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Conheça mais sobre o Grime

O Per Raps recrutou mais uma vez a colaboradora carioca *Ciss para nos falar um pouco sobre o ritmo que bomba as pistas britânicas; o grime. Acompanhe uma entrevista exclusiva com o MC JME e acompanhe também uma conversa sobre o lançamento do single “Too Many Man”, do grupo Boy Better Know.  Curte ae!

“Um pouco sobre o grime” – por Cissa Maia aka *Ciss

Parte da cultura urbana, essencialmente do gueto de Londres, o grime é a versão britânica do hip hop. Os pioneiros do estilo – Wiley e Dizee Rascal – debutaram suas vozes e batidas futuristas no clima de batalhas realizadas em garagens no Leste de Londres. Diferente do rap tradicional, não tardou para que a Rinse FM, rádio pirata divulgadora da cultura urbana, adotasse o grime. Aliás, por estar dentro de um contexto distinto, logo a mídia causou alguns embates negativos, em relação ao ambiente sócio-cultural do qual o genêro emergiu. Mas o que poderia parecer crucial, funcionou como fuga ao tópico da marginalização e solidificou-se como um cenário independente.

Sem uma fórmula mágica, o som é instrumental, construído a partir da base do UK Garage, combinando elementos eletrônicos com linhas de grave guturais do Dubstep; o ritmo digitalizado é caracterizado pelo quebradiço 2-step do breakbeat. Traz levadas irregulares, permeadas por letras agressivas, metafóricas, divertidas, às vezes confusas e improvisadas pelos MC’s.

A popularidade do grime chamou atenção da rádio digital britânica BBC 1xtra, especializada em música urbana – bassline, dubstep, bashment, soca, dancehall e hip hop. Mesmo causando controvérsia pelo uso de dialetos e gírias pesadas, a audiência do show Sunday Night, do apresentador Tim Westwood, confirma o sucesso dos artistas e da cena grime.

JME é um dos mais fluentes e habilidosos MC’s do grime (Divulgação)

JME é um dos mais fluentes e habilidosos MC’s do grime (Divulgação)

Os dois lados de Jamie Adenuga

Jamie Adenuga aka JME é um dos mais fluentes e habilidosos MC’s do grime. Com entusiasmo visceral, campeão de bmx, mais de quatro milhões de acessos no MySpace, vídeos sarcásticos no Youtube se apresenta ao lado do seu irmão Skepta, que demonstra empenho nos negócios, afinal ambos são os idealizadores do coletivo e selo independente Boy Better Know.

Apesar do single de sucesso Serious, do álbum de estréia Famous, JME possui 4 mixtapes lançadas – Shh Hut Yuh Muh, Poomplex, Derkhead e Tropical – somada a várias produções em parceria com outros artistas, incluindo os membros do BBK. O coletivo é um dos mais lucrativos selos independentes da cena, isto se deve a venda de camisetas com a estampa “Boy Better Know”. Célebres entre os fãs, preocupado com a falsificação, imediatamente as camisetas passaram a ser vendidas na internet, agora liberadas em lojas nacionais e, segundo JME, a intenção é importá-las para outros países.

É com competência, que JME fortalece seu empreseriado, demonstrando que o talento vai além do microfone. Confira a entrevista exclusiva e o lançamento do novo single “Too Many Man”, do Boy Better Know.

Per Raps: O sucesso do grime tem muito a ver com a cena de rádios piratas e as batalhas de rap em garagens de Londres, nas quais os MC’s duelam para praticar suas habilidades e ganhar reputação no meio underground. Você acha que esse é o novo jeito de fazer hip hop no Reino Unido?

JME: Gostando ou não, o grime é uma versão do hip hop no Reino Unido. As pessoas não admitem isto, porque querem parecer totalmente originais e únicas. Mas para ser honesto, todos sabemos que são letras em cima de batidas, só que com o sotaque e atitude do Reino Unido. Ao invés de focar nas semelhanças, eu foco nas diferenças e as enfatizo para tornar minha música única e destacá-la dos outros atos do grime. Para entender totalmente a cena do grime, bem como a cultura do grime, é preciso morar aqui por um ou dois anos. É muita coisa para explicar em  poucas palavras, como em qualquer outra cultura musical.

