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Emicida – Das ruas da norte, um novo rumo pro rap (parte II)

Depois de muitas cobranças, cá está a segunda parte da entrevista com Emicida. Nesta sequencia, o MC relatou ao Per Raps histórias de sua infância e adolescência, contando detalhadamente como o hip hop entrou em sua vida. Desde os bailes que os pais ajudavam a organizar na Vila Zilda até quando se envolveu efetivamente com o rap, passando a frequentar os eventos no centro de São Paulo. Confira:

Emicida cresceu no ambiente dos bailes da Vila Zilda

Emicida cresceu no ambiente dos bailes da Vila Zilda (Enio César)

Infância e as primeiras influências

Meu pai era Dj, dançava break também e ajudava a montar um baile lá na Vila Zilda. Minha mãe também ajudava ele e os equipamentos ficavam guardados lá em casa. As caixas de som, toca-discos, caixas de bebida…porque esse que era o esquema do baile, eles compravam um goró, juntavam os equipamentos, aí de noite levavam tudo pra rua e rolavam som pra galera curtir.

Eu tinha 4 ou 5 anos nessa época e tenho até saudade porque hoje em dia não acontece mais isso. Eu ficava maravilhado com aqueles equipamentos dentro de casa, ficava mexendo, nem sabia ligar, nem sabia nada, mas ficava apertando os botões, quebrando tudo.

Até aí eu não sabia nada de rap. A primeira coisa que eu escutei de rap foi Pepeu: “Fiquei sabendo que tem um tal de Pepeu, que canta rap bem melhor do que eu” (cantou). Eu achei isso muito foda. Meu contato com o rap mesmo foi em 1993, quando saiu o Racionais, Raio-X do Brasil. Eu até comentei outro dia com o Kl Jay, porque essa foi uma parada que mudou mesmo a forma como eu via a música. Eu sempre fui muito livre, eu nunca fui tão apegado com esse negócio de rap, pelo menos nessa época aí, hoje eu sou muito mais, né.

Mas antes eu gostava de escrever minhas paradas. Meu padrasto tinha um gravador e eu ficava gravando as minhas músicas sem nem saber que era rap. Os caras dão risada quando eu falo, mas na Vila Zilda tinha uns cultos, a igreja evangélica começou a se ocupar ali e tinham vários cultos na casa de todo mundo. Todo mundo cantava vários hinos de igreja e eu comecei a cantar meus hinos de igreja também.

Foi assim que eu comecei a improvisar, porque eu não sabia que as pessoas escreviam música, iam pro estúdio, gravavam, mixavam, lançavam um disco. Pra mim todo mundo sabia a letra já, então eu comecei a inventar meus hinos de igreja em casa e daí que nasceu a idéia de fazer umas rimas. Às vezes tinham uns cultos lá em casa também. A gente vivia numa miséria fudida, então pra qualquer santo a gente estava rezando. Se viesse de Buda ou de Oxalá era nele mesmo que a gente ia.

Eu lembro que eu catei uma fita dos Racionais com um vizinho e em um dia eu sabia todas as músicas. Também era um tempo que Racionais tocava no rádio, estourou na rua, foi sucesso total, todo mundo sabia. Era muito louco, naquela época se você não fosse do rap, você era exceção.

Agora as paradas mais musicais, de improvisar dentro do rap vieram bem depois, na época da escola, lá pela sétima série. Eu tinha um camarada, o Porquinho, que a gente voltava rimando da escola. Só que a gente não sabia rimar em português. Então a gente voltava o caminho todo rimando em inglês (risos), sendo que a gente não falava inglês, né. Era muito engraçado, a gente ficava horas lá enrolando a língua e quem passava achava que a gente era louco. Aí com o tempo eu fui colocando umas palavras em português…o Porquinho rima em inglês até hoje.

Aí eu fui vendo que tinha uma identidade, que gostava de fazer aquilo, mas fiquei na minha, não saí falando pra todo mundo que fazia umas rimas. E eu fazia uns grafites na época com os caras daqui, o Djose, o Tico, e tava sempre ouvindo rap. É muito louco como o hip hop nunca se separou, porque os caras iam ali fazer um grafite e iam fazendo um freestyle no caminho. A gente se trombava as 8 horas da manhã, fazia um grafite aqui no Tucuruvi, descia na frente da auto escola que tinha um piso lisão e ficava dançando break. Essa que era a rotina, durante anos a gente viveu dessa maneira. Isso aí mostra pra mim como o hip hop é e como sempre foi, é uma parada só.

