Blog de informações sobre hip hop, rap brasileiro e cultura de rua

Rap não é moderno, é conservador

O rap é conservador demais para o mundo de hoje – por Carol Patrocinio

Não sei você, mas eu leio a Veja toda semana. Ok, mentira. Não leio, mas folheio todas as páginas só pra ver se tem algo absurdo demais para passar batido. Não, não sou uma leitora por prazer, mas para saber o que tem sido falado e o que a maior parte das pessoas no país passará a levar como verdade absoluta da semana. De vez em quando sou surpreendida e encontro algo realmente bom, que merece ser lido e, talvez, passado para outras pessoas.

O personagem das páginas amarelas dessa semana é o escritor inglês Nick Hornby. E o que isso tem a ver com o Per Raps, certo? O cara é um dos maiores estudiosos da cultura pop que consegue transmitir esse conhecimento de forma atraente. Ele é autor de diversos livros, entre eles “Alta Fidelidade“, que virou filme e ganhou o coração de milhares de apaixonados por cinema e música. A entrevista trás, além de curiosidades sobre sua carreira e motivações, um ponto de vista bastante interessante sobre o rap – que obvia e erroneamente é chamado de hip hop na publicação.

Hornby diz que o rock perdeu seu lugar de contestação social e que quem ainda faz isso é o rap. Ok, todos nós concordamos. O rap busca mudança, transformação e tal, mas sabe o que mais ele diz? Que o que choca no estilo musical é a atitude conservadora. Pois é, o rap não é moderno, ele apenas traduz certas coisas que seu avô ou tataravô também acreditavam – guardadas as devidas proporções, é claro.

Se você for levar em consideração algumas formas de se fazer rap vai encontrar letras machistas, em que a preocupação maior é o status social e o dinheiro. O contexto é aquele mesmo de sempre, em que o homem é superior e a mulher submissa, que pode ser comprada facilmente porque não tem outra saída. Existe algo mais conservador do que isso?

Para completar, podemos ver a atitude de muitos representantes do rap que não respeitam as mulheres no mercado da música e acreditam que elas precisam ser masculinizadas para poder pertencer de verdade ao universo que, na cabeça deles, foi criado por e para homens.

Na verdade esse é um post pra fazer a gente pensar. Será que, ao invés de mudar o mundo para melhor, não estamos reproduzindo uma mentalidade que já deveria ter sido deixada para trás sem nem nos darmos conta disso?

Melhorando ainda mais o panorama, o rapper Jay-Z, um dos que mais divulga a música e mais fatura com isso, trás a tona outra característica do rap: a segregação racial. Em uma festa do músico, na última terça-feira (16), as pessoas brancas que tentaram entrar na área VIP foram barradas por seguranças que diziam que nenhum branco poderia passar dali. É claro que Jay-Z diz que não teve nada a ver com isso, mas os fatos estão aí.

Na nossa sociedade, por mais que não se queira acreditar, mulheres apanham de namorados (vide Rihanna), são obrigadas a usar burcas em nome da cultura e podem ser trocadas por camelos. Um lugar em que caras acham que quem gosta de homem é gay e mulher gosta de dinheiro, muitos encontram no tráfico e na criminalidade uma forma de fazer parte da sociedade capitalista e a honra tem seu significado esquecido diariamente.

Vivemos uma situação em que negros ainda aguentam pessoas atravessando a rua para ‘não dar chance para o azar’ e brancos precisam provar que, realmente, sabem enterrar (se é que você me entende), temos que lembrar daquele tempo em que mulheres não podiam falar com homens, tinham que usar saias, cuidar da casa, e negros e brancos sentavam-se separados no transporte público. Lembra disso?

Então, sem nem perceber podemos estar trazendo tudo isso de volta. Mas ainda há tempo. E sabe, eu tive um sonho…

E o que você acha: o rap é realmente conservador em suas ideias? Registre sua opinião nos comentários!

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65 Respostas

  1. o rap ser conservador é bom ou ruim???

    fevereiro 18, 2010 às 14:21

    • Você é quem sabe. A gente só conta um ponto de vista, sem julgamento de valor. O que você acha?

      fevereiro 18, 2010 às 20:26

  2. Esta do Jay-Z eu num sabia, mais quando um artista cobra R$500 pra pessoa ter acesso ao camarote de sua festa ele também tá fazendo a mesma coisa não?

    Dá uma olhada nos blocos de carnaval de Salvador, tipo os do Asa de Águia, Chiclete com Banana e cia, estes blocos chegam a custar R$1.000.00 por dia, olha a cara de quem tá dentro e quem tá na corda. Será que o Vovô tá errado de só liberar negros pra sair no Ilê Aiyê?

    Adorei o texto, mais estas questões raciais não foram resolvidas ainda, tem muita coisa pra se reparar, discutir, quetionar, medir antes de achar que preto e brancos são iguais em direitos.

    Outra coisa que queria colocar é que apesar do evidente “machismo” na lista de VIPs nas festas de rap, poucas mulheres tem atitude de pagar pra entrar na festas de igual pra igual, são muitas e muitas questões sociais que vão além do “rap”.

    fevereiro 18, 2010 às 14:23

    • Concordo, Rangell.

      Realmente ainda há muito debate relativo às questões raciais. A situação do negro deve ser discutida para depois começarem a falar do problema social, por exemplo. Assim como a questão da mulher deve entrar em pauta antes de se falar em qualquer igualdade de gênero. O rap entra nessa história levantando questões para serem discutidas pela sociedade…ou não. E se não, que pelo menos não carregue preconceitos velados ou escancarados. Se dizem que o futebol traduz o comportamento da sociedade no Brasil, talvez possamos fazer essa comparação com o rap também, só que em um nível menor. Mas qual seria o resultado dessa equação?

      fevereiro 18, 2010 às 15:30

  3. PARA REFLETIR GALERA!

    Parabéns pelo texto, Carol!

    Beijos

    fevereiro 18, 2010 às 14:24

  4. Só não concordo com o “Estamos trazendo isso de volta”, acho que nunca abandonamos isso. É uma questão que vai além de questões de machismo ou feminismo, é algo que está na mente das pessoas, dos artistas.

    O rap é conservador, sim, e pode cair num abismo sem fim, bundas, glamour, homem-arrasta-mulher-pelo-cabelo mas ainda acredito em artistas que narram a vivência das ruas, ou mesmo a marginalidade, as condições de vida.

    Acredito que ainda existem rappers que traduzem o espírito da época que vivem e o fazem muito bem. Eles dão a volta em tudo isso, sem esbarrar no que é velho, obsoleto e deve ser deixado de lado, como todo bom passado.

    Mas eu também só “tive um sonho”.

    fevereiro 18, 2010 às 15:24

  5. Essa parte da entrevista do Hornby me deixou muito intrigado.

    Em primeiro lugar, acredito que nos EUA, principalmente, o Hip Hop perdeu totalmente o foco, o que leva essa situação no camarote vip do Jay Z.

    Acho que é mais ou menos como Dan LeSac e Scroobius Pip cantaram em “Thou shalt always kill”: Guns, Bling and Bitches nunca foram parte dos quatro elementos nem nunca serão.

