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Pedro Gomes e a profissionalização do rap – Parte I

Pedro Gomes...

Pedro Gomes: cineasta e 'manager' do grupo Pentágono (Divulgação)

A tímida presença do hip hop na edição deste ano da Virada Cultural (algo que falaremos mais nessa semana) é apenas um dos indícios de que a estrutura do movimento está comprometida e de que quem está do lado de fora do hip hop ainda não consegue enxergar a sua importância.

O que muitos ainda não perceberam é que o hip hop não vive apenas de MCs, Djs, grafiteiros e b-boys. Várias pessoas trabalham diariamente em dezenas de outras funções para fazer com que os shows e as festas aconteçam, a informação seja propagada, os produtos sejam vendidos. E o grande problema é que a quantidade de pessoas dispostas e preparadas para trabalhar nesses outros ‘cargos’ não vem sendo suficiente para fazer a engrenagem andar da forma como gostaríamos, como achamos que o hip hop merece.

Para tentar mostrar às “novas gerações” que esse tipo de trabalho também vale a pena, o Per Raps conversou com o cineasta/produtor/escritor Pedro Gomes, ‘manager’ do grupo paulista Pentágono, diretor e idealizador do documentário Freestyle: Um estilo de vida, entre muitas outras coisas.

Com tantas realizações em tão pouco tempo – ele acaba de completar 25 anos de idade -, Pedro já possui bagagem suficiente para mostrar que os trabalhos “em torno” do hip hop também podem render bons frutos. Na entrevista que nos concedeu, ele falou sobre o início da sua relação com o rap, o trabalho com o Pentágono, a produção do documentário e muitos outros assuntos, que você confere a partir de agora, em duas partes. Confira:

O início

Quando eu tinha uns 8 anos, rolavam uns shows daqueles de rádio em que eles juntavam vários músicos,tinha vários grupos de samba e de rap. Só que nessa época, em 1992, ainda não tinha quase nada de rap. Num desses shows eu vi os Racionais e achei muito foda. Pensei: “Essa é a parada que eu quero fazer”. Aí passou um tempo e eu montei um grupo com o Apolo, do Pentágono, e mais um Dj. Ficamos um ano levando e eu vi que eu não tinha a menor condição de ser MC, a gente devia ter uns 13 ou 14 anos. O grupo chamava Skate Brothers. Depois a gente terminou o grupo e ele entrou pro KND – um dos grupos que formaram o Pentágono posteriormente.

Pouco tempo depois de o Pentágono existir, entrei no grupo pra trabalhar como técnico de áudio, porque eu também sou formado nisso. Eu aprendi a mexer com áudio em igreja, que eu sou de igreja evangélica e lá você sempre aprende a mexer com alguma coisa. Então eu era técnico de P.A. dos caras quando nenhum outro grupo tinha um técnico de P.A. E como a gente sempre teve essa parada de querer ser organizado, encaixou bem na idéia do grupo. E antes de sair o cd Microfonicamente Dizendo eu assumi também a produção.

Pentágono...

Pedro é amigo de infância dos integrantes do Pentágono (Arquivo)

Trabalho com o Pentágono

Eu faço a produção dos caras, corro atrás da mídia, vendo show, cuido dessa parada de empresariar, e aí não mexo mais com o som porque não dá, seria muita coisa. Hoje quem mexe nisso é o DJ Roger e o Wilson. Nós somos em nove agora. A proposta é de levar os nove pra qualquer lugar que nós formos, pro trabalho ser completo. Então hoje pra levar o Pentágono pra fora já exige um custo, o cara tem que ter uma certeza de retorno, porque bancar nove pessoas não é barato.

A maldição do rap

Eu sempre falo em todo lugar que eu vou que o problema do rap é que todo mundo quer ser MC. Ninguém quer se propor a fazer outra parada. Então você tem vários caras que são MCs hoje, que se dariam bem em outras funções, ta ligado? O pessoal quer confete né, ninguém quer ficar correndo atrás. O que eles não sabem é que isso também dá confete. Se eles querem fama, isso também dá, lógico que em outra proporção. Eu sinto falta dessa organização.

O pessoal do rap nem está preparado para isso ainda. Quando liga um contratante, ele acha estranho ter um intermediador do outro lado. Se for um cara que nunca trabalhou com outros estilos – porque grupo de rock já é assim, por exemplo -, só trabalha com o rap, ele acha estranho. Eles perguntam: “Mas não são só os seis (os cinco MCs e o Dj)?” E eu digo que não.

