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O lado B de Prefuse 73

Guillermo e Rasheed_CCJ (Juliana Ferracini)

O CCJ ficou cheio na apresentação de Prefuse 73 (Juliana Ferracini)

“Um outro lado do Prefuse 73” – por Eduardo Ribas

Prefuse 73 é um dos diversos projetos musicais de Guillermo Scott Herren, que também faz questão de dividir os créditos com seu parceiro de longa data, Ryan Raja Rasheed. Parceiro que, por sua vez, também possui um projeto bem interessante, o Leb Laze.

A dupla é de Miami, onde a maioria da população é de latinos, assim como Guillermo, de pai espanhol e mãe cubana/irlandesa. Rasheed foge da regra e é descendente de libaneses. Os dois se conheceram logo após os tempos de escola, possuem um humor parecido e curtem o mesmo estilo de rap. Apesar disso, tudo começou a ficar mais sério apenas quando Guillermo pediu que Rasheed remixasse uma fita e, logo depois, eles começaram a fazer turnês juntos.

Bem humorados e sem se preocupar com a marra tradicional no hip hop, os dois possuem uma aparência quase que similar: magrelos, com bronzeado de escritório à moda européia e com um estilo de se vestir básico e discreto. Pode ser que essa não tenha sido a imagem que você tinha construído em sua mente ao ouví-los, certo? Mas não se preocupe, você não é o único. Em uma passagem engraçada da carreira de 10 anos dos dois, alguns promoters já disseram na caruda que esperavam os “black dudes” (os caras negros) para tocar em suas festas. Tiveram que ouvir o latino e o libanês.

A conversa, com quase o mesmo tanto que risadas e idéias, rolou antes do show feito neste domingo (18/10), no CCJ. Quem respondeu a maioria das perguntas foi Guillermo, o “porta-voz” do Prefuse 73. Mais reservado, Rasheed só pontuava alguma coisa quando realmente se fazia necessário. Os assuntos variaram da marra no hip hop à falta de referência da molecada de hoje e aprendizados com a carreira e as turnês. Agora é só curtir!

Faço isso há muito tempo e não vou parar até estar morto!Guillermo Scott Herren

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E. Ribas (Per Raps), Rasheed e Guillermo no CCJ - Foto de Carol Patrocinio

A ideia inicial rolou sobre a evolução musical do Prefuse 73 desde sua última passagem pelo Brasil. Guillermo diz que era difícil ter uma resposta. “Nós apenas tocamos, não esperamos muito. As pessoas têm o que oferecemos, e oferecemos 100% de respeito. Se vocês não gostam disso, então me desculpe. Não tem muito o que fazer a respeito”. Quando fala do som de Prefuse 73, Guillermo afirma categoricamente: “gosto de fazer música barulhenta”. Ambos concordam que fazem um som progressivo e não necessariamente algo diretamente ligado ao hip hop.

A dupla se apresenta com vários fios, vocais feitos por Guillermo, um notebook, MPC, uma mesa de som e sintetizadores. Claramente tímidos, nenhum dos dois procura encarar a plateia e até na hora de reagir a assobios, apenas acenam. “Se recebemos resposta da plateia achamos legal, mas não somos o tipo de banda que diz: obrigado, como está sendo essa noite pra vocês?”, responde Guillermo. “Estamos nessa há 10 anos, não precisamos de abraços de cada um que está na plateia. Nós somos só uns caras que querem fazer um som e trocar uma ideia. Não somos o Led Zeppelin, sabe?”, ironiza.

A partir daí, surge a dúvida sobre a diferença de comportamento da dupla em uma apresentação ao vivo e dentro de um estúdio. “No estúdio você precisa fazer algo que as pessoas vão ouvir e comprar. É totalmente diferente! Num estúdio você está confinado com máquinas por todos os lados e ao vivo você tem que ir lá e mandar ver. Como se fosse no jazz, você improvisa em cima de um tema, mas no jazz os solos podem durar uma hora, nós não podemos fazer isso!”.

Guillermo diz que às vezes uma parcela do público parece esperar algo diferente do que ele realmente é, mas quando o conhecem, conseguem perceber que ele não é o que esperavam. “Tem gente que chega tipo: e ae, mano, firmeza? E eu, tipo: E ae, tudo bem? Não seguimos a regra, simplesmente fazemos nossa parada”. Aliás, essa parece ser uma preocupação recorrente de Guillermo, já que muita gente parece não entender a proposta de seu som, sem contar com os estigmas do hip hop, que teimam em continuar existindo. Mas pra ele, isso só serve para mostrar o quanto as pessoas podem ser engraçadas. “Uma vez, um promoter do nosso show recebeu uma ligação perguntando que horas o cara negro chegaria. E ele respondeu: então, na real o cara é tipo cubano, sabe? E o cara: aaah, tá”.

