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A História do Indie Hip Hop no Sesc – Parte II

Além de MC e produtor de eventos nas horas vagas, Rodrigo Brandão é ainda um dos maiores conhecedores de hip hop do Brasil, e tem contato direto com monstros da história da cultura, como o próprio Afrika Bambaata. Por esse e outros motivos, sua opinião sobre o atual momento do hip hop no país deve ser considerada essencial para entendermos a época de ‘vacas magras’ em que o hip hop se encontra por aqui.

Na segunda parte da matéria exclusiva com ele, você confere, além dessa visão, outras informações sobre a edição do festival Indie Hip Hop deste ano, que terá a participação de Talib Kweli, e ainda uma novidade sobre o eterno Sabotage, considerado por Brandão um dos padrinhos do festival. Para os fãs do grupo Mamelo Sound System, ele adiantou que sua parceira Lurdez da Luz está finalizando um EP de nove músicas, que será lançado no ano que vem.
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Preconceito

“Sempre existiu muito preconceito em relação ao hip hop, que muitas vezes até se justifica, por um pensamento recorrente de: ‘ah não, esses boy tão vindo aqui pra tomar’, existe muito ainda esse tipo de atitude. Fora isso existe, do outro lado, preconceito mesmo com o hip hop, com rap, por parte de quem é de fora, do olhar exterior. Por um lado interno do hip hop ainda existe muita má organização, muito preconceito, muita falta de noção de que as coisas tem quem andar pra frente e você tem que se relacionar.

Se você for parar pra pensar, tanto musicalmente quanto em termos de atitude mesmo, pensando em grana, o hip hop lá fora só virou grande do jeito que está hoje porque foi aprendendo ao longo dos anos a englobar informação e samplear estilos de música cada vez mais variados, e ainda valorizar a coisa nova, a coisa ‘fresh’. Aqui no Brasil é o contrário.

Mano Brown fotografado nos batidores de um show por João Wainer

Mano Brown fotografado nos batidores de um show por João Wainer

O tempo todo, até hoje, a maioria das pessoas tá tentando imitar o Racionais, que é do caralho, eu sou fãzasso dos caras, original pra caralho, mas o melhor jeito de você ser fã de Racionais é você se espelhar na atitude, na independência, no histórico dos caras, mas tentar espelhar aquilo ali dentro do que você é. Eu amo o Mano Brown, é o meu herói com certeza, mas eu vou meter uma bombeta igual à dele, vou falar as gírias iguais a dele? Não vou, vai ser ridículo, vai ser até pior porque eu vou estar tentando sugar o que o cara é e tentar me aproveitar do que ele conquistou.

E aí, enquanto isso não acontecer, realmente os caras que tão olhando de fora vão ter razão de olhar com preconceito pro hip hop. Junta isso ao que aconteceu na Sé no ano passado, aí fodeu. Porque o que aconteceu? O rap já era considerado esquisito naquela época, mas tinha uma coisa que era super popular, que é o Racionais. Eu estava no palco, vi o que aconteceu e foi bola cantada na caçapa.

Naquele dia, a polícia de São Paulo foi ali pra bagunçar, tava ali pra criar um evento que tornasse a situação do Racionais e conseqüentemente do hip hop em geral, muito pior. Porque é um troço que é contestador, que não se curvou, e aí pensaram: ‘os caras vão cantar na Sé no palco principal do maior evento de cultura da cidade…então agora mesmo que nós vamos acabar com isso aí!’.

E o que a gente ouve falar, não é uma informação que alguém do Racionais me falou, é que eles tão tendo dificuldade pra marcar show. E isso se reflete em toda a história, ninguém está conseguindo marcar show de rap. Contratante de rap lembra do episódio com a polícia, pensa que vai dar errado. Infelizmente isso ecoa e o que acontece é que o grupo mais importante, que chegou mais longe fazendo rap no Brasil, agora se vê numa sinuca de bico. E se eles que são a ponta de lança da história estão travados, tudo que vem atrás está travado também.

Então o hip hop no Brasil está numa situação extremamente complicada, em termos de conseguir sobreviver mesmo. E nas periferias, com a invasão do funk, o que acontece é que o pessoal do funk aceita o rap, mas o pessoal do rap não aceita o funk, então tende ao lance do hip hop ficar cada vez mais apertado, cada vez mais fechado.

Indie Hip Hop / Trabalho

A verdade é que o festival já me toma muito mais tempo do que eu gostaria. Se tiver que partir de mim essa idéia de ampliar, fazer outra edição, levar pra outro estado, aí que eu não vou fazer meu som mesmo. E na verdade, tudo que me move é fazer música. O meu sonho é que existisse um circuito de festivais de rap e também de outro tipos de som que englobassem o hip hop, e eu não precisasse fazer isso.

Eu acredito na parada da seguinte forma: se eu tenho a oportunidade de fazer, eu vou fazer até onde der pra mim, porque eu já estou fazendo mais do que eu gostaria, entendeu? Se eu pudesse, queria estar fazendo turnê do Mamelo pelo Brasil inteiro. Ao mesmo tempo, se você tem paixão por uma cultura e enxerga isso, um pouco eu vou fazer, mas eu não vou parar minha arte, aquilo que eu acredito, pra virar arauto de uma cultura.