Até por isso eu tenho uma fama de ser chato no meio, porque eu trabalho certo, ta ligado? Sou correto. Se você contratar o nosso show e não pagar 50% antes, a gente não vai. Se você pagar 50% antes e, antes de começar o show, não pagar o resto, a gente não toca. Eu já subi no palco uma vez, peguei o microfone e falei pra quem estava na platéia: “O Pentágono está aí, mas o cara não quer pagar e a gente não vai tocar”. Então eu fico com fama de chato por causa disso, mas não deixo nenhum dos meninos com quem eu trabalho passarem veneno.

Eu aprendi isso na raça, passando veneno mesmo. Uma vez a gente viajou, o cara disse que não tinha dinheiro e mandou a gente voltar. Se estou eu e mais um, por exemplo, a gente se vira, são dois caras. Mas eu to com seis caras falando no meu ouvido: “E aí, e a passagem, nós não vamos voltar?” Então se eu não for chato, eu deixo os seis caras na mão (agora oito, né).

Eu aprendi muito olhando o Ice Blue (dos Racionais) trabalhar, eu fiquei um tempo com ele (em um outro projeto) observando e percebi o quão profissional os caras são. É foda, são muito corretos. Eu vejo que a galera precisa de outros Pedros por aí porque todo mundo me chama pra trabalhar, mas eu não dou conta. Por exemplo, os caras que são meus amigos pessoais, que é o caso do Kamau, do Emicida, do Max B.O. e do Criolo Doido, todos me convidaram pra trabalhar com eles. Só que não adianta eu falar que vou fazer e fazer 70%.

Pra citar alguém que faça algo parecido com o meu trabalho no Pentágono, eu só vejo o Ministro, que trampa com o Max B.O. e faz um trabalho legal. O pessoal por aí elogia meu trampo, mas ninguém nunca veio perguntar como faz, pedir umas dicas, ninguém se interessa, né. É aquilo, a molecada nova que chega quer ser MC, e não existe uma renovação nas pessoas que trabalham com isso. Até produção de festa; a maioria dos que fazem as festas hoje são os mesmos caras que faziam as festas soul na década de 70.

Parceria com a MTV

Nós que fomos atrás deles. Eu sabia os caminhos, levei o disco no TAR (Relações Artísticas), levei o clipe do Akira Presidente, falei do Pentágono, que a gente fez o único YO! ao vivo (ao lado do Z’África Brasil). Aí eu contei toda a história e aos poucos as coisas foram acontecendo. Eles deram mais abertura pro clipe do Akira, que está tocando bastante, eu levei um outro clipe que fiz, de uma banda de rock chamada Pop Armada, que está bombando. No caso do Pentágono, o lance de fazer turnê, de o nosso MySpace ser um dos mais visitados – dentro do rap o nosso é o que tem mais players -, eu uso isso como argumentos. As estratégias estão dando certo e eu ainda quero conquistar mais coisas.

Cinema

Eu não abro uma agência de hip hop porque eu não quero fazer isso pro resto da vida. Eu me formei em cinema, sou cineasta. Eu trabalho com o Pentágono porque são meus amigos de infância, senão eu abria uma agência, pegava vários artistas e começava a ganhar dinheiro com isso. Meu foco é fazer filmes relacionados ao hip hop. Eu sou cineasta, vou fazer bastante coisa fora, mas também quero trabalhar muito com rap, quero profissionalizar o rap nesse sentido, penso muito nisso.

Meus dias costumam funcionar assim: eu acordo umas 11 horas, vou pra natação, depois internet, faço as coisas do Pentágono até umas 20 horas. Eu que cuido de tudo: Orkut, MySpace, Blog, Fotolog, tudo. Aí vou atualizando tudo, vou lendo, ligo pros caras, faço contatos, converso com gente de outros estados, peço mídia pra alguém. É esse trabalho meio de RP e meio de produtor, empresário. Aí quando eu acabo isso eu vou fazer minhas edições, mexer nas minhas coisas de vídeo, e aí vou até umas 6, 7 horas da manhã.

Eu recebo e-mails de gente mandando roteiro de clipes, querendo filmar comigo. Aí eu tenho que escrever uma proposta bem trabalhada, mostrando quanto vai custar, o por quê de cada coisa, então isso demanda um tempo também.

Pedro Gomes...

