.

    fevereiro 24, 2010 às 02:29

  6. agosto 23, 2010 às 11:38

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