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J-Dilla mudou minha vida (1974-2006)

Homenagem a James D. Yancey a.k.a J- Dilla (divulgação Nike)

Homenagem a James D. Yancey a.k.a J- Dilla (divulgação Nike)

“O produtor favorito do seu produtor favorito” – The Source (06/04/06)

Você já ouviu falar no nome de James Dewitt Yancey? Talvez seja mais fácil chamá-lo de Jay Dee ou J-Dilla. E então, algo vem a sua mente? Se sim, muito bem. Caso contrário, não se desespere, pois você está prestes a saber um pouco da história de um grande homem que amava o que fazia. Faleceu há três anos e se estivesse vivo, hoje teria 35. Mas essa não é uma boa hora para a tristeza, e sim para celebrar a vida.

Filho de Beverly Yancey , professor de técnicas vocais e baixista, que por sua vez era amigo de Berry Gordy, fundador da gravadora Motown. A mãe, Maureen, ou Ma Dukes, era uma cantora daquelas com capacidade de ir do gospel ao jazz, passando até pela ópera. O pequeno Yancey foi encorajado a se manter longe das ruas e de encrenca, se aproximando da música seja em um coral ou de seus primeiros e preciosos discos.

Ele foi integrante do lendário Slum Village, grupo em que – o até então Jay Dee – passou a ser mais conhecido como MC e também produtor. Trabalhou com os mais diversos grupos, como Pharcyde, De La Soul, Busta Rhymes, A Tribe Called Quest , Talib Kweli, Common, Erykah Badu e vários outros.

Queria ser como Pete Rock, e admitiu isso sem problemas. Em 2001, passou a usar o nome J-Dilla, principalmente para se diferenciar de Jermaine Dupri, que em sua abreviação de nome também era um J. D (Jay Dee). Iniciou sua carreira solo com o conhecido “Fu&% the Police”, que é um som obrigatório em muitas festas.

Dilla era um cara reservado, que estava além dessas brigas de underground e mainstream. Ele tinha uma postura mais voltada para os artistas alternativos, mas nunca se pronunciou contra os gangstas. Tinha seus luxos, exemplo disso é um Cadillac que ele tinha, carinhosamente chamado por ele de “Dillalade”.

J-Dilla; mais que um músico, um cientista da música (by B+)

J-Dilla; mais que um músico, um cientista da música (by B+)

Quem fala mais sobre o lugar que J-Dilla ocupava é um grande fã seu, o jovem produtor e MC, Tiago Frúgoli, o Rump. “Acho que transcende o underground e o mainstream, pelo menos em relação aos produtores. Tem muito produtor underground daqui, da Holanda, da África do Sul e de outros lugares tendo o Dilla como uma das principais referências. Do outro lado, você vê em depoimentos que caras que nem o Pharrell, K. West, Just Blaze que o Dilla, apesar de nunca ter tido as vendas que eles têm, tem uma considerável influência no trabalho deles.”

Criou clássicos modernos e redefiniu fronteiras antes bem delimitadas. Dedicado, cheio de disciplina e criatividade, colocou Detroit, sua terra natal, no mapa muito antes de Eminem tê-lo feito em 99′. O MC e produtor paulistano, Parteum, dá a dica do teor das rima de Dilla, e traduz uma de suas provocações em uma letra. “Um salve para o meu chegado Killagan. E todos os meus irmãos representando Detroit mais do que doze Eminems” (por causa do grupo D12, que faz parte da banca de Eminem) – Reunion, Slum Village. No entanto, sempre esteve longe das massas. Diziam que ele poderia reproduzir a batida de qualquer produtor, mas ninguém poderia reproduzir os beats de Dilla.

Parteum também assume o significado do trabalho de Dilla em sua carreira. “Assim como o trabalho de Pete Rock e o Premier, a música de J Dilla ainda influencia a construção rítmica dos instrumentais que crio. O uso de frequências com pouco ataque nas linhas de baixo, o que tem a ver com Reggae e Tecnno de Detroit, a tradição do Sloppy Drumming, essa parada de não quantizar os beats, a idéia de criar música híbrida: 1/3 eletrônica – 1/3 sampleada e recortada – 1/3 acústica (O remix para “I Try” de Macy Gray é um bom exemplo)”.

O rapper não poupa palavras e diz qual a real importância do que Jay Dee fez para a música. “Eu acredito que quando o assunto é produção, esse cara criou uma escola. É um músico para ser estudado pelo conjunto da obra, assim como grandes nomes do Jazz”, explica. E o que esse produtor e MC de Detroit fazia de tão diferente? “Um dia ele estava sampleando e recortando tudo, outro dia ele tocava os instrumentos… Ainda no começo da carreira ele levou a idéia de filtragem de samples para um outro lugar. Um exemplo: O uso de Holding You, Loving You (Don Blackman) em Go Ladies (Fantastic Vol. 2). É claro que Pete Rock, Beatminerz e o próprio Q-Tip usaram esse mesmo recurso anteriormente, mas o fato de ele combinar o corte dos samples, recriar melodias e filtrá-las faz toda a diferença.“

Em 2002, descobriu que possuia um problema muito raro: lúpus, uma doença autoimune que pode ser fatal. Nesse meio tempo, Dilla continuou trabalhando e fazendo turnês pelos Estados Unidos e pelo mundo. Três anos depois, precisou ser internado por complicações.

