Aproveitando a vinda do emcee curitibano Nel Sentimentum para o Indie Hip Hop 2009, o Per Raps fechou uma parceria relâmpago com o excelente blog de resenhas Boom Bap, do jornalista carioca Felipe Schmidt, para publicar aqui sua resenha do disco “Sentimentumlogia”, lançado no final do ano passado.
Vale lembrar que os ingressos do Indie começaram a ser vendidos hoje (10), então é bom correr pra já garantir o seu e não correr o risco de ficar de fora. O preço dos ingressos e a programação você pode conferir direto no site do Sesc.
Confira:
Nel Sentimentum – Sentimentumlogia (2008)
Ao longo da vida do rap e das intermináveis e pretensiosas discussões sobre como se deve fazê-lo, um atributo sempre foi ressaltado em consenso: o sentimento. No Brasil, onde o gênero ainda não alcançou todas as suas possibilidades, tal característica é, mais do que bem-vinda para um artista, praticamente um pré-requisito para não desistir do sonho de viver de música. Então, nada mais justo do que se incorporar o sentimento, certo? E quando isto se torna tão imprescindível que vira até nome artístico? Este é o caso de Nel Sentimentum, um emcee e beatmaker de Curitiba, vivendo com seu sobrenome há quase dez anos dentro da cena.

Depois de tanta batalha, o cara lançou seu primeiro trabalho solo, o álbum “Sentimentumlogia”, no fim de 2008. Condene o injustificável atraso deste(s) blog(s) para falar sobre o disco, pois o registro faz parte da linha de frente da safra curitibana de raps. Combinando, como o próprio Nel diz, “rimas de verão com beats de inverno”, o emcee/produtor leva o ouvinte para uma viagem interessantíssima na mente de um jovem adulto nascido e criado numa das cidades mais importantes do país, e ainda assim fora do tradicional eixo Rio-São Paulo.
O resultado é um álbum com o qual todo e qualquer pessoa entre as duas e três décadas de vida pode se identificar facilmente. Musas inspiradoras que se tornam demônios depois de conquistadas, rolês pela noite curitibana, falsos amigos, questionamentos sobre o futuro; está tudo registrado nos versos de Nel de forma sincera e, claro, com muito sentimento, ainda que alguns destes temas já sejam recorrentes na cena alternativa brasileira. E há também outro ingrediente importante na lírica do emcee, como explicitado logo na introdução, “Sentimentulogia”: a positividade.
Esta abordagem positiva tem forte ligação com a produção do disco. A influência do jazz e da música brasileira é visível logo nas primeiras notas que são ouvidas. Nel dilui tais referências numa direção mais suave, tranquila, com bastante atenção aos detalhes, o que resulta num clima bem relaxante ao longo de todo o álbum. Este modus operandi poderia ser denominado como um jazz-rap da melhor qualidade, mas vai além, e talvez esta seja a contribuição mais importante de “Sentimentumlogia”: a presença maciça de samples nacionais na produção, manipulados de uma forma que se encaixam perfeitamente na proposta de sonoridade dos beats. Em vez do jazz-rap, um mpb-jazz-rap.
E é quando esta mistura está em potência total que os destaques aparecem. “Feito músicas de Elis” é um ótimo storytelling, e conta como Nel encontrou aparentemente sua alma gêmea, para logo depois encontrar-se num dilema: ou a menina ou a música. A simples existência do disco já mostra a escolha do emcee. A forma como ele descreve a musa, o encontro entre ambos e os momentos bons e ruins do relacionamento é divertidíssima, apesar de alguns escorregões na escrita. O beat, que combina acordes de violão a pianos discretos, é mais um ponto forte da faixa.
“Bóra pro role” é uma canção mais leve, uma narração descritiva da noite de Curitiba, sobre metais apropriadamente funkeados. “Pilantragem”, que trata de um tema presente em 11 de cada dez discos de rap do Brasil, chama a atenção justamente pela batida, com o violão novamente assumindo o comando e ditando o clima da música. Por fim, a contemplativa “O amanhã” é um momento de reflexão interessante, cheio de divagações, sobre um groove positivamente preguiçoso.
Com “Sentimentumlogia”, Nel prova mais uma vez a qualidade do rap feito, não só em Curitiba, mas no Brasil como um todo. Um trabalho de produção que não fica atrás de nenhum lançamento americano, com valorização da cultura nacional, o que é sempre muito bem-vindo. Mais um tempo maturando sua escrita, e o jovem curitibano tem tudo para tomar o país inteiro de assalto e ser um expoente da nova geração de emcees brasileiros. O sentimento, o mais importante, ele já tem.
Nel Sentimentum acabou de lançar um novo single, chamado M.C.E.E. e você ouve e lê tudo sobre a nova música no blog Boom Bap.