Eu conhecia o Kamau de vista, de ouvir falar. Eu gostei do Kamau antes de ouvir o som dele. Porque todo mundo falava bem do Kamau e aí eu comecei a falar bem dele também. Chegava uns caras que indicavam um som pra mim, eu virava e falava: “Mano, você tem que ouvir Kamau” (risos). Mas eu nunca tinha ouvido, vim ouvir muito tempo depois, depois que já tinha falado muito dele. Graças a Deus que ele é bom né, senão eu ia ter feito uma puta propaganda enganosa do cara.

Meu contato com o hip hop de verdade foi com esses caras daqui, o Djose…foi com esses caras que eu aprendi todas essas coisas de quatro elementos, de rua, de fazer o que a gente gosta de fazer. No grafite tem essa parada, o cara pinta porque ele gosta, não é porque vai passar um olheiro ali de uma produtora, não, é porque ele precisa escrever o nome dele naquela parede. No break também, o cara dança porque ele gosta. No rap, tem vários caras que rimam porque gostam, mas também tem uns caras que parece que o foco deles é se tornarem profissionais, só. Quer carteira assinada, ta ligado, mas a parada é você fazer porque você gosta.

As primeiras rimas

Eu sempre escrevi bastante. Aí chegou uma fase da minha vida que eu queria ter um trampo. Minha mãe estava pagando um veneno na época com o trampo dela, ela trabalhava de empregada, aí uma vez ela veio reclamar comigo e falou alguma coisa de grana, que tava foda. Aí no outro dia eu acordei cedão, desci pro mercado, fiquei o dia inteiro carregando sacola e voltei com 75 centavos. Aí minha mãe ficou puta, me deu mó ralo porque eu tinha ficado andando sozinho na rua e tal.

Aí eu fui procurar um trampo mesmo. Perto da minha casa tinha um ateliê de artesanato, eu aprendi a fazer as paradas e fiquei lá um tempo. Aí eu comprei um microfone e um saco de fita cassete, e já tinha um duplo deck em casa. Na época tinha saído uma matéria em uma revista sobre Dub que eu vi e lá tinha várias caixas de som empilhadas, um monte de fiações e eu pensei: “Isso é o que eu preciso pra fazer música, só precisa estar bagunçado”. Deixei mó zona lá em casa, liguei o microfone e aí começou.

Na época eu estudava de manhã…tinha que sair de casa às 6 horas e ficava até às 4 da manhã lá gravando rima. E como não dava pra gravar em várias pistas, eu pegava uma fita cassete, passava do deck A pro deck B, gravava de novo, tocava um bumbo…aí minha mãe me deu um teclado. Foi o primeiro voto de confiança dela. Mas foi naquelas, a intenção era: “Seu negócio é tocar um teclado e arrumar um trampo”. Ela sempre teve um pé atrás com isso aí. Mas aí quando eu ganhei o teclado eu me emocionei, aí eu já nem dormia mais antes de ir pra escola, dormia na escola.

E isso tudo sozinho. Os outros caras estavam mais na pegada de ir atrás de umas mina, botar umas roupas do rap, e ficar na esquina com cara de mau. Eu queria fazer o som, era isso que eu queria, tanto que eu nem tinha as roupas, usava uma camisa do Mickey, curtinha (risos). Meu irmão estudava na fanfarra do Sesi, tocava violão, fez aula…e ele é menor do que eu, hoje ele tem 19 anos, mas ele era pequenininho na época e eu ficava escravizando ele, pedindo pra ele tocar um violão direto pra gravar minhas bases.

Aí eu ia, gravava bumbo, caixa, ximbau, no final das contas sumia o violão. Você gravava um em cima do outro e sempre sumia o que você tinha gravado antes. O violão pegava o ximbau, que pegava a caixa, que pegava o bumbo…aí quando você ia gravar a voz virava Spoken Words, ta ligado (risos)?

"E pior que o que eu cantava naquela época, vários caras estão cantando hoje"

"o que eu cantava naquela época, vários caras estão cantando hoje"

Hoje se eu escuto essas gravações eu até gosto, acho que eu tava no caminho certo, que foi necessário falar o que eu falava antes pra chegar na idéia que eu tenho hoje. E pior que o que eu cantava naquela época, vários caras estão cantando hoje (risos). Mas era ruinzão…acho que todo mundo que começou a fazer rap, começou fazendo rap de protesto. Comigo foi igual, eu tinha uns raps sanguinários demais, que se minha mãe ouvisse me enchia de porrada. Eu tinha que gravar escondido.

