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Bocada Forte: 10 anos de resistência

Dez anos. Às vezes o tempo passa rápido e faz com que a tecnologia avance com a cura para doenças, conexões ainda mais velozes para a internet e encurte distâncias, por outro lado, 10 anos pode ser um longo período, se o assunto for uma guerra que leve a uma revolução, por exemplo. Se estivermos falando sobre cultura, há obras que demoram esse tanto para ficarem prontas.

Mas se estivermos falando de resistência, e ainda incluir tecnologia e cultura, poderemos entender um pouco da importância dos 10 anos do Bocada Forte. Surgido em 1999, o site se tornou referência em hip hop no Brasil e mais tarde, em outras partes do mundo. Com o propósito de divulgar a cultura de rua, o BF, como também é conhecido, resiste divulgando artistas, iniciativas, realizando grandes entrevistas e dando visibilidade à cena.

Nada melhor que a própria equipe do Bocada Forte, que hoje se tornou o Central Hip Hop, para explicar direito como tudo surgiu, além do significado desse trabalho. Confira um pouco da história do “quilombo cultural” chamado Bocada Forte, em 10 perguntas feitas à equipe do site.

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Participam da entrevista: André Cesário e Fábio Pereira, idealizadores do site e responsáveis pelo suporte ao pessoal que coloca o material no ar; Dj Cortecertu, gerente de conteúdo do Bocada Forte desde 2001; Gil, ex-gerente de conteúdo do Bocada Forte e atual responsável pela Revista Elementos; e Noise D, colunista do Bocada Forte desde 2001.

 

Observação: Você deve ter reparado que o Bocada Forte se tornou agora o Central Hip Hop. A mudança ocorreu para dar mais abrangência aos temas tratados. No entanto, os criadores do site sabem da força desse nome, que ainda  será utilizado como um selo de identificação, assim como a Coca Cola Company, por exemplo.

Per Raps: De onde surgiu a idéia de criar o BF?

André Cesário: No início, a idéia era apenas divulgar um grupo de rap de uns amigos do meu bairro chamado Urbanos MC’s, que naquela época já tranformavam os poemas de Mário de Andrade em rap. O resultado dessa tranformação levou o grupo a fazer shows em dezenas de cidades do interior de São Paulo, com o espetáculo “Pru Mano Mário” que fazia parte do projeto “Coração dos Outros: Saravá – Mário de Andrade”, do SESC São Paulo.

Nessa época, estava na faculdade de Publicidade e Propaganda e percebi que era uma boa oportunidade de divulgar o grupo, já que o rap tinha se popularizado, principalmente fora das periferias, por conta do disco dos Racionais, “Sobrevivendo no Inferno”.

Mas não tínhamos dinheiro para pagar as mídias tradicionais. Foi aí que surgiu a ideia de utilizar a internet para a divulgação do grupo. Eu não sabia nada dessa novidade, então comecei a pesquisar como poderia fazer uma homepage. Fiz um cursinho de HTML e assim comecei um esboço no papel de como seria a página. Rabisca daqui, rabisca dali, surge o Fábio e o Rodrigo, que estudavam comigo.

Per Raps: Como estavam as coisas em termos de conteúdo na página e de cena hip hop, no geral?

Dj Cortecertu: Em 2001, passei a ser colaborador e colunista do Bocada Forte. Eu sempre mandava alguns textos para o Gil que, na época, era o responsável pelo conteúdo do site. O início do BF se localiza no período em que o Rap brasileiro passou por uma transição – novos artistas começaram a desenvolver outras abordagens em suas músicas.

O Rap tinha consolidado sua mensagem política, livros, teses e documentários foram lançandos sobre esse tema, o Rap também se afastou dos outros elementos, mas os intelectuais e jornalistas não percebiam o que estava se desenvolvendo entre os jovens que gostavam de Rap e também curtiam skate, internet e outras tecnologias. As cenas política e econômica também contribuiram para um novo comportamento, com uma sensação de estabilidade e crédito fácil, creio que as pessoas passaram a se identificar com outros temas, muitos artistas surgiram nessa vibe, houve desconfiança e conflitos de ideias. Esses fatos estão na formação do Bocada Forte.

Per Raps: Fale um pouco mais da origem do Bocada Forte.

André Cesário: Rodrigo gosta muito de rap, breakbeat e funk, além disso desenha muito, fizemos um pequeno brainstorm e surgiu o nome Bocada Forte. Foi ele quem desenvolveu os dois logotipos que usamos até hoje.