    O que eu escuto de RAP nacional (menos do que gostaria), mostra realmente o cotidiano, e geralmente são tantos percalços e fatos de cotidiano para serem narrados que não sobra tempo para o que acontece nos EUA, onde o RAP é bem mais absorvido no pop.

    No mais, parabéns pelo blog de vocês!

    Abraços,

    Gabriel Lucas
    http://www.factoide.com.br

    fevereiro 18, 2010 às 16:17

  6. Yuri W. Nunes

    Não é o rap quem é conservador: o mundo ainda é.

    As mulheres ainda são vistas com os mesmos olhos de sempre, os negros ainda sofrem muitos preconceitos. E isto não fica apenas nas questões de gênero ou raça, envolve muitos outros valores.

    O que vemos veiculando por aí, seja em mídias ou em discursos, é quase sempre uma visão conservadora que não traz consigo nada de diferente. No máximo, te diz a mesma coisa só que de maneira diferente. E aí você acha que aquilo está rompendo um padrão, quando na verdade está apenas contando o mesmo padrão de outra forma.

    Mas, quem quer fazer parte da vanguarda? Quem quer correr os riscos de confrontar e ser interpretado de outra maneira? É difícil.

    Até mesmo o rap que narra uma realidade mais “pura” também está repleto de conservadorismo. As rimas mudam, mas o contexto é o mesmo. São poucos que fogem, que abordam as questões com um outro ponto de vista, com uma outra reflexão, ou que trazem discussões totalmente diferentes.

    Mulher entra de graça na balada. Legal, ótimo. Mas por que isto? Ter mais mulher atrai quem? Mais mulher ou mais homem? Homem né. E o que este alguém tem em troca pra oferecer? Dinheiro? Então, podemos interpretar que o ingresso pra mulher é de graça porque quem vai gastar o dinheiro realmente é o homem. Consequentemente, ele tem o poder. Certo?

    E alguém tá preocupado com isso? Não, quanto mais mulher melhor. Melhor pros homens e melhor para as mulheres que podem gastar o dinheiro com uma bebida ou algo a mais.

    Quem vai perder a festa pra ficar discutindo conservadorismo? Difícil né. É mais fácil

    fevereiro 18, 2010 às 16:17

    • Essa é a questão, enquanto as mulheres não notarem que são tratadas como objeto nas pequenas coisas, nos machismo escondidos em atitudes de cavalheiros, nada muda. Enquanto o negro aceitar a situação que é imposta sem se impor, continua tudo igual. Mas e aí, quem quer, além de sonhar, colocar em prática?

      fevereiro 18, 2010 às 20:30

  7. Salve Per Raps!

    Com relação à segregação racial, pra mim é claro que é algo que NÃO deve acontecer, porém, num país como o Brasil é muito fácil falar disso, exceto quando o quadro se inverte. Ou seja, um negro ser discriminado é “normal” mas quando é o contrário, torna-se algo discutível, como o caso da festa do Jay-Z.
    Li esses dias atráves do Twitter que houve uma situação dentro de uma área VIP em um evento aqui no Brasil, aonde 2 caras negros e “com trajes de rapper” foram abordados com violência por policiais e destratados por parecerem suspeitos ali dentro daquele contexto. E não vi muita gente falando sobre o assunto.
    Não acho nenhum tipo de preconceito vantajoso, porém, como alguns aqui já citaram, existem muitas questões não resolvidas entre raças aqui no Brasil e um modelo Norte-americano não serve pra nós.

    E sim, se o rap deixar de lado essas “questões antiquadas” talvez a gente nunca mais nem toque no assunto e talvez ainda, as coisas não sejam resolvidas e sim mascaradas…

    O rap é a tradição oral de passar informação, contar história, entreter, divertir e sim, fazer pensar.

    Você pode ser o que quiser desde que seja verdadeiro consigo mesmo.

    Grande abraço!

    fevereiro 18, 2010 às 16:45

    • Rap é tradição oral, então não tá na hora de mudar a realidade? :)

      fevereiro 18, 2010 às 20:32

      • Ainda acredito que a primeira revolução começa em casa e a maioria nem saiu de casa ainda. Nem lavam os pratos que comem ou as cuecas/calcinhas que usam.

        A maioria dos mcs que conheço moram com a mãe e sonham em viver de sonhos.

        Procuro mudar minha realidade na forma de lidar com minha companheira e pessoas ao meu redor, esperar um discurso diferente do rap é querer ouvir demagogia.

        Geralmente que fala/faz/vive algo diferente nem é lembrado no meio…

        fevereiro 19, 2010 às 13:48

  8. -“Quem vai perder a festa pra ficar discutindo conservadorismo? Difícil né.” auahu eu concordo!!!

    -Achei interessante isso que tu falasse das mulheres se masculinizarem pra entrar no rap, tem um monte de mina que faz isso, engrossam a voz e tal, mas é viagem, o rap pode ser feito por mulheres femininas(é a melhor expressão que achei)sem nenhum problema, não acredito que alguém pense que não.

    Aliás, as mulheres não tem entrado muito nas festas de rap, pelo menos não tanto quanto os homens que sempre estão em maioria nos eventos, e o rap brasileiro não fala de mulher “como objeto” e elas não por isso parecem atraidas pelo movimento, eu pelo menos percebo que as mulheres preferem os pancadão da gringa do que o rap nacional. Não quero com isso dizer que as damas gostam de ser chamadas de vadias , só acho que o rap gringo é mais dançante e por isso mais atraente para elas.

    -Jay Z é vacilão, é mais empresário que Mc!

    -E tem muita mulher que se joga pra homem com dinheiro sim!!

    fevereiro 19, 2010 às 01:37

    • Yuri W. Nunes

      Na real essa parada aí das mulheres buscarem uma personalidade mais masculina pra entrar no rap é uma coisa que já perdeu a força. Hoje em dia tá bem mais equilibrado.

      Só não consigo entender uma parada disso aí que tu falou.

      Se convencionou, não sei em qual momento da história, que rap pra mulher tem que ter suíngue, tem que ser dançante. Sim, tudo bem, é legal. Mas.. não tem um preconceito nesse discurso? Pô, pra mim isso quer dizer que o rap com umas rimas mais pensativas não serve pra mulher só porque ela não vai dançar. E desde quando ela só serve pra dançar? Tem muita mulher que gosta das rimas também.

      Eu acho as rimas da Flora Matos cabulosas mesmo.. muito mais cabreira que de vários marmanjos por aí, com mais atitude, mais coragem e sem deixar de lado esse lado feminino, poético.

      Sobre teu último tópico: e não tem homem que se joga pra cima de mulher, de homem, de qualquer coisa, por causa do dinheiro? Vish.. até mais.

      fevereiro 19, 2010 às 09:38

      • Mulher gosta de rap cabeça também. E quem foi que disse que rap, pra ter conteúdo, não pode ser dançante? Referências e referências, né?!