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Amadurecimento profissional

Quando comecei, eu era bem tímido, sabe? Na hora de tirar fotos, eu sempre tinha que me esconder. Mas o sentido disso tudo era: não me entenda como um mano, nem como uma personalidade, deixe que seja a música. Quando saiu o segundo álbum, eu estava mais sob controle da parada e chega um ponto da carreira que tudo está mais firme, então você tem que ir lá e fazer a foto, a entrevista e lidar com isso. Aprender isso é parte do processo.

E nesse mundo de turnês, se você quer ser levado a sério isso faz sentido. E se você pensar pelo lado de que as coisas só irão acontecer se você tiver um manager ou um selo, esquece. Você vai desmoronar em um ano! A maioria do tempo sou eu e ele (Rasheed), correndo pelos aeroportos com nossas coisas, tirando fotos.

Influências e sonoridade

Nós dois obviamente temos um background do rap do final dos anos 80 e os anos 90. Até nos outros projetos isso é perceptível, obviamente nós temos esse laço. Mas curtimos alguns “barulhos” do Japão, que são melhores que qualquer hip hop desses que estão sendo feitos hoje. As pessoas perguntam o que eu ando ouvindo e esperam que eu responda uma parada underground, então respondo: eu gosto do novo do Jay Z. É um som poderoso, sabe? Ao mesmo tempo estamos ouvindo músicas da Itália, depende muito. É legal ter um certo humor por trás dos sons. E o importante é se divertir.

Poderíamos ser uns caras que falam “foda-se”, mas não, não nos importamos com pose e coisa do tipo. Crescemos juntos (Guillermo e Rasheed), pegamos nossas influências e tentamos crescer, evoluir. Muitas bandas hoje têm fórmulas pra fazer sucesso. Tem umas fórmulas da TV pra se chegar ao sucesso. Não sei como, mas ainda estamos tocando nosso som e nos divertimos.

Queremos ser mais engraçados que sérios, não queremos dizer que gostamos do hip hop do passado. Porque o que aconteceu nos últimos 10 anos, tem coisa boa, coisa não tão boa, mas não quero ser representado por nada disso. No Brasil a cena é foda e eu sempre permaneço atento a ela, mas tem uns lugares do mundo que não dá, não queremos isso pra gente.

O rap hoje em dia

Guillermo acredita que os raps ficaram mais inteligentes nos anos 90, já que os MC’s falavam baixarias com analogias complexas ou de um jeito mais refinado e isso soava bem legal para ele. Mas hoje, as pessoas parecem não se importar mais, pois segundo ele, a molecada não tem muita referência. “Algumas coisas são inteligentes demais pra eles! Ninguém entende o que o Mos Def tá falando, sabe? A molecada quer o instantâneo, quer pegar o som e jogar no iPod. É tudo: Bam! Twitter e tal. ‘Aqui está o som, baixe aqui.’ Nós estávamos aqui antes disso e permanecemos mesmo depois, essa é a parte mais importante”.

A decepção com os jovens de hoje acaba revelando uma concordância com as ideias de Jay Z, de morte do Auto-Tune (D.O.A). “O hip hop porcaria do rádio parece aparecer assim: em dois segundos se escreve algo e aí, esse é o gancho e o verso vai rimar com isso. E então, para o auto-tune!”

“Os jovens não querem ouvir umas paradas desafiantes, mas você tem que pensar: não me importo com isso. Daqui há 20 anos quando você for ouvir os clássicos, T-Pain não estará lá! Vai ser um disco do Doom ou do Madvilain. E vão falar: se liga nessas gravações. E as paradas ainda vão ser mágicas, sabe? Hoje tudo soa meio ‘rave’, tudo tem auto-tune. É claro que tem coisas que eu ouço, claro. Mas chega no dia seguinte e eu esqueço. Não vou chegar a comprar nada disso”.

Conclusão

Mesmo com toda essa perspectiva aparentemente desfavorável, Guillermo e Rasheed ainda buscam motivos para prosseguir. “Se desistíssemos por causa do panorama, estaríamos trabalhando em trampos regulares. Faço isso há muito tempo e não vou parar até estar morto! Eu simplesmente não vou, sabe?” E estamos contando com isso!

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