Percebendo que a morte estava chegando, pediu à sua mãe todos seus equipamentos para continuar fazendo aquilo que mais amava, música. Agora ele tinha à sua disposição pick-ups, mixerers, parte de seus discos, uma MPC, e seu computador. Finalizou o álbum “Donuts” dentro do hospital, que acabou sendo lançado 3 dias após sua morte.

Teve a chance de vir para o Brasil em 2005 junto de Madlib. Chegou até a comprar discos, mas não conseguiu se apresentar por causa da doença.

E como seria se ele ainda estivesse vivo? Parteum responde. “Seria mais respeitado como MC, e a família não estaria sofrendo tanto para controlar o espólio*. Tinha uma parada meio RZA nas divisões que ele fazia ao rimar. Tinha a inversão do sujeito, predicado e complementos. Um bom exemplo é o verso de The Official (Jaylib); as frases são curtas e diretas, existe uma conexão entre o primeiro e o segundo verso, mas de tempos em tempos o sujeito da ação descrita só aparece depois, finaliza.

* Mais informações sobre isso no próximo post.

Fonte: The Source, The Vibe Magazine e o site Stones Throw.

Neste clipe, aparecem os MC’s Common, Will.I.Am (Black Eyed Peas), Black Thought (Roots), Frank N Dank, Talib Kweli, e o irmão mais novo de Dilla, John (a.k.a Illa J) como o MC. Ma Dukes também aparece de forma discreta neste video.

Acompanhe mais comentários de Parteum e Rump sobre J-Dilla, além de outras histórias; a parceria com Madlib (Jaylib) e o legado que ficou para suas duas filhas, sua mãe (Ma Dukes) e seu irmão, Illa J. Tudo isso, no próximo post!

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13 Respostas

  1. Rodrigo

    Show de bola essa matéria.

    fevereiro 10, 2009 às 21:54

  2. Parabéns por esta matéria. J DILLA CHANGED MY LIFE!!!!!!!!!!!!!

    fevereiro 10, 2009 às 23:01

  3. efieli

    e mudou mesmo…

    fevereiro 11, 2009 às 00:33

  4. Esse cara merece uma matéria desse nível. Parabéns!!! Me inspirou para um post no blog. É só conferir http://nossosomtemvida.blogspot.com/

    fevereiro 11, 2009 às 01:06

  5. O mestre!!!Excelente matéria!!!É necessario que essa rapaziada que esta começando a curti rap agora,conheça J. dilla e entenda por que tantas pessoas dizem que ele mudou as suas vidas!!!!

    fevereiro 11, 2009 às 02:28

  6. realmente grande perda……..
    fica aqui o legado musical rico…..

    …parabens grande materia!

    fevereiro 11, 2009 às 06:42

  7. Dilla foi O CARA, sem dúvida.. ou melhor, continua sendo. e eu lembro bem desse show de 2005, que o madlib acabou fazendo sozinho..
    eu digo que indiretamente o cara mudou minha vida, musicalmente falando, porque lembro bem dessa “transição musical” que eu tive no rap no final dos anos 90, quando comecei a ouvir pharcyde, a tribe called quest e afins. mais tarde descobrir que quase todas minhas músicas favoritas foram produzidas por ele e que me deram um rumo musical em relação ao que eu ouço hoje..

    abraço!

    fevereiro 11, 2009 às 13:42

  8. fzero

    ai galera, pelo que vi, o album do jay dee, welcome to detroit, via bbe, saiu primeiro que o single fuck the police, que saiu via up above.

    so pra complementar sobre o single, ele e parte da coletanea Exclusive Collection, junto com outros sons foda como o bullet train do dilated (que so teve o 12 no japao), Hindsight do Visionaries, collector s items com pete rock e o grap, entre outros… tudo mixado pelo rhettmatic

    fevereiro 11, 2009 às 23:31

  9. yeah! Jay Dilla mudou o universo Hip Hop. Buscou o melhor do passado para transformar o presente e direccionar o futuro, ele se confunde com a história do hip hop apesar d ter surgido dpois do Pete Rock e outros. Dilla ja+ morrerá. E eu não derramo lágrimas por 1 Imortal.

    fevereiro 12, 2009 às 10:33

  10. O álbum “Midnight Marauders”, do A Tribe Called Quest é o “clássico dos clássicos”! Tiro o meu chapéu pro J-Dilla nesse trampo fantástico. Marcou minha vida, sem dúvida. Parabéns pela matéria, pessoal! Show de bola!

    fevereiro 12, 2009 às 12:55

  11. Pingback: Três anos sem J Dilla «

  12. Saudações mano! Mto fóda, tbm sou fã incondicional do Dilla!!! mais naum sou mto bom em inglês! gostei muito e coloquei um link de vcs no meu orkut tbm! parabéns ai, paz!

    maio 13, 2009 às 14:06

  13. Bem legal o post, parabéns, mas quero fazer minha contribuição com esse excelente PaperToy de J Dilla (RIP) no site http://papertoyart.com/index.php/2010/03/j-dilla-rip/

    março 4, 2010 às 19:27

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