        E sobre dinheiro, tem quem gosta e tem quem vive por ele. Seja homem ou mulher.

        fevereiro 19, 2010 às 10:14

  9. Carol, acho que seu texto tem um olho muito voltado para o internacional (EUA). Você só falou de Rap americano. Tá certo que lá ocorre muito isso.
    Mas lembre-se também do rap brasileiro. Marcelo D2; Racionais; Gabriel, o Pensador; MV Bill; Rapin Hood entre outros. Estes, sim, cantam músicas com “contestação social”, falando da situação da favela e criticando governos. Não ficam falando de mulheres, dinheiro e drogas como seus colegas americanos.
    Temos que ter uma visão voltada pro Brasil, pois é o que é daqui que nos atinge, apesar do rap americano fazer muito sucesso.
    Temos é que valorizar o brasileiro e sua música.

    fevereiro 19, 2010 às 11:02

    • E aí você esquece dos outros tipos de rap brasileiro que falam sobre mulher objeto, grana e coisas do tipo.

      O Brasil tem de tudo!

      fevereiro 19, 2010 às 13:26

    • Realmente nem se compara o rap norte-americano com o feito no Brasil em relação a conteúdo de letras. E nem a nada, na real! Só que temos que lembrar que tem gente aqui que segue os mesmo conceitos de lá, daí acabam falando de mulher, dinheiro e poder de um jeito não tão reflexivo.

      Além disso, concordo com a ideia de que rap é música e não contestação pura. Tem que falar do que quiser, mas surge outra pergunta: como as palavras de um MC batem em quem ouve?

      fevereiro 19, 2010 às 14:18

      • Mas o negócio que essa parcela de cantores brasileiros que seguem o estino norte-americano é tão ínfima que vocês não conseguiram citar nenhum.
        Deve existir com certeza, mas é ignorada.
        Já quanto à pergunta do Eduardo, depende muito do gosto musical de pessoa. Eu, por exemplo, não curto Racionais, mas adoro o Marcelo D2.
        Cada um tem o seu…
        Abraço!
        PAZ!

        fevereiro 19, 2010 às 20:58

      • Widson, até rolava citar vários, mas pra que a gente vai indicar caras que não respeitam mulheres, garotas que se fazem de machão pq é assim que foram ensinadas a agir e pessoas que não respeitam o diferente ao mesmo tempo que a galera, nos comentários, vai indicando uma galera legal e de cabeça boa? Melhor deixar de lado…

        fevereiro 20, 2010 às 15:43

  10. Yuri W. Nunes

    Com certeza.. os melhores raps, por sinal, são tão bons para se pensar quanto para se dançar. Talvez uma coisa ligue a outra até, não? A mente se deixa levar pelo pensamento e o corpo pela vibração, em perfeita harmonia.

    fevereiro 19, 2010 às 12:54

  11. Poliana Sousa

    Matéria completamente sensacionalista e que naõ se aplica a qualquer região.

    Pessoas falam o que quererm. Acredita quem quer também. Lamento, mas meu mundo não é este aí.
    Eu continuo indo a shows que custam 10 contos e escuto muito rap (brasileiro) que idolatra as mulheres. Adoro isso
    É por essas e outras que eu continuo acreditando nesta frase: “Se tem alguém fazendo é porque tem alguém deixando”. Melhorem suas fontes de leitura e de música.
    Só…

    fevereiro 19, 2010 às 14:25

    • Sumêmo: argumentos pró e contra. Assim se dá um bom debate.

      fevereiro 19, 2010 às 14:45

    • Independentemente de ser ou não o mundo que vivemos, não dá apenas pra fazer de conta que não existe. Se fosse assim, como nenhum de nós que está aqui na internet discutindo rumos do rap passa fome, vamos fazer de conta que ela não existe em outros lugares?

      Assim é fácil deixar o mundo se destruir aos poucos.

      fevereiro 19, 2010 às 19:16

  12. Cíntia

    Ótimo texto!

    fevereiro 19, 2010 às 14:48

  13. Não li esta entrevista, mas pelo o que a Carol relatou no texto, o “conservadorismo” do rap também pode estar relacionado exatamente à posturas nossas (falo em meu nome, okay?) frente à novas maneiras de fazê-lo. A gente tá sempre ouvindo por aí : “ah, mas isso não é rap” ou expressões do tipo “rap de verdade”, entende? Talvez este conservadorismo esteja muito mais relacionado à esta posição meio (ou total) inflexível de quem ouve/produz do que simplesmente relacionado aos temas abordados pelos Mcs nas músicas…

    É muita “convenção” e ti ti ti pra falar de algo que é livre. Arte é livre, rap é música, música é arte, logo… (na real tô é cagando pros MCs que ainda insistem nesta de imitar os gringos cantando que vão nos levar pra “candy shop”)…

    O que (me) preocupa – muito mais do que os caras estão falando por aí nos seus sons (até pq se não curtiu, desliga, troca de rádio…) é ver gente envolvida com o rap APOIANDO pessoas com posturas assumidamente preconceituosas e machistas… Ainda mais em ano eleitoral, em que os jovens – que são a maior parcela de ouvintes do rap, formam também a maior parte do “bolo” nas urnas…

    Um exemplo feio, e atual, e que passou batido, foi o vereador “amigão” da quebrada, Netinho de Paula, tendo o saco puxado pelos organizadores (e por uma pá de Mc que estava por lá tb) do 3º Encontro Nacional do Hip Hop.
    É. O cara já foi acusado por agressão contra ex companheiras um punhado de vezes, bem antes lá da Lei Maria da Penha (que na prática não funciona como deveria). Na última, chegou a confessar que realmente havia agredido a mulher. E não deu em nada. Passado alguns anos (o povão de memória fraca ou pique mulher de malandro – que curte tomar tapa) elegeu o cara como vereador, não contente, apoiou a volta dele pra tv – num quadro onde ele “dá aquela mão pra auto estima” das minas da favela.
    E aí veio o rap ( partidário, aquele que organizou um comício sob o disfarce de encontro ) (!) e abraçou o cara. Erlei (Aliado G) ainda posou ao lado do queridão no youtube – quem não viu, pode ver, é só procurar.

    Triste né?

    …….

    fevereiro 19, 2010 às 14:54

    • É totalmente isso. Quem apóia tá sendo cumplice de algo que não deveria existir. Desde quando desrespeito, de qualquer tipo, é aceitável?

      fevereiro 19, 2010 às 19:18

  14. Pedro Gomes

    É complicado militar a favor (ou contra) ideais para uma “multidão”, pq não se sabe, ao certo o que pensam cada personalidade ali representada. Ou seja, no contexto acima, como defender determinado ideal sabendo que do seu lado, o seu próprio time não quer aquilo.
    É muito dificil mudar o outro e até prepotente de nossa parte, o que cabe aqui é (imagino eu), cada um mudar a si próprio – internamente. Muitos se escondem atrás do “fazer um Mundo melhor”, enquanto são realmente pessoas medíocres. Não sou pessimista mas, acredito que a mudança é algo totalmente pessoal.