Per Raps: Qual é a sua opinião sobre o grime ser associado com armas e violência?

JME: O cenário do grime é a música de rua do Reino Unido, portanto isto será, invevitavelmente, associado ao crime de rua. E é muito fácil para o governo e a mídia apontar o dedo, pois as duas estão ligadas entre si. Porém, minha opinião é a seguinte: nós somos músicos, não somos marginais. Alguns de nós já adotaram atitudes criminosas, assim como muitos parlamentares e jornalistas! Assim é a vida, eu simplesmente ignoro os estereótipos existentes e sigo em frente com minha música.

Per Raps: Alguns MC’s são notáveis por improvisarem bem, mas não conseguem compor músicas. É como se não connseguissem transpor o flow do MC freestyle para o artista com uma música de fato. Além disso, há outros artistas/MCs que apenas escrevem sobre sentimentos e tudo aquilo acaba se tornando real para eles mesmos. O que faz um MC/artista ser reconhecido como verdadeiro?

JME: Tudo o que você tem que fazer é uma pintura, uma agradável pintura. É assim que eu o avaliaria para sempre, mesmo que seja uma única faixa. Eu sempre terei em mente a pessoa talentosa que é. E evidentemente terei interesse em saber o que você irá dizer na próxima vez.

Per Raps: Você é conhecido pelo seu nível avançado e estilo agressivo no microfone. Quando está improvisando, independente da letra, qualquer palavra que você diga não faz diferença?

JME: Eu sou dois JME – um com uma linguagem inteligente e clara, o outro enraivecido, que não que ouvir ninguém. Eu troco meu ritmo quase que imediatamente no microfone, dependendo da letra que estou improvisando, às vezes mudo na metade do flow. Está tudo ligado na energia e na entrega disso. É exatamente o que torna a música excitante e imprevisível, exatamente o que as pessoas querem.

Per Raps: Existem poucas MC’s mulheres em uma cultura onde os homens prevalecem como a maioria. Quem é a sua MC favorita?

JME: Minha favorita é a Shystie. Recentemente, eu a vi em um vídeo no Tim Westwood Show. Ele me lembrou que 70% de um bom artista é todo o trabalho de um cérebro, ou seja, ela tem um cérebro.

O coletivo Boy Better Know (Divulgação)

O coletivo Boy Better Know (Divulgação)

Per Raps:  Quem  é o rei do grime para você?

JME: Não há um rei. Há pioneiros, pessoas que precisam estar no meio do mundo musical para manter sua energia, estes são; Boy Better Know (Skepta, Wiley, Frisco, Shorty e eu), Newham Generals (D Double E e Footsie), Dizee Rascal, Ruff Sqwad (Tinchy Stryder, Rapid, Dirty Danges, Fuda Guy, Roachee and Shifty), Cold Blooded, Flirta D, Bashy, …hmmm…há mais, mas os que eu mencionei são os cara que me inspiram e me fazem ACREDITAR que nossa música tem futuro.

Per Raps: Você é o irmão mais novo do Skepta, rola alguma disputa entre vocês?

JME: Ele é meu grande amigo, nós realmente não competimos, porque damos um ao outro o espaço que precisamos. Você precisa de espaço para ser criativo.

Per Raps: O BBK é um coletivo e um selo estabelecido por você e o Skepta. Você acha que hoje em dia é melhor não fechar com uma gravadora – como seria nos moldes padrões da indústria? É mais fácil cuidar da carreira, produzir e distribuir por conta própria?

JME: Existem duas maneiras pelas quais as pessoas assinam com selos. Ou elas não sabem como fazer sozinhas ou pelo dinheiro, dinheiro e dinheiro.

Per Raps: Atualmente, quem são os artistas no coletivo?

JME, Skepta, Wiley, Frisco, Shorty e DJ Maximum (o melhor Dj do planeta Terra)

Per Raps: O BBK é considerado um lucrativo selo independente, se pensarmos no cenário underground. Você é conhecido por vender camisetas com a estampa BBK, o que aparentemente é mais rentável do que a música.