O Fábio viu os esboços e perguntou qual era a ideia, apresentei o pequeno projeto pra ele que prontamente se mostrou disposto a ajudar, pois já manjava um pouco de HTML.

Passamos algumas semanas pesquisando na própria internet se tinha algum site que falava de Hip Hop e descobrimos que 90% das páginas pessoais (não existiam blogs nessa época) falavam de Racionais e Thaíde e Dj Hum.

No dia 13 de maio de 1999 colocamos o Bocada Forte no ar, apenas com o material dos Urbanos MC’s. Logo no início percebemos que o site era muito grande para divulgar apenas um grupo de rap. Fizemos uns flyers em sulfite e começamos a divulgar em todos os eventos possíveis. O pessoal abraçou a ideia e começou a enviar materiais.

Per Raps: Quais foram os três grandes momentos do Bocada?

Gil, da Revista Elementos: Escolher só três fica difícil, pois foram vários grandes momentos, entre eventos, matérias e pessoas que conheci.

1) O Show do Public Enemy, em 2003, quando intermediei a negociação para eles tocarem em SP; até hoje troco e-mails com Chuck D e DJ Lord por conta dessa experiência;

2) A matéria com o Da Guedes, também em 2003, em que acompanhei o grupo de Porto Alegre até a cidade de Passo Fundo, onde eles fariam um show, as fotos e o texto com a história desse rolê foram pro ar;

3) Uma entrevista com o DJ Primo, que ainda não foi publicada.

Arquivo pessoal (Gil)

Gil Souza, Diko e Chuck D (Public Enemy) - Arquivo pessoal (Gil)

Per Raps: Quais as maiores dificuldades para quem faz um site como o BF?

Fábio Pereira: O maior desafio do site sempre foi se manter atualizado, tanto no conteúdo como nos novos formatos de web. Quando você está há muito tempo no ar, acaba se acostumando e se acomodando com sua forma de atuação.

Nosso foco fica na busca constante de ferramentas e tecnologias para que possamos manter um conteúdo diversificado e atrativo pro público.

Não é uma tarefa fácil, mas quando se faz algo com amor, as coisas acontecem. É por isso que estamos aí há 10 anos! Todos que passaram se dedicaram e deram sempre sua energia pelo site, da forma mais positiva.

Per Raps: Como era feita a divulgação de artistas e como era a aceitação dos divulgados?

André Cesário: Como hoje, muitos artistas praticamente eram independentes, pois as gravadoras não divulgavam de forma eficiente os artistas de rap, então a gente se oferecia pra dar uma ajuda com o site.

Per Raps: Houve críticas negativas em relação às pessoas que eram divulgadas e as que não eram?

André Cesário: Sim, sempre tem alguém que reclama. Mas muitas vezes isso acontecia porque o artista não enviava o material; sempre fizemos o possível para divulgar todos aqueles que nos procuravam.

Per Raps: Na sua opinião, qual a importância de ter sido criado um veículo como este há 10 anos?

Gil, da Revista Elementos: Foi muito importante. Vários artistas, que na época eram muito novos, ainda estariam no anonimato se não existisse um veículo com uma pessoa séria e compromissada com a Cultura de Rua a frente. Representantes de diversas partes do país tinham o seu destaque e uma visibilidade nacional, dessa forma foi possível que todos se conhecessem e soubessem o que acontecia em outras partes do país.

Per Raps: Você acha que o hip hop ruma para uma profissionalização, pelo menos em relação à comunicação com veículos que sempre falam da cena e também em relação a outros, que tratam do assunto esporadicamente?

Dj Cortecertu: Sim, caminha para uma profissionalização. Vejo gente séria trabalhando lado a lado com os artistas. Mas preciso pontuar duas coisas:

1 – Uma grande parcela dos artistas do Rap ainda não sabem lidar com a crítica. Os MCs, DJs, beatmakers e afins tratam os meios de comunicação como se fossem assessorias de imprensa e, quando recebem alguma crítica sobre seu trabalho, chamam os membros da mídia alternativa de bicos sujos, faladores, pés-de-breque, entre outros adjetivos bonitinhos.

2 – Ainda valorizamos demais a grande mídia (tradicional), que não tem em seu histórico entendimento ou respeito pelo Hip-Hop brasileiro. Quando um artista é tema num site ou num blog da mídia alternativa a cena dá uma importância menor. Quando o artista sai na Folha, no Estadão, na Veja ou na Época, todo o cenário Hip-Hop fala: agora sim, esse cara tem valor. Até nós, dos sites e blogs, noticiamos como se a grande mídia fosse o carimbo legitimador.