    (para refletir) qual será a porcentagem de mulheres que realmente querem “a tal da emancipação” ou qual será a porcentagem de brancos que “gostam” de negros e vice-e-versa???
    Pergunto isso, simplesmente, por viver em um mundo onde vejo, claramente, as mulheres mais machistas que os homens (não generalizando) e tb, percebo os negros se auto-afirmando necessariamente se comparando com os brancos…

    quais são os nossos valores? antes de pautar sua vida, seus ideais e seus sonhos nas palavras escritas pelos outros, séculos atrás e que viviam em sociedades totalmente diferentes, pensem em vc hj, sua vida, seu bairro e sua realidade, tire suas conclusões disso e seja feliz, vivendo a sua revolução interna.

    abs

    (parabéns à Carol e vida longa ao Per Raps)

    fevereiro 19, 2010 às 15:04

    • Bacana, Pedro. Teu comentário me lembrou desse som:

      fevereiro 19, 2010 às 15:42

    • Concordo com você, Pedro. A gente tem que conhecer nossa realidade e mudar ao poucos, mas sem fazer de conta que o feio não existe. É isso aí, de grão em grão…

      fevereiro 19, 2010 às 19:20

  15. Então..achei muito interessante o post, concordo com a questão do conservadorismo no rap SIM!…Mas falando da ala feminina, pelo menos aqui no meu estado (Espirito Santo) a situação tem mudado muito, o grupo Loz Hombres tem 2 vocal feminino de peso, q se vestem bem femininas mesmo, nada de coisa masculinizada não, e no som tem musicas dançantes, como também musicas mais nessa batida comum do rap brasileiro, fora eles tem o M.D.A (que até ganhou prêmio no Hutúz do ano passado) Mulheres de Atitude (como a sigla se refere) formado por 3 minas e também no estilo bem feminino, fora outras minas que também tão lançando mão aos microfones e mandando vê com letras muitas vezes engajadas, até falando mesmo sobre esse lance de como as mulheres são discriminadas as vezes…Parem pra dar uma olhada na cena capixaba que veram que existem pessoas que estão tentando mudar essa visão conservadora, cada um ao seu modo, só não podemos ficar parados, criticando mais não tomando nenhuma atitude…Quando vocês imaginariam que tão cedo no USA, um país extremamente racista, veriamos um presidente negro??
    Dêem uma sacada nesses 2 grupos que citei pelo youtube, tem gente tentando fazer diferente e é isso que importa…só mudando pra haver mudança, né não?!

    fevereiro 19, 2010 às 15:39

    • Cissa, valeu a indicação dos grupos. Isso é tão legal… se não fosse você comentar aqui, quais seriam as chances de uma galera ter acesso a esses sons? Muito menores…

      fevereiro 19, 2010 às 19:22

  16. Se o referido autor ouvisse Facção Central, MV Bill das antigas, Sabotage, Black Alien, Planet Hempo, Pavilhão 9, Faces do Subúrbio, Chico Science e Nação Zumbi e por aí vai, talvez não generalizasse o conservadorismo no rap.

    Mas, sem dúvida, ele não deixa de estar certo. O rap estadunidense que chega até nós é conservador e seus principais temas são dinheiro, consumismo e submissão feminina. Infelizmente até aqui no Brasil essa cultura do batidão com letra de cafetão parece ter infectado o rap.

    De qualquer forma, espero que coisas boas continuem a surgir, como uma banda aqui de Curitiba que eu escutei dia desses, chama São Nunca. Ouvi apenas duas músicas, mas achei interessante… tem no YouTube, vale a pena conferir.

    Parabéns pelo tema.

    Um abraço!

    fevereiro 19, 2010 às 16:25

    • Coisas boas sempre surgem, a gente só precisa valorizar e levar o trampo a sério! Valeu pela indicação, Douglas!

      fevereiro 19, 2010 às 19:23

  17. Sereno

    Eu acho engraçado quando as pessoas classificam o rap como isso ou aquilo. E sempre que que essa classificação aparece, parece que tudo o que é produzido no mundo é igual, traz consigo os mesmos valores, dogmas, etc. Eu não vejo KRS-ONE, Jeru The Damaja, A trible Called Quest, Queen Latifah, The Roots, Mos Def, Talib, vixi, uma barreira que se fosse citar, seriam centenas, com o mesmo discurso sexista, machista ou o que for que seja. Se o que ganhou destaque mundo a fora é leviano, isso traduz um traço social, não do rap, o rap não é um individuo nem uma instituição com normas a serem seguidas. Dessa forma, penso que ninguém tem como dizer que ele é isso ou aquilo, da mesma forma que não dá pra compraar Gabriel O Pensador com Cabal, MV Bill com Dg e Anão, etc. O mercado é assim, quem segue a lógica dele se enquadra, então, ALGUMAS, pessoas envolvidas com o rap que pensam de forma comercial, seguem essas tendencias, como outras se negam a segui-las. O rap em si, é o estilo mais democrático que existe, permite que o artista se mostre como quiser: machista, feminista, bandido, politicamente correto, alienado, fanático religioso, sarcástico, radical, meloso. Poucos estilos musicais permitem uma gama tão grande de formas de expressão. Só que a gente se acostumou a rotular nossa música segundo o que é mais badalado no momento, num determinado ponto da história foi a contestação social, no outro o crime, em outro as baladas, o sexo, o dinheiro, etc. Isso tudo é o rap, não acho justo sintetizar e estipular as fronteiras do que É o rap em torno do que diz uma parcela, e esquecer de todas as outras.

    fevereiro 19, 2010 às 16:26

    • A gente tá falando exatamente isso, que é tudo rap, mudam apenas os assuntos. E alguns assuntos são dispensáveis pra pessoas como eu, que prefiro ignorar gente machista, sexista, racista ou com outros preconceitos.

      fevereiro 19, 2010 às 19:25

  18. Parabéns pelo post!

    Acho perigoso homogeneizar o rap como conservador. Há de tudo tanto no hip-hop americano como brasileiro (para ficar em apenas dois exemplos). Mais, ser conservador não é necessariamente negativo. Pessoas conservadoras são aquelas que se filiam a tradição e nem sempre a tradição é ruim. O grande problema é se elas aderem a reprodução do “status quo” acriticamente, sem perceber que o mesmo reproduz vários tipos de injustiças e desigualdades (gênero, raça, classe, orientação sexual e por aí vai).

    Por outro lado, o hip-hop (ou rap, ou música em geral) misógino e que faz apologia ao dinheiro e consumo é mais fácil de vender e tomou o mainstream da produção nos EUA. Porém, culpar manifestações artísticas é fácil, na verdade elas evidenciam problemas que estão na sociedade como um todo (seja branca ou negra). O rap é contestador em vários aspectos, mas escorrega nas bordas do machismo muitas vezes. Mais: quem garante que o rock era totalmente libertário?

    O rap é extremamente moderno. Sua linguagem e forma de produção representaram uma revolução no mundo da música pop e das culturas negras deixando vários outros estilos para trás. Porém, isso não quer dizer que ele não esteja embebido de contradições. É preciso separar o joio do trigo e apreciar sem moderação!

