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Confira detalhes da estreia do clipe do grupo Versu2 (BA)

Versu2 - divulgação

“Acredito muito no ritmo, mas acredito ainda mais na poesia”por Carol Patrocinio

O rap é sempre rap, mas a cena muda muito dependendo do lugar em que ela está. Não adianta achar que se você conhece a cena de São Paulo, como é o caso do Per Raps, você conhece tudo. Pra falar sobre o Versu2, que acaba de lançar um clipe, precisamos mergulhar na cena de Salvador. Como não pudemos gastar com passagem e estadia, quem nos ajudou nessa imersão foi o Rangell Santana (aka Blequimobiu), do Central Hip Hop (Bocada Forte) e do próprio Versu2.

Conheça agora um pouco da cena de Salvador, as ideias e rumos do Versu2, que faz rap com sotaque de ótima qualidade e assista ao clipe que ainda está quentinho depois de sair do forno.

Per Raps: Então, eu queria falar sobre o clipe, mas antes preciso q você me dê uma ajuda pra entender a cena daí. Uma coisa é ouvir falar, acompanhar pela internet, outra coisa é viver o barato – como é o lance de espaço pra show, abertura com público, interação dos grupos, MC’s e Djs?
Rangell/Blequimobiu: Pra shows temos poucos espaços ainda. Tem a Zauber que tem mais abertura, mas, apesar de estar no Centro, é numa ladeira que o público tem preconceito porque fica perto de um antigo local de prostituição, então é visto como um lugar perigoso. Daí a Boomerangue tem uma boa estrutura, mas pra conseguir pauta é muito complicado, ela é a mais estruturada e fica na orla. A Secretaria de Cultura tem feito um bom trabalho com os espaços públicos, mas também sofremos com a disponibilidade de pautas.

O público do rap em Salvador é  como em todo lugar, festas pequenas são frequentada pelos artistas, adeptos em geral. É bem complicado levar pessoas novas a estas festas, não temos dinheiro pra divulgação em massa. Terminamos limitados às festas dos amigos pra divulgar os flyers, os outdoors e busdoors, que são a verdadeira mídia de massa em Salvador, os demais são muito caros, não temos como investir. Quando tem shows com artistas como Racionais, e se investe neste aparato de divulgação, daí vemos festas com até 15 mil pessoas.

Acho que Salvador tem a cena hoje mais diversificada – você pode ir num show e ver grupos com uma linha under, gangsta, pop, gospel, candomblé e todos se respeitando, cada um passando sua mensagem sem desfazer do outro. Fazemos rap e aprendemos com os outros locais que estes rótulos só atrapalharam o crescimento da música como um todo. Também fazemos diversos eventos com outros rimos musicais (rock, reggae…) e, ultimamente, tem rolado interações com o pagode.

Versu2 - Fernando Gomes

Per Raps: Como foi a decisão de fazer um clipe?
Rangell/Blequimobiu: Então, em janeiro de 2008, eu e Coscarque percebemos que já tínhamos bons sons pra gravar um disco e ficamos seis meses no estúdio trabalhando nele. E em julho rolou de fazermos um show no teatro e o pessoal curtiu as músicas novas, depois fomos tocar em BSB com GOG e uma formação louca com Mano Brown, Pixote e Dj Cia, num evento da Conferência Nacional de Políticas para Promoção da Igualdade Racial. O pessoal elogiou muito por lá e percebemos que nosso som num agradava só aos amigos.

Aí voltamos na ideia de fazer mais shows e saber quais músicas realmente poderiam ir pro disco. Nesta brincadeira, organizamos uma tour com o Marechal e a banda de hardcore Lumpen, da qual eu era parte quando mais novo e eles cantam uma letras minhas. Na sequência rolou de trazer Emicida, Inumanos e o Kamau e, paralelo a isto, a cidade começou a ver nosso ritmo e como isto tava fazendo a cidade ser percebida na cena nacional, então vários caras se movimentaram.

O Felipe Franca tinha uma ideia de fazer um clipe nosso há muito tempo, chegamos a filmar umas cenas ao vivo, aí não deu certo o ao vivo e ficamos sem falar disto um tempão. Um dia eu tava na rua e o encontrei, comecei a falar da ideia que eu tinha, e fui mostrando as locações a ele – que é praticamente numa avenida só, a Carlos Gomes, um pedaço da Rua Chile e duas locações internas, a loja Mutantes, que eu sempre frequentei, e a Oficina de Investigação Musical do Maestro Bira Reis, que aparece no clipe tocando um metal.

Eu sabia que não tinha nome ainda pra lançar o EP, ele tá todo gravado mas eu não queria ser mais um disco na net, já que o processo de ouvir música tá muito louco, tem muita gente botando som todo dia na net, estamos cada dia mais rigorosos no que ouvir e sem tempo de ouvir obras inteiras. Poucos caras conseguem fazer um disco pra se ouvir todo e até você perceber a ligação de uma letra na outra (quando existe) pode ser muito tarde…

Então queria chamar atenção nacionalmente e vi que o clipe era a forma mais rápida de acontecer. Se fosse bem feito as pessoas iriam falar. Então saímos juntando pessoas que estivessem afim de mostrar este novo momento da arte como um todo em Salvador. Queria um clipe de rap, mas queria os locais em que passei minha adolescência, em que conheci o rap, o rock e tal. Queria pessoas que representam no clipe – nele tem o Finho, que grafita e ilustra, fez a capa do disco, tem o Baga que é MC e também grafiteiro, ele aparece no clipe tipo vigiando o Finho grafitando. Tem o Dimak, que cito na letra, foi ele que me apresentou os primeiros raps, ele é o melhor grafiteiro pra mim, e queria ele no video, então ele aparece com o Cdois, do OtraVidda, que é um moleque muito sangue bom e vem fazendo coisas bem positivas.