Querendo ou não, é uma cruz que eu tenho que carregar também. O ano inteiro chega gente pedindo pra tocar no Indie, pedindo pra participar, quando na verdade o lema é: não dá pra ajudar quem não se ajuda. Tipo assim, quem tá fazendo o seu trabalho corretamente e direito, é natural acabar sendo convidado.

Enéas aka Enézimo lançará o CD "Um cara de Sorte" no Indie 08'

Enéas aka Enézimo lançará o CD "Um cara de Sorte" no Indie 08'

Vou te dar um exemplo palpável disso, que é a rapaziada de Santo André, do Pau-de-dá-em-Doido. Eu já conhecia o Enéas de muito tempo, ele é do Armageddon, aí no ano passado a gente foi fazer um show do Mamelo na prefeitura de Santo André, num projeto que chama Canja Com Canja. Aí chegou o Enéas, me entregou a mixtape do Pau-de-dá-em-Doido e falou: ‘a gente acabou de lançar. Escuta aí!’. E eu falei: ‘valeu’. Ele não virou pra mim e falou que queria tocar, que isso, que aquilo.

Aí eu escutei o trampo, achei bacana, apresentei pro pessoal do Sesc, eles também gostaram. Os caras foram, entraram no elenco do festival, fizeram um show do caralho, uma puta surpresa pra quem não conhecia o trabalho deles, se destacaram. Esse ano os caras continuam na correria, então é gente que tá trabalhando e é natural que isso acabe crescendo e ecoando.

Isso é a coisa de uma cultura, de uma teia de gente trabalhando pra coisa funcionar. E acho que enquanto não tiver mais Enéas, mais Kl Jays, mais Djs Natos, mais Rodrigos e mais Per Raps, o bagulho não vai rolar, tá ligado? Eu acho que quando tiver todo mundo trabalhando pra coisa dar certo, aí sim a gente vai se encontrar e dominar os espaços que existem pra ser dominados.

Eu acho que a coisa tem que partir mais nesse sentido de: ‘o que eu posso fazer pra crescer o meu e o de todo mundo?’. O Kl Jay é um exemplo disso. Ele poderia ter feito uma mixtape só com música gringa, ou até com algumas coisas nacionais, mas não, ele fez questão de fazer só com música brasileira e ainda chamou um monte de gente que não está nos vinis que ele usou pra participar também.

Kl Jay, um exemplo a ser seguido no Hip Hop (divulgação)

Kl Jay, um exemplo a ser seguido no Hip Hop (divulgação)

O cara criou oportunidade pro trabalho de um monte de gente ser mostrado dentro do trabalho dele. Esse é o tipo de mentalidade. Ele vai parar de discotecar, de fazer o Sintonia, pra produzir evento? Não vai. Mas vai, dentro do possível, produzir evento que ele possa participar e trazer mais gente, o meu ponto de vista é o mesmo.

O que mais falta é gente trabalhando pro hip hop. Ao mesmo tempo que é legal que a coisa é muito de rua, tem essa falsa aura de facilidade, que é só pegar um mic, rimar Brandão com sangue bom e já era. E na verdade não é isso, existe toda uma história de lírica de rap, de fonética, de dialogar aquilo com uma musicalidade, porque senão vira um discurso só, tem ainda a coisa de habilidade de Dj, e tudo isso tem uma sintonia fina que faz parecer fácil mas que é muito difícil.

Tem uma música do Beans de uns anos atrás em que ele fala isso, o problema é que tem “too many emcees and not enough listeners” (“muitos MCs e poucos ouvintes”). Tem muita gente querendo ser artista e poucos fãs, pensando: ‘pô, eu gosto do bagulho então vou trabalhar com isso, vou produzir evento’. É essa história.

O hip hop é uma cultura que nasceu de uma atitude de você fazer as coisas por você mesmo, e agora chegou num ponto que tá ao contrário, nego tá querendo ser carregado no colo e não fazer nada por si mesmo. Acho que as pessoas que tão chegando agora tem que sacar de pensar: ‘beleza, isso aqui mexeu comigo de certa maneira a ponto de eu querer fazer parte disso, então eu vou buscar retribuir pra cultura, além de só buscar tirar da coisa’.

Critérios

A partir de 2005, começamos a trabalhar com uma regra: o artista tem que ter lançado um disco oficial no ano, e ter tido destaque. Nas últimas três edições, funcionou desse jeito. O grande problema é que nós estamos na era do mp3. Esse ano, quem lançou disco e fez barulho ao longo do ano foi só o Kamau, principalmente, e na seqüência o Doncesão e o Dr. Caligari, ambos com o Dj Caíque.