    Para quem se interessa em ler uma crítica ferrenha ao hip-hop nos EUA, dê uma olhada em “Entre Campos” do sociólogo inglês Paul Gilroy.

    Abraço,

    Márcio/Kibe.

    fevereiro 19, 2010 às 17:37

    • O rap tem uma coisa bastante estranha, uma linguagem totalmente moderna e contestadora, uma embalagem jovem e um pensamento, algumas vezes, totalmente retrógrado, baseado naquela parcela da tradição que seria melhor se fosse deixada pra trás e enterrada. Interessante, não?

      Bacana a indicação de Paul Gilroy; só essas dicas e a discussão saudável já fazem o trabalho valer a pena.

      fevereiro 19, 2010 às 19:28

  19. Muito boa a matériae melhor ainda o debate. Mas não entendo muito a cabeça de alguns “analistas do rap”. Porquê é fácil as pessoas compreenderem q existem vários estilos de samba, de rock, forró dance music e não compreenderem que existem muitae e muitas formas de se fazer rap? Na minha opinião, o rap é a música + livre do mundo: basta alguém falar em cima de uma batida. Esse alguém pode ser qualquer um, em qualquer batida, falando qualquer coisa. Na minha cabeça é simples assim. Não acho o mundo de hoje tão moderno quanto se autovangloria. Infelizmente as pessoas ainda agem como alguns rappers já citados. Repetem um discurso dos anos 40 em cima de uma levada Hi-teck e se acham modernos por isso. Já discuti, briguei me indispus com muita gente por causa desses debates, mas hoje eu vejo que o rap é tudo isso que dizem mesmo: Conservador, machista, racializado, violento, sensacionalista… mas o nosso “mundo moderno” ainda não descobriu um estilo musical que também não os seja.

    fevereiro 19, 2010 às 21:34

    • Pois é, e a gente vai discutindo isso, fazendo as pessoas lembrarem que não precisa ser assim e a música pode traduzir a nossa parte boa, mudar o mundo e as pessoas. O que não dá é pra parar de sonhar…

      fevereiro 20, 2010 às 15:46

  20. Paulo Brazil/STN-Amante do Vinil!!

    Costumo dizer que nossa cultura hip hop é relativamente nova em relação a de centros urbanos de outros países, estamos engatinhado ainda.

    Vou dar um exemplo simples do meu ponto de vista, claro!!

    O CD ”Sobrevivendo no Inferno” de 1997/1998 do Racionais, foi um marco divisor do rap nacional, isso foi muito bom não só para o rap, como para música independente em geral, só que teve seu ”efeito colateral”.

    Foi lançado em uma época em que estava se formando o grande público do rap, pelo menos a nível de Brasil como um todo. O que era rap para o grande público, Gabriel o Pensador???

    Esse disco deixou o nosso público meio que ”viciado”, pois desse momento em diante começou a surgir pelo Brasil inteiro vários ”Racionais”.

    E o que não era feito dentro daquela linha/temática ou pelo menos parecido com aquilo, não era rap.

    Já passamos dessa fase, ainda bem, mas custou e ainda existe muita resistência do grande público em experimentar o novo. Daí cria-se esse ”pré … conceito” em julgar como ruim o que é diferente.

    Perder o radicalismo, não é perder a identidade!!!!

    Paz à todos!!!

    fevereiro 19, 2010 às 22:29

  21. Bom, li a pouco tempo uma monografia do João Xavi, que inclusive está disponível no Bocada Forte, em que ele faz uma linha da Tropicália ao rap, dando enfase ao Brasil e ele pontua a questão da subversão da linguagem, novas formas de enxergar o cotidiano e o deslocamento dos atores que fazem essa narrativa.
    O rap brasileiro foi moldado assim e é um componente revolucnário de fato. O rap nos EUA, pelo esse rap tipo exportação, tipo aqueles que povoaram as bancas de camelo, representa uma tentativa exitosa de se manter o status quo da sociedade capitalista. Apropriação da linguagem e reprodução das desiguldades, pois é assim q o capital se prolifera.
    Uma resposta para isso? Eu sempre penso q o rap brasileiro da maneira como ele foi constituído, é uma resposta. O rap brasileiro como reiventor de cotidiano, afirmação da identidade afro-diaspórica e pontuador das desigualdades da sociedade, é mister.
    Existe uma contra-proposta né. E é necessário, o embate de idéias, revolucionárias e contra-revolucionárias tem q existir, mas vai chegar a hora de escolhermos o q nos serve…

    fevereiro 19, 2010 às 23:16

  22. Rodrigo

    Vissshhhh… ô gente! É música, gente!

    É igual a qualquer outro produto. Tem do verde, do amarelo, do vermelho…. é quenem um cara disse aí em cima: vende pq tem quem compre! Mesmo assim, cada cabeça vai atras do que lhe interessa; mesma coisa serve pro discurso de que isso acaba influenciando a sociedade… balela… tem quem goste do verde e quem goste do amarelo… assim como uns nascem pro bem e outros nascem pro mal (ou “seguem” pro bem e pro mal, sei la).
    A música em sí, a boa música, não tem mais nem menos poder…ela só agrega valores… nada disso de sociedade e machismo e tal… o cara mais machista da historia da musica negra foi o James Brown, cultuado por todos… espancava as mulheres, gostava de ser servido por elas etc etc… agora… vou deixar de ouvir a PUTA música BOA dele por causa disso?? Quero música…se eu quiser discurso eu vou morar na Venezuela e fico ouvindo os discursos de duas horas do Chávez.
    Por favor, mais atenção pra música em sí, gente… Agora me diga que são uma merda as músicas do Snoop, por exemplo. Foda-se se ele diz que faz e acontece… se a musica dele faz o cabra balançar a cabeça, já era! Isso é o RAP… a poesia nao tem nenhum compromisso… abraça quem quer se o cara ta falando groselha… agora, o swing… ah, o swing!! Esse pega TODO MUNDO!!!! A maior prova disso é que 99% das pessoas que ouvem musica estrangeira nao entendem uma palavra do que esta sendo rimado… nem precisa!!! E no swing os americanos sao foda mesmo… vai negar?

    fevereiro 19, 2010 às 23:48

  23. Rodrigo Diaz

    Desculpa, mas se falar de bunda, maravilha! Ou voce prefere um MC-cabeça rimando “nexos convexos do plexo…”. Pelamor! Coisa chata! rsrs
    Nesse caso, eu gosto do verde e você do amarelo… isso é democrático, isso é o RAP.

    fevereiro 20, 2010 às 00:27

    • Na boa, Rodrigo, vc gostaria de ver um monte de meninas num palco rimando sobre como a sua bunda é mais importante do que todo o resto que há em você? Dizendo que não importa o que role ao redor, você não pensa e só se interessa por dinheiro? Eu, como mulher que tem orgulho de ser mulher, não gosto. Eu e muitas outras mulheres somos tão mais que bunda… essa é a questão.

      Pode ser ótimo de dançar, mas eu adoro dançar enquanto a música faz a minha cabeça muito mais do que mexe o meu quadril.