Pedro na direção do clipe "É o Moio", lançado recentemente (Arquivo)

Veja também:

O blog de Pedro Gomes;
O clipe de “É o Moio”, do Pentágono, dirigido por Pedro Gomes;
As entrevistas do grupo Pentágono para a Rádio Boomshot e o Programa Freestyle;
A entrevista de Pedro para o portal Bocada Forte.

Na segunda parte, Pedro Gomes fala sobre o documentário Freestyle, o sonho de trabalhar com um grupo (segredo) e a viagem que fez no ano passado para a China. Continue acompanhando.

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8 Respostas

  1. Parabéns, pela matéria. O Pedro é excelente nas suas colocações, tenho muita identificação com o trabalho que ele desenvolve. Assim como ele, acredito que as pessoas precisam desenvolver seus talentos de acordo com as suas habilidades. Muita estrela para pouco céu, faz com que sejam ofuscadas as que tem mais habilidade de ser estrela.
    Quanto a profissionalização do hip hop, sinto isso na prática, pois faço a pauta e redação da Agenda Cultural da Periferia, no qual divulgamos eventos e a seção de Hip Hop que era duas páginas caiu pra uma, pois os organizadores de eventos não fecham com antecedência, não tem um release da festa, não tem uma boa foto e com isso fica difícil publicarmos o evento.
    Fico feliz que esse blog venha somar com a Cultura Hip Hop.
    Um abraço,
    Elizandra

    abril 27, 2009 às 20:34

  2. Parabéns mens!!!!!!!

    É ISSO AÍ…….
    PRECISAMOS DE MAIS UNS NYPES DESSES!!!!!!!

    abril 28, 2009 às 02:18

  3. Otima materia! Mais uma vez podemos acompanhar mais um corre de um cara que corre sério. Sem estar de brincadeira.

    abril 28, 2009 às 13:47

  4. Ribah (U_FLOW)

    Excelente matéria!

    Realmente torna-se uma dificuldade agir com profissionalismo quando muitos ainda não tem uma visão de que é extremamente necessário para um trabalho bem feito. Pior ainda quando o desdém surge dos “iguais”.
    Me identifiquei muito com o que foi abordado nessa entrevista. Parabéns.

    Sucesso Pedro…

    abril 28, 2009 às 17:19

  5. Daniel Cunha

    Que bom que estão gostando dessa matéria. Sempre pensamos em tentar divulgar essa idéia de que pra se envolver no hip hop, não é preciso fazê-lo apenas artisticamente. As coisas funcionariam muito melhor se as pessoas se dedicassem ao que realmente têm talento, assim como o Pedro faz com o cinema, por exemplo. Que sirva como inspiração pra quem, como nós, quer ver o rap virar…

    abril 28, 2009 às 17:46

  6. Matéria massa. Caracas o Pedro é foda, mas também temos que lembrar das pessoas que estão ligadas na parte digamos de “carregar o piano”. Não querer ser mais que ninguém dentro da parada, se não é 6 por meia dúzia dentro do hip hop. Mas a parada é essa mesmo, é fazer acontecer.

    abril 28, 2009 às 18:47

  7. Como sempre o Per Raps trazendo matérias e conteúdo de alto nível para as pessoas! Excelente matéria com o Pedro Gomes, mostrando que esse é o caminho. Parabéns a todos!

    abril 29, 2009 às 16:48

  8. Rastaman

    Interessante a entrevista, voltei no blog depois de uma semana pra comentar a matéria pois ví um anuncio da NIKE (marketing msm) com o pedro..
    Sei não.. ja vi esse filme hehehehe.. era uma vez um maluco talentoso que utilizou a VERDADE que existe no underground como trampolim pra virar mais um ASTRO BABILÔNICO.. cuidado eim.. começa com o EGO depois ganha o exterior e atinge a tal da REDE GLOBO e no caso do pedro, a NIKE …

    Como ja disse, ja ví esse filme ! Burn Babylon ! me deixe com meu underground. TER TALENTO é apenas o Início… quero ver retribuir a Tal da VERDADE.

    “CHEGA NO SAPATO, SEM CAUSAR PROBLEMA PQ. A RUA VAI COBRAR O CABEÇA PEQUENA”

    AS NIKEs DA VIDA ESTÃO DE OLHO NA NOSSA VERDADE POIS SOMOS REALMENTE DE VERDADE.. ISSO NÃO SE VENDE NEM SE COMPRA! NEM TENTE

    maio 4, 2009 às 16:47

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