Na segunda parte da entrevista concedida ao Per Raps, Thig Smith falou sobre preconceito e sugere uma mudança de mentalidade para que o rap seja tratado como música, acima de tudo.
Confira:
Preconceito
Geralmente as pessoas quando olham pro rap já vem com aquele pé atrás, pensam que a gente é bravo. Mas quando a gente começa a trocar idéia isso aí já não existe mais, eles vêem que a gente é que nem eles. O rap ainda é um movimento muito desvalorizado. Tem gente que fala pra mim que artista de rap não ganha dinheiro porque a gente vive num país de terceiro mundo, mas aí eu pergunto: e o sertanejo, vive aonde? E o samba? E o pessoal do rock, e o funk, em que país que eles vivem? Então não é assim.
Eu vejo que o rap não aparece. A gente não ganha dinheiro com isso porque o nosso trabalho não é divulgado, e as pessoas não querem pagar por alguma coisa que elas não conhecem. O rap tem que chegar, é uma música que tem que chegar chegando em todos os meios de comunicação, mas a gente tem que saber entrar e sair, saber se postar. Se você está cantando na TV, você está falando pra população, então não pode sair falando palavrão, aloprar. Tem gente que acha que isso é se vender, mas não é, é saber se postar.
Acho que o preconceito foi o grande responsável para o rap não estar no lugar que deveria estar. O preconceito de fora pra dentro, que existe muito, mas o de dentro pra fora, que é pior ainda, na minha opinião. Porque, por exemplo, o rap surgiu como uma música marginalizada e era discriminado. Chegou em 98, 99, aí a mídia e a sociedade começaram a abrir espaço e respeitar o rap. Era a hora de invadir tudo, mas muita gente não quis. Eu respeito essa postura, mas não acho certo todo mundo querer ir pelo mesmo caminho. Hoje os caras estão se ligando que esse caminho não adiantou nada.
O caminho hoje é fazer música boa, música agradável. Se você falar pra mãe da sua namorada que canta rap, ela já imagina que vai vir aquele cara de boné, calça larga, aquelas gírias, aquele jeito de ser, revoltadão, então o rap tem um padrão de estética horrível. Mas o rap não é só isso, tem várias outras vertentes, vários caras pensantes, vários caras estudados. O caminho que eu vejo hoje é fazer música boa e ter visão. Eu vejo muito cara bom de rima, mas sem visão. A visão que os americanos tiveram em 90, de fazer o dinheiro girar.

"Tem mano que ainda acha que está em Compton, só que na época do The Game" (Thig)
Nos meus novos trabalhos, eu vou falar pra todo mundo. Imagina um jovem da periferia, negro, fazendo um rap pra todo mundo: mulher, homem, pros caras do rap…eu quero colocar bastante da minha personalidade. Eu acho que falta muita malandragem no rap, aquela malandragem que o samba antigo tinha. Antigamente o samba também era muito discriminado, mas conseguiu descer o morro porque bateu de frente, se assumiu como música. Fizeram as pessoas enxergarem aquilo como música.
Eu quero fazer com que o rap cresça aqui, eu sinto que eu fui jogado com essa missão no rap. Qual é o momento que o cara quer ouvir um rap? Numa festa, não é? Mas na festa ninguém quer ouvir sofrimento. O cara trabalha de segunda a sexta, aí na sexta-feira à noite o cara vai pro baile, ele não quer ouvir as minhas depressões. Não que não tenha que ser falado desses assuntos, mas esse não é o tipo de música que as pessoas estão procurando.
Eu fico triste pela decadência do rap, pelas idéias fracas que o rap aderiu, o preconceito. O rap tem preconceito com o mano – e eu fiz parte disso também, se eu disser o contrário eu vou estar mentindo – que coloca uma camiseta apertada e se diz modelo. O cara é modelo ué, ele trabalha de modelo. O rap tem preconceito com o mano que é cantor, faz backing vocal de R&B, pro rap ele é viado. O rap tinha preconceito com uns caras que faziam um som mais misturado com um ragga, chamava eles de ‘lagartixa’. Tudo errado. Tudo errado…
O poder da música
Eu não vi os caras percebendo que poderiam fazer um som com a Luciana Melo. Ela ta aí, ela faz rap, irmão. Tem caras que estão aí, que são os considerados ‘grandes’ do rap, que não eram pra ter na música deles uns caras que cantam mal. Tem vários caras que fazem backing vocal na periferia e são ruins, e era pra esses rappers fazerem músicas com esses grandes artistas que estão aí e cantam bem. Não é porque é um grande artista, é porque canta bem, eu to falando de música. Eles não estão fazendo isso, eles tão de chapéu.
Hoje, do que eu escuto, gosto do Pentágono, DBS e a Quadrilha, Função RHK, dos moleques da zona leste, Magnus 44, Klasse Korreria, gosto do Rincon Sapiência, acho que o moleque tem tudo pra estourar, a mente dele ta a milhão, ele evoluiu. Gosto do Da Bandit, do Sombra. Gosto desses caras todos que são muito bons, mas de repente não são os caras que estão tendo espaço porque não tem uma rádio que toca. Se tivesse uma, uma só, resolvia. Esses são alguns dos caras que tão no tempo, que fazem música pra todo mundo.
Eu sou um cara que escuta música pelo que eu gosto. Eu gosto do Pepeu Gomes, que é o marido da Baby Consuelo. Eu não quero saber se o maluco é playboy, eu quero saber da música do cara, a música é da hora. Eu ouço, ponho de madrugada no carro voltando dos rolês, é da hora. E mudar a mente dos moleques do rap é difícil, tem que trabalhar muito ainda. Mas eu quero mudar isso daí, eu me sinto um cara pra mudar isso aí. Porque eu queria ver um cara que veio do nada. Na hora que os caras verem minha realidade, o lugar onde eu moro…eu quero que se identifiquem comigo que nem eu me identifico com o Sabotage, por exemplo.
Eu acho que o rap nesse tempo todo teve três erros cruciais: músicas lentas, letras ruins e a aversão à grande mídia. Não adianta mano, as empresas só vão patrocinar o Ronaldo se ele fizer gol, se ele aparecer no jogo do Corinthians. A coisa precisa andar, o rap precisa aparecer. O rap não toca na periferia por quê? Porque os moleques não têm acesso aos raps que são bons também. Eles só ouvem na rádio o cara reclamando da vida. Se você chegar na minha vila hoje e mostrar esse tipo de som pra um cara lá, o cara vai ouvir e falar: ‘Puta negócio mentiroso!’ Ta todo mundo na periferia lutando atrás de alguma coisa, seja no crime, na música, no futebol, em um emprego convencional, em alguma coisa, ta todo mundo lutando. Essa história que o rap implantou que ta todo mundo parado, sofrendo, chorando, isso é mentira. É mentira. Ta todo mundo batendo de frente.
Perdeu a primeira parte da entrevista? Então clique aqui e confira.




Mão de Oito @ Studio SP




