      Escolhas…

      fevereiro 20, 2010 às 15:50

      • Rodrigo Diaz

        Acho que só preciso ser mais claro: há algo nisso tudo que se chama diversão. O RAP, principalmente o americano, é puro entretenimento. Mais ainda que isso… puro business! Acho que, se existe um KRS One, que é ortodoxo (como ele mesmo diz em uma letra), pode perfeitamente existir um Snoop ou 50 Cent, que falam água pra caramba… Mesma coisa se aplica no Brasil… aqui tem o GOG que é um cara capaz de fazer uma letra como “Brasil com P” e tem o Cabal, que canta “Senhorita”. Pq tem que ser TODOS tão sérios? Seria um saco se só tivessem GOGs e KRS Ones no RAP! Vai muito além toda essa discussão e acho difícil sustentar esse discurso de que não vale falar de bunda e grana. Assim como acho difícil sustentar o meu próprio argumento, visto que é meu. Cada um defende a sua verdade. Cada canta o que conhece ou o que vive.
        Agora, Carol… me desculpe, mas não imagino você, ou quem quer que seja, dançando e ao mesmo tempo pensando: “nossa ele falou de física quântica!”. Poxa… ou você acha um saco ter que dançar com o James Brown falando de “Máquina do sexo”?
        Por favor, acho que você está sendo muito mais conservadora do que o próprio RAP que você evocou no título… Como pode ser conservador e falar de bunda? Acho que ser conservador é justamente querer impor a ausência de certos temas! Temos o KRS One e temos o 50 Cent… no final, é tudo entretenimento e business (principalmente lá). Vou a um exemplo bem prático: o 2Pac. Ele era um cara capaz de cantar sobre “Thug Life”e “Dear momma”. Acho que ele exemplifica bem a diversidade disso tudo. Há de se falar de amor, mas também de ódio. Há de se fazer orações, mas também cultuar a putaria… e existem representantes dos dois pensamentos. Digo, isso é só um reflexo da diversidade. Se te confundi, esclareço: prefiro o GOG e o KRS. Mas o Snoop tb não sai das minhas caixas.

        fevereiro 21, 2010 às 00:20

      • Rodrigo,

        Não creio que o debate esteja seguindo por ai. Não tem a ver com pop ou under, nem com gangsta ou “cabeçudo”. A análise aqui visa o conteúdo das letras e o significado de seu discurso. Analisando um discurso você tem como resultado a ideologia por trás das palavras. Essa análise pode ser feita no discurso do pastor da igreja até o apresentador do jornal das oito, da mocinha da novela ou do político que entrou em campanha eleitoral. Você acha que a novela das oito é puro entretenimento ou acaba passando certas opiniões de certo e errado pra sociedade?

        Analisar o conteúdo das letras do rap pode tomar esse sentido também. Se a real do cara é falar de bunda, não é problema. Até porque existe público pra tudo e pode ser que o MC realmente queira falar sobre aquele assunto apenas. O que é complicado é o cara reproduzir o discurso machista da sociedade, que ainda é patriarcal, por exemplo. Felizmente o rap costuma ter representantes diversos que contam desde o seu relato de vivência na cadeia até seu passeio no shopping com a namorada, o que é positivo.

        Mas se no meio disso você ouve um discurso contra o “playboy” ou falando mal da mina “vadia”, do traveco ou seja o que for, e a rima nem é um ‘storytelling’, então ao meu ver há um problema em relação a valores. O “mal” pode sim estar na sociedade, mas reproduzir o discurso que visa manter o status quo não me soa nada contestador, muito menos moderno ou revolucionário.

        “Diz que o culpado é o sistema, mas então me explica: quem é esse tal de sistema que não se identifica?” (Kamau em “Numtointendendu” – Consequência: Prólogo EP, 2002)

        fevereiro 21, 2010 às 09:33

      • Eduardo disse tudo.

        fevereiro 21, 2010 às 11:53

  24. Eu não entendo porra nenhuma, mas acho loco o swing do Snoop tb!!!

    E olha só, eu acho que conservador de verdade são outros conceitos, como alguns de certas religiões que orientam que o sexo deve ser usado apenas para reprodução, nada de prazer, camisinha é o capeta, a mulher tem que usar um lençol com um orifício no local necessário na hora da relação sexual, isso sim eu acho conservadorismo!!!

    fevereiro 20, 2010 às 02:05

    • Religiões são conservadoras, assim como pessoas. Querer que a mulher não tenha prazer sexual e acreditar que ela é uma máquina de dar prazer são apenas dois extremos dos absurdos que você encontra por aí. Isso falando apenas sobre o papel feminino na sociedade, imagina se a gente tocar em outros tópicos?

      fevereiro 20, 2010 às 15:51

  25. Quem lida com o Hip-Hop sabe. O Rap é símbolo de inovação, resistência cultural e afirmação… ao mesmo tempo em que reproduz e reafirma diversas formas de preconceitos. O Rap não é uma entidade autônoma. Ele é feito por pessoas carregadas de defeitos, preconceitos, virtudes, ambições, religiosidade etc. É fruto e reflexo da ação humana. Tem gente que não gosta de textos e observações como as feitas pela Carol. Pensar incomoda? “O rap é o Rap”, “Rap é Rap”, “Deixem o Rap ser Rap”, é o que dizem. Sabemos que o Rap é arte livre, mas isso não é desculpa para não discutir suas contradições. Cada um tem o seu papel nessa questão. O artista faz sua parte (seja qual for o discurso ou o estilo). A Carol cumpre a função dela, poucos possuem essa visão. Muitos preferem fingir que está tudo legal em nome de um futuro lucrativo, eternizando a cultura do control C+control V, no paraíso da adulação e elogio gratuito.

    fevereiro 20, 2010 às 12:55

    • Disse TU-DO. Se você manda seu filho pra escola e todo dia ele volta com um bilhetinho sobre a agressividade dele e os problemas que causa, o que você faz? Deixa ele agir como quer – porque ele é assim – ou procura a raiz do problema para solucionar as questões que podem acabar com a vida dele?

      Cada uma escolhe um caminho, o nosso é repensar se as coisas estão indo pro caminho certo, assim ninguém vai se arrepender daqui algum tempo.

      fevereiro 20, 2010 às 15:53

  26. Muito bom texto, Carol, eu tb acho isso. O rap é MUITO conservador em geral. Gosto muito de rap e mais de hiphop, mas às vezes preferiria não saber inglês pra não entender as letras =(

    [Nesse quesito, é sempre bom sacar da prateleira “velharias” como disposable Heroes of Hiphoprisy”]

    Mas só queria fazer uma correçãozinha – mínima, mas julgo importante. A frase “Na nossa sociedade, por mais que não se queira acreditar, mulheres apanham de namorados (vide Rihanna), são obrigadas a usar burcas em nome da cultura e podem ser trocadas por camelos.”

    Acho que seria no nosso mundo, não? Pq aí vc cita exemplos de mais de uma sociedade (muitas vezes, certamente se superpõem e TODOS baseados no mesmo preconcieto, com certeza).