Então chegou uma hora que eu me reuni com um pessoal do Sesc e perguntei: ‘nós vamos usar essa regra pra ajudar ou pra atrapalhar’? Porque do jeito que estava combinado não ia dar muito certo, só iam ter esses shows aí. Então abriu-se a exceção no seguinte sentido: quem já tem uma certa relevância no cenário e vai estar com disco oficial sendo vendido no dia do evento, pôde participar. Com isso abrimos pra participação do Enézimo, do Projeto Manada e do Subsolo, que vão estar com cd à venda no Indie. O único cd que já chegou, desde o dia em que a gente marcou foi o Sombra (além de Kamau, Doncesão e Caligari). A regra tem que ser moldada de acordo com a realidade, e eu acho que o festival está se tornando até mais do que uma coisa de passar quem fez barulho no ano, mas uma plataforma de lançamento.

Curitiba

Eu cheguei até a apresentar o material do Savave pro pessoal do Sesc, porque o som é bacana, o show é bacana e o formato do trampo é muito original, com o cd pequenininho. Mas aí ficou aquela história de que aquilo ali também pode ser considerado uma mixtape, e aí se abrisse, tinha vários outros trabalhos e ia complicar essa seleção.

Outro cara que foi uma pena, que eu só tive a certeza de que ele estava prensando o cd depois que o elenco já estava fechado, é o Nel Sentimentum. E Curitiba é foda porque é o seguinte, todo ano desde o Hieroglyphics os caras fecham um busão e vem. Então eles tem uma representatividade na parada e a gente tem mó vontade de colocar alguma coisa de lá e de Santo André também, que a primeira vez que teve alguma coisa foi o Pau-de-dá-em-Doido no ano passado, porque o pessoal de lá vai pra caramba e a gente tem essa vontade de dar espaço pra rapaziada até pra retribuir esse amor que vem de lá.

Alternativo x Gangsta

Pros gringos que vêm tocar aqui, em geral, o que pauta o evento é o nome do artista, a representatividade que ele tem, e o caráter do rap dele. Por exemplo, eu sou muito fã do Scarface, mas não vou tentar trazer o Scarface pra tocar no Indie, não dá né, é outro ponto de vista. É até bom deixar claro que o nosso festival é uma festival de rap alternativo, então o artista tem que ter o mínimo de identificação com essa proposta. A coisa do gangsta não nos diz respeito mesmo, até tem várias coisas que eu gosto, mas não é o caráter do Indie.

Homenagem ao rapper Sabotage pelos Racionais MC´s em 2003

Homenagem ao rapper Sabotage pelos Racionais MC´s em 2003

É aquela história, não tem como rotular a verdade de ninguém, tem cara que nasceu aquilo, viveu aquilo e a arte do cara é cabulosa. O Sabotage foi um exemplo claro disso. A lírica dele era 100% gangsta, mas o jeito que o cara fazia a coisa, a mensagem que ele passava, ele se encaixaria facilmente na proposta do Indie e eu considero ele um dos padrinhos do festival.

Eu acredito que, com a morte do Sabota, morreu muita esperança no rap brasileiro, porque ele era um cara que misturou todo mundo. Era uma época em que estava todo mundo muito próximo de um jeito que nunca aconteceu antes e nem depois. A perda dele foi maior do que só da pessoa dele, do talento e do artista cabulosíssimo que ele era, mas também foi a perda de uma pessoa que estava literalmente fazendo o equilíbrio da parada. E dia 24 de janeiro completa meia década sem ele. Cinco anos depois, não aconteceu nada.

(O produtor Rica Amabis, do Instituto, estava junto durante a entrevista e informou que o disco com músicas póstumas e inéditas do “Maestro do Canão” está na fase final de produção e deve sair até o meio do ano que vem. Aguardem.)

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3 Respostas

  1. O Indie foi um evento muito bom e ano que vem Curitiba de volta pro evento. Não consegui fazer a entrevista porque a parada estava cheia mesmo. Fiquei admirando o evento e os shows que foram demais

    dezembro 15, 2008 às 16:41

  2. Ponto importante

    “Mais que um encontro de rap, esse evento tenta reunir todo ano artistas que estejam lançando seus discos solo e claro, que não tenham nenhuma desavença com a “organização do evento”, que todo ano dá um jeito de se misturar ao line up.” – tirado de http://paulonapoli.blogspot.com/

    dezembro 16, 2008 às 14:40

  3. marcelo gesimiel

    Quando Jesus Cristo foi crucificado,havia dois ladrões ao seu lado, o da direita se chamava Dimas e o da esquerda Jerdas: esse ultimo falou o seguinte para Jesus: se você é filho de Deus salve-nos e a ti mesmo. E Dimas, que pregamos como o primeiro “Vida Loka” da historia, foi o cara que disse para Jesus: lembres de mim quando estiveres a direita de teu pai.E Jesus disse a ele:Ainda hoje estarás comigo no reino dos céus. É nisso que acreditamos,ou seja,não importa o que você faça na sua vida, todos os caminhos levam ao Senhor. Se não for por amor, vai ser pela dor. Muitos como nós da periferia, sofredores, temos isso como filosofia, você pode ver que os sofredores não perdem a fé. O favelado sempre acredita que o amanhã será melhor.
    Vida Loka é a nossa crença é a junção de nosso passado e futuro!

    maio 18, 2009 às 21:07

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