JME: As camisetas foram algo acidental. Eu fiz uma para mim, depois de ter desenhado o logotipo. Daí Wiley me pediu uma, depois Skepta e então minha mãe…Foi quando eu fiz umas 50 camisetas e dei para minha família e amigos… Logo mais, as fotos já estavam “flutuando” pela internet e houve uma procura instantânea pelas camisetas do BBK. Agora estamos indo com força e resistência. Procurem pelas camisetas do BBK no Brasil! (risos)

Per Raps: No geral, como você definiria o BBK das outras crews?

JME: O Boy Better Know é um coletivo de pessoas que não precisa sempre uma das outras para funcionar 100%. Todos nós podemos fazer nossas próprias coisas. Então, quando estamos juntos, é como uma bomba nuclear!!!

Frisco, JME, Shorty, Skepta e Wiley (Divulgação)

Frisco, JME, Shorty, Skepta e Wiley (Divulgação)

Per Raps: A faixa “Too Many Man” é mais funky e tem umas batidas vibrantes, mas o que se escuta não é o habitual dos artistas do BBK. É uma música agitada e dançante. O que vocês quiseram dizer com “we need more girls in here”? Não tem garotas o suficiente?

JME: Skepta produziu as batidas, é uma faixa para clubes noturnos, basicamente, precisamos de mais meninas nas festas underground, a fim de mantê-las embaladas. Homens em demasia nunca é uma coisa boa, só no futebol. O vídeo foi feito por um diretor chamado Mo Ali.

Per Raps: Nós vivemos em uma sociedade totalmente desigual, com algumas diferenças no modo de pensar, mas o que torna o grime próximo do rap brasileiro e funk carioca é o estilo urbano de uma cultura do gueto. Ambos os lados têm uma maneira própria de fazer tudo isto acontecer. Abraçamos esta cultura e música e somos orgulhosos na nossa sociedade multicultural. Para finalizar a entrevista, o que você poderia dizer para os nossos MCs e rappers brasileiros; e aos leitores da Per Raps?

JME: Nunca se esqueça porque você faz a música que faz. O dinheiro vem depois do talento, logo o poder. Não dê um passo maior que a perna por dinheiro e poder, porque você vai se perder no final. Faça boa música (ou qualquer coisa que você faça) e tenha orgulho do seu trabalho. O público em geral é incostante e não terá a mesma opinião para sempre, então não preste atenção nas merdas que você ouve por aí. Seja VOCÊ MESMO e ACREDITE EM SI.

Saiba mais:

http://www.boybetterknow.com
http://www.myspace.com/jmeserious
http://www.youtube.com/user/ManBetterKnow
http://www.bbc.co.uk/1xtra/westwood/

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4 Respostas

  1. Anônimo

    Irado!!! Ciss represents!!!!

    junho 23, 2009 às 14:59

  2. Porra, achei bem legal essa matéria. Sou meio suspeito, pois piro em Grime. Acho que vcs deveriam fazer também algo sobre Dubstep; tem o Bruno do tranqueiras.org, que é a maior assumidade no assunto aqui no Brasa.

    Abs.

    junho 23, 2009 às 19:15

    • Ciss

      Sim, ele é parceiro!!! É nóis!!!

      junho 24, 2009 às 01:56

  3. Tiago Fernandes

    Fiquei lendo sua matéria sobre o grime e acabei sabendo detalhes desse movimento do hip-hop que desconhecia. Wiley e Dizzee Rascal são óbvias referências para entender esse subgênero londrino. Até desconfio que, de algum modo, o grime preparou o terreno para o que viria depois a se denominar de dubstep. Mas o que interessa reter é que, a partir de meados dessa década e até ao final, Londres voltou a ser a capital da música refrescante e que rompe fronteiras de tudo quanto é estilo. Para quem não sabe ainda bem o que é o grime, não tem nada como escutar uma rádio dedicada ao gênero. Pode conferir aí nesse site http://cotonete.clix.pt/.

    junho 29, 2009 às 18:02

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