    Mas era só isso. Bjs. =)

    fevereiro 21, 2010 às 13:25

  27. rita

    Micael Herschmann, professor de comunicação, historiador e pesquisador do tema opina: “O funk já teve outros momentos de evidência, assim como o axé e o sertanejo, faz parte de uma dinâmica cultural que tem articulação com o mercado. Antes mostravam mais os raps das comunidades, hoje dão destaque ao humor com dimensão erótica”, realçando aí o enfoque da mídia.
    Se o cara tá rimando da bunda daquela “mina” é pq ela está lá, dando algum tipo de abertura p/ele, e permite! Afirmando que não é a maioria.
    Se começarmos aqui a falar de machismo e racismo irá envolver muitos estilos musicais.
    A música “Piriguete”, machista, mas que as meninas dançam e cantam a letra toda.
    O movimento funk tem raízes histórias e conteúdo social, mas transformou-se em atração comercial de gravadoras e televisões, que exploram e vulgarizam a imagem da mulher e colaboram com a erotização infantil ( o que eu acho um horror a erotização infantil).

    fevereiro 21, 2010 às 14:47

  28. Na minha opinião é ingenuidade achar que arte e política andam separadas, e que não existem corporações que financiam o Rap americano que canta o bundalelê, com o intuito de enfraquecer o que a Cultura Hip-Hop vinha construindo até então. Bakari Kitwana fala claramente sobre isso em “Hip-Hop Generation”.

    Talvez esteja faltando estudar um pouco mais da história da Cultura Hip-Hop, em que contexto surgiu e o porquê. E daí entender que ser radical é conservar as raízes. Não no sentido que as coisas não possam mudar, mas de conhecer e valorizar sua história.

    O Márcio Macedo citou Paul Gilroy e Hurakán falou das tradições orais, e isso tem a ver que o Hip-Hop é a manifestação cultural da juventude negra na diáspora africana, e a oralidade está incluída nisso. Temos muito mais da África no nosso cotidiano do que supomos.

    E também gosto de separar forma de conteúdo. O rap se modernizou na forma, mas prefiro que não perca o conteúdo político inicial, e que a modernização seja na criação de novas formas de tratar os mesmos conteúdos (que não mudaram: racismo, machismo, violência). Porque se não for assim, vai ter se tornado um estilo musical qualquer, destacado da Cultura Hip-Hop. Pelo que entendi em alguns comentários é isso mesmo, mas eu não vejo dessa forma.

    Falando assim pode parecer careta, mas das manifestações culturais negras, o rap parece que é o único que não valoriza sua história. Tipo, as escolas de samba têm uma ala especial para a Velha Guarda, o respeito aos mais antigos é fato. Fico incomodada quando vejo o pessoal mais novo querendo desvaler a luta dos que construíram o Hip-Hop no Brasil. E olha que nem são tão velhos assim…

    De resto, concordo com a Poliana, de que se tem alguém fazendo é porque alguém está deixando. Se alguém faz é porque tem audiência. Tenho uma visão de hip-hop que sei que não é hegemônica, mas corro dentro daquilo que acredito. A gente tem um ponto de cultura aqui em São Gonçalo (RJ) chamado Observatório do Hip-Hop, e damos oficinas dos elementos da cultura hip-hop nas escolas públicas, pros internos do CRIAM e nas quebradas, e são esses os valores que passamos para a molecada.
    Educação sempre!

    fevereiro 21, 2010 às 15:46

  29. Rodrigo Diaz

    Eu vejo da seguinte forma: é extamente a mesma coisa a discriminação contra homosexuais, por exemplo, e a discriminação contra quem canta oque quer que seja. Acho bem retrógrado esse papo de que “não dá pra fingir que o feio não existe”. Nesse caso específico da música, deixem os feios viver em paz. Até pq, se vc for perguntar pra quem discrimina um homosexual, ele também terá milhões de argumentos a favor da discriminação dele. Não posso é assinar em baixo de nenhum tipo de censura. Sempre, tudo nas suas devidas proporções… claro que nao vou compactuar com fulano que fala mal de gay ou de preto… E outra, esse argumento de ‘novela das oito” já é um tanto antigo. Prefiro não partir do princípio de que todos são imbecis e não sabem distinguir as coisas… novela é novela. Se você, que não age de acordo com a novela das oito, pq vai achar que tantas pessoas agirão? Acho que rola aí um pre-conceito… me parece que voces acham que os consumidores dessas mídias são acéfalos e que vão sair reproduzindo o que viram na tevê ou o que ouviram na música.
    Voces estão querendo dar uma responsa pro Rap que já não é mais dele há mto tempo. Passou a época de que o Rap tinha que ser engajado e tal… se for, melhor ainda… mais isso não é um compromisso, muito menos uma obrigação. Esse é um dos motivos pelo qual o Rap no Brasil não dá dinheiro pra quem o faz. O maior erro do Rap é quando ele é feito pro público de Rap. O negócio é atingir as massas, é entreter tanto o povo do Rap quanto o do pagode, sertanejo… perguntem isso pro D2.
    Não dá, em pleno 2010, pra aceitar que pessoas jovens como vocês, queiram levantar essa bandeira de censura. Censuraaa?? Sim! Isso é censura. Perguntem ao Chico Buarque oq ele acha disso… ele vai dizer: cantem às bundas! Gente, não quero causar discódia, muito menos ofender ninguém, mas isso é censura sim! Se o Rap fosse como voces “sonham”, seria um saco e não precisaria escolher quem ouvir – “pega qualquer um, todos estão falando da mesma coisa”. Vou deixar de ouvir o Cypress pq eles falam de maconha? Vou deixar de ouvir o Snoop pq ele fala de bunda? De jeito nenhum, pq eles pensam com a cabeça deles e eu com a minha. Não vou fumar maconha pq o B-Real diz que é o máximo, nem vou sair dando tapa nas bundas pq o Snoop curte isso. É muito difícil acreditar que a massa é ignara. E não é. E podem acreditar: se continuar nessa de que o RAP tem que ter “discurso”, nada vai andar. É tão simples quanto mudar de canal… não tá agradando? Muda de disco… Pq com esse mesmo papo, já ouvi gente dizendo que Rap não é pra branco. Gostei muito dessa conversa nossa, mas to triste pq to vendo que tem muita gente querendo formatar uma coisa que é tão diversa quanto a nossa própria cabeça. Parei por aqui. Um beijo a todos!

    fevereiro 21, 2010 às 16:12

    • “Rodrigo,

      Mais uma vez creio que houve algum tipo de confusão aqui. Quem assiste novela não é acéfalo, mas é fato que o conteúdo das produções não serve para puro entretenimento. Mas esse é outro debate. Sobre a questão da análise da modernidade ou o conservadorismo do rap, vejo enorme positividade. E sabe por quê? Pois de alguma forma estimula a troca de informações entre aqueles que querem trocá-las. Se um analisou a questão do jeito que estamos discutindo aqui é bacana, mas se outros ainda não pensaram por esse prisma, é justo que o façam.

      Partindo do princípio de que o rap é música, sinto que não há problema algum nas rimas se referirem a qualquer assunto no mundo. Já ouvi rap falando sobre bundas e já vi rap falando até da partícula de LHC! E tem que ser assim: as letras precisam realmente ir do leme ao pontal.