Mas essa fase de sanguinário não durou muito não, porque eu sabia de mais coisas, eu sempre li bastante, também escutava outras músicas, então sempre quis falar de outros bagulhos também. Eu nem ouvia a 105, fui conhecer a rádio em 2001, então já sabia o que eram várias outras coisas.

Aí um camarada meu que chama Tonelada me deu uma fita cassete que tinha Marechal, Black Alien, De Leve…A primeira vez que eu escutei o Marechal eu odiei. O cara falava muito rápido, vários bagulho difícil, mas eu grudei o ouvido e fiquei lá tentando entender. E o pior, alguém falou pra mim que o Marechal não escrevia as rimas, que era tudo improviso. Quando eu fiquei sabendo disso, minha opinião mudou totalmente: “Esse cara é um monstro. Como que ele faz isso?” Aí eu comecei a querer melhorar no freestyle pra ser bom que nem o cara. Eu pensei: “Se esse é o nível dos caras então eu não vou meter a cara enquanto não estiver nesse ritmo aí”. E voltei pra casa e continuei com as minhas fitinhas até melhorar…

Primeira vez no palco

Um negócio legal que aconteceu é que em 2001 teve um concurso de história em quadrinhos no Estado de São Paulo e eu ganhei em primeiro lugar. O prêmio era uma viagem pra Recife e eu fui. Foi a primeira vez que eu saí do meu bairro também, o meu mundo se resumia a esse cantinho da norte aqui, Vila Zilda, Tucuruvi e Santana, ta ligado? O máximo que eu já tinha ido é Santana.

Pra mim o metrô não existia, era um bagulho de boy. Tipo: “Os caras vão trampar de metrô? Vixi, eles devem ganhar mó grana”. Eu saía muito pouco da Vila Zilda, ficava o dia inteiro na quebrada mesmo. Então o primeiro rolê que eu fiz sozinho foi pra Recife. Na verdade eu fui com a minha avó, porque eu precisava que fosse um responsável comigo e minha mãe trampava. Aí minha cabeça foi a milhão, aí que eu descobri como o mundo era grande.

No avião, os caras deram um jornal que tava falando sobre o Itaú Cultural, duma oficina de quadrinhos que ia ter, e como eu tinha ido na editora, na Cia. das Letras – saiu uma revista minha pela Cia. das Letras – eu participei de umas reuniões com uns caras lá, uns designer, só que eu era mó bicho-grilo, né mano. Ficava com a cara fechada lá, a “cara de rap”, que nem eu via numas revistas. Bom, mas aí sobre o jornal, quando eu vi que ia ter essa oficina eu pensei e resolvi que ia fazer. Já estava encaminhado mesmo, já tinha ganhado o concurso, resolvi que quando voltasse pra São Paulo ia me inscrever.

Eu voltei uma semana depois e quando fui lá no Itaú Cultural as inscrições já estavam encerradas, já tinham preenchido todas as vagas. Aí eu pensei: “Fodeu. Vou voltar pra depressão da quebrada, acabou o mundo”. Aí eu vi num cartaz que ia rolar um workshop de rap. Eu nem sabia o que era workshop, mas tinha rap no meio e eu me inscrevi. Aí cheguei no dia e tinha uma mina que chamava Janaína, que era jornalista e tava lá falando sobre rap. Era tipo uma conversa de rap pra quem não era do rap. De cara que era da rua mesmo tinha eu,mais um moleque e o Dj, que era do Sistema Racional e foi lá pra mostrar uns sons pros caras.

Até então eu nunca tinha subido num palco. E esse outro moleque era maluco, enquanto rolava a palestra ele ficava me acelerando, conspirando: “Nóis vamo fazê uma rima nesse baguio! Quando eles moscá nóis vai subir, tomá o microfone e dar várias idéia na mente desses boy!” E eu pensando: “Sai de perto de mim, você é maluco”. Eu tava na primeira fila, e aí chegou um momento que o cara jogou o microfone na minha mão. Eu subi no palco e engasguei, mó vergonha. Todo mundo pensando que eu ia arrebentar e eu engasguei.

Só que eram dois dias de workshop. No segundo dia, todo mundo ia ter que se apresentar, tinha que subir no palco e dar uma idéia no microfone. Aí eu pensei: “Você quer ver eu pegar esses caras? Vou escrever uma rima, decorar entre hoje e amanhã, quando eu chegar os caras vão pensar que é freestyle, vou arregaçar”. Voltei pra casa, fiquei a madrugada inteira escrevendo, lendo, decorando. Decorei tudo.