DJ Anderson (Ultramen) Noise D e DJ Primo (R.I.P.) - Arquivo Noise D

DJ Anderson (Ultramen) Noise D e DJ Primo (R.I.P.) - Arquivo Noise D

Per Raps: O que você acha que falta melhorar no BF hoje?

Diego ‘Noise D’: O portal Central Hip-Hop/Bocada Forte sempre prezou pela participação das pessoas; desde o início foi assim. E o trabalho duro é para torná-lo cada vez mais aberto à interação, de uma forma sempre justa e democrática, abrindo espaço pra todos os artistas e ativistas da cultura de rua que queiram promover suas ideias e seus trabalhos no BF. É uma luta diária, pois a gente tem, além da ocupação com o portal, nossos compromissos profissionais diários, o que muitas vezes limita nossa capacidade de ação.

Mas a gente segue firme porque acredita no veículo, no poder que ele tem e na contribuição que ele dá à cultura Hip-Hop nacional. Esses dias ouvi alguém dizendo: “Somos todos amadores”. E hoje eu compreendo o que ele quis dizer… Fazemos por amor! Aqui, de certa forma, não existe um “profissionalismo extremo”, porque o amor à cultura é o que nos move… O “melhorar” é uma constante pra gente e toda ideia e contribuição será bem-vinda.

Per Raps: Além do site, o que o BF conquistou?

André Cesário: Fizemos muitas coisas, parcerias em eventos fora de São Paulo, eventos no Jardim Monte Azul. Montamos uma ONG para dar legalidade ao site e dessa forma tentar atingir outras pessoas que ainda não tem acesso à internet; por isso resolvemos fazer a Revista Bocada Forte.

Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer algumas pessoas que  fazem ou fizeram parte do site e que foram fundamentais para que ele esteja no ar até hoje: Fábio, Rodrigo, Ingrid, Guto, Noise, Gil, Sete, Diko, Rangell, Fabiana Meninni, Celso, Athaíde, Adriano, Claudinho, Urbanos, Cortecertu, Gilpones, Bruno Gil e Rodrigo Bueno.

Se eu esqueci de alguém, não faltará oportunidade de agradecer SEMPRE! A todos os site, blogs que de alguma forma fazem a cada dia a informação chegar aos mais diversos lugares, parabéns a todos! E a todos os artistas que acreditam como nós que é sempre possível fazer um trabalho digno.

flyer BF 10 anos

Hoje, dia 25 de julho, o Tapas Club abre as portas para o show de lançamento do primeiro single de Rael da Rima, que marca a comemoração dos 10 anos do portal de hip-hop Bocada Forte. Na festa – que vai contar ainda com discotecagem dos DJs Kefing e Marco – o MC, músico e compositor integrante do Pentágono sobe ao palco acompanhado de seu violão e da banda formada por Muka Batera, Bruno Dupre (guitarra solo), Xandola (guitarra base) e Rafael da Costa (baixo). O show também terá participação de Paulo Msário (um dos quatro MC’s do Pentágono).

Bocada Forte @ Tapas Club
Endereço: Rua Augusta, 1246
Telefone: (11) 2574-1444
Preço: R$ 15,00 – com nome na lista, R$ 10,00. Ambos os preços dão direito ao CD com as três versões do single “Trabalhador”. (Via: Revista 100%)

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6 Respostas

  1. Ciss

    Bueno! Logo mais é a Perraps! Vida longa a todos nós!

    julho 26, 2009 às 01:21

  2. Pingback: Fique por dentro Artista » Blog Archive » Bocada Forte: 10 anos de resistência « Per Raps

  3. Classe!!
    Valeuuu
    Di maisssssssssss
    pazzzzzzzz

    julho 26, 2009 às 17:58

  4. Valeuuu
    paz
    diko

    julho 26, 2009 às 17:59

  5. É com muito amor que mantemos o Bocada Forte/Central Hip-Hop vivo até hoje. Amor a cultura Hip-Hop e aos valores positivos e engrandecedores que ela representa. Valeu, amigos do Per Raps! Valeu, Edu!!! Abração e parabéns pelo ótimo trabalho neste maravilhoso espaço que é o seu Blog. PAZ!

    julho 27, 2009 às 18:34

  6. Eternamente BF!

    julho 28, 2009 às 00:40

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