Aí tem o Jonnhy, que passa esbarrando no Coscarque, ele é um cara que faz as notícias correrem na rua. Tem o Robson Véio, como vendedor da loja e o coroa é o Jorginho, dono da loja, ambos referências minhas, me indicaram muitas músicas. Nesta mesma cena aparece o Diego 157 comprando discos, e sobre o balção tem o disco do Daganja e o 157 nervoso, que foram lançados pelo meu selo, o Positivoz. Aparece também o Fernando Gomes fotografando, e tem, no final, o Daganja, que na Testemunhaz tocava percussão e achei legal resgatar isto dele, já que ele tem uma raiz muito forte no Samba.

Então este clipe é um pouco de minha vida, de onde busco harmonia, de onde me inspiro de ver o corre corre do povo. Tem dia que estou mal por uma besteira e, quando passo naquela rua e vejo o povo indo e vindo atrás de um qualquer pra viver, eu me resgato. Costumava andar muito ali a noite e ficar observando o tráfico, a prostituição e isto também me inspirava a me manter no caminho legal, pra poder retratar aquela rua que de noite é tão fria e de dia tão quente. Ou vive-versa (risos!).

Per Raps: E daqui pra frente, quais os planos e as expectativas?
Rangell/Blequimobiu: Em janeiro vamos lançar um concurso de remix com a faixa do clipe e premiar com R$ 300, que é  o preço que a maioria dos caras bons na arte cobra nos beats. Daí pensei que poderia, desta forma, atrair Don L, Nave, Dario, Diego 157, Diamantee e Munhoz, entre outros, a participar da competição e ganhar mais respeito ainda na cena.

Vamos lançar dia 01/01/2010 e como juri vamos ter eu, o Coscarque, Kamau, Marechal e Cortecertu, além do juri popular. São pessoas de gostos bem diferentes, então vai ser bem legal.

A estratégia é revigorar o clipe, mantê-lo em certa evidência por um mês; depois vem fevereiro e no carnaval é complicado trabalhar, então vamos deixar pra lançar o EP, com 7 faixas, em março e depois tentar viajar pra SP/RJ/CWB, mostrar nossa energia ao vivo. Todos os caras que tocamos aqui têm se surpreendido conosco justamente no palco.

Acreditamos no show, nas pessoas falarem de nosso som ao vivo, e por isso procuramos trabalhar bem. Marechal, Gasper, Kamau e Emicida viram e comentaram justamente isto, a energia ao vivo.

Per Raps: O sotaque tem a ver com isso?
Rangell/Blequimobiu: Hahaha. Sabe, esta parada de sotaque é muito engraçada porque, antes de viajar aí a primeira vez, eu achava que o rap tinha as gírias e o jeito de falar do rap, mas depois percebi que era o contrário, todo mundo aí falava meio parecido, era um sotaque de vocês.

Quando os caras do Rio começaram a gravar, eu achava eles todos parecidos, assim como achei, por um tempo, os de CWB. Quando saiu a mixtape do Costa a Costa vi a riqueza do sotaque.

Quando lançamos “Que som é  este”, com o sample de Ivete Sangalo, parecia que iríamos ser um grupo de rap axé ou sei lá o que, então ficamos preocupados, por isto lançamos o som mais rap do disco, com sample de jazz e tal, mas nas outras faixas tem reggae, rock, timbau, e um monte de maluquisse (risos).

Per Raps: E a intenção é levar essa mistura pros outros cantos do país?
Rangell/Blequimobiu: Vou te ser sincero, nem foi intencional, mas quando fomos buscar os beats, saímos de casa em casa escolhendo os que nos identificamos e quando vimos tava uma mistureba da porra. Ficamos preocupados, a princípio, depois, quando ouvimos tudo junto, vimos que era bom, que, mesmo sem querer, era nossa realidade, eram os sons de nosso povo.

Queremos montar uma banda pro show de lançamento e para poder vender o show com mais profissionalismo. Tem uma pessoa nossa que vai começar a trabalhar esta parte junto a produtoras de pagode e axé, nos festivais de música. Aqui tudo é meio mega, você subir num palco com três MCs e um Dj é complicado, se chega uma banda com peso, aí os caras pagam direito. Uns pensam pela quantidade, e não qualidade, daí queremos juntar tudo.

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3 Respostas

  1. Coscarque

    Panka muleque, materia ficou loka,

    Valeu Per Raps por esse espaço pra poder divulgar nosso trampo

    Paz e equilibrio

    dezembro 23, 2009 às 21:52

  2. AnaJu

    Fé e força caradeurso! Deu gosto de ler esta entrevista.

    dezembro 30, 2009 às 14:37

  3. AnaJu

    ps: só senti falta daquele discurso sobre o lance do sotaque, mas até aí, ano que vem cê fala mais… rs

    dezembro 30, 2009 às 14:39

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