Cheguei no segundo dia, na hora que jogaram o microfone na minha mão, esqueci tudo. Aí saiu um freestyle mesmo, da magia do bagulho. Todo mundo vibrou, bateu palma, uns lá falaram que tava arrepiado. Esse foi o primeiro momento que eu peguei no microfone mesmo.

Mas aí eu voltei pra quebrada, continuei trampando com o artesanato no ateliê, e um dia, numa sexta-feira à noite, um dos caras que tava lá no workshop me ligou, era o Carlos Magalhães, que é músico, trampa com publicidade. Ele me falou de um desenho animado, que tinha um personagem que falava tudo rimando, que eles tavam precisando de alguém, me convidou pra fazer esse lance de dublagem e eu fui lá ver como era. No dia de ir eu estava tão ansioso que nem dormi. Fui tomar um suco de maracujá no metrô, no caminho, e tava tão nervoso, tremendo, que caiu suco na minha camisa, manchou tudo. Aí comprei outra camisa no caminho e fui.

Lá eu conheci um cara que chama Felipe Vassão, que é o cara que produziu a Triunfo. E quando eu cheguei lá eu gostei dele de cara, porque ele viu que eu era um bicho-grilo mesmo, que estava no estado mais bruto que podia ser. Aí ele começou a trocar uma idéia comigo pra eu me soltar e tal, porque eu não ria né, e desenho animado tem personagem feliz, tem que sorrir. Aí eles me trancaram no aquário do estúdio e eu fiquei improvisando uma cara, falando vários bagulho, de quebrada, de pegar uns boy (risos), e ele se ligou que uma hora esses assuntos tinham que acabar. Aí ele deixou gravando lá e chegou uma hora que eu comecei a falar outras coisas mesmo…Eu tinha um texto e tinha que criar as rimas em cima daquele texto, fiquei improvisando horas. O desenho era sobre um foguetinho que ficava rodando no espaço, mas acabaram nem lançando isso aí.

Depois eu voltei pra casa, pra quebrada, os caras nem ligaram mais e eu continuei trampando com artesanato, escrevendo, gravando as fitinhas. Nessa época eu já colava em uns eventos, mas ia sozinho, porque os moleques da quebrada já tavam em outro role…Não tinha um rap do 509-E que o Afro-X falava: “Axé comigo, na fé bandido”? Então, os caras entenderam que axé, era axé music. Os caras entravam numas comigo e falavam: “Não mano, o Afro-X deu a idéia que axé é nóis também”. E eles começaram a ir nuns roles de axé com roupa de rap.

O início no rap

Eu que vi que eles tavam entendendo tudo errado e não fui no peão com os caras, comecei a colar nuns rolês de rap lá no centro, na 20 de novembro, essas paradas. Mas eu colava e ficava na minha, não me envolvia, eu nem sabia trocar idéia. A galera sempre ia numas rodinhas e eu ficava sempre de canto. A primeira vez que eu me envolvi foi na Olido, quando rolava sessão de rap. Porque lá eu não tinha que trocar idéia, eu tinha o microfone. Eu trocava idéia depois de rimar.

As rimas de Emicida ganharam popularidade em um curto espaço de tempo (Enio César)

As rimas de Emicida ganharam popularidade em um curto espaço de tempo

A primeira vez que eu peguei o microfone na Olido foi engraçada, se você perguntar isso pro Kamau ele vai chorar de rir. Eu tinha conhecido ele uma semana antes e ele me falou que tava rolando essa parada na Olido e me chamou pra ir. Porque a primeira vez que eu fiz batalha de freestyle foi logo contra o Kamau. Acho que foi isso que me deixou retardado também porque eu já tinha pegado ele mesmo, o que podia vir de pior? Eu já não tinha medo de ninguém.

Foi um lance numa rádio comunitária lá de Santana do Parnaíba, que tinha um programa de rap. Aí um amigo meu, o Bruno, questionou os caras por que eles tinham um programa de rap e não tinham um cara do rap lá pra participar. Ele me indicou, passou meu telefone e os caras me ligaram pra eu fazer um freestyle, improvisar lá na rádio. Aí eles falaram que iam me buscar no trampo e me trazer de volta, eu falei: “Demorou”.