      Agora, o Snoop pode estar falando de bundas pra vender, quem ouve pode estar curtindo e não levando a sério. Mas como vamos ter certeza disso? E mais, o Governo diz que Racionais MC’s incita a violência, eu não vejo assim. Mas pelo jeito, tudo sempre terá na vida pelo menos DUAS interpretações.

      Mais uma vez repito: concordo com a pluralidade do rap, mas não com a reprodução de discursos retrógrados, que às vezes nem é a SUA verdade.”

      fevereiro 21, 2010 às 16:38

      • Rodrigo Diaz

        Boa, Eduardo! Gostei dessa última colocação.

        fevereiro 21, 2010 às 19:38

      • Concordo plenamente…O Hip Hop com todos os seus elementos, e principalmente o rap, deve ser o instigador de discussões e defensor ferenho da liberdade de expressão.

        fevereiro 22, 2010 às 12:42

  30. Crespo

    As vezes é machista e materialista…mas também tem sido conservador e moralista…acho complicado quando o rap fica extremamente politicamente correto, acabamos ouvindo discursos que mais parecem sermões paternos, religiosos ou livros de auto – ajuda… gostaria de ver a arte quebrar velhos moldes e não fazer cartilhas!!!interessante toda a discussão

    fevereiro 21, 2010 às 23:36

  31. Yuri W. Nunes

    Acredito que, de certa forma, todos os discursos reproduzem um contexto maior, seja ele a favor ou contra, de protesto, ou de banalidade, de sexo ou de paixão, de agressão ou de proteção.

    Então, não acho que entender como “uma reprodução que visa manter o statuos quo” certos tipos de música fazem delas menos ou mais positivas. O que as torna assim é a percepção de cada um sobre ela.

    Também ouço todas as pedradas que muita gente citou aqui, de KRS ONE a Emicida, de Bahamadia a Flora Matos, de Beastie Boys a A Filial e por aí em diante.. mas não à toa me pego balançando os braços ouvindo um som que tem um discurso diferente destes. Certo, errado? Não sei.

    Deveríamos aprender a conviver e entender as diferenças, porque se tem gente que considera um absurdo e fica puto com tudo isto só por causa de uma música (que sim, tem gente que só considera uma música, um entretenimento, e não algo maior, um reflexo, um discurso, uma conduta), imagina como que essa pessoa vai lidar com alguém que tem atitudes totalmente diferentes da dele? “É a guerra neguin”.

    Também não gosto de ver discursos machistas sendo reproduzidos, mas conheço uma pá de mina que tem uma postura muito ética, contestadora e até mesmo “revolucionária” que curte o som e dança mesmo. E aí? Tu pode olhar pra ela e achar que é mais uma.. mas sabe a verdade de toda a parada? Não.. então.. o buraco é muito mais em baixo..

    Cito mais uma vez porque isso resume tudo pra mim: precisamos aprender a conviver e entender as diferenças, sejam boas ou ruins. Se um dia isso acontecer, acho que será muito mais fácil para as coisas melhorarem, porque respeito é a base para qualquer diálogo, e o diálogo é a base para qualquer mudança.

    fevereiro 22, 2010 às 11:07

  32. O “Rap” tornou-se um produto…, assim como os outros elementos da cultura Hip-Hop…, desta forma este movimento cultural perdeu de vista qualquer atitude contestadora para se moldar aos padrões consumistas vigentes na sociedade atual…, a idéia principal é vender…, e se para isso for necessário reproduzir idéias consideradas no texto como conservadoras…, beleza…

    fevereiro 22, 2010 às 11:35

  33. G

    Só sei que …. Negros sempre foram proibidos de estar em varios lugares.. isso nao virou problema em algumas familias nem na tv e nem em sites de Brancos.
    Agora vem fala??? eles mesm criaram essa barreira
    Eu nao concordo com nenhum tipo de preconceito.

    Mais pra infelicidade de alguns.. O Rap nao vai cuspi no Jay Z por isso. Nao é certo… mais vao falar o que??? Antes dele ter o nome que tem, tbm nao entrava nessas festas

    Em Relaçao ao Rap…. O Rap é mil Fita …. É tradicional sim
    por q vc escutas os sons do GOG ou dos Racionas das antiga … Vao ver q nada mudou. Os problemas que sempre foi falado nas musicas é Tradiçao no Braza.

    Deixa a musica desfilar em suas varias formas.

    Intao…Me dá meu copo que ja era!!!

    Parabens pela Materia

    fevereiro 22, 2010 às 12:12

  34. Thiago

    Eu acredito que o Rap não é moderno, porque ainda não houve um artista realmente interessante e inovador (pelo menos nos últimos 10 ou 15 anos), que fizesse com que o Rap realmente demonstrasse uma evolução.

    O que eu vejo, infelizmente é uma cópia do que já foi feito à uma década atrás, isso tanto no Rap norte americano quanto no nacional.

    A fórmula que fez os Racionais e outros grupos se destacarem, serviu pra eles, por um período, e hoje já não serve mais. Muitos tentaram copiar, alguns copiaram bem, outros não. Mas no todo, serviu como influência.

    Claro que tivemos artistas excelentes, porém nenhum com genialidade (ou criatividade pelo menos) que fizesse o Rap ser moderno atualmente.

    Quanto ao Rap norte americano então, nem se fala. A muitoooo tempo que não nos deparamos com um cd, obra, artista, mc, enfim, alguém que pudéssemos falar “CARALHO, ESSE CARA REVOLUCIONOU A PARADA”. Então, com certeza o Rap não está moderno, já foi sim, mas hoje ele segue a imagem do que ele foi no passado.

    Parece que muitos artistas estão com medo, medo de lançar algo contestador, inteligente, ousado divertido, reflexivo e dançante.

    Parece impossível não ?

    Mas talvez não seja, se esses dogmas forem quebrados, aí sim, o Rap se tornará moderno… ou não.

    fevereiro 23, 2010 às 18:34

  35. ANTRAZ

    Essa parada do Jay-Z é coisa de inglês nariz empinado, pois se ele tivesse alguma restrição a brancos, já teria dado alguma brecha nesses tantos anos dele na indústria da música e entretenimento.

    Eu acho que cada um rima sobre a sua realidade, não tem essa de conservador.

    O que mais tem é variedade no Rap, dá para se ouvir Rap com letras machistas, feministas, ostentando, ‘pra balada’ (no pior sentido), enfim, há muitas opções.

    Se o que mais gera atenção são os de pior conteúdo, a culpa não é dos Emcees que estão falando de bunda ou algo similar e SIM DE QUEM CONSOME ISSO AÍ!

    Enquanto o público consumir Lil’ Wayne, 50 Cent e afins, vai continuar na mesma ‘conversa fiada rimada’ e os que tentam passar algo mais consistente nas letras continuarão ‘fora de foco’ (muitos já tem reconhecimento, mas nada comparado ás ‘figurinhas carimbadas’ do ‘mainstream’).

    fevereiro 27, 2010 às 01:04

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