Eu fui, cheguei lá e quem tava lá era o Kamau. Eu paralisei. Um cara virou pra mim e falou: “Então, você vai enfrentar ele ali”, apontando pro Kamau. Até então ele era o cara que eu falava bem pra todo mundo, mas nunca tinha visto…tremi né. Mas na hora da rima eu segurei, mandei bem, o Kamau até veio me elogiar. E nessa que ele me chamou pra rimar na Olido.

E nessa primeira vez que eu colei na Olido estavam o Kamau e o Arnaldo Tifu fazendo freestyle. Eu lembro que eu colei no meio da galera, fiquei olhando, aí o Kamau me viu, já falou alguma coisa no ouvido do Tifu pra ele me chamar no microfone. Aí o Tifu já mandou uma rima terminando com ida e “eu vou chamar aqui o meu parceiro Emicida”. Aí eu até meti uma mala, pensei: “os caras já me conhecem, já tão ligado como funciona” (risos). Mas foi foda, porque aquela foi a primeira vez que eu ia pegar o microfone e rimar pra tanta gente.

A solução que eu arrumei foi rimar de costas pra platéia. Eu também não sabia segurar o microfone, segurava lá embaixo e nem saía o som direito. O Kamau vendo aquilo ficava tentando me ajudar, falando pra eu levantar o microfone e eu, todo mala, virava pra ele e falava: “É meu estilo, mano” (risos). Essa foi a primeira sessão de rap mesmo que eu fiz, e foi a partir desse momento que eu comecei a conhecer os caras. Comecei a colar lá com mais freqüência, comecei a trocar uma idéia e falar com os caras que eram do rap mesmo. Foi aí que eu descobri que eu não era o único cara que fazia improviso, ta ligado?

Estúdio / Felipe Vassão

Certo dia, os caras do estúdio que eu tinha gravado as rimas pro desenho me ligaram porque eles precisavam de alguém que fizesse uma rima pra uma lan house francesa que ia lançar um cd. Aí eu fui lá, escrevi uma rima, gravamos, eu conheci uma galera lá que também trampava com produção, mas na hora não deu em nada. Ganhei uma ajuda de custo e voltei. Mas uma semana depois os caras me ligaram perguntando se eu não queria trampar no estúdio. Aí eu saí do ateliê, onde eu tirava uma grana boa pra mim na época e fui pra lá onde os caras só bancavam minha condução e o rango.

Eu fiquei um ano e meio, quase dois anos trabalhando lá de assistente, até um dia que eu fui pedir um aumento, pedir um salário e aí os caras não aceitaram e eu saí de lá. Mas essa fase foi muito importante pra mim, porque o Felipe Vassão fazia uns trampos de freelancer lá e ele me ensinou praticamente tudo de música, ele que me ensinou a ouvir de tudo. Tanto que hoje quando eu encontro com ele, a gente troca idéia do disco novo da Madonna, por exemplo. E a gente ainda elogia, porque dentro daquilo tem coisa que a gente acha interessante e tem coisa que a gente gosta.

A gente troca umas idéias que pra vários caras seria bizarro pensar que a gente estaria falando daquilo, mas é extremamente natural. Ele me ensinou a ter essa liberdade, uma idéia de que você escutar um outro tipo de som, conhecer outras coisas, não vai te fazer ser menos você. Você vai crescer e conhecer mais, informação nunca é demais.

E fora isso ainda aprendi muita coisa técnica, tive meu primeiro contato com o Pro Tools (programa de gravação e edição de áudio), outros programas. Ainda vi o ritmo de estúdio, como funcionava…porque até então na minha cabeça gravar uma música era um negócio mágico, você escrevia, aparecia uma música de algum lugar e surgia o disco. Do nada. Foi lá que eu aprendi que as pessoas escreviam, faziam a base, iam pro estúdio, gravavam, mixavam, tinha uma gravadora que lançava. E eu fiquei ligeiro nessas paradas de organização, prestava atenção, ficava pesando nos caras que iam lá gravar. Comia a mente dos caras mesmo, era chatão, perguntava de tudo.

Emicida comprou a MPC do estúdio onde trabalhou por algum tempo

Emicida comprou a MPC do estúdio onde trabalhou por algum tempo

E tinha uma MPC lá. Antes, eu só tinha visto uma MPC em uma revista de som gringa que eu achei na rua, e tinha uma matéria de MPC. Eu vi lá escrito “rap”, “MPC”, aí achei que tinha a ver comigo e traduzi a matéria em casa, falava de produção, de usar a MPC junto com uns teclados, tal. A partir daquele momento eu pus na minha cabeça que eu precisava ter uma daquelas, mas nem imaginava aonde procurar uma. Aí quando eu vi a MPC no estúdio, meus olhos brilharam: “Caralho, você tem uma MPC!”. E eles perguntaram: “É, por que, você conhece?”. E eu: “Ôôôôô. É uma MPC!” (risos). Mas eu nem sabia de nada. Hoje em dia eu tenho uma MPC, comprei justamente essa que estava nesse estúdio.

Com essa MPC eu costumo fazer umas prés, eu tenho idéia de uma batida, aí eu programo ela e passo as idéias pra frente, não produzo as músicas inteiras ainda. A produção do meu disco deve ficar na mão do Felipe, que produziu Triunfo também. Porque a gente tem umas idéias muito parecidas, o trabalho flui bem.

(Na semana que vem, o Per Raps traz uma promoção exclusiva em que iremos sortear camisetas da Na Humilde Crew aos nossos leitores. Continue acompanhando…)

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17 Respostas

  1. Edu, isso aqui tá FODA e é disso que precisamos. Tamujunto, parrrrceiro!

    março 6, 2009 às 17:39

  2. Indentificação mesmo, total com este cara ai, ele é real nas paradas.

    março 6, 2009 às 19:00

  3. O Emicida é um dos mais talentosos MCs do Brasil! Completo. Além de ser gente finíssima! Como sempre um show no Per Raps! Parabéns, Edu! PAZ!

    março 7, 2009 às 00:22

  4. thew

    quente! instigante a matéria , bem transparente, até minha velhinha curtiu. hehe!!

    março 7, 2009 às 15:07

  5. Os textos estão cada vez melhores, em forma e conteúdo!!
    É muito bom acompanhar entrevistas que não abordam somente a trajetória artística como se fossem fichas técnicas, mas que também trazem relatos da vida pessoal, das aspirações e reflexões dos entrevistados. E o Emicida (que admiro mesmo sem conhecer pessoalmente) é uma fonte riquíssima de idéias e exemplos da essência do hip-hop. Um talento raro e uma mente brilhante, que consegue transpor isso para a música.
    Parabéns Per Raps, Emicida e Na Humilde Crew por sustentarem valores que só a rua reconhece. PAZ a todos/as!

    março 8, 2009 às 03:09

  6. rhodzz

    deveria ter até a parte 45 essa entrevista

    a rua é noix

    março 8, 2009 às 07:36

  7. André Dré

    Parabéns..

    A rua éh nóiz 1V

    março 8, 2009 às 16:26

  8. Edson Lacir

    vixx, foda demais mano…só esperando a próxima parte…A rua é noiz!!

    março 8, 2009 às 16:41

  9. PONTE

    Valeu a pena a espera! Legal a parte que ele cita a importância de ouvir de tudo!

    março 9, 2009 às 13:01

  10. Lucas Ziderich

    fora de série, emicida eh o futuro do rap !

    março 9, 2009 às 21:07

  11. Fakini

    Bela entrevista, Emicida é o futuro do Rap nacional com letras brilhantes e reais. As letras dele são impressionantes e nunca perdendo a humildade. O cara é gênial. Parabéns à Per Raps pela entrevista e ao Emicida pelo brilhante trabalho que só engrandece a cultura brasileira.
    I\/”

    março 10, 2009 às 01:17

  12. A matéria ficou foda mesmo , concordo a cada entrevista uma parada nova, sem ficha técnicas várias paradas massa mesmo.

    março 13, 2009 às 16:23

  13. BlacKLu

    Mano, isso que é historia de vida, trampo, dedicaçao e perseverança! Ta foda demais, to aguardando ansioso a mix do emicida. vlw ae pela materia, a rua eh noiz!

    março 15, 2009 às 15:15

  14. Natiele

    Noooooooooooossa ri muito aki,muito da hora mesmo!!!

    março 18, 2009 às 04:01

  15. Everton

    ‘Mano, isso que é historia de vida, trampo, dedicação e perseverança!’ ri muito também.

    Parabéns, no aguardo da mix!

    PAZ!

    maio 8, 2009 às 07:02

  16. Azumba

    Excelente matéria, parabéns aí Per Raps!
    Parabéns ae pro Leandro também que faz uns raps muito bons, com letras que são a mais pura verdade pra quase todos!

    E meeu, que é isso.. to raxanu até agora!

    Abração!
    PAZ |\|

    setembro 9, 2009 às 01:49

  17. Punk mal

    O emicida se ta de parabens historia de vida muito
    sinistra velho queria um dia ser igual vs .
    a rua e nois.

    junho 24, 2010 